A edição de ontem do Diário Oficial da União publicou os nomes dos sete integrantes da Comissão da Verdade - grupo criado por lei que terá a missão de investigar casos de violação a direitos humanos ocorridos durante o período da Ditadura Militar no país (1964-1985).
Ex-editor do LIBERAL, Diógenes Gobbo, sofreu indiciamento pelo DOPS, em inquérito, durante a ditadura
A comissão que foi escolhida pela presidente Dilma Rousseff deve tomar posse dia 16 para análise dos arquivos do período. Levantamento feito em 2011 pelo LIBERAL revelou que ao menos 301 pessoas da RPT (Região do Polo Têxtil) foram fichadas pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social) durante o regime.
Farão parte do grupo José Carlos Dias (ex-ministro da Justiça no governo Fernando Henrique), Gilson Dipp (ministro do STJ e do TSE), Rosa Maria Cardoso da Cunha (amiga e ex-advogada de Dilma durante a ditadura), Cláudio Fonteles (ex-procurador-geral da República no governo Lula), a psicanalista Maria Rita Kehl e o advogado e escritor José Paulo Cavalcanti Filho, além do atual presidente da Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU para a Síria, Paulo Sérgio Pinheiro.
A comissão terá dois anos para apurações e apontar, sem poder de punir, responsáveis por mortes, torturas e o desaparecimento de presos políticos. Após este prazo, os membros deverão elaborar um relatório em que detalhará as circunstâncias das violações investigadas.
Ao longo dos 21 anos de regime, o órgão responsável por coibir as chamadas "condutas subversivas" acompanhou desde simpatizantes do Partido Comunista até reuniões da Sociedade Mútuo Socorro Comendador Müller e da Associação Comercial e Industrial de Americana.
Na época, o fundador do LIBERAL, Jessyr Bianco, e o redator-chefe do jornal, Diógenes Gobbo, chegaram a ser investigados a pedido do então prefeito de Americana, Abdo Najar, que governou a cidade entre 1969 e 73, filiado ao extinto MDB.
Najar queria o enquadramento dos dois na Lei de Segurança Nacional, que punia quem divulgasse "notícia falsa, tendenciosa ou fato verdadeiro truncado ou deturpado, de modo a indispor ou tentar indispor o povo com as autoridades constituídas" e servia de desculpa para a censura aos meios de comunicação. Nada foi provado contra os acusados. Abdo Najar morreu em 1990.
Outro perseguido pela ditadura foi o médico Waldemar Tebaldi (1918-2006). Prefeito de Americana por quatro mandatos, nas décadas de 1970, 80 e 90, ele foi mantido preso e incomunicável por nove meses durante a ditadura.
Acusado de ligação com o grupo terrorista ALN (Aliança Libertadora Nacional) de Carlos Marighella, Tebaldi foi detido por agentes do DOPS em 6 de março de 1970. Levado para São Paulo, ficou quatro meses preso na sede do departamento até ser transferido para o presídio Tiradentes, onde ficaria até ser libertado, sem provas.
Somente em 12 de maio de 1972 seria finalmente julgado e absolvido pelo Superior Tribunal Militar.