Apesar de ser, a principio, a favor do Vale Cultura que deverá ser implantado pelo governo federal, à vezes penso se não seria mais interessante criar em paralelo um programa que incentive as pessoas a aproveitarem melhor os espetáculos gratuitos que quase todas as cidades possuem. Por exemplo, ontem estive em São Paulo no projeto "Telefônica Open Jazz", que trouxe ao Brasil o bluensmen Buddy Guy. Em plena forma aos quase 80 anos de idade, esse senhor de Chicago fez provavelmente uma das melhores apresentaçoes do ano no Brasil, em matéria de shows internacionais. Um set imcomparável com clássicos próprios e de contemporâneos como John Lee Hooker e Muddy Waters e de "filhos" como Eric Clapton e Jimi Hendrix. Memorável. A apresentação foi gratuita, o som estava ótimo e o lugar (o Parque da independencia, no Ipiranga) convidativo. Mesmo assim, tenho certeza que muita gente nem ficou sabendo que o show aconteceria e foi pagar quase R$ 20 para ver um filme nos cinemas. No final das contas gastei pouco mais de R$ 50 indo daqui do interior até SP ver o melhor show de 2009. Um negócio e tanto!
Daqui a pouco tem AC/DC em São Paulo. Eu não vou, pois balada de sexta-feira é coisa que jornalista não consegue usufluir. Fora isso, os ingressos acabaram antes que eu tivesse um acesso de loucura e comprasse por impulso. Mas invejo (inveja boa, claro) quem vai. Neste mundo de novidades sendo substituidas a todo segundo e cheio de modas que duram poucas horas é legal ver uma banda que faz as coisas do mesmo jeito há quase 40 anos e nem liga para o resto. Rock' n'Roll bruto, básico, meio burro até, mas de uma verdadade incontestável. Bom show a quem vai, porque se você é fã do AC/DC merece tudo de bom.
O semanário inglês New Music Express fez sua quase sempre polêmica (e idiota) lista dos melhores da década. E o que deu em primeiro lugar na lista de melhores músicas? "Crazy in Love", da Beyoncé. Ou eu estive em um mundo bem distante desse nestes últimos dez anos ou os ingleses enlouqueceram de vez.
Mais do que um biólogo, o inglês Charles Darwin (1809-1882) é tido como um marco cultural da humanidade na maneira de entender a si mesma no mundo. O historiador Adam Gopnik, em um dos livros mais celebrados nestas comemorações do bicentenário de nascimento de Darwin, chegou afirmar que o cientista é o pai da civilização liberal moderna. Mas por incrivel que pareça, o autor de "A Teoria das Espécies" ainda encontra resistência em pleno século 21. Um filme inglês que conta a história do cientista só foi exibido no Reino Unido porque não encontra distribuidores em vários países pelo mundo, entre eles os Estados Unidos. Tudo por causa da recusa de alguns empresários do meio cinematográfico em divulgar uma obra que destaca a importância da teoria evolucionista em detrimento ao criacionismo. O mais interessante de tudo é que entre os produtores do filme na "velha ilha" está a Icon, que pertence ao ator e diretor Mel Gibson, um dos mais radicais cristãos da história da sétima arte, que chegou a proibir homossexuais de trabalharem durante as filmagens do sanguinolento "A Paixão de Cristo" (2004), por considerá-los indignos de um projeto baseado na fé em Jesus Cristo.
Atrasei, mas não falhei. O Radiola desta semana entrou no ar no sábado, um pouco atrasado, mas cheio de novidades. A maior delas é a banda Them Crooked Vultures, formado por bambas da música mundial como John Paul Jones (Led Zepellin), Dave Grohl (Nirvana) e Josh Homme (Queens of the Stone Age). Mas o programa tem muito mais que isso: Sting, The KIllers, The Cramps e Nei Lisboa podem ser ouvidos no link que eu coloquei no final deste post. Antes, o set list completo do programa.
Clássico da semana 1 - Shocking Blue - "Send Me a Postcard" (1968)
Bloco 1 (Artista famosas em apenas uma região)
1 - Nei Lisboa - "Cena Beatnik" 2 - Relespública - "Tema pela Terra" 3 - Aguilar e a Banda Performática - "Antiherói"
Bloco 2 (Homenagens a artistas que morreram neste ano)
1 - The Seeds - "Can´t Seem to Make You Mine" (Sky Saxon) 2 - Blue Cheer - "Rock me Baby" (Dickie Petterson) 3 - The Cramps - "Badass Bug" (Lux Interior)
Lançamentos
1 - The Killers - "Romeo and Juliet" (disco: a definir o nome) 2 - Sting - "Hardy Gurdy Man" (disco: If on Winter's Night) 3 - Kid Congo and the Pink Monkey Birds - PSDC (Disco: Homônimo)
Lançamento
(Bloco com as bandas dos integrantes do Them Crooked Vultures) 1 - Led Zeppelin - "Boogie with Stu" (1975) 2 - Nirvana - "Louge Act" (1991) 3 - Queens of the Stone Age - "Everybody Gonna Be Happy" (2002)
Artistas engajados estão na moda. É só olhar ao redor e vê-los viajando pelo mundo cercados de seguranças, tomando whisky na primeira classe e vendendo um mundo todo esperançoso para seus fãs. Hoje mesmo acontece em São Paulo um festival chamado de “Nós About Us”, que tem como mote “chamar a atenção das pessoas para um mundo melhor”. Nada contra – apesar de eu jamais ir a um evento onde terão shows consecutivos de Carlinhos Brown, Afroreggae e Jason Mraz. Tortura por tortura prefiro ver o Gugu em casa, zapeando para o Faustão a cada meia hora – a não ser o fato de que “lutar por um mundo melhor” virou um lugar comum tão vazio quanto os jogadores de futebol prometendo que vão “lutar para ajudar meu time a ter um bom desempenho com todo o respeito ao adversário, mas acreditando na vitória”. A gente escuta isso, finge que faz parte do espetáculo e torce para o jogo começar logo e que nosso time possa esmagar o oponente por 8 a 0. Mas às vezes fica difícil engolir isso simplesmente como um cacoete de artista. Há alguns dias Madonna desembarcou no Brasil toca cercada de bruta montes na segurança e se hospedou nos hotéis mais caros de São Paulo e Rio de Janeiro. Sua assessoria divulgou que quando passou por aqui em 2008 ficou impressionada com a pobreza de algumas regiões e que queria ajudar, apesar de não dizer como. Dias depois ficamos sabendo que ela fundou uma associação com a ajuda de empresários brasileiros e doações pessoais e antes de ir embora fechou uma apresentação na praia de Copacabana para o réveillon 2010/2011. Um negócio e tanto, de olharmos pelo viés empresarial. Bono, do U2, é outro mestre do entretenimento com toques engajados. Há pelos menos 15 anos se mete em todos os assuntos relacionados à economia mundial, a ponto de defender acordos utópicos como o perdão das dividas dos países pobres com as nações de primeiro mundo. Na prática nenhuma das boas vontades de Bono vingaram, mas o U2 hoje é famoso e já fez shows em lugares inimagináveis, como países miseráveis do continente africano e exóticas nações asiáticas. O U2 é uma multinacional do showbizz que a cada dia conquista novas filiais pelo planeta. Rita Lee disse certa vez que antigamente roqueiro era sinônimo de bandido, ao comentar como as coisas haviam mudado em relação aos tempos em que começou a carreira. Para ser sincero sinto falta de certos bandidos, pois os mocinhos de hoje ainda vão tornar esse mundo um inferno de boas intenções.
Antecipando o Natal, Bob Dylan lançou o disco beneficente "Christmas in the Heart" e nesta semana divulgou esse videoclipe da música "Must be Santa", uma polca que embala essa verdadeira festa natalina de bêbados.
Hoje se completa 50 anos da morte do compositor Heitor Villa-Lobos, a figura mor da música erudita brasileira, e influência capital também na música popular, já que Tom Jobim, por exemplo, nunca escondeu que o compositor das "Bachianas" estava entre seus confessaveis mestres. O que me espanta é que aqui na região (e em todo o Brasil, de uma maneira geral) a data passou batida, quase ninguém lembrou.´ Devo confessar que não sou grande conhecedor da obra de Villa-Lobos, mas admiro muito algumas de suas composições. A primeira vez que uma dela que chamou a atenção foi na cena final do clássico do cinema "Deus e o Diabo na Terra do Sol", quando a "Bachianas Nº 5" compõe de maneira bela a paisagem castigava pela seca nordestina. Abaixo separei a tal ária que é usada no filme, na interpretação da soprano Aristides Rivas:
O Radiola desta semana homenageia o centenário do compositor Ataulfo Alves através da interpretação do clássico "Laranja Madura" pelo vanguardista Itamar Assumpção. O programa ainda traz um módulo só com artistas extravagantes, como Roxy Music, New York Dolls e Secos e Molhados e lembra os 20 anos do lançamento do disco "Bleach", o primeiro trabalho do Nirvana. No bloco de novos discos o CD da cantora americana Norah Jones, tocado aqui em primeira mão, e o álbum "Song From Lonely Avenue", da Brian Setzer Orchestra (foto).
Clássico da Semana 1 - Itamar Assumpção - "Laranja Madura" (homenagem a Ataulfo Alves)
Bloco 1 (artistas extravagantes) 1 - Roxy Music - "More Tham This" 2 - New York Dolls - "Frankenstein" 3 - Secos e Molhados - "O Doce e o Amargo"
Bloco 2 (Bandas que influenciaram o Nirvana) 1 - Nirvana - "Aint´s a Shame" 2 - Husker Du - "Pink Turn to Blue" 3 - Pixies - "Winterlong"
Lançamento 1 1 - Marcela Bellas - "Bloco do Prazer" (disco: Será que Caetano vai Gostar?) 2 - Norah Jones - Stuck - "(disco: The Fall)
Lançamento 2 1 - Brian Setzer Orchestra - "Trouble Train" (disco:Song From Lonely Avenue)
BG: Beastie Boys - The Mix Up (álbum instrumental do trio de hip hop)
O link tá aqui: http://www.liberal.com.br/cadernos/podcast_ver.asp?c=02F0C950455
Um dos meus comerciais de TV preferidos é o da emissora Futura, onde uma série de questões que ainda não foram respondidas por cientistas são jogadas ao público seguida da afirmação que na história da humanidade não são as respostas que movem o mundo, e sim as perguntas. Concordo. Por isso jogo a você dúvidas minhas na esperança de que alguém me ajude a elaborar as respostas:
1 – Se todos falam tão mal dos canais de TV aberta por que eles ainda são os que mais dão audiência? Será que apesar de fingirmos a gente gosta mesmo é de besteiras apelativas?
2 – Será que a indústria da música vai migrar para os jogos de vídeo game que hoje são apontados como a salvação do mercado musical com seus jogos como o Guitar Hero?
3 – Será que o fato dos filmes, músicas e programas de TV estarem ficando cada vez mais parecidos entre si é um reflexo do afunilamento de nossas próprias personalidades?
4 – O fato das gravadoras não terem mais “direção musical” é porque hoje o departamento de marketing consegue vender qualquer coisa independente do fato de ser um lixo?
5 – Você não concorda que os cadernos de culturais dos jornais estão cada vez mais parecidos e conservadores?
6 - Se programas de reality shows não dão mais tanta audiência porque eles continuam sendo feitos? Será que só o dinheiro de anunciantes vale a insistência na queda da qualidade da nossa TV?
7 – Fazer arte de alta qualidade e ganhar dinheiro com isso são coisas completamente impossíveis de se harmonizar?
8 – Os projetos que ninguém toma conhecimento vão continuar ganhando investimentos do governo?
9 – No futuro o termo artista vai desaparecer e o mundo será feito apenas de celebridades sendo fotografadas saindo de festas badaladas?
10 – Você agüentaria viver em um mundo cujas todas as respostas acima fossem sim?
No dicionário, necrofilia é a atração que algumas pessoas sentem por cadáveres, um desvio sexual. Na arte, a indústria transformou a necrofilia platônica de cada um de nós em uma forma de ganhar lucros sobre quem já partiu desse mundo. Os números de vendas de artistas como Elvis Presley, John Lennon, Kurt Cobain, Renato Russo e tantos outros demonstram que eles valem mais mortos do que vivos. O exemplo mais recente é Michael Jackson, que após quase duas décadas recebendo atenção apenas da mídia sensacionalista por suas esquisitices hoje domina as bilheterias de todo o país com seu documentário “Is This It”, um filme feito de última hora para aproveitar o impacto de sua morte prematura já poucos meses. O filme não chega a ser ruim, mas falta-lhe um gancho, um porque de estar ali, fora arrecadar mais alguns milhões para a família e os empresários do astro pop. Uma grande vantagem em explorar os mortos é que eles não podem reclamar, o que e bom para a conta bancária da família, dos empresários, rádios e tudo que impulsiona o que chamamos de industria do entretenimento. Um grande exemplo é Renato Russo, que virou um quase santo após sua morte. Sua banda,a Legião Urbana, é o grupo com mais coletâneas de sucessos no mercado, uma ironia já que o cantor odiava coletâneas. Para Renato, seus discos traziam um repertório fechado que só funcionava em conjunto, por isso nunca deixou a EMI (sua gravadora por toda a vida) lançar nada além de seus discos de carreira. Mas de 1996, ano que ele morreu para cá, já foram lançados mais aos vivos, coletâneas e sobras de estúdios que tudo que ele lançou em vida. Aliás, o primeiro mandamento para se violar um artista quando este morre é torná-lo uma pessoa mais “santificada”. Veja esse novo video game lançado com o Nirvana. Nele, Kurt Cobain canta até músicas do Bon Jovi. Quem conhece um mínimo de história sabe que isso jamais aconteceria de verdade, já que Kurt via no Bon Jovi a representação de todo o mal do capitalismo musical.
Entrevista minha publicada na última terça-feira na edição impressa do LIBERAL. Nela, Chacal analisa o momento da poesia no País, onde um diminuto número de leitores se dedicam a essa vertente da literatura. Fora isso, queria acrescentar que além de muito bem articulado o poeta é muito gente fina, desses que gostam de conversar sobre qualquer assunto ligado à arte. No final, ele ainda se despediu com um "obrigado pela oportunidade e o interesse". Poxa, Chacal, o prazer foi todo nosso!
Chacal, um dos ícones da poesia marginal dos anos 70, fala sobre o passado e o futuro dos versos
Nos cálculos do poeta e letrista Ricardo Chacal, 58, um dos principais nomes da poesia marginal na década de 1970, no Brasil não devem ter mais que 500 leitores de poesia. Para ele, que esteve em Americana na última segunda-feira ministrando uma oficina na Biblioteca Municipal Jandyra Basseto Pântano, isso acontece porque a própria poesia se fechou num circulo ultra-erudito que excluiu quem mais interessa: o leitor médio, que vive nas ruas, que trabalha todos os dias para ganhar o pão. “Ao invés de falar da vida os poetas estão falando de outros poetas. Essa meta-poesia que se volta a si mesma tira do circulo leitores quem não conhecem poesia de maneira mais profunda, quem não tem intimidade com poetas clássicos”, explicou Chacal. Mas essa reclamação de Chacal não vem de agora. Aliás, o próprio nascimento da poesia marginal no Brasil no começo dos anos 70 foi fruto dessa indignação e tentativa de popularizar a literatura em versos. “A Academia Brasileira de Letras sempre nos ignorou e criticou porque nos consideravam criminosos por não dialogarmos com a tradição. Poxa, a poesia de Homero não dialogava com a tradição, era feita para atingir as pessoas, para ser repetida pelas pessoas nas ruas. A própria noção de poesia escrita é nova, surgiu a partir de 1700”, defendeu Chacal. Feita em mimeógrafos, a poesia marginal nasceu em pleno momento mais violento do Regime Militar brasileiro, levando para os versos o linguajar das ruas, do jovem urbano do Brasil da época. “Até hoje sou hippie e nossa poesia refletia o pensamento da contracultura, dos fãs de rock, dos filhos da Tropicália”, lembrou. Para o poeta, a saída para o impasse da poesia atual pode estar na internet ou mesmo nos jovens do movimento hip hop. “Apesar de ter uma natureza muito vasta, de todas as expressões literárias a que melhor de adapta ao mundo da internet é a poesia, porque ela é curto, sintética”, comparou. Do outro lado as letras de rap das periferias resgatam o diálogo direito com as pessoas através da palavra falada.
Circuito cultural
A presença de Chacal na cidade se deveu ao projeto “Viagem Literária”, da Secretaria de Cultura do Estado. Ao invés de apenas falar aos presentes, Chacal resolveu unir ao bate papo uma oficina nomeada de “Fala a Palavra”, dirigida àqueles que têm interesse em desenvolver e aprimorar o que já escrevem e têm ambições literárias. Durante o evento, que terminou com um sarau improvisado no Jardim da Biblioteca na noite de segunda-feira, Chacal deu exemplos de obras de toda sua carreira e ensinou exercícios.
É curioso como a arte vive em um constante processo que nos lembra muito os programas de reality show, tipo Big Brother Brasil. Tudo que cerca o mundo dos espetáculos é velozmente transportado em segundo para nossas retinas que na maioria das vezes não consegue filtrar tudo que por ela passa. Se você gosta de rock deve conhecer a famosa história dos morcegos do Ozzy Osbourne. Se não sabe, eu conto: Nos anos 80 o cantor inglês tinha o hábito simular comer alguns animais, em pleno palco. Era bichos pequenos e nojentos, feitos, claro, de borracha. Certa vez um fã jogou para ele um morcego de verdade e achando de tratar de um exemplar de borracha, Ozzy meteu o bocão e arrencou a cabeça do nojento animal. A história ficou famosa, mas há até quem afirme que tudo não passa de uma lenda. O próprio Ozzy nunca contou o caso de maneira direta. Aliás, esse é o diferencial do passado: Os acontecimento davam espaço para nossa imaginação. Se Ozzy é um cara estranho, pode ser possível que ele coma morcegos em pleno palco. Hoje não há espaço para a imaginação, as coisas são ou não são. Veja o cantor inglês Morrisey. Há poucos dias ele levou uma garrafada na cabeça durante um show e irritado cancelou a apresentação. Poucas horas depois o momento exato da agressão estava circulando pelo mundo (fotos). Se bobear dá pra ler até a marca da empresa fabricante da água. No dia seguinte Caetano Veloso deu um escorregão no palco. A segunda do ano. E imediatamente lá estava a imagem da internet. São Thomé, o famoso santo que só costumava crer no que via, iria adorar esses novos tempos.
Pegando carona nos festivais "Planeta Terra" e "Maquinária" que aconteceram no último final de semana, separei para esta edição do Radiola uma seleção dos que para mim seriam os melhores shows dos dois eventos. Então, aqui estão músicas de Primal Scream (foto), Sonic Youth, Faith no More e Iggy Pop and the Stooges. Na sessão de lançamentos, tem o disco de natal de Bob Dylan e os novos trabalhos das duplas Air e Pet Shop Boys. Para começar a esquentar as baterias, um clássico do blues nacional. Espero que gostem.
Clássico da semana 1 - Nasi e os Irmãos do Blues - "Nas Asas do Desejo"
Bloco 1 (Maquinária)
1 - Faith no More - "Edge of the World" 2 - Janes Addiction - "Janes Says" 3 - Danko Jones - "Play the Blues"
Bloco 2 (Planeta Terra)
1 - Primal Scream - "Miss Lucifer" 2 - Sonic Youth - "Superstar" 3 - Iggy Pop - "King of the Dog"
Bloco de lançamento (Duplas) 1 - Pet Shop Boys - Love (disco: Yes) 2 - Air - Heaven´t Light (disco: Love 2)
Lançamentos
Bob Dylan - "Winter Wonderland" (disco: Christmas in the Heart)
Bgs - Funks nacionais (Gerson King Combo, Rica Amabis, João Parahyba, Funk como Le Gusta)
Voltamos todos mais tristes do final de semana, com a perda do cineasta Anselmo Duarte. Nascido em Itu (aqui perto), o diretor será eternamente lembrado por em 1962 trazer a festejada "Palma de Ouro", do Festival de Cannes para o Brasil pelo filme "O Pagador de Promessas", mas muitas outras coisas deveriam ficar fixadas na nossa memória. Aos 89 anos, o cineasta era a própria simpatia em pessoa, mantendo mesmo com todos os louvores seu "tipão" de homem do interior de antigamente. Fora isso, "O Pagador de Promessas" (1962), é daquelas obras que merecem ser revistas pelas novas gerações. Entre críticas à igreja, à imprensa lê-se nas entrelinhas uma exaltação inédita no cinema nacional para o sincretismo religioso que sempre marcou o País, mesmo que naquele começo dos anos 60 ainda fosse mal visto pela classe religiosa. Salve Anselmo Duarte!
Hoje quase ninguém mais lembra, mas há dez anos uma irlandesa exótica de cabeça raspada surgiu com uma versão impressionantemente forte de "Nothing Compares To U", do Prince. A música foi um sucesso nas rádios, mas a cantora,Sinéad O’Connor foi sumindo da mídia até se isolar totalmente em casa, cuidando dos filhos e do marido. Agora a EMI relança o disco “I Do Not Want What I Haven’t Got – Limited Edition”, com várias faixas bônus em comemoração aos 20 anos do hit. O clipe de forte teor emocional dá uma pista do porque a música fez tanto sucesso.
HOje a imprensa em sua maioria destacou o legado de Lévi-Strauss para a antropologia e a filosofia do século 20. De tudo que li, gostei muito de um texto de Caetano Veloso sobre o francês para o jornal Folha de SP, que apesar de elogioso em sua maiora, não deixou de alfinetar uma caracteristica que é comum a maioria dos pensadores da geração de Strauss: A intolêrancia contra o que segundo eles seria uma "arte menor", e que agrega tudo que é arte popular. Além de Strauss, Theodor Adorno e Walter Benjamim também pensavam assim. Separei o seguinte trecho do artigo de Caetano: "Lévi-Strauss detestava a promiscuidade entre alta cultura e cultura popular que via sendo praticada por seus famosos contemporâneos mais jovens: "pop philosophie", pensadores citando Bob Dylan e escrevendo sobre cinema, linguistas estudando letras de rock -na entrevista com Didier Éribon, ele diz que jamais voltaria seu armamento teórico para nada abaixo de Baudelaire".
Aproveitando o assunto e encerrando o tema Lévi-Strauss, lembrei dessa música de Caetano, onde o antropólogo é citado logo no primeiro verso, também com ressalvas.
Volto ao assunto da edição deste mês da revista Rolling Stone para comentar algo que quase ninguém se lembra. Recapitulando: Na última semana chegou às bancas de todo o Brasil uma edição especial da revista Rolling Stone, com um ranking das cem músicas brasileiras mais importantes de todos os tempos. Como até já disse aqui, listas servem mais para incomodar pelas faltas do que pelas presenças. A gente sempre diz: “Pô, mas fulano não está na lista!”. Bom, mas de qualquer forma eu não teria muito a que reclamar da tal lista da revista, que comemora três anos de sua primeira edição brasileira. O primeiro colocado ficou com “Construção”, de Chico Buarque, que para mim é uma obra genial sob todos os pontos de vista. Lançada em 1971, a música é a faixa título do álbum mais raivoso e político do compositor e mesmo passado o período mantém firme por sua construção (desculpe a trocadilho) de versos que vão se alternando sem nunca perder o sentido, sempre encerrando os versos em proparoxítonas que mudam de posição conforme as estrofes vão se sucedendo. “Amou daquela vez como se fosse a última/ Beijou sua mulher como se fosse a última/ E cada filho seu como se fosse o único/ E atravessou a rua com seu passo tímido/ Subiu a construção como se fosse máquina/ Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/Tijolo com tijolo num desenho mágico/ Seus olhos embotados de cimento e lágrima/ Sentou pra descansar como se fosse sábado”. Um primor em todos os seus 54 versos. Esse jogo de proparoxítonas é até hoje considerado a grande sacada poética da letra música, mas quase 40 anos antes a dupla Alvarenga e Ranchinho usou do mesmo artifício em sua saga bem humorada “Drama de Angélica”, sobre uma moça condenada pela má saúde. Surgida nos anos 30, a dupla é uma espécie de tataravó de bandas como Mamonas Assassinas ou de grupos como do Premê e Língua de Trapo. Quase sempre cantando histórias bem humoradas e inocentes (para os padrões de hoje) os irmãos Maurilo Alvarenga e Diésis dos Anjos Gaia acabaram figurando em pés de página da música caipira, tanto que poucos fazem a observação de que os jogos de proparoxítonas de Chico Buarque, apesar de geniais, não foi pioneiro. A letra começa já apresentando o alvo da dupla, a musa doente Angélica: “Ouve meu cântico quase sem ritmo/ Que a voz de um tísico magro esquelético.../ Poesia épica em forma esdrúxula/ Feita sem métrica com rima rápida.../ Amei Angélica mulher anêmica De cores pálidas e gestos tímidos.../ Era maligna e tinha ímpetos/ De fazer cócegas no meu esôfago...” Apesar da voz triste da dupla, é impossivel não se divertir com a irônia entre a tragédia do que é contado e a letra escrita pelo próprio Alvarenga: “Em noite frígida fomos ao Lírico/ Ouvir o músico pianista célebre.../ Soprava o zéfiro ventinho úmido/ Então Angélica ficou asmática.../ Fomos ao médico de muita clínica/ Com muita prática e preço módico.../ Depois do inquérito descobre o clínico/ O mal atávico mal sifilítico...”. Após uma longa jornada em busca de uma cura que inclui até laxantes, a tragédia inevitavel se dá: “Morreu Angélica de um modo lúgubre/ Moléstia crônica levou-a ao túmulo.../ Foi feita a autópsia todos os médicos/ Foram unânimes no diagnóstico.../ Fiz-lhe um sarcófago assaz artístico/ Todo de mármore da cor do ébano.../ E sobre o túmulo uma estatística/ Coisa metódica como Os Lusíadas.../ E numa lápide paralelepípedo/ Pus esse dístico terno e simbólico: "Cá jas Angélica/ Moça hiperbólica/ Beleza Helênica/ Morreu de cólica!" Chega a ser bobinha perto dos lances líricos buarquiano, mas é fruto de um Brasil muito mais divertido do que àqueles duros anos 70 da ditadura que foi cantado por Chico.
Foi anunciada agora à pouco a morte do francês Claude Lévi-Strauss, um dos mais importantes filósofos do século 20. Não sou a melhor pessoa para comentar o legado de Strauss, pois o conhecia muito mais pelo nome e fama do que pela obra em si. Mas me marcou muito uma entrevista que ele deu ao Caderno Mais!, da Folha de SP há uns 15 anos, onde afirmou que para ele a arte é algo inexistente no mundo moderno, já que ele não reconhecia mais a existência da arte em nenhum meio de expressão humana. "Há alguns modos de expressão, que continuamos chamando por nomes tradicionais como pintura, música e literatura, mas creio que sejam outras coisas. Não são mais as mesmas artes", atacou. Pode parecer coisa de velho resmungão, mesmo que esse velho resmungão seja um dos mais consagrados pensadores modernos. Mas também é uma constatação triste que talvez logo estejamos todos concordando.
Vocês ouviram o Radiola desta semana durante o feriadão? Se não, tranquilo, ele continua no ar por tempos eternos, tocando, como sempre, novidades e velharias. Desta vez escolhi, inspirado pelo fim do Oasis, uma série de bandas formada por irmãos chegados numa briga, e também lembrei de algumas eminências pardas da música brasileira, além dos novos trabalhos de Kiss, Mika e Ney Matogrosso. Atenção também a um clássico da era hippie, com o Grateful Dead.
Clássico da semana Grateful Dead - "Box of Rain"
Bloco 1 (Irmãos Briguentos) 1- Black Crowes - "Blackberry" 2 - The Jesus and the Mary Chain - "I Hate Rock'n'Roll" 3 - Oasis - "She´s Eletric"
Bloco 2 (os onipresentes da música brasileira) 1 - Lanny Gordin e Max de Castro - "O Homem que Matou o Homem que Matou o Homem Mau" 2 - Orquestra Imperial - Não foi em Vão" 3 - Milton Nascimento e Lô BOrges - "Um Girassol da Cor do Seu Cabelo"
Lançamentos
1 - Kiss - Say, Yeah" (Disco: Sonic Boom) 2 - Mika - "Pick up off the Floor" (Disco: The Boy Who Knew Too Much)
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.