O site americano Internet Movie Database (IMDB) é uma referência sobre cinema na web e antecipando em alguns meses as esperadas listas de melhores produções da década 00, resolveu eleger quais foram os mais importantes filmes desses dez primeiros anos do século. O destaque fica para o terceiro lugar, faturado pelo nosso "Cidade de Deus", que eu particularmente acho ser uma obra prima. Só senti falta de “Match Point” e "Dogville", e não acho os dois "Senhor dos Anéis" tão bons assim para estarem em segundo e quarto lugar. E indo contra a maioria acho "O Aviador" melhor que "Os Infiltrados", numa comparação entre dois "Scorseses"
01. “Batman: O Cavaleiro das Trevas” 02. “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” 03. “Cidade de Deus” 04. “O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel” 05. “Up – Altas Aventuras” 06. “Amnésia” 07. “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres” 08. “Wall-E” 09. “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” 10. “Os Infiltrados” 11. “A Vida dos Outros” 12. “O Pianista” 13. “A Viagem de Chihiro” 14. “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” 15. “Réquiem para um Sonho”
E esse desaparecimento do Belchior, hein? O fato teve repercussão até em jornais ingleses...Mas acredito que não deve demorar muito para o campositor de "Como Nossos Pais" dar as caras após toda essa repercussão. Pelo menos os brasileiros estão mantendo sua criatividade em alta na web, como mostra essa brincadeira usando o famoso jogo "Onde Está Wally". Pode procurar que o Belchior está perdido aí no meio da imagem.
Hoje vivemos sob a ditadura do jovem. Produtos, filmes, livros, programas de TV e, principalmente, a música são vendidos sob a perspectiva da juventude. Veja os temas das letras dos artistas mais bem sucedidos dos dias atuais: festas, flertes, micaretas, festas do peão, “ficação”, diversão. Uma vez o escritor Otto Lara Rezende pediu para que Nelson Rodrigues deixasse um conselho para a juventude e o mal humorado dramaturgo de “Vestido de Noiva” soltou uma de suas frases mais célebres: “Envelheçam”. Nelson não suportava a falta de experiência dos que ainda não haviam vivido muito. Hoje acontece o contrário. Os mais velhos lutam a todo custo para manter-se esteticamente jovens. Assim como o velho oeste dos filmes de bang bang não eram para os fracos, parece que o mundo moderno não foi feito para os velhos. E velho não significa terceira idade. Passou mentalmente dos 30 e seus ídolos já estão todos mortos ou condenados ao ostracismo. Ou falando de paquera no sinal, para acompanhar a corrente. O sendo comum costuma atribuir o início do nascimento da juventude a partir da década de 1950 na América do Norte, quando os lucros da vitória da Segunda Guerra enriqueceu os Estados Unidos, permitindo que os filhos da classe média pudessem apenas estudar e ficar o resto do tempo curtindo namoros, carros, lanchonetes e discos de Frank Sinatra. Foi desse ambiente que surgiu o rock, que antes de ter toda essa importância artística/comportamental era música para embalar bailinhos. É aí que entra em cena o recém lançado livro “A Criação da Juventude” (Editora Rocco), do inglês Jon Savage. O historiador já havia nos dado a melhor biografia/ estudo sobre o movimento punk, “Sonhos Inglês” (1992), mas nada se compara a esse seu belíssimo trabalho que já nasce como um dos mais interessantes livros de 2009. O mais interessante é que o livro de Savage termina em 1945, com a queda da Bomba Atômica sobre Hiroshima, no Japão. É que para o escritor, as noções de juventude têm início muito antes, ainda no século 19. De lá ele desencava grupos violentos formado por adolescentes que se assemelham em muitos as gangues do século 20. Nessa época, também, ele desencava os poetas românticos que sofriam e pregavam o suicídio por paixões não correspondidas (nada mais adolescente). Anos depois o calhamaço de quase 600 páginas conta como Adolph Hitler percebeu a força juvenil alemã e trabalhou de maneira original os ideais nazistas. Ao invés de Elvis Presley, o livro joga para Frank Sinatra os primeiros traços de ídolo jovem, descrevendo no livro como as meninas gritavam a jogavam calcinha nele bem antes de beatlemania. Aqui no Brasil, os cantores do rádio também anteciparam essa histeria antes até da jovem guarda, de Roberto Carlos (mas isso não esta no livro, claro). A escritora e feminista americana Camile Paglia fez uma resenha do livro em um jornal americano (não lembro qual, desculpe) e apontou no livro um problema que eu vejo como qualidade. Segundo ela, Savage é muito moralista ao atacar no final do livro a ideia que a rebeldia adolescente foi banalizada pela indústria em favor do consumismo. Eu também acho que foi, e ainda vamos morrer de tanta juventude.
Por falar em Raul Seixas o Radiola desta semana traz uma homenagem ao cantor e compositor baiano, com três músicas pouco conhecidas do maluco beleza. Mas não é só isso. O podcast chega a sua edição de número 32 tocando um clássico do blues inglês e relembrando álbuns clássicos de The Clash, Beatles e Beastie Boys, que aniversariam neste ano de 2009. Na sessão de lançamentos tem os novos trabalhos de Ana Cañas, Céu (foto) e Pearl Jam, que lança em setembro o álbum "Backspacer", cujo primeiro single é tocado aqui em primeira mão. O link para o programa está no final deste post:
Clássico John Mayall and the Bluesbreakes – What´d I Say - John Mayall and the Bluesbreakes (1966)
Bloco em homenagem a Raul Seixas 1 - Raul Seixas e Os Panteras – “Você ainda Pode Sonhar” – Rauzito e Os Panteras (1968) 2 - Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Edy Star e Mirian Batucada – “Dr. Paxeco” – Sociedade da Gran Ordem Cavernista (1971). 3 - Raul Seixas – “Gospel” (1974)
Bloco em homenagem a discos que estão aniversariando 1 – Beatles – “Because” – Abbey Road (40 anos) 2 – The Clash – “Brand New Cadillac” – London Calling (30 anos) 3 – Beastie Boys – “Sabotage” – Ill Comunication (15 anos)
Os grandes artistas são aqueles que permanecem atuais com o passar dos anos. As peças de William Shakespeare ainda são de uma atualidade impressionante, mesmo 500 anos após terem sido escritas. Raul Seixas também tem essa força, como atesta essa sua letra sobre pastores evangélicos larápios, que poderia ter sido escrita nesta semana em "homenagem" ao Edir Macedo.
Raul Seixas e Marcelo Nova "Pastor João e a Igreja Invisível" Álbum - A Panela do Diabo (1989)
Eu não sei se é o céu ou o inferno Qual dos dois você vai ter que encarar E foi pra não lhe deixar no horror Que eu vim para lhe acalmar Se o pecado anda sempre ao seu lado E o demônio vive a lhe tentar Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha O meu cajado vai lhe purificar Pois eu transformo água em vinho, Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel Pra mim não existe impossível Pastor João e a igreja invisível (4x) Para os pobres e deseperados E todas as almas sem lar Vendo barato a minha nova água benta Três prestações, qualquer um pode pagar O sucesso da minha existência Está ligado ao exercício da fé Pois se ela remove montanhas Também tráz grana e um monte de mulher. Pois eu transformo água em vinho, Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel Pra mim não existe impossível Pastor João e a igreja invisível (2x) Haa! Pastor João e a igreja invisível (3x)
Há 20 anos morria Raul Seixas, um dos mais controversos e geniais músicos da história de nossa música popular brasileira e um dos artistas cuja obra e dignidade eu mais admiro. Apesar de estar longe do esquecimento absoluto e sempre ser lembrado em datas diversas, uma constatação é triste: precisamos aprender a ouvir Raul Seixas. E isso inclui tanto a estagnada elite intelectual/ musical brasileira, que nunca aceitou Raul por sua não filiação a nichos específicos (esquerda marxista, MPB, nacionalismo cego, etc) quanto, principalmente, seus fãs, que nada mais fazem que distorcer os 21 anos de uma carreira repleta de tesouros musicais em simbolismos baratos como desculpas para vazias demonstrações de rebeldia, que de forma alguma faz jus à consciente de Raul (“Pena não nascer burro/ Não sofria tanto”, cantou ele em “Só Prá Variar”, de 1980). Hoje, quando completa-se exatos 20 anos de sua morte, é uma ótima oportunidade de redescobrir e rever a obra do subversivo Raul. Isso mesmo, Raul era um subversivo, mas paradoxalmente também era popular, nunca deixou de ser e fazia questão disso, como demonstrado em todos seus LPs. Era um cantor do povo em todos os sentidos que a palavra povo pode abranger. Desde o início suas letras estavam na boca das empregadas domesticas que limpavam a casa do patrão ouvindo-o em seus rádios portáteis; na cabine dos caminhoneiros que cruzavam o Brasil tocando seus discos em toca-fitas vagabundos. Mas Raul também era uma pedra no sapato da ditadura e dos moralistas de plantão. Foi o único que conseguiu ser cantado pelo mesmo público de Waldick Soriano, Odair José e Wando, falando de filosofia (“Eu Sou a Areia da Ampulheta/ O Lado mais Leve da Balança”), amor livre (“Se eu te amo e tu me amas/ Um amor a dois profana/ O amor de todos os mortais”), existencialismo (“Vou subir/ Pelo elevador dos fundos que carrega o mundo sem sequer sentir/ Vou sentir/ Que a minha dor no peito que eu escondi direito agora vai surgir/ Vou surgir/ Numa tempestade doida pra varrer as ruas em que eu vou seguir”) e a dor de viver (Oh, morte, tu que és tão forte/ Que matas o gato, o rato e o homem/ Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar”). E embalou esses tratados em forma de canção com rocks virulentos (“Aluga-se”), modas de viola (“Na Beira do Pantanal”), música brega (“Tu És o MDC da Minha Vida”), tango (“Canto para Minha Morte”) e belíssimas obras-primas que fogem de qualquer rótulo (“O Homem”, “Ouro de Tolo”, “A Hora do Trem Passar”). Que pelos próximos 20 anos aprendamos a (re) ouvir tudo isso, pois uma obra dessa magnitude ficar pairando por aí sem ser captada é de um desperdício assustador.
O diretor e ator Anselmo Duarte está internado em estado grave desde a noite de ontem em razão de um infarto. Aos 89 anos o ituano é um dos orgulhos do cinema nacional, pois foi o único a conquistar a "Palma de Ouro" em Cannes em 1962 com o filme "O Pagador de Promessas", um longa metragem que merece ser redescoberto pelas novas gerações. Fica aqui a nossa torcida pela recuperação desse paulista interiorano, que é gente como a gente, e que ganhou o mundo.
É curioso notar como nos identificamos com pessoas que a principio não tem muito a ver com a gente. Andei pensando nisso ao ler o recém lançado “O Leitor Apaixonado” (Companhia das Letras), de Ruy Castro. Sempre tive algumas reclamações quanto às afirmações musicais de Castro. Fã de bossa nova e da chamada “grande música americana” das décadas de 40 e 50, ele sempre teve a irritante mania de comparar maravilhas do passado, com as piores coisas que temos hoje. Lembro uma vez, na década de 90, de Ruy Castro querendo afirmar que a década de 50 era melhor que os tempos atuais porque no passado havia Tom Jobim e naquele momento só tínhamos o É o Tchan. Sacanagem. Mas diferenças à parte é impossível não se curvar a esse carioca. Seus textos são perfeitos: direitos, bem humorados e sofisticados, sem serem herméticos. Não é todo mundo que escreve sobre Oscar Wilde, Dorothy Parker, Nelson Rodrigues, Oswald e Mario de Andrade e F. Scott Fitzgerald como quem fala com o amigo numa conversa de boteco, tirando risos e provocando curiosidades. O mesmo dá para dizer sobre Paulo Francis, que é radiografado no filme “Caro Francis”, do cineasta Nelson Hoineff. O documentário não tem previsão de lançamento, mas uma sessão especial no Festival de 2º Cinema de Paulínia mostrou aos presentes um Francis que não difere em nada daquilo que acostumamos a ver e ler: grosso, meio preconceituoso, extremamente intelectual e polêmico. Mas é impossível não admirar alguém tão talentoso e independente intelectualmente, que irritava direita e esquerda numa época que isso fazia sentido. No final das contas, o que conta seja na música, literatura, jornalismo ou em qualquer outra atividade humana é o talento. Quando esse fator é hiperbólico, o resto fica pequeno.
Tive problemas na postagem do último Radiola, o Podcast que apresento aqui no site do jornal O Liberal. O arquivo estava pela metade, e eu só percebi porque alguns amigos me deram um toque. Agora já está Ok, e o link está aqui no final do post. Também vou começar a colocar aqui no blog o set list dos programas, atendendo a um pedido antigo. Também abro o blog para comentários sobre as músicas do programa, assim como para criticas e, se vocês forem bonzinhos, até elogios. Bom, ouçam lá então:
Clássico: Chico Science e Nação Zumbi - "A Cidade" - Da Lama ao Caos
Bloco 1
1 - The Bad Plus - "Lithium" - For All I Care 2 - Iggy Pop - "King of the Dogs" - Preliminers 3 - The Mars Volta - Since We´ve Been Wrong - Octahedron
Bloco 2
1 - Erasmo Carlos - "Jogo Sujo" - Rock´N´Roll 2 - Ben Harper - "Boots Like These - White Lies, For Dark Times 3 - Sonic Youth - "Sacret Trickster" - The Eternal
Lançamentos especiais
1 - Artic Monkeys - "Cryng Lighting" - Humbug 2 - Dead Weather - "New Pony" - Horebound
Tá aqui: http://www.liberal.com.br/podcast/RADIOLA31.mp3
Há 40 anos tinha início o Festival de Woodstock, marco da era hippie e o início de seu fim. Após os "Três dias de música, paz e amor", o guerra do Vietnã se intensificaria, as drogas ficaram mais pesadas e os tempos de sonhos por um mundo melhor caíram com o fim da década de 60 que chegava ao seu final. Separei aqui três momentos capitais do evento: Joe Cocker superando a versão dos Beatles em "With a Little Help From my Friends" (repare como ele está completamente entorpeciso), Jimi Hendrix em uma de suas apresentações mais fantásticas e o jovem Santana, mostrando toda a ginga latina.
Por falar em exageros politicamente corretos, olhem só essa história: O filme "Chanel", sobre a estilista francesa Coco Chanel chega aos cinemas franceses neste final de semana com esse cartaz aqui em baixo:
Agora olha o cartaz que será usado na divulgação do filme no Brasil:
Tudo bem querer melhorar o mundo e transformá-lo em um lugar mais agradável. Mas ir contra a história é ridiculo. Coco Chanel era francesa, e como a maioria dos franceses era uma fumante inveterada, para seu próprio azar. Querer tirar isso de sua biografia é falta de respeito.
Há alguns dias o humorista Danilo Gentili, do CQC, postou uma piada em seu twitter dizendo que estava vendo na TV o filme “King Kong”. Segundo ele era a história de um gorila que vem para a cidade, vira atração e pega uma loira. “Parece os jogadores de futebol”, definiu Gentili. No dia seguinte a comparação rendeu polêmicas, tanto de pessoas ligadas aos direitos de igualdade racial, quanto aos politicamente corretos. Os limites do humor sempre renderam debates acalorados, principalmente nos últimos anos. Nos Estados Unidos alguns hindus protestaram contra o filme "O Guru do Amor" (que é muito chato, diga-se de passagem), e associações que cuidam de portadores de deficiências mentais fizeram objeções à maneira como a palavra "retardado" foi usada em "Trovão Tropical", que chegou há algumas semanas ao DVD. Outro filme chamado "Towelhead" ("turbante", em português) também foi alvo de vários piquetes mesmo não fazendo nenhuma alusão aos muçulmanos. Os politicamente corretos chegaram ao cúmulo de atacar os produtores de outro filme, "Disaster Movie", pelo simples fato desse ser lançado no mesmo dia em que se completa três anos do furação Katrina. Das duas uma: ou esse extremismo do “politicamente correto” vai transformar o mundo em um lugar mais consciente ou no lugar mais chato do mundo, onde uma simples frase mal colocada vira sinônimo de preconceito e acusações. Mas o caso Danilo Gentili merece uma reflexão à parte, já que se trata de uma piadinha que permeia rodas de amigos em bares, churrascos e a vida verde amarela neste país de dimensões continentais. Pessoalmente acho que ele errou feio porque serviu de espelho refletor aos preconceitos alheios, função que não é a de um comediante. De Molière ao “TV Pirata” a função do humor sempre foi jogar na mesa de maneira incômoda desgraças que fincaram mastro na sociedade, como o preconceito e o racismo. Danilo (que é um grande talento dessa nova geração) fez o caminho contrário ao dos grandes nomes do humor. Mas um detalhe é necessário lembrar a favor do comediante: Ele também foi vítima da velocidade do tempo moderno. O imagino na frente de sua TV, com o notebook na mão, vendo o filme “King Kong” e escrevendo ao mesmo tempo em que presta atenção no filme. Falta aos criadores de hoje aquela calma e concentração tão importante aos dramaturgos, escritores, jornalistas de antigamente. Isso não é nostalgia barata, é só uma observação do lado ruim do processo (também tem seu lado bom). E deixa eu ir ficar por aqui que neste momento num dos televisores instalados aqui na minha frente uma partida do campeonato espanhol está pegando fogo, e alguém está me chamando para conversar no MSN.
Estou com pequenos problemas no blog e não estou conseguindo fazer postagem de imagens, video ou música. Assm que resolver o problema retorno com novidades. Não morram de saudade rsrssrsrsrs
Por falar em Beatles morreu na noite de ontem o diretor de cinema John Hughes, famoso por comédias como "Clube dos Cinco" (1985) e produtor da série de filmes "Esqueceram de Mim". Foi ele o responsável por essa cena clássica de "Curtindo a Vida Adoidado" (1986), onde a parada de 4 de julho americana canta "Twist and Should".
Há 40 anos os Beatles cruzavam a rua em frente ao estúdio da EMI para fazer umas das imagens mais famosas da história. A foto, cheia de referências, viraria a capa do último álbum da banda, que chegaria às lojas no mês seguinte.
A força da capa de Abbey Road ganharia tanta reforça que até hoje é homenageada, como neste Ep do Red Hot Chilli Peppers...
..ou nesta brincadeira com os brinquedos Lego. Uma história curiosa é que eu fiz uma foto nesta faixa quando estive em Londres. A desgraça é que perdi a imagem quando queimou uma HD do computador há alguns atrás.
Como anti-tabagista sou a favor da nova lei anti-fumo que será adotada em todo o estado de São Paulo a partir deste sexta-feira. Mas confesso que tenho medo dessas leis radicais que quando interpretadas ao pé da letra criam bobagens como o fato de proibirem que atores fumem em espetáculo de teatro. Poxa, se o ato de fumar compõe o personagem é rídiculo uma lei anti-fumo condenar isso. Há alguns meses falei sobre essa nova tendência politicamente correta que assola o planeta de uns tempos prá cá:
Os dois singles do disco “Viva La Vida or Death And All His Friends”, da banda inglesa Coldplay estão entre os mais vendidos nos Estados Unidos e Inglaterra nas últimas quatro semanas. Chris Martin, o líder e principal compositor da banda, a cada dia que passa é mais saudado como “o mega star do século 21”, mesmo com sua música levinha, agradável para o paladar médio de meninos e meninas bem nascido. O mais interessante é que Martin é a perfeita tradução de sua música: de família ultrarreligiosa foi virgem até os 22 anos e hoje leva uma vida bucólica em uma mansão em Los Angeles, onde só sai para fazer shows. Quando fala algo é para defender causas politicamente corretas, como pedir a preservação das florestas brasileiras ou o livre comércio entre países ricos e pobres, além de maior investimento dos países desenvolvidos nas nações africanas. Nada que dê resultados práticos, mas parece que pega bem fazer campanha por causas como essas. Junto com o CD do Coldplay chegou ao mercado americano um DVD com momentos da turnê de 1972/ 73 do louco de pedra Alice Cooper: “Live: Billion Dollar Babies Tour". Na apresentação o insano cantor, acompanhando de uma banda ótima promove um espetáculo de humor negro e decapitações teatrais que terminam com o então presidente americano Richard Nixon sendo enforcado em pleno palco, numa prova da inconseqüência juvenil da época. Mais que um espetáculo grotesco, o senso de humor mórbido de Cooper acabava sendo amenizado por uma grande música e elogios de gente acima de qualquer suspeita, como o pintor surrealista espanhol Salvador Dali e o compositor de vanguarda Frank Zappa, que adorava o cantor. Seria muita pobreza de argumentos apenas contrapor o passado e o presente via Alice Cooper e Coldplay, mas me parece que nossa tendência politicamente correta anda se espalhando por todos os cantos. E isso não é de agora. Há dois anos no documentário “Construção” sobre as gravações do CD “Carioca”, de Chico Buarque, o próprio compositor faz um comentário bem interessante. Segundo ele, quando ele gravou seus discos clássicos nos anos 60 e 70, a atmosfera das gravações era outra. “Hoje o estúdio é um lugar estéril aonde os músicos vêm para trabalhar e ir embora. Quando eu gravava com o Tom Jobim a gente ficava fumando, bebericando e entre essas longas conversas a gente gravava”, lembra o genial compositor. Nos Estados Unidos produtores e representantes de minorias iniciaram nas últimas semanas uma polemica batalha contra filmes de humor. Um filme chamado "Towelhead" ("turbante", em português) também foi alvo de vários piquetes mesmo não fazendo nenhum alusão aos muçulmanos. Os politicamente corretos chegaram ao cúmulo de atacar os produtores de outro filme, "Disaster Movie", pelo simples fato desse ser lançado no mesmo dia em que se completa três anos do furação Katrina. Sou a favor de todas as leis que estão sendo implantadas no Brasil, como a de tolerância zero contra cigarro em lugares públicos (quem não fuma não é obrigado a respirar fumaça alheia), a de beber e dirigir (temos milhares de exemplos de vitimas de motoristas embriagados). Aqui em Americana uma lei contra barulho após as 22 horas é cumprida à risca, o que também é correto, apesar do custo de termos uma vida noturna limitada em comparação a outros municípios. Mas a somatória de todas essas leis – corretas na teoria - pode nos levar a uma vida insuportavelmente estéril e chata no futuro. E o que é pior, musicadas pelo Chris Martin.
Acompanhei com curiosidade o lançamento do seu plano de cartão do vale-cultura. Pelo que me sopraram aqui o objetivo é incentivar que pessoas de baixa renda possam adquirir CDs, DVDs, livros e ingressos para cinema, teatro e shows com o valor de R$ 50 que o Governo Federal dará para cada família. Algo parecido com o bolsa-família. É até bonito a comparação que o senhor fez de que o vale-cultura é alimento para a cabeça, assim como o bolsa-família é alimento para a barriga. E que com esse cartão muita gente pode desviar o caminho do bar para beber pinga e ir a um teatro tragar arte. Devo confessar que gosto desse seu jeitão de dizer as coisas. Quando era garoto se alguém me presenteasse com R$ 50 por mês para que eu pudesse comprar meus discos, livros e revistas eu daria pulos de alegria. Até porque com esse reforço eu poderia investir meu salário mínimo na época com as menininhas ao invés de torrá-lo todo naquele vinil importado que em tempos pré-internet era tão difícil de se conseguir. Mas sabe como é povo, né, presidente? A gente aqui no Brasil é meio desconfiado, já que aí em Brasília tem sempre alguém tramando contra nós aqui, pobres coitados pagantes de impostos. Sei que gasto com cultura é sempre bem vindo. Mas os R$ 7 bilhões que vocês calculam que vão gastar com o vale-cultura não é mixaria. Ficar injetando esse valor sem um trabalho de formação de público para teatros, cinemas, shows e leitores eternamente é jogar dinheiro fora. Olha que futuro desolador estou imaginando: Vamos supor que um pai de família pega esses R$ 50 e compra com ele um CD do Belo, um livro de autoajuda e um ingressos para ver um filme da Xuxa. Até aí tudo bem. Agora imagina essa mesma pessoa daqui há dez anos pegando o mesmo valor o indo comprar o novo CD do Belo, um novo livro de autoajuda e indo ao cinema ver o 50º filme da Rainha dos baixinhos. Evolução zero, já que faltou programas de formação de platéias. Pense ainda em todo mundo recebendo dinheiro e as salas de concerto e os teatros alternativos vazios. Uma melhor análise dos projetos patrocinados pela Lei Rouanet também seria bom. Não é querendo entregar não, mas aqui na RTP (Região do Pólo Têxtil) tem uns trabalhos muito ruins sendo financiados com o dinheiro dos nossos impostos que vocês liberam à torto e a direito e que depois ninguém vê, ouve ou lê. Mas minha maior preocupação é que o vale-cultura seja uma jogada eleitoreira. Ano que vem vamos escolher um novo presidente (ou presidente!) e R$ 50 no bolso dos mais pobres significa mais gente em espetáculos, salas de cinemas e shows. Os artistas estão adorando e ter atores de novela ao seu lado é uma propaganda eleitoral de tanto. Mas gosto de crer que a ideia principal não seja essa. Votei no senhor duas vezes na vida e mesmo com muitas críticas que tenho em relação a atitudes localizadas, não me arrependo (por enquanto). Ficarei aqui aguardando novidades sobre o vale-cultura. Adoraria ir ver uma peça de William Shakespeare e me sentar ao lado de um morador da periferia, desses que a humildade salto aos olhos.
Um abraço, companheiro!
PS – Ah, e cuidado com essa história toda do Sarney. Sua imagem para quem olha aqui está ficando feia.
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.