5.30.2008

Monstro sagrado

Caso tivesse nascido na Europa ou nos Estados Unidos, o cantor Pena Branca teria uma estátua em sua homenagem e uma conta bancária tão abarrotada que provavelmente só cantaria por hobby, naquelas turnês de despedidas que nunca terminariam, tipo BB King.
Mas como teve o azar/sorte de nascer aqui ele continua excurcionando como um garoto em começo de carreira, o que é maravilhoso para nós todos. Hoje, ele passa por Americana trazendo novidades de seu mais recente CD, “Cantar Caipira”, e ontem, tive o enorme privilégio de o entrevistar pela segunda vez, e como na primeira fiquei bem emocionado, como raramente costumo ficar. Além da entrevista que você deve ter visto na capa do Caderno L de hoje, ainda falamos de sua infância ao lado do irmão Xavantinho, falecido em 1999, e sua vida atual dividida entre a música e sua paixão pelo Corinthians (ninguém é perfeito!).
Abaixo um video do show do ano passado, no mesmo palco do Lulu Benencase, onde ele se apresenta hoje. A qualidade de imagem não é das melhores, mas o momento histórico compensa.

5.26.2008

Os limites da expressão artística

Qual os limites da expressão artistica? Essa foi a discussão das últimas semanas na França. Tudo por causa do videoclipe da música "Stress", da dupla eletrônica Justice. Dirigido por Romain Gravras, filho do diretor grego Costa Gravras, o video é inspirado nas revoltas que tomaram conta das periferias de Paris, há três anos, causado pelas leis contra imigrantes e negros no País.
"Stress" traz uma sequencia de cenas de violência em lugares públicos no País, o que causou reações até no governo frances, além de mídias televisivas que se opuseram à veiculação do video. O ministério do turismo francês acha que o vídeo, conforme a dupla vai ganhando mais e mais notoriedade, pode prejudicar de alguma forma as visitas de estrangeiros. Outros alegam ainda que o trabalho pode incentivar distúrbios entre os jovens, glamourizando a violência entre as classes mais pobres. Também tem aqueles que ressaltam que o video pode vir a estigmatizar de vez os jovens de periferia.
O DJ Gaspard Augé, integrante do Justice, disse ao prestigiado jornal Le Monde, neste final de semana, que jamais achou que o trabalho fosse causar tanto reboliço e afirma que a idéia inicial discutida com Gravras foi expor um estado de violência permanente que tomou conta da França nos últimos anos, sem tomar parte do problema.

Abaixo o polêmico video:

5.16.2008

O cinema mundial está em crise

Pasmo é a palavra que melhor descreve meu sentimento ao ler essa semana que a expectativa de maior ganho da industria cultural americana para 2008 é para o lançamento do jogo GTA 4, um dos mais contestados videogames atuais. Repleto de violência e perseguições, o jogo é criticado por pais e educadores, mesmo assim a industria fabricante do jogo espera um faturamento de US$ 400 milhões apenas no primeiro final de semana de vendas no mundo. Esse valor é maior que o arrecadado pelo longa metragem “Homem de Ferro”, que chegou aos cinemas há duas semanas e ao final do ano deve estar entre as quatro ou cinco obras cinematográficas mais vistas de 2008.
Desde quando nasci ouço a palavra crise sendo usada para explicar a situação da economia, da política, da minha casa e do meu time, mas nunca havia presenciado uma crise da industria cultural de forma tão definitiva. Entre o estouro dos Beatles e o reinado de ícones pop como Madonna e Michael Jackson a industria fonográfica viveu seu auge, com artistas faturando milhões e milhões e vendendo essa mesma quantia, seja no Brasil ou no mundo.
Após a aparição dos filmes Blackbuster (por volta de 1976) foi a vez dos cinemas arrecadarem cifras extraordinárias. Agora, ambos estão perdendo espaço para um mísero jogo de ação.
No caso da música não tem nem o que teorizar. A pirataria e a falta de inteligência e conhecimento dos que trabalham com música acabou com a industria, que migrou para a Internet e continua até agora esperando um gênio que descubra como fazer dinheiro no mundo virtual. O problema na música não é nem tanto criativo, mas de foco, já que poucas vezes tivemos tanta música (e algumas muito boas) sendo lançada via Web.
Já no cinema é outra coisa. Nos últimos anos nos vimos soterrados por adaptações em quadrinhos (Batman, Homem Aranha, Speed Racer, Quarteto Fantástico, Super Homem, Constantine, Sin City), e adaptações de livros (O Código Da Vinci, Harry Potter, O Senhor dos Anéis), o que indica, no mínimo, falta de bons roteiristas.
Quando esporadicamente surge algo que case boas idéias e originalidade acaba entrando nos rincões alternativos (alguém aqui na região assistiu “Onde os Fracos não têm Vez” ou Sangue Negro”?) ou renegados a pequenos momentos de glórias em cerimônias internacionais, como foi o caso de “Pequena Miss Sunshine” (2006) “Juno” (2007).
Alguém poderia dizer: Mais no Brasil estamos bem, pois nos últimos tempos tivemos filmes nacionais com boas bilheterias. É verdade, mas globalmente é o cinema americano que dita as regras do mercado, e a médio prazo tal crise criativa no cinema comercial deles pode até a afetar produções menores em países como Hong Kong, México e mesmo o Brasil, que no momento estão em boa fase criativa.
Os Estados Unidos tiveram de tempos em tempos grandes renascimentos em seu cinema. Por exemplo: No final dos anos 60 essa mesma pasmaceira de idéia atingiu o cinema deles após anos de grandes filmes nos anos 50, 40 e 30. Foi uma entressafra que teve fim com a geração de ousados jovens diretores recém saídos da universidade, como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Se pelo menos essa crise servir para nascer uma geração dessas, estaremos bem. Mas os tempos são outros e a história não se repete com tanta similaridade.

5.14.2008

Frank Sinatra

E por falar em homenagem há exatos dez anos morria Albert Frank Sinatra, o homem que mostrou ao mundo que ser um grande cantor significava algo mais do que saber cantar bem. Sinatra inventou o pop star, antes da era dos pop stars. Abaixo um video dele cantando "Garota de Ipanema", do nosso não menos genial Tom Jobim.

Wanfer Taffo

Morreu hoje, aos 53 anos, um dos grandes heróis da guitarra no Brasil, Wanfer Taffo, que durante os anos 70 e 80 emprestou sua técnica a nomes como Secos e Molhados, Rita Lee, Lobão e foi um dos lideres da Banda Rádio Taxi, do sucesso "Eva".
Abaixo uma homenagem ao musico exibindo uma apresentação no "Programa Livre", de Serginho Groisman. A peça que ele está tocando é "Adágio", do compositor erudito italiano Tomaso Albinoni.

5.13.2008

Go, Johnny, Go

A lenda viva Chuck Berry fará uma série de show no Brasil no próximo mês de junho. Por enquanto estão confirmadas apresentações no Rio de Janeiro (17/6, Vivo Rio), São Paulo (18/6, no HSBC Brasil), Curitiba (20/6, Teatro Positivo) e Porto Alegre (21/6, Pepsi On Stage). Será, muito provavelmente, a última chance de ser o grande inventor do Rock and Roll, o homem que segundo John Lennon deveria batizar o rock se um dia fosse necessário dar outro nomes e esse estilo nascido na década de 1950. Abaixo um video de 2007 do velho Berry, na flor de seus 81 anos.

Beatles vistos de cima

O baú de novidades dos Beatles não tem fundo. Agora foram uma série de fotográfias inéditas feitas por volta de 1967/68 que vieram à luz através de arquivos lacradas da EMI. Abaixo uma dessas imagens:

5.06.2008

Ronnie Von

Matéria da capa do Caderno L que eu fiz há umas duas semanas e que me foi muito prezerosa, pois sou fã daquela pouco conhecida trilogia de discos psicodélicos lançados por Ronnie Von no final dos ano 60. Claro que eu aproveitei a oportunidade e passei a maior parte da entrevista tirando duvidas pessoais sobre a elabaroração e as histórias que envolvem esses discos citados. Também falamos da cidade Americana e da TV atual. Quem não leu no LIBERAL deixo ela postada aqui no blog. Para quem não já leu há alguns trechos que foram tirados da edição final.


Meu bem, meu mal

O cantor (aposentado) e apresentador Ronnie Von visita Americana, fala de sua relação com a cidade e de um livro inédito escrito pelo filho do Comendador Muller que só ele leu.

O mundo deu muitas voltas na vida de Ronnie Von, 63. Nascido em família abastada do Rio de Janeiro, ele renegou os negócios da família de banqueiros para ser cantor. Conheceu o sucesso na época da Jovem Guarda (movimento que ele nunca integrou) e a decadência quando gravou entre 1968 e 1970 três discos ultra-radicais mergulhados em experimentações lisérgicas e referencias cultas, que foram ignorados por fãs e críticos. A queda estava decretada e o ex-príncipe foi ser publicitário nos anos 70, 80 e 90 para ganhar a vida após o turbilhão do sucesso da inocente “Meu Bem” (versão de “My Girl”, dos Beatles). Mas como nem tudo é definitivo na vida desse carioca de alma paulistana, e os mesmos trabalhos ignorados hoje são saldados como referência entre novos músicos a ponto de até um tributo em homenagem a ele reunir bandas de diversas vertentes. Fora isso, como apresentador de TV ele vem arrancando elogios e pontos no Ibope com seu programa “Todo Seu” (TV Gazeta). Todos esses papéis são revelados na entrevista abaixo que ainda destaca um outro aspecto da vida de Ronnie: o de profundo conhecedor da história de Americana, a ponto de possuir um manuscrito inédito de Horst Muller, filho do Comendador Muller.

LIBERAL - Ronnie, primeiro eu queria saber de sua relação com Americana. Muitos aqui até pensam que você é da família Muller, que no século 19 ajudou a fundar o município. Como surgiram esses laços com essa família de origem alemã e como se iniciou sua relação com Americana?

Ronnie Von – Isso vem de muitos anos. Eu sou formado em Economia e Biologia, mas sempre fui fascinado por História, principalmente da época do Segundo Império aqui no Brasil. Aprofundei-me nas leituras desse período a partir dos anos 60 quando vim do Rio (de Janeiro) para São Paulo, e sempre tive uma curiosidade particular pela vinda dos americanos para o Brasil, por isso já conhecia bem a história de Americana e dessa região toda. Mas por essas coisas do destino, me casei com uma mulher que era enteada do Horst Muller Carioba, que é filho do grande Franz Muller, patriarca da família. Aí surgiu esse estreitamento de relação com a cidade, pois não só ia visitar muito o bairro de Carioba como passava horas conversando com meu sogro sobre curiosidades da formação da região do Salto Grande. Tenho até um manuscrito dele sobre o bairro que ficou comigo quando ele morreu e ainda não foi publicado.

LIBERAL - Alguém sabe desse manuscrito? Talvez seria um livro interessante para ser publicado aqui na cidade...

Ronnie – Também acho. Está comigo e detalha muita coisa interessante da infância do Horst.

LIBERAL – A Rita Lee também tem raízes aqui. Ela é da família Jones, que veio para cá após a Guerra da Sucessão nos Estados Unidos. Vocês foram muito próximos nos anos 60, sendo você até é o responsável pelo nome dado ao primeiro grupo dela (Mutantes). Vocês trocavam informações sobre Americana já naquela época.

Ronnie – Isso do nome Mutantes é interessante. Eu estava lendo um livro de ficção cientifica chamado de “O Império dos Mutantes” e foi bem na época que o O’ Seis (primeira formação dos Mutantes) acabou. Aí eles estavam escolhendo um novo nome e eu fiz essa sugestão. Mas eu e a Rita não falávamos muito de Americana não. Ou melhor, eu falava, mas ela nunca tocou no assunto, que eu me lembre.

LIBERAL – Nos últimos anos aconteceu uma redescoberta do Ronnie Von cantor e compositor, através de seus três discos mais radicais lançados entre 1968 e 1970. Na época esses álbuns foram ignorados e agora são saudados como ousados e à frente do tempo. Como você encara essa reavaliação?

Ronnie – Para mim foi uma monumental injeção de juventude. Eu até hoje sou considerado um nome pertencente da Jovem Guarda, mas a verdade é que nunca fui daquele movimento. Pelo contrário, existia até uma rixa criada por empresários de que eu e o Roberto éramos inimigos. Mas existia uma má vontade dos formadores de opinião comigo, e esses mesmos formadores nem ouviram esses discos que você citou. E eu tinha gana de fazer uma obra ousada, cheia de referência ao rock psicodélico, às artes plásticas de Salvador Dali. Mas me esculacharam sem dó numa enxurrada de críticas, me jogaram no lixo sem dó e até pouco tempo pensavam que eu só tinha feito “Meu Bem”, que nem é minha, mas uma versão. Mas essa nova geração tanto de músicos quanto de críticos me vingou, me senti vingado, essa foi à verdade.

LIBERAL – Você apresenta um programa que tem rendido muitos comentários elogiosos. Depois da avalanche de críticas chegou a hora do Ronnie Von unanimidade nacional?

Ronnie – (risos) O curioso é que o sucesso do programa está sendo grande justo no formador de opinião, numa prova que o mundo é realmente redondo e dá voltas incríveis. Mas creio que o sucesso dele é por outros motivos. Chegamos a um momento tão baixo na TV, de tanto barraco que parece que quando botamos um programa que quer entreter, informar e discutir um pouco de cultura ele serve como um respiro para o telespectador. Uma jornalista disse uma coisa engraçada esses dias: “Antes do programa do Ronnie e coisa mais inteligente na TV aberta era o mundo animal”. Achei engraçado, mas é triste ao mesmo tempo.

5.05.2008

Paulo Autran



Quem disse que em nossa TV aberta só temos lixo? Esse momento de rara beleza foi captado numa das última entrevistas do ator Paulo Autran, feita pouco mais de um mês antes de sua morte em 2007. É de emocionar.

5.02.2008

Estamos cada vez menos exigentes

Há tempos tenho uma impressão pairando sobre meus pensamentos. Algo me diz que toda a tecnologia e velocidade de informação a que somos submetidos está acabando com nossas exigências culturais, nosso senso crítico, nossa capacidade de distinguir o joio do trigo no âmbito cultural. Isso acontece porque somos soterrados por uma avalanche de novas músicas, filmes, vídeos, informações, lançamentos que não nos deixa respirar e apreciar. Essa é a palavra! Apreciar. Sem apreciação não existe arte e apreciação denota tempo, tranqüilidade, atenção, envolvimento.
Quando era garoto – e nem faz tanto tempo assim, diga-se de passagem – a compra de um disco implicava economia de dinheiro, esforço de achar a loja mais badalada da cidade, tempo de espera da encomenda chegar, leituras de resenhas em jornais que nos deixavam ansiosos, etc. Quando o tal álbum chegava, era uma maravilha. Pelo mês seguinte só ouvíamos aquilo, afinal nosso suado dinheiro economizado em lanches da escola tinha se esgotado e uma nova compra só era possível no mês seguinte.
Hoje, os downloads via Internet acabaram com tudo isso – o que tem seu lado bom, claro – e um jovem de 17 anos baixa dezenas de músicas num único dia, da qual ele ouvirá menos da metade muito rapidamente. Afinal de contas, no dia seguinte mais músicas deverão ser baixadas. Isso força a industria cultural a produzir mais para abastecer esse garoto (a) e entramos numa bola de neve de alta velocidade consumista. O exemplo dado acima é musical, mas já atingiu também o cinema, O DVD e, um pouco menos, o teatro e a literatura.

Geração fast food

Essa tal “impressão” a que me refiro acabou verbalizada nas últimas semanas através de um texto de Internet assinado pelo diretor americano de cinema David Lynch (“Twin Peaks”, “Cidade dos Sonhos”) e por uma matéria na revista Rolling Stone.
De forma até agressiva, Lynch diz que “só sendo muito imbecil para se divertir assistindo um longa metragem numa tela de celular”. No mês passado o jornalista Sérgio Augusto, do Caderno “Aliás”, do Estado de São Paulo, recorre ao texto do americano para comentar que nos últimos anos estamos vendo um empobrecendo de direção, edição e roteiros dos filmes, pois grandes planos seqüenciais abertos estão virando coisa do passado já que dão muito trabalho para serem filmados e acabam passando despercebidos em telas de I-phones, computadores e celulares. “Um dos magníficos planos abertos de Joel e Ethan Coen em ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ pareceria um mero papel de parede pobre e de mau gosto na telinha do computador”, destaca Sérgio Augusto.
Já na Rolling Stones o jornalista americano Robert Levine prova por A+ B que mesmo com toda a atual tecnologia dos estúdios atuais a qualidade dos CDs atuais estão bem piores. O problema é o seguinte: Como música hoje é ouvida através de MP3 que compacta o som e tira muito de sua qualidade, os produtores estão cada vez menos atenciosos a nuances e toda música soa exageradamente alta para chamar a atenção dos ouvintes através das caixinhas do computador. A frase do cantor e compositor Donald Fagen, do grupo setentista de jazz rock Steely Dan é genial e resume o assunto: “Deus está nos detalhes, mas eles foram apagados”. E sentencia: “Com todas as inovações técnicas, a música piorou”. É o chamado fast food cultural. Ao invés de uma refeição balanceada estão todos preferindo sanduíches pesados e ocos em vitaminas. Parece que a superficialidade é palavra de ordem no futuro.

Um clipe



Clipe novo do Racounters, banda americana liderada pelo talentosissimo Jack White. Esse segundo álbum não é tão bom quanto o primeiro, mas a banda continua ótima.
Editor
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PerfilLuciano Assis
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
Perfíl do Blog
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O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.

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