Há algumas semanas o vereador Paulo Sérgio Vieira Neves -Paulo Chocolate -, de Americana, protocolou na Câmara Legislativa da cidade uma moção de repúdio contra a “Dança do Créu”, sucesso absoluto do Carnaval deste ano. O hit musical consiste no autor da música, o produtor de funk carioca Sérgio Costa, mais conhecido atualmente como MC Créu, cantando uma letra simplória que repete uma espécie de mantra sexual: "Pra dançar créu tem que ter disposição /Pra dançar créu tem que ter habilidade /Pois essa dança ela não é mole, não /Eu venho te falar que são cinco velocidades", que são repetidas em cinco velocidades diferentes. A letra é besta e (eu achei) até engraçada, mas a dança é cheia de movimentos sexuais, o que acaba gerando a ira dos mais moralistas, porque os movimentos são feitos não pelo MC, mas por duas meninas apertadas em shortinhos e blusas provocantes. Não vou entrar aqui no mérito da qualidade musical, até porque seria perda de tempo. A “Dança do Créu” não possui nenhuma qualidade artística, mas isso não é demérito nenhum, já que já disse algumas vezes aqui que prefiro lixo explícito do que artistas que disfarçam sua nulidade musical posando de chiques, sofisticados e “cabeças” (pense em alguém da nova MPB). O problema aqui é a ausência de observação histórica e a falta de foco dos críticos desses modismos. A “Dança do Créu” é filha e neta direta da Éguinha Pocotó (alguém ainda lembra?), do funk Carioca, do É o Tchan e da lambada. E como todas essas modas vai passar tão rápido quanto apareceu. O foco de nossos esforços para que a fábrica de bobagens musicais pare de nos incomodar são os empresários de TVs, rádios e gravadoras que descobriram uma mina de ouro fabricando sucessos repentinos que duram tanto quanto um sorvete no deserto. Nesta semana conversei via telefone com a dançarina Andressa Soares, de 19 anos, uma das dançarinas que criou a coreografia da “Dança do Créu”. Menina simpática e que tem amigos aqui em Americana, ela trabalhou em vários empregos mal remunerados antes de ser contratada para acompanhar o MC Créu pelo Brasil e nos programas de TV. Se não tivesse dançando provavelmente ela estaria vivendo com o salário de vendedora em alguma loja de sapato do Centro do Rio de Janeiro e estudando a noite, numa escola pública caindo aos pedaços. Não serei eu o responsável por cobrar dignidade artística e engajamento político dessa garota de 19 anos. Agora o dono de FM que recebeu uma concessão pública ou o empresário de gravadora que recebe verba do Ministério da Cultura através de leis de incentivo devem ser encostados na parede e questionados sobre tais atrocidades. Nossos governantes (e presidentes, prefeitos e vereadores) também, pois não dá para esquecer que a “Dança do Créu” é um rascunho de nosso nível de exigência cultural, um espelho da mazela do jovem médio brasileiro que não consegue gostar de nenhuma música que tenha mais de dois versos, por causa de uma Educação tão imoral quanto um grupo de crianças dançando o tal do Créu”. PS –E toda vez que vejo um político se dizendo indignado com a falta de moral de algum artista lembro das TVs dos anos de 1950 proibindo a presença de Elvis Presley, que dançava rebolando suas canções de apelo sexual como “Tutti Frutti”, “Blue Suede Shoes”. A história às vezes prega algumas peças.
Duas coisas me chamaram a atenção na cerimônia do Oscar deste domingo. A primeira foi os muitos prêmios dados a atores europeus, numa prova que o Oscar anda cada vez mais globalizado (ou simplesmente aberto ao mundo). Outro ponto positivo foi que dos cinco concorrentes ao Oscar de melhor documentário, quatro tocavam na ferida de problemas americanos (sistema de saúde e guerra, principalmente). Outra prova que mesmo os políticos republicanos estando fechados em suas próprias cascas, a classe artística ainda está atenta aos desmandos de seu governo.
Melhor Filme – “Sangue Negro” Melhor Diretor – Joel e Ethan Coen Melhor ator – Daniel Day-Lewis Melhor atriz – Cate Blanchet Ator Coadjuvante – Javier Barden Atriz Coadjuvante – Cate Blanchet
Na última semana a cantora Madonna provocou uma tremenda confusão no Festival de Cinema de Berlim. Milhares de fãs e curiosos invadiram o local onde acontecem as exibições dos filmes para ver a mega estrela que chegou ao local para a exibição do filme "Filth and Wisdom", sua estréia como diretora de cinema. Em relação ao filme a crítica ficou dividida entre aqueles que o acharam ruim e outros que o acharam não tão ruim, demonstrando que não foi desta que a americana conseguiu acertar a mão em suas aventuras pela sétima arte. Em quase trinta anos de carreira Madonna só conseguiu fazer ou bobinhas comédias como “Procura-se Susan Desesperadamente” (1986) ou abacaxis milionários como “Evita” (1995). Pelo que andei lendo "Filth and Wisdom" tem pretensões mais “artísticas”, mas o resultado fica aquém do vislumbrado pela cantora. Mas Madonna também não é uma cantora. Ou melhor, é uma artista que usou a música como veículo para uma revolução particular que por acidente acabou se estendendo para o lado comportamental de sua época. A música que ela produziu em seu auge artístico (1988 a 1992) é até hoje influencia para muitos DJs e produtores de dance pelo mundo, mas isso foi um acaso, pois como uma popstar pré-Britney, Madonna queria mesmo era chamar a atenção para aquilo que fazia fora de cena e, por incrível que pareça, esse será para sempre a grande contribuição de Madonna para o futuro. Calma, explico: Nos anos 60 o movimento feminista explodiu em todo o mundo colocando as mulheres em pé de guerra com o sexo oposto. Líderes feministas radicais bateram de frente contra o machismo de então na busca por sua própria identidade e lugar ao mundo. No final das contas, elas saíram vencedoras, felizmente, mas isso criou um efeito colateral: o extermínio de uma feminilidade que passou a ser estranhamente exclusividade das garotas “bonitinhas e burrinhas”, mesmo que isso não correspondesse a uma realidade histórica concreta. Quando surgiu cantando coisas como “Material Girls” (“Sou uma garota Objeto”, afirmava ela na letra) Madonna atraiu a ira das feministas que viam sua luta “contra o sexo oposto” cair por terra através de uma estrela que queria ser objeto nas mãos dos homens. Mas Madonna era muito mais esperta que isso (diferente do que as feministas, os machistas e até eu pensava) e criou um pós- feminismo que hoje ecoa de Simone de Beauvoir a Deise Tigrona, passando por Kelly Key e até em Britney Spears. Esse pós-feminismo exalta que as mulheres devem ser lindas, sexys, gostar de sexo (as feministas dos anos 60 viam o sexo apenas como a maior forma de dominação do macho) e ainda tomar conta da situação. Madonna não é uma grande cineasta, sua música apesar de divertida não é nada genial, mas ela exercerá influencia sobre as relações homem x mulher pelo futuro adentro, seja com a delicadeza de canções como “Bedtimes Historys” ou com as cintas ligas de “Vogue”. Durmamos com essa verdade.
Já estou ficando repetitivo, porque todo ano reclamo do mesmo problema aqui na região. Estamos na semana da cerimônia do Oscar e os cinéfilos só falam sobre as chances de seus concorrentes preferidos, etc e tal. Mas aqui na região parece que os cinemas ainda não foram informados da existência desse prêmio que acontece na noite de domingo em Los Angeles, pois nenhum dos concorrentes estão em cartaz por esses lados. Se alguém quiser ver longa metragens como “Desejo e Reparação”, “Sangue Negro” e “Onde os Fracos Não Têm Vez” terão que se locomover até Campinas ou Piracicaba. Já fiz várias matérias sobre isso e a desculpa é sempre a mesma: os filmes são colocados em cartaz levando em conta o perfil de cada cidade, número de habitantes e interesse demonstrado previamente pelos filmes. Ou seja, segundo as pesquisas nossa região está mais para Sylvester Stallone e seu “Rambo 4” do que para os Irmãos Cohen de “Onde os Fracos Não Tem Vez”. Então lanço a pergunta: Não temos filmes bons por que só nos interessamos por filmes ruins ou só nos interessamos por filmes ruins por que não temos filmes bons? Qual será o segredo de Tostines?
A Lucas Films colocou na Internet agora há pouco o trailler do novo Indiana Jones, que logo deve estar pintando também nos cinemas. O que vocês acharam?
Impressionante a capacidade que o filme “Tropa de Elite” tem em provocar polêmicas. Na segunda-feira ele foi exibido no festival de Berlim em uma sessão ultra tumultuada, com direito até à sumiço da cópia legendada. E hoje o crítico Jay Weissberg, da revista americana “Variety”, fez duras críticas ao filme, chamando-o de fascista, direitista e de exaltar a tortura. Algumas horas depois o blog do crítico estava entupido de comentários indignados que acusavam Jay de ignorância e desconhecimento da realidade brasileira. Mas Jay não está totalmente errado em sua avaliação. Na primeira vez que assisti “Tropa de Elite” (no total foram três) também achei que o diretor José Padilha se perde em determinados trechos passando ao espectador o contrário daquilo que ele desejava provar. Tanto que o Capitão Nascimento virou herói de muitos grupos neonazistas, mesmo com Padilha insistindo que o objetivo foi mostrar um homem tomado por conceitos estreitos e moralistas sobre a violência urbana. Também deve-se levar em conta o fato de “Tropa de Elite” ser o mais local dos filmes lançados no Brasil nos últimos anos. Chega a ser surreal para um europeu ou americano entender, por exemplo, a seqüência em que policias da PM do Rio de Janeiro se degladiam pela propina de comerciantes nas ruas do Rio de Janeiro. Mas a crítica da Variety não foi o tom geral do que a imprensa internacional achou do filme brasileiro. O jornal espanhol El Mundo, por exemplo, chegou a publicar uma entrevista com o diretor José Padilha.
Não sei se isso ainda acontece nos dias atuais, mas quando estava na escola os primeiros meses da disciplina de Literatura Brasileira eram terríveis em função da obrigatoriedade que tínhamos em começar a aprender as escolas literárias pelo Romantismo do século 19. Todos pegávamos uma “Joséalencarfobia” com aquelas páginas e páginas de descrições e histórias de uma inocência absurda, para não dizer chatas de doer. Até hoje tenho certeza que vários amigos da época passaram a vida longe da maravilha que é o mundo da literatura por guardarem na memória o “trauma” de lerem histórias como as de “O Guarani” e “Senhora”. O encanto pela leitura me bateu alguns anos depois, com a descoberta de Machado de Assis. O que mais me impressionou em meus primeiros contatos machadianos foi a capacidade de dialogar com o leitor que o escritor carioca tinha. Era como se ele estivesse me contando a história, sem o intermediário do livro. Fora isso, nas passagens mais tensas, parecia que meu xará de sobrenome exalava uma leve ironia, como se observasse de longe as tragédias fluminenses de sua época. Gostei tanto daquilo que cheguei a inventar uma história absurda para os amigos de classe que Machado de Assis era um primo distante do meu bisavô. Foi uma mentirinha que acabou se espalhando e tornando-se maior do que eu esperava, como acontece com a maioria das mentirinhas. Mas deixa isso prá lá. O fato é que neste ano do centenário de morte de Machado de Assis, as editoras estão soltando no mercado dezenas de novas edições de obras primas como “Dom Casmurro”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, “O Alienista”, etc. São livro fundamentais para se entender a evolução de nossa Língua Portuguesa do parnasianismo que durou de Padre Antonio Vieira até Machado, que deu início a todo o modernismo brasileiro, não só na Literatura, mas também nas artes plásticas (Sem Machado, talvez a Semana de Arte de 1922, seria atrasada em alguns anos), na música e no teatro. Pena que hoje os adolescentes estejam tão presos na ditadura do vestibular que não tenham tempo para mergulhar na obra machadiana como era merece e acabem lendo a toque de caixa apenas os indicados pelas grandes universidades, deixando para trás todas as nuances contidas em cada um dos 32 livros (entre romances, contos, novelas e poesia) escritos pelo Fundador da Academia Brasileira de letras. Por isso, deveríamos aproveitar 2008 para introduzir uma campanha nacional de popularização da leitura de Machado de Assis, que distribuísse livros e adaptasse obras dele nos intervalos dos programas de maior audiência da TV. Ah, e que nos vestibulares os alunos tivessem liberdade para dissertar sobre o livro que quisessem, podendo ao final dar seu aval se Capitu traiu ou não Bentinho. Eu por exemplo acho que traiu, mesmo estando ciente que isso não faz a menor diferença para os planos literários machadianos.
Bela imagem para uma detalhada matéria sobre o inferno vivido por Britney Spears. No titulo da matéria de capa da revista Rolling Stones, um resumo de tudo: "Por dentro de uma tragédia americana".
Há pelo menos uns três anos acompanho a chamada redescoberta da dita década perdida entre o escárnio e o interesse velado, porém nostálgico. Fui criança e pré-adolescente nos anos 80, e guardo até boas recordações daquela década de inflação alta, de grupos como Menudos, do Sarney e desenhos animados muito bons. Mas nesse mês chega aos cinemas brasileiros o novo Rambo, dirigido e "atuado" por pelo ator (!) Sylvester Stallone. Socorro! Isso já é demais. Nascido no auge do governo de Ronald Reagan, Rambo foi a melhor encarnação do pensamento reacionário americano da época. O dito herói que foi ex-combatente do Vietnã, saía matando tudo quanto é ser de olhos puxados que via pela frente para defender os interesses de sua nação, colocando qualquer bípede que morasse fora das fronteiras americanas como inimigo. Mas como qualquer tipo de arte não existe sem contexto, é interessante pensar os porquês que levaram um estúdio a investir milhões num filme como esse. Como já comentei, Rambo é o representante maior da Era Reagan, que foi sucedida por Bush pai. Ou seja, dois políticos de limitada visão global, e patriotismo burro. Nada diferente do modus operante de Bush filho, que vê o planeta como um grande Iraque, cheio de potenciais pontos de ataque. Aliás, o conjunto de filmes de uma determinada época dá uma visão panorâmica da época em que foram produzidos. Talvez os momentos mais angustiantes da Guerra Fria, travada entre Estados Unidos e União Soviética, tenha acontecido também nos 80, como mostram desenhos como He-Man, cujos inimigos tinham em sua maioria nomes que remetiam ao idioma russo (Modulok, Tri-kops, Zodak). O mesmo Stallone, que recentemente ressuscitou seu Rocky em um sexto filme também planeja refilmar a série "Desejo de Matar", lançada em 1974 pelo ator já falecido Charles Bronson. Para quem não lembra o personagem tinha uma visão social de dar nós no estomago de qualquer estudante de Ciências Sociais, pois seu lema para resolver o problema de violência no mundo era descer bala no primeiro que usasse cabelo moicano ou black power. O tempo passa, o tempo voa. E a gente não sai do lugar. Triste.
Começou nesta sexta-feira a venda de ingressos para os shows do cantor e compositor Bob Dylan no Brasil, no próximo mês de março (5 e 6 em São Paulo). O problema é que os produtores esqueceram em que país vivem e o resultado é isso aqui embaixo:
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.