7.01.2008

Americanos

Sou americanizado! Pronto, confessei. Seria mentira negar. Adoro Rock and Roll, Literatura Beat, Jazz, Blues, Pop Art, Cinema e outros produtos nascidos naquele pedaço tão contraditório de mundo. Em nenhum outro país a palavra “contraditório” orna tão bem. Veja só: o mesmo país que no século 20 deu ao mundo as formas de arte mais libertárias da história (todas as citadas acima) elege verdadeiros asnos como George W. Bush. O mesmo país onde o movimento hippie ganhou cara pregando a paz e o amor, não consegue passar uma década sem armar pelo menos uma guerra bem sangrenta. O mesmo país onde a pena de morte ainda é tolerada como forma punitiva convive com o maior índice de violência do mundo.
Uma boa forma de resolver tamanho quebra cabeça e decifrar os Estados Unidos da América pode estar no livro “Artist in Exile”, de Joseph Horowitz, que acaba de ser lançado no exterior (ainda sem previsão de lançamento aqui). Nele, Joseph, um conceituado professor de História, nos mostra como um dos países mais racistas do mundo, onde o aperthaid entre brancos e negros existe de forma velada até os dias atuais (e que vai eleger um presidente negro, em mais uma demonstração de contradição) recebeu de braços abertos vários intelectuais e artistas que fugiam dos regimes totalitários europeus (nazismo, fascismo, franquismo). O livro também dá crédito a forte influência da cultura africana no País, como não podia ser diferente, pois toda a grande música americana tem sangue afro.
Essa miscelânea cultural foi primordial para que a terra do Pato Donald se transformasse no que é hoje e uma prova da importância do pluralismo de pensamentos na sociedade. Charles Chaplin não era americano, mas fez suas maiores obras primas, em solo yankee. Albert Einstein também não nasceu nos Estados Unidos, mas até hoje tem gente que pensa que sim. Durante o nazismo os soldados de Hitler queimavam as obras do austríaco Sigmund Freud, enquanto na América esses livros eram publicados.
Essa passagem da Historia é o que transformou o gigante americano no que ele é hoje, mesmo assim enquanto essa diversidade racial transformava a arte americana, seitas como a Klux Klux Kan perseguia negros pelas ruas. No início do rock, gente como Chuck Berry e Little Richard fugiam de seus próprios shows sob o perigo de serem queimados nas portas das casas de espetáculos onde se apresentavam.
Mas a arte triunfou, e para o horror de alguns esquerdistas mais radicais a melhor música do mundo é a americana, seguida da brasileira (sem nacionalismo) e a cubana. “O resto é valsa”, como dizia Tom Jobim. Alguém lendo isso pode até bradar: “Mas as melhores bandas do mundo saíram da Inglaterra!”. Sim, da mesma maneira que jogamos o melhor do futebol do mundo (ou pelo menos jogávamos, antes do Dunga), mas quem criou o esporte foram os ingleses e não dá para tirar o crédito deles.
Por isso, arrisco-me dizer que somos todos uns americanizados, sejam aqueles que se entopem de Mc Donalds ou os que exibem uma chamativa camiseta do Che Guevara. E isso é bom e muito ruim, ao mesmo tempo. Existe algo mais americano que isso?

1 Comentários:

Anonymous Natalia disse...

Concordo, Luciano. Eu também a.d.o.r.o a cultura americana, como a comida (leia-se junk food), música, cinema, livros, e muito mais. Eu assumo mesmo, e tô nem aí. Uma ex-colega de trabalho sempre me dizia: "odeio eua. eu reciclo e não poluo o meio ambiente." e outras coisas de nada interessantes. Só que, ela anda de carro, usa camiseta do Che Guevara (ai se ele visse isso, totalmente FORA dos conceitos dele) e tem a coragem de dizer que odeia isso e aquilo. É ótimo poder dizer o que você adora, idependente se irão gostar ou não. Ufa! Chega, né? Uma boa semana!!!

2 de Julho de 2008 16:13  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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