6.10.2008

Agonia em praça pública

Amy Winehouse é uma ótima cantora. Gravou em 2006 um belo disco chamado “Back To Black”, onde atualizava com sua possante voz de diva dos anos 60 a soul music daquela década através de vocais que passeava com desenvoltura entre o hip hop e o canto classudo das gravadoras americanas negras (Stax, Motown). Colocando cimento em tudo isso, o produtor Mark Ronson rebocava com perfeição cordas e batidas funkeadas, sem deixar todo esse molho desandar. Visionário e nostálgico, ao mesmo tempo, Amy logo se tornou referência para diversas outras candidatas a divas pelo mundo.
Mas pelo andar da carruagem a carreira da inglesa acabou nisso. De lá para cá ela caiu num desfiladeiro de tragédias pessoais, drogas e depressão que parece não ter fim.
Isso não é uma novidade no mundo artístico. Chet Baker, Charlie Parker, Billie Hollyday, Gene Vicent, Jim Morrison, Elvis Presley, Gram Parsons e Kurt Cobain e tantos outros nomes chafurdaram na lama dos excessos do showbizz, deixando pelo caminho uma obra admirada e um cadáver corroído por aditivos. Mas duas diferenças separam as histórias de Amy dessa turma toda. A primeira é o grau de genialidade, pois por mais que tenha surgido como um talento promissor, ela não conseguiu sair do nível da promessa. Outra é o azar de ter nascido artisticamente numa era em que tragédias pessoais são combustíveis da locomotiva midiatica, alimentando jornais, revistas e sites, que parecem torcer para que novas Britneys, Lindsays Lohans, e Amys nasçam a cada momento. A dor é algo cada vez mais superficial e o sofrimento tem que ser às vistas do povo, no braço dos fãs. As cortinas nunca se fecham.
Nesta semana Amy foi acompanhar o julgamento de seu marido, preso desde o final do ano passado e fotógrafos do mundo todo deram closes em seu rosto coberto de hematomas, que segundo notícias divulgadas foram causadas pelo excesso de drogas consumido pela jovem de apenas 24 anos (parece 50!). A imagem correu o mundo, para deleite de todos, que assistem de camarote uma pessoa tão jovem e promissora agonizar em praça pública.
Não sei precisar o quanto a própria celebridade Amy se aproveita disso, pois como uma vez disse George Harrison, só é famoso quem quer. Mas a declaração do ex-beatle foi feita há mais de 40 anos, talvez ele tivesse outra opinião nesse século 21.
Mas o triangulo escândalo/sucesso/ interesse público parece um casamento duradouro e interessante para todos (empresários, artistas, público, jornais) e conta ainda com mais uma vantagem: Não é necessário talento artístico para entrar nesse jogo, pois a superficialidade é a dona da situação e o jogo de cena não exige preparo ou cérebro. Tristes dias que estamos vivendo. Tristes para nós e para a música. Próximo.....

1 Comentários:

Anonymous Natalia Goltara disse...

Amy Winehouse não é somente uma cantora. É a melhor de todos os tempos. Os tablóides deixam as pessoas assim mesmo, igual ao caso da Britney Spears. Os jornalistas querem vender, se o famoso está se acabando com isso, o problema é inteiramente dele. Mas, a culpa principal são dos leitores, as sanguessugas que querem saber de tudo - sabem mais da vida da Amy Winehouse do que de sua própria.

16 de Junho de 2008 14:01  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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