5.06.2008

Ronnie Von

Matéria da capa do Caderno L que eu fiz há umas duas semanas e que me foi muito prezerosa, pois sou fã daquela pouco conhecida trilogia de discos psicodélicos lançados por Ronnie Von no final dos ano 60. Claro que eu aproveitei a oportunidade e passei a maior parte da entrevista tirando duvidas pessoais sobre a elabaroração e as histórias que envolvem esses discos citados. Também falamos da cidade Americana e da TV atual. Quem não leu no LIBERAL deixo ela postada aqui no blog. Para quem não já leu há alguns trechos que foram tirados da edição final.


Meu bem, meu mal

O cantor (aposentado) e apresentador Ronnie Von visita Americana, fala de sua relação com a cidade e de um livro inédito escrito pelo filho do Comendador Muller que só ele leu.

O mundo deu muitas voltas na vida de Ronnie Von, 63. Nascido em família abastada do Rio de Janeiro, ele renegou os negócios da família de banqueiros para ser cantor. Conheceu o sucesso na época da Jovem Guarda (movimento que ele nunca integrou) e a decadência quando gravou entre 1968 e 1970 três discos ultra-radicais mergulhados em experimentações lisérgicas e referencias cultas, que foram ignorados por fãs e críticos. A queda estava decretada e o ex-príncipe foi ser publicitário nos anos 70, 80 e 90 para ganhar a vida após o turbilhão do sucesso da inocente “Meu Bem” (versão de “My Girl”, dos Beatles). Mas como nem tudo é definitivo na vida desse carioca de alma paulistana, e os mesmos trabalhos ignorados hoje são saldados como referência entre novos músicos a ponto de até um tributo em homenagem a ele reunir bandas de diversas vertentes. Fora isso, como apresentador de TV ele vem arrancando elogios e pontos no Ibope com seu programa “Todo Seu” (TV Gazeta). Todos esses papéis são revelados na entrevista abaixo que ainda destaca um outro aspecto da vida de Ronnie: o de profundo conhecedor da história de Americana, a ponto de possuir um manuscrito inédito de Horst Muller, filho do Comendador Muller.

LIBERAL - Ronnie, primeiro eu queria saber de sua relação com Americana. Muitos aqui até pensam que você é da família Muller, que no século 19 ajudou a fundar o município. Como surgiram esses laços com essa família de origem alemã e como se iniciou sua relação com Americana?

Ronnie Von – Isso vem de muitos anos. Eu sou formado em Economia e Biologia, mas sempre fui fascinado por História, principalmente da época do Segundo Império aqui no Brasil. Aprofundei-me nas leituras desse período a partir dos anos 60 quando vim do Rio (de Janeiro) para São Paulo, e sempre tive uma curiosidade particular pela vinda dos americanos para o Brasil, por isso já conhecia bem a história de Americana e dessa região toda. Mas por essas coisas do destino, me casei com uma mulher que era enteada do Horst Muller Carioba, que é filho do grande Franz Muller, patriarca da família. Aí surgiu esse estreitamento de relação com a cidade, pois não só ia visitar muito o bairro de Carioba como passava horas conversando com meu sogro sobre curiosidades da formação da região do Salto Grande. Tenho até um manuscrito dele sobre o bairro que ficou comigo quando ele morreu e ainda não foi publicado.

LIBERAL - Alguém sabe desse manuscrito? Talvez seria um livro interessante para ser publicado aqui na cidade...

Ronnie – Também acho. Está comigo e detalha muita coisa interessante da infância do Horst.

LIBERAL – A Rita Lee também tem raízes aqui. Ela é da família Jones, que veio para cá após a Guerra da Sucessão nos Estados Unidos. Vocês foram muito próximos nos anos 60, sendo você até é o responsável pelo nome dado ao primeiro grupo dela (Mutantes). Vocês trocavam informações sobre Americana já naquela época.

Ronnie – Isso do nome Mutantes é interessante. Eu estava lendo um livro de ficção cientifica chamado de “O Império dos Mutantes” e foi bem na época que o O’ Seis (primeira formação dos Mutantes) acabou. Aí eles estavam escolhendo um novo nome e eu fiz essa sugestão. Mas eu e a Rita não falávamos muito de Americana não. Ou melhor, eu falava, mas ela nunca tocou no assunto, que eu me lembre.

LIBERAL – Nos últimos anos aconteceu uma redescoberta do Ronnie Von cantor e compositor, através de seus três discos mais radicais lançados entre 1968 e 1970. Na época esses álbuns foram ignorados e agora são saudados como ousados e à frente do tempo. Como você encara essa reavaliação?

Ronnie – Para mim foi uma monumental injeção de juventude. Eu até hoje sou considerado um nome pertencente da Jovem Guarda, mas a verdade é que nunca fui daquele movimento. Pelo contrário, existia até uma rixa criada por empresários de que eu e o Roberto éramos inimigos. Mas existia uma má vontade dos formadores de opinião comigo, e esses mesmos formadores nem ouviram esses discos que você citou. E eu tinha gana de fazer uma obra ousada, cheia de referência ao rock psicodélico, às artes plásticas de Salvador Dali. Mas me esculacharam sem dó numa enxurrada de críticas, me jogaram no lixo sem dó e até pouco tempo pensavam que eu só tinha feito “Meu Bem”, que nem é minha, mas uma versão. Mas essa nova geração tanto de músicos quanto de críticos me vingou, me senti vingado, essa foi à verdade.

LIBERAL – Você apresenta um programa que tem rendido muitos comentários elogiosos. Depois da avalanche de críticas chegou a hora do Ronnie Von unanimidade nacional?

Ronnie – (risos) O curioso é que o sucesso do programa está sendo grande justo no formador de opinião, numa prova que o mundo é realmente redondo e dá voltas incríveis. Mas creio que o sucesso dele é por outros motivos. Chegamos a um momento tão baixo na TV, de tanto barraco que parece que quando botamos um programa que quer entreter, informar e discutir um pouco de cultura ele serve como um respiro para o telespectador. Uma jornalista disse uma coisa engraçada esses dias: “Antes do programa do Ronnie e coisa mais inteligente na TV aberta era o mundo animal”. Achei engraçado, mas é triste ao mesmo tempo.

1 Comentários:

Blogger Nicole Prestes disse...

Está na hora de atualizar isso aqui em luciano? hahaha.
Abraço,
Nicole

13 de Maio de 2008 12:18  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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