O cinema mundial está em crise
Pasmo é a palavra que melhor descreve meu sentimento ao ler essa semana que a expectativa de maior ganho da industria cultural americana para 2008 é para o lançamento do jogo GTA 4, um dos mais contestados videogames atuais. Repleto de violência e perseguições, o jogo é criticado por pais e educadores, mesmo assim a industria fabricante do jogo espera um faturamento de US$ 400 milhões apenas no primeiro final de semana de vendas no mundo. Esse valor é maior que o arrecadado pelo longa metragem “Homem de Ferro”, que chegou aos cinemas há duas semanas e ao final do ano deve estar entre as quatro ou cinco obras cinematográficas mais vistas de 2008. Desde quando nasci ouço a palavra crise sendo usada para explicar a situação da economia, da política, da minha casa e do meu time, mas nunca havia presenciado uma crise da industria cultural de forma tão definitiva. Entre o estouro dos Beatles e o reinado de ícones pop como Madonna e Michael Jackson a industria fonográfica viveu seu auge, com artistas faturando milhões e milhões e vendendo essa mesma quantia, seja no Brasil ou no mundo.
Após a aparição dos filmes Blackbuster (por volta de 1976) foi a vez dos cinemas arrecadarem cifras extraordinárias. Agora, ambos estão perdendo espaço para um mísero jogo de ação.
No caso da música não tem nem o que teorizar. A pirataria e a falta de inteligência e conhecimento dos que trabalham com música acabou com a industria, que migrou para a Internet e continua até agora esperando um gênio que descubra como fazer dinheiro no mundo virtual. O problema na música não é nem tanto criativo, mas de foco, já que poucas vezes tivemos tanta música (e algumas muito boas) sendo lançada via Web.
Já no cinema é outra coisa. Nos últimos anos nos vimos soterrados por adaptações em quadrinhos (Batman, Homem Aranha, Speed Racer, Quarteto Fantástico, Super Homem, Constantine, Sin City), e adaptações de livros (O Código Da Vinci, Harry Potter, O Senhor dos Anéis), o que indica, no mínimo, falta de bons roteiristas.
Quando esporadicamente surge algo que case boas idéias e originalidade acaba entrando nos rincões alternativos (alguém aqui na região assistiu “Onde os Fracos não têm Vez” ou Sangue Negro”?) ou renegados a pequenos momentos de glórias em cerimônias internacionais, como foi o caso de “Pequena Miss Sunshine” (2006) “Juno” (2007).
Alguém poderia dizer: Mais no Brasil estamos bem, pois nos últimos tempos tivemos filmes nacionais com boas bilheterias. É verdade, mas globalmente é o cinema americano que dita as regras do mercado, e a médio prazo tal crise criativa no cinema comercial deles pode até a afetar produções menores em países como Hong Kong, México e mesmo o Brasil, que no momento estão em boa fase criativa.
Os Estados Unidos tiveram de tempos em tempos grandes renascimentos em seu cinema. Por exemplo: No final dos anos 60 essa mesma pasmaceira de idéia atingiu o cinema deles após anos de grandes filmes nos anos 50, 40 e 30. Foi uma entressafra que teve fim com a geração de ousados jovens diretores recém saídos da universidade, como Martin Scorsese, Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg. Se pelo menos essa crise servir para nascer uma geração dessas, estaremos bem. Mas os tempos são outros e a história não se repete com tanta similaridade.











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