Estamos cada vez menos exigentes
Há tempos tenho uma impressão pairando sobre meus pensamentos. Algo me diz que toda a tecnologia e velocidade de informação a que somos submetidos está acabando com nossas exigências culturais, nosso senso crítico, nossa capacidade de distinguir o joio do trigo no âmbito cultural. Isso acontece porque somos soterrados por uma avalanche de novas músicas, filmes, vídeos, informações, lançamentos que não nos deixa respirar e apreciar. Essa é a palavra! Apreciar. Sem apreciação não existe arte e apreciação denota tempo, tranqüilidade, atenção, envolvimento. Quando era garoto – e nem faz tanto tempo assim, diga-se de passagem – a compra de um disco implicava economia de dinheiro, esforço de achar a loja mais badalada da cidade, tempo de espera da encomenda chegar, leituras de resenhas em jornais que nos deixavam ansiosos, etc. Quando o tal álbum chegava, era uma maravilha. Pelo mês seguinte só ouvíamos aquilo, afinal nosso suado dinheiro economizado em lanches da escola tinha se esgotado e uma nova compra só era possível no mês seguinte.
Hoje, os downloads via Internet acabaram com tudo isso – o que tem seu lado bom, claro – e um jovem de 17 anos baixa dezenas de músicas num único dia, da qual ele ouvirá menos da metade muito rapidamente. Afinal de contas, no dia seguinte mais músicas deverão ser baixadas. Isso força a industria cultural a produzir mais para abastecer esse garoto (a) e entramos numa bola de neve de alta velocidade consumista. O exemplo dado acima é musical, mas já atingiu também o cinema, O DVD e, um pouco menos, o teatro e a literatura.
Geração fast food
Essa tal “impressão” a que me refiro acabou verbalizada nas últimas semanas através de um texto de Internet assinado pelo diretor americano de cinema David Lynch (“Twin Peaks”, “Cidade dos Sonhos”) e por uma matéria na revista Rolling Stone.
De forma até agressiva, Lynch diz que “só sendo muito imbecil para se divertir assistindo um longa metragem numa tela de celular”. No mês passado o jornalista Sérgio Augusto, do Caderno “Aliás”, do Estado de São Paulo, recorre ao texto do americano para comentar que nos últimos anos estamos vendo um empobrecendo de direção, edição e roteiros dos filmes, pois grandes planos seqüenciais abertos estão virando coisa do passado já que dão muito trabalho para serem filmados e acabam passando despercebidos em telas de I-phones, computadores e celulares. “Um dos magníficos planos abertos de Joel e Ethan Coen em ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’ pareceria um mero papel de parede pobre e de mau gosto na telinha do computador”, destaca Sérgio Augusto.
Já na Rolling Stones o jornalista americano Robert Levine prova por A+ B que mesmo com toda a atual tecnologia dos estúdios atuais a qualidade dos CDs atuais estão bem piores. O problema é o seguinte: Como música hoje é ouvida através de MP3 que compacta o som e tira muito de sua qualidade, os produtores estão cada vez menos atenciosos a nuances e toda música soa exageradamente alta para chamar a atenção dos ouvintes através das caixinhas do computador. A frase do cantor e compositor Donald Fagen, do grupo setentista de jazz rock Steely Dan é genial e resume o assunto: “Deus está nos detalhes, mas eles foram apagados”. E sentencia: “Com todas as inovações técnicas, a música piorou”. É o chamado fast food cultural. Ao invés de uma refeição balanceada estão todos preferindo sanduíches pesados e ocos em vitaminas. Parece que a superficialidade é palavra de ordem no futuro.











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