4.14.2008

Wilson Simonal

No último final de semana fui conferir o “É Tudo Verdade”, festival de documentários que há mais de uma década traz os melhores trabalhos do segmento ao Brasil todo começo de ano. Aliás, ando impressionado com a quantidade e diversidade de filmes documentários lançados e tendo destaque nos últimos anos, mas depois eu falo mais sobre isso.
A principio me desloquei até São Paulo para ver uma das sessões de “Joy Division”, do inglês Grant Gee que acompanha e detalha a história do mitológico grupo punk inglês Joy Division. Mas como todas as sessões estavam lotadas acabei partindo para minha segunda opção, o documentário “Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei”, dos diretores Claudio Manoel (do Casseta & Planeta), Micael Langer e Calvito Leal.
No final, fiquei feliz com o imprevisto. A obra é uma devassa na carreira de glória e queda do cantor Wilson Simonal, que em seu auge só perdia em sucesso para Roberto Carlos e após o ano de 1972 caiu em desgraça em função de um único ato mal pensado. É exatamente esse ato, explicado em detalhes no filme, que faz todo o documentário valer a pena.
Filho de um Pedreiro e de uma empregada doméstica Wilson Simonal nasceu em 1939 e tinha de tudo para não ser nada na vida. Mas por um dessas ironias do destino era um talento talhado para o sucesso. Ótimo cantor cheio de ginga dava vida a canções como “Mamãe Passou Açúcar em Mim”, “Balanço Zona Sul”, “Aos Pés da Santa Cruz” e “A Tonga da Milonga do Kabuletê”. Seus shows enchiam ginásios e as rádios tocavam seus discos a toda hora entre o final dos anos 60 e começo dos 70.
O sucesso tornou o negro pobre Simonal numa estrela e diferente da maioria dos artistas com a sua cor de pele que baixavam a cabeça com os desmandos de empresários brancos espertalhões, ele era abusado e exibia seus carrões e namoradas loiras pelas festas da alta sociedade. Era um Roberto Carlos mais malandro, vivido, exibido e explosivo.
Mas quis o destino que tudo isso fosse por terra e em 1971. Ao descobrir (ou desconfiar) que estava sendo roubado por um contador contratou dois agentes torturadores do Regime Militar para dar uma surra no suposto ladrão. Inocente e sem escolaridade para ponderar a leviandade de seu ato e até contando vantagem aos amigos, o fato caiu nos ouvidos de toda classe artística que não agüentava mais aqueles anos vividos sob as botas do exército.
E o mundo de Simonal caiu. Aos poucos ele foi sendo deixado de lado por todos e as histórias de que era um delator de artistas para o militares piorou a situação.
O filme mostra como foi a vida do cantor pelos anos seguintes: Alcoolismo, depressão e desesperadas tentativas de limpar sua barra e voltar ao que era antes. Mas não deu certo e Simonal faleceu em 2000 como pé de página na história da música brasileira. “Para ele não houve anistia”, resumiu Cláudio Manoel. Talvez “Ninguém Sabe o Duro...”, seja um consolo póstumo a esse grande artista, que de certa forma também foi vítima daqueles terríveis anos de ditadura militar.
Editor
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PerfilLuciano Assis
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.

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