4.23.2008

Verdade ou ficção?

Nunca o cinema brasileiro produziu tantos documentários. Um exemplo foi o festival “É Tudo Verdade” que aconteceu há duas semanas em São Paulo e pela primeira vez contou com mais filmes brasileiros que estrangeiros.
O que é um documentário? Bom, a pergunta parece meio besta, pois é fácil responder que se trata de um filme produzido para o cinema sem a intromissão de elementos fictícios. Mas será que documentários não se utilizam de nenhuma manipulação da realidade feita pelo diretor ou roteirista da obra para parecer mais atrativo ao espectador? Evidente que sim, e é aí que entra na discussão uma suposta ética do documentário, que por sinal esteve em debate numa mesa redonda do já citado “É Tudo Verdade”.
Nesta semana pensei muito nisso acompanhando o caso da menina Isabela, morta (assassinada?) ao cair do quarto andar de um prédio em Guarulhos. A cobertura de alguns programas mais sensacionalistas trataram o caso como a um filme, com bandidos, mocinhos e explicações das mais mirabolantes. Mas um exemplo ainda mais claro desse tipo de manipulação da realidade é o Big Brother, onde a edição do programa cria uma novela diária que prende o espectador como se este estivesse vendo um filme cheio de personagens caricatos (o fortão burro, o intelectual discreto, a mocinha desejada por todos, o louco perigoso, o manipulador, o engraçado gente boa).
É interessante notar que justamente os documentários que mais manipulam informações são àqueles que obtém maior destaque na mídia, como é o caso de todos os produzidos e dirigidos pelo norte-americano Michael Moore. Gosto de Moore, mas sempre me indago sobre até onde iria sua ética pessoal quando ele quer mostrar sua visão de mundo. Por exemplo: o ator Charlton Heston, falecido no início do mês protagonizou algumas cenas marcantes da história do cinema, em filmes como “Os Dez Mandamentos” e “Ben Hur”, mas sua última aparição foi sendo enganado por Moore, em seu documentário “Tiros em Columbine”. Defensor do uso de armas, Heston aceitou dar uma entrevista para Moore, que se fingiu de um jornalista que apóia o uso de armas de fogo para conseguir uma entrevista. Quando abre as portas de sua mansão, Heston é encurralado pelo cineasta. A imagem dele velho e doente sendo colocado como um reacionário defensor do uso de armas é de uma força impressionante e representa o ápice do filme. Discussões e opiniões à parte, fico pensando: Moore agiu certo manipulando uma situação para conseguir provar sua posição perante o espectador? O filme lhe valeu um Oscar e uma baita queda na imagem do Helston, influindo assim na realidade. É aí que fica questão, um documentarista deve influir na realidade ou apenas passá-la ao espectador?
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PerfilLuciano Assis
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.

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