Blade Runner e a profetização de um futuro sombrio
Em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo na última semana, o escritor Luiz Fernando Veríssimo, ao comentar as previsões que todos fazemos nestes primeiros dias do ano, cravou a seguinte frase: “No fim o que a gente mais sente falta, do passado, é o futuro que ele previa”. E o futuro previsto nos anos de 1960 e 70 era ótimo, como ficou registrado em desenhos como Os Jetsons ou em filmes que nos vendiam uma previsão de tecnologia trabalhando em favor de nossa felicidade e praticidade.
A antítese dessa futurologia veio através de um filme que acaba de ser relançado em edição especial no Brasil, com extras e making offs saborosos. Trata-se de “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (1982), que completa 25 anos ainda assustando e encantando ao meditar sobre as vantagens do desenvolvimento tecnológico em contraponto ao barateamento dos sentimentos humanos.
Baseado no livro do então pouco conhecido escritor Philip K. Dick, o filme foi dirigido por Ridley Scott (“Gladiador”) a contragosto dos estúdios Warner, que bancou o projeto. Assustados com o pessimismo do filme, os “gênios da diretoria” propuseram mudanças em trechos importantes do longa metragem, deixando Scott irritado. Com isso, o filme foi lançado sem nenhuma grande campanha e chegou a ser considerado um fracasso nas bilheterias.
Mas aos poucos, “Blade Runner” foi ganhando fama e fãs, chegando a influenciar diversas outras obras, de “O Exterminador do Futuro” a “Matrix”, passando por “Robocop” e “Akira” .
Nesta nova edição, a historia do detetive Deckard segue os planos iniciais do diretor, mudando toda a moral do filme lançado há um quarto de século. Na história, Deckard, um velho caçador de Replicantes (os não humanos), precisa eliminar um grupo de robôs que se rebelaram e fugiram dos trabalhos forçados de uma estação lunar, para buscarem uma sobrevida maior aqui na terra.
Mas não é na trama que está a beleza de “Blade Runner”, e sim nas nuances e detalhes, como na Los Angeles tomada por uma chuva que nunca cessa e as camadas sociais vivendo no solo terrestre (aliás, quanto mais longe da terra, maior o nível social do individuo) e na bagunça de idiomas antecipando a globalização nas grandes metrópoles.
Na cena mais forte do filme, próximo ao final, um dos Replicantes pergunta ao detetive caçador o que seria de suas memórias quando ele se for. A frase é o segredo de tudo, ao questionar o sentido duvidoso da vida de qualquer ser humano. O robô criou sentimentos, enquanto nós perdemos o nosso para a tecnologia.











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