Há 30 anos morria Charles Chaplin. Ninguém foi mais importante que ele para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica na primeira era do cinema, assim como ninguém conseguiu o paradoxo de fazer rir contando histórias tão tristes sobre a dor humana. "A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe", dizia ele, que soube como poucos captar o medo do homem dos anos 20 e 30 com as novas tecnologias e a individualização das relações urbanas nas então novas metrópoles. Nascido na Inglaterra, em 1889 (o mesmo ano de Adolph Hitler, o que fez Chaplin nutrir uma obsessão raivosa pela figura maligna do líder nazista) Chaplin passou uma infância pobre, que depois seria relatada de uma forma ou de outra em cada um de seus filmes mudos. Talvez esse conhecimento de causa da miséria que tenha transformado cada uma de sua história em tratados sociais sobre a dor humana diante do mundo. Nestas três décadas sem Charles Chaplin, o que nos resta é homenageá-lo, sempre. Abaixo uma cena da obra-prima “Tempos Modernos” (1936).
Quase que por reflexo condicionado, a crítica musical do mundo inteiro ironizou antecipadamente o show de retorno do Led Zeppelin, que aconteceu na última segunda-feira em Londres. Pudera, grandes bandas do passado voltando cheira a golpe de marketing, já que todo mundo quer ver aquelas velhas lendas do passado tocando juntas, mesmo que musicalmente o retorno já não faça o menor sentido. Foi assim com os Mutantes, com o The Police, com o The Doors, com o Yardbirds, com Queen e a lista ocuparia toda essa coluna seu eu prosseguisse nas citações. O problema, é que da mesma forma que o público acaba engolindo qualquer coisa como a segunda vinda de Cristo, jornalistas musicais se acorrentam em suas teorias de buscar sempre o novo e deixam escapar a força musical de algumas reuniões dessas bandas, que foi o que aconteceu com o show do Led Zeppelin. Jimi Page, Robert Plant, John Paul Jones e Jason Bonhan (filho do baterista original, John Bonhan, falecido em 1980) deram uma aula de música, pelo que pude acompanhar pelo Youtube e pelo que alguns jornais sérios do mundo todo descreveram. Apesar do trio original já terem batido a casa dos 60 anos, eles continuam geniais em suas respectivas funções. Se Robert Plant não tem a mesma voz de 35 anos atrás, ele aprendeu a emocionar com aquilo que lhe sobrou e isso não é pouco. John Paul Jones continua elegante e preciso e Jimi Page é Jimi Page, uma espécie de Richard Wagner das seis cordas elétricas, maestro supremo de uma das maiores bandas da história. Confesso que não fui pego de surpresa por esse maravilho retorno do Led Zeppelin, porque em 1996 já havia levado uma paulada na cabeça que me deixou sempre atento ao que esses senhores estão fazendo. Na época, Jimi Page e Robert Plant excursionavam pelo mundo na turnê “No Quarter”, e fui vê-lo em São Paulo, já que se tratava das duas cabeças mais ativas de uma das minhas bandas preferidas. Era um exercício de nostalgia, pois não tinha grandes esperanças. Para minha surpresa, o que vi em mais de duas horas de shows ainda me acompanha como a melhor apresentação musical que já vi em vida. Por isso, se esse Led Zeppelin sessentão resolver passar sair tocando pelo mundo, como já tem gente noticiando por aí, estarei com certeza vendo-os em uma possível passagem por terras brasileiras. Nostalgia barata acompanhada de uma das melhores músicas já feita é maravilhosa.
Esse é o poster do quarto episódio do filme Indiana Jones, um dos provaveis campeões de bilheteria de 2008 e que tem lançamento mundial já agendado para maio do ano que vem. O legal é que na foto do poster nem parece que Harrison Ford está 20 anos mais velho.
Em 2008, chego aos 30 anos de idade. Isso me coloca entre a última geração de apreciadores de música que foram criados e educados musicalmente via rádio FM. Quem é um pouco mais novo que eu pegou o declínio vertiginoso dessas emissoras que foram consumidas pelo chamado jabá (a compra de espaço na programação pelas gravadoras) e logo tivemos a chegada da Internet, que tomou o posto das rádios de principal divulgadora de novos talentos artísticos. Comecei esse assunto porque nesta semana eu e o Ricardo Pieralini, editor de Internet aqui do LIBERAL, colocamos no ar o primeiro programa de um projeto que há anos estamos planejando, que é um programa de rádio via Internet. Com o nome de Radiola, o programa já está no ar no site do LIBERAL (www.liberal.com.br) e vem sendo muito bem acessado em seus primeiros dias. Também estamos felizes com os comentários que nos chegou até agora, cheios de elogios. Bom, nem eu nem o Ricardo somos homens de rádios e o programa nem de longe é uma aula técnica para estudantes de Radio e TV. No entanto, ele traz uma coisa que hoje inexiste no meio radiofônico das FMs: ele é original e se recusa e tocar o que todo mundo toca. Apenas no primeiro programa montamos uma seleção que contêm uma banda ultra experimental como os americanos do Fantomas, pegamos um disco só de versões da poetisa Patti Smith que só saiu nos Estados Unidos e Europa e mostramos aos ouvintes uma seleção de obscuras grupos latinos americanos. Tenho certeza que se apresentássemos um projeto desse numa FMs da região seriamos ridicularizados e chamados de loucos. Afinal, como uma vez ouvi de um programador de rádios, o povo gosto é de ouvir a mesma coisa sempre e “nós somos obrigados a tocar mesmo achando uma droga”. Apesar da “vida inteligente” que antes ouvia rádio ter migrando para a web, o universo on line ainda é muito amplo e jorra muitas informações aos navegadores dificultando a digestão do que é mais significativo e interessante. O Radiola tem a função de filtrar esse volume de informações, o que imaginamos, será bem divertido. Esperamos que ele vingue, e que o tal programador que acha que as pessoas não se importam mais com música de qualidade esteja errado.
Estava devendo essa matéria que fiz na semana passada após um longo papo com a Fernanda Takai, que por sinal é uma simpatia de pessoa e lançou esse disco/homenagem à Nara Leão, que é bem legal.
A voz é pequena e calorosa, ao mesmo tempo. O semblante exprime timidez e os traços do rosto remetem ao oriente. Aparentemente, nunca ninguém havia notado que tanto a cantora Nara Leão, quanto a mineira Fernanda Takai tinham tanta coisa em comum, mas de forma discreta, o lendário produtor, escritor e jornalista Nelson Motta já vinha tramando o projeto que agora chega às lojas com o nome de “Onde Brilhem os Olhos Seus”, que consiste na vocalista do Pato Fu interpretando ao seu jeito 13 sucessos que fizeram a história de Nara Leão (1942-1989). O primeiro contato entre Nelson e Fernanda aconteceu em dezembro do ano passado, numa troca de e-mails. “A gente não se conhecia, então um dia abri meu e-mail e lá estava o Nelson me explicando que desde que viu o Pato Fu pela primeira vez achou que seria uma boa idéia me ter cantando nesse projeto especial em homenagem à Nara”, contou Fernanda Takai, direto de sua casa em Belo Horizonte, na tarde desta terça-feira. Do lado escritor, a coisa vinha virando uma obsessão. “Eu não podia ver o Pato Fu que já começa a tramar o disco com as músicas da Nara. Era um inferno. E eu não tinha como chegar nela, pois não a conhecia, não tinha telefone”, confessou Nelson, numa entrevista no final do mês passado. Quinze dias após o tal e-mail, eles se encontraram e toda a concepção do projeto deixou Fernanda muito animada. “Ele me deu total liberdade para recriar as músicas do jeito que eu quisesse, desde que o trabalho se espalhasse por toda a carreira dela, que foi muito eclética apesar de muitos apenas lembrar dela como a musa da Bossa Nova”, explicou Fernanda.
Moda
Durante todo esse tempo a produção do álbum permaneceu em segredo, com Fernanda trabalhando em seu estúdio caseiro ao lado do marido e produtor John Uhoa. “Foi uma produção a distancia, porque eu gravava e mandava para o Nelson via e-mail em MP3. Ele comentava e a gente mudava algo de achava pertinente”, contou a cantora. O segredo veio à tona durante o desfile do estilista Ronaldo Fraga, em agosto do ano passado. Fraga confeccionou modelos inspirados em Nara Leão e Fernanda contou seis músicas do tal projeto durante o desfile em São Paulo. “A principio o Cd sairia no ano que vem, mas com a repercussão do desfile não deu para segurar. Até no Japão tivemos pessoas interessadas em comprar o Cd que àquela época nem existia”, comemora a mineira. Sem se prender as estruturas das versões originais, Fernanda e John acrescentam loops, cordas e baterias eletrônicas às novas versões de “Diz que Fui Por Aí” (Zé Kéti), “Lindonéia” (Caetano Veloso e Gilberto Gil), “Com Açúcar com Afeto” (Chico Buarque) e “Luz Negra” (Nelson Cavaquinho). “Sei que os fãs mais tradicionalistas da Nara podem ter odiado, mas busquei homenageá-la sem deixar de ser eu mesma. Esse equilíbrio foi algo natural, fizemos sem forçar uma falsa modernidade”, explicou Fernanda, que em 2008 deve levar o show do disco para a estrada. “Nara foi de uma importância ímpar para a música brasileira, indo ao encontro do que tentavam impor a ela, mesmo que isso significasse ir contra seus próprios amigos de Bossa Nova. Se esse Cd servir apenas para ajudar na recuperação da memória dela entre as novas gerações eu já estarei feliz”, confessa a Nara versão século 21.
Abaixo, a faixa "Com Açúcar, Com Afeto", que Chico Buarque escreveu especialmente para Nara, em 1968, e que Fernanda transforma numa bela gema pop.
Só vi o show do The Police pela TV, mas tive a mesma impressão dos muitos que estiveram presente no estádio do Maracanã, na noite do último sábado. A apresentação foi boa, mas nada de mais. Isso acontece por um motivo muito simples: apesar de importantes e influentes, todas essas bandas que resolvem reviver seus tempos de glória acabam topando com um obstáculo muito cruel, que é a passagem do tempo e dos padrões musicais. Explico: O The Police foi uma baita banda, mas se tirada do contexto que a fez ser tão importante (o final dos anos 70) ela torna-se apenas uma boa banda de rock cheia de hits de respeito, o que é uma grande coisa, mas nada daquele abalo sísmico que tanta gente esperava.
A Física diz que para toda ação existe uma reação, e isso pode ser observado no crescente levante ateísta que vem tomando conta das livrarias dos Estados Unidos e Europa. Essa onda teve início com o sucesso do livro “Deus, um Delírio”, do biólogo Richard Dawkins, que quebra uma “feliz passividade” entre criacionistas (que defendem Deus como supremo criador) e evolucionistas (os crentes da ciência) para atacar de forma firme todas as crenças existentes no mundo como infundadas e sem propósito para os dias atuais. A argumentação de Dawkins encontra estofo numa suposta racionalidade que os religiosos põem abaixo através de dogmas superficiais e sem propósito. Outro exemplar que vem vendendo bem e ganhando elogiosos comentários no exterior é a coletânea de textos “Portable Atheist” (Ateísta Portátil), reunida por Christopher Hitchens. Através de ensaios de diversas épocas de escritores e filósofos confessadamente ateus, a obra traz nomes como Bertrand Russel, Albert Einstein (que não era ateu), Charles Darwin e Anatole France. De época em época o ateísmo ganha força através da literatura e da filosofia, sempre impulsionada por acontecimentos bem terrenos. A mais forte delas, se deu nos anos 50 e 60, quando toda uma geração de intelectuais beberam na fonte existencialista de escritores como Jean Paul Sartre e Albert Camus que centravam suas obras no ser humano como único responsável pelos seus atos. Pelos anos seguintes, novas gerações foram chegando e muitos cientistas e intelectuais passaram a aderir à tese que Deus poderia sim existir, e que isso não anulava e nem devia conter os avanços da ciência. Mais: as pesquisas poderiam ajudar a melhor compreender a complexidade de Deus. Então porque essa nova leva ateísta? As explicações podem estar no crescente embate político/ religioso que tomou conta do mundo, após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001. Também corre por fora o reacionarismo de personalidades como o Papa Bento 16, que parece excluir a igreja católica do mundo atual ou os ataques absolutistas às pesquisas com células-tronco, num ataque global contra a racionalidade e aos valores iluministas. Que Deus ou o acaso nos perdoem.
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.