Foram três tentativas ao longo dos tempos, e todas fracassadas. Na primeira, eu tinha 15 anos e mal consegui passar da quinta página, depois de retornar para a primeira umas dez vezes ao longo de mais de uma semana. Já aos 20, pensei que já estaria com bagagem suficiente para uma nova tentativa. Estava completamente enganado. Depois, ouvi o maior crítico literário do Brasil, Antonio Candido, explicar que a leitura deveria ser no inglês, pois nenhuma tradução daria conta de sua complexidade. Não preciso nem me ater a esse novo fracasso, né? Estou falando de “Ulisses”, o calhamaço de mais de 900 páginas do escritor irlandês James Joyce lançado há 85 anos, em Paris, e descrito, já na época, como o “romance que veio para acabar com todos os romances”. Considerado um desafio a leitores do mundo todo, “Ulisses” é o big bang de toda a arte conceitual moderna, dos poetas concretos brasileiros como os irmãos Campos aos multifacetados filmes de cineastas como David Lynch, David Cronenberg e Godard. Joyce, pegou o clássico “A Odisséia de Homero”, o romance épico escrito no período pré-cristão e usou de sua estrutura para narrar o dia a dia besta de um medíocre cidadão chamado Leopold Bloom. O objetivo era provar que um dia na vida de qualquer pessoa poderia ser tão heróico quanto qualquer guerra mitológica. O enredo nem é tão complexo, mas Joyce usa de toda forma de desestruturação lingüística para passar sua mensagem, nos 18 episódios agrupados em três partes (a mesma estrutura da Epopéia de Homero). No Brasil existem duas traduções de “Ulisses”. A primeira, lançada nos anos 60 (e a que eu tentei ler) é bastante criticada pelos pesquisadores do livro. Uma segunda “traição” saiu há dois anos, e recebeu elogios. Talvez em homenagem a essas oito décadas e meia eu faça uma nova tentativa, mas já adianto que não estou com muitas esperanças. Se falhar novamente, parto para os estudos bíblicos e daqui mais 25 anos, faço uma nova tentativa. Torçam por mim.
Qual o disco mais raro do Brasil? Segundo cotação dos sebos mais famosos do Brasil o quarto lugar fica com a estréia de João Gilberto, no antológico “Chega de Saudade” (1958); Em Seguida vem “Let Me Sing, Let Me Sing”, de Raul Seixas, produzido em 1986 pelo Fã Clube Raul Rock Club com meras mil cópias. O segundo lugar cabe ao Rei Roberto Carlos, e seu ignorado disco de estréia, “Louco por Você” (1962), com Robertão mandando ver na Bossa Nova. E o primeiro lugar fica com um artista que estará entre nós no próximo sábado, em um show na Praia dos Namorados, em Americana. Trata-se do disco duplo “Paêbirú”, lançado pela dupla Lula Cortês e Zé Ramalho em 1975. Cotado por aproximadamente R$ 4 mil, existem no mundo apenas 300 cópias originais, disputadas à tapa no mercado europeu. Extremamente desconhecido no Brasil, “Paêbirú”, na verdade nunca viu a luz do dia, pois uma enchente na fábrica da gravadora Rozemblit, em Recife, destruiu quase todas as cópias do álbum, sobrando apenas o pacote salvo pela esposa de Lula Cortes. Gravado entre os meses de outubro e dezembro de 1974, o disco trazia seus quatro lados dedicados aos elementos "água, terra, fogo e ar", o que dá uma idéia do conteúdo altamente “viajante” contido na cera do vinil, em faixas como "Trilha de Sumé”, “Culto à Terra” e “Bailado das Muscarias", com seus 13 minutos de violas, flautas, baixo, guitarras, rabecas, pianos, sopros, chocalhos e vocais "árabes". Apesar de hoje soar datada, a obra é impressionantemente sintonizada com sua época. O não lançamento de “Paêbirú”, em pleno 2007, tem várias explicações, mas nenhuma delas oficial. Há quem diga que o próprio Zé Ramalho não quer o disco nas ruas por não gostar que o nome dele fique em segundo plano na capa, toda tomada pela grafia de Lula Cortês. Em 2005 um selo alemão lançou o disco sem autorização, mas as poucas cópias lançadas também sumiram vertiginosamente. Na época que eu morada na Europa, cheguei a ver uma edição original do disco num sebo especializado em raridades da época da Psicodelia. Se não me engano o preço era 2 mil euros, um custo bem acima de meu poder aquisitivo (ainda mais naquela época!) . Bom, sábado Zé vem aí e ele anda meio arisco para entrevistas. Mas se eu consegui uma conversa de, pelo menos cinco minutos com ele, prometo que pergunto algo sobre essa raridade. E depois eu conto para vocês. Abaixo a faixa “Não Existe Molhado Igual ao Prato”, uma das faixas de “Paêbirú”. Aproveitem!
Nos últimos dias duas declarações causaram indignação no mundo da Ciência. Na Inglaterra, o pesquisador James Watson (um dos descobridores do DNA) declarou em entrevista a um jornal que a África é um continente pobre e com sérios problemas de desenvolvimento não em função de seu histórico social e sim pela incapacidade mental de seus habitantes. Segundo ele, estudos mostrariam essa suposta defasagem entre os africanos e os europeus. Nos Estados Unidos, Lawrence Summers, reitor da Universidade de Harvard, também soltou a língua e travou o cérebro ao dizer que na história houve poucas mulheres cientistas em função de uma herança genética limitada do sexo feminino, esquecendo os anos de subordinação como meras reprodutoras, sem direito a opiniões. Em 1974, John Lennon cantava que “The Woman Is Nigger Of The World” (A Mulher é o negro do mundo), o que ajuda a entender de forma mais poética tão infelizes frases. Dois fatores valem serem ressaltados para comentar o fato de que em pleno século XXI, gente aparentemente tão bem informada brade preconceituosos e mal informados pensamentos como esses. Primeiro, ambos deram às costas para as numerosas pesquisas que sobrepõem meio ambiente e herança e genética. E, em segundo lugar, a falta de uma percepção artística do mundo limita tão prodigiosos homens da ciência. Pois é, se ambos os pós-doutorandos tivessem feito uma análise artística da história, teriam se calado. Toda música contemporânea é negra, e vinda da África. Blues, Jazz, rock, samba, maxixe, rumba, etc. O resto é valsa, como diria Tom Jobim. Vez ou outra, polêmicas como essa surgem, e as bocas acabam se calando assim que o primeiro levanta a mão e questiona o racismo e o preconceito via arte ou esporte, afinal de contas, quem consegue explicar via ciência, fenômenos como Pelé, Jimi Hendrix, Cartola, Ray Charles, Robert Johnson?
Depois de dez anos viajando pelo mundo e levando um cotidiano de bon vivant, finalmente o diretor Francis Ford Coppola retorna ao mundo do cinema com o filme "Youth Without Youth", que estreou em um festival italiano nesta sexta-feira. Abaixo uma clássica cena dirigida por Coppola, no filme "Apocalipse Now" (1979). A grande sacada aqui foi a utilização de uma composição de Richard Wagner numa típica cena de guerra. O casamento é perfeito. Se "Youth Without Youth" tiver ao menos uma cena tão clássica quanto essa, o retorno de Coppola já merecerá aplausos.
Resenha que fiz para o acústico MTV, de Paulinho da Viola, publicada na edição de terça-feira do jornal O Liberal.
O tempo sempre norteou a obra de Paulinho da Viola, seja através de metáforas perfeitas como as de “Foi Um Rio que Passou em Minha Vida” (1971) e “Timoneiro” (1996) ou no desespero pós-AI 5 de “Sinal Fechado” (1972). Talvez por estar constantemente meditando sobre a passagem dos anos, o tempo esteja sempre ao lado do compositor que lança agora esse projeto “acústico MTV”, com a rara capacidade de subverter o tão batido formato ao invés de se render a ele, como fizeram artistas brasileiros de todas as tendências e ideologias. Paulinho selecionou clássicos de toda a sua carreira e as revestiu com cordas elegantes, conseguindo em alguns casos até superar a força de suas versões originais. E a explicação para tamanha felicidade artística foi o tempo usado pelo sambista para burilar o projeto. Entre o primeiro convite e a aceitação, foram quase dez anos. Os ensaios foram rápidos, mas a formação da banda que o acompanha só recebeu o aval do mestre após anos de convivência. Esse esmero é sentido desde a introdução da já citada “Timoneiro”, que abre o show até o último acorde do cavaquinho. No meio disso, desfilam novas pérolas como "Vai Dizer Ao Vento", "Bela Manhã" e "Ainda Mais" e "Talismã", essa última um clássico instantâneo da parceria Arnaldo Antunes/ Marisa Monte. Canções esquecidas pelo tempo foram resgatadas, como é o caso de "Amor É Assim" e "Foi Demais", do disco Zumbido, de 1979. O DVD traz faixas extras, que não estão no CD, como "Dança da Solidão", "Onde A Dor Não Ter Razão", "Argumento", "Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida" e "Só O Tempo", além de um making of caprichado. Paulinho só erra quando se desmente, dizendo que não dá para explicar a vida num samba curto (“Num Samba Curto”). Esse lançamento mostra que dá, quando o tempo é aliado.
A notícia abaixo foi publicada no site Folha online de hoje, pela jornalista Monica Bergamo. Espero que seja uma piada, daquelas bem sem graças.
Frank Aguiar é cotado para substituir Gil no Ministério da Cultura, diz Mônica Bergamo
Frank Aguiar pode substituir Gilberto Gil no Ministério da Cultura, informa a colunista Mônica Bergamo na edição da Folha de S.Paulo de hoje (conteúdo exclusivo para assinantes da Folha e do UOL).
As especulações de que o cantor e deputado federal pudesse assumir o cargo surgiram de uma conversa entre produtores de teatro em São Paulo, após Frank se reunir com o presidente Lula.
"Somos amigos desde os tempos de São Bernardo, estivemos juntos discutindo o Plano Nacional de Cultura, do qual sou relator. Depois de aprovarmos o plano, essa possibilidade [de assumir o Ministério] até seria viável", afirmou Frank à coluna.
Apesar dos rumores, o deputado negou que tenha sido sondado por Lula para suceder Gil. "Quero curtir o meu mandato e cumpri-lo até o fim".(Monica Bergamo)
“A democracia depende da beleza da linguagem, por isso é que George Bush é um orador abominável”. A frase acima foi dita há pouco anos de um ano pelo jornalista e escritor Norman Mailer, que faleceu no último sábado aos 84 anos, nos Estados Unidos. Responsável pelo desenvolvimento do que hoje é chamado de New Journalism, Mailer transformou matérias jornalísticas em literatura de alto nível, como nos livros “Os Nus e os Mortos”, “Os Exércitos da Noite” e “A Luta”. Nascido pouco após o fim da primeira Guerra Mundial, Mailer soube como poucos analisar in loco acontecimentos marcantes do século, como a Guerra do Vietnã, A chegada do homem na lua e a ignorância de seu próprio País. Uma vida vivida como a dele passa rápido demais.
Autobiografias são perigosas, pois ficamos a mercê da vontade do autobriografado em nos revelar detalhes íntimos da sua vida. Você já imaginou uma pessoa como Roberto Carlos, que proibiu uma biografia a seu respeito apenas por não ter conseguido controlar com mãos de ferro que seria publicado, escrevendo sobre sua vida? Era bem capaz do Papa querer lhe santificar por tanta perfeição. No mundo das aparências em que vivemos ler autobiografias é a mesma coisa que pedir para ser enganado. Um outro exemplo é “Crônicas Volume 1”, de Bob Dylan. Apesar de obrigatória aos fãs do bardo americano, ao final ela deixa aquela sensação de enganação, pois assuntos considerados importantes em sua vida são tratados com descaso enquanto detalhes supérfluos de discos menores do cantor são lembrados por páginas de paginas do livro. Mas como em tudo na vida existem exceções, através da história autobriografias foram importantes para entender personagens como Getulio Vargas, que teve seus diários publicados há cerca de uma década e meia. Entre os músicos a mais interessante dela é a de Miles Davis que de tão verdadeira possui a maior quantidade de fucks reunidos da história. Ainda no mundo do jazz, Chet Backer passou mais de 300 páginas falando sobre drogas, o que nos leva a entender como ele morreu de forma tão trágica, pulando de um prédio com o corpo encharcado de heroína. A última dessa estirpe que exala verdade doa a quem doer é a de Eric Clapton, o “deus da guitarra” que por 400 páginas de sua recém lançada autobiografia nos mostra a dor e a delícia de ser Clapton. Cada detalhe escabroso ou vergonhoso de sua vida é descrito com perfeição e coragem. Os pontos mais impressionantes são sua dependência das drogas nos anos70 e a morte de seu filho, Connor, que caiu do décimo andar de um edifício em Nova Iorque. O inglês, como todo fã de blues, não foge à dor e se sai com uma verdadeira obra prima dos labirintos da alma humana. Outro que mostrou coragem ímpar nesse quesito foi o escritor curitibano Cristóvão Tezza, que lançou esse ano o romance “O Filho Eterno”. Na história, um pai de 28 anos tem um filho com síndrome de Down e renega aquela nova pessoa das formas mais cruéis possíveis no pensamento. Cristóvão é pai de um filho com síndrome de Down e confessa que muito do que seu personagem diz passou por sua cabeça. Além disso, a idade com que o pai teve a criança e o ano que se passa a história tem tudo a ver com a vida de Cristóvão. O que é verdade e mentira no livro de Tezza? Talvez essa pergunta sirva para todas as autobiografias ou mesmo biografias autorizadas, pois como todos sabemos, é no inconfessável onde todos nós, humanos, nos encontramos em nossas similaridades.
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.