A maravilha da Internet, e conseqüentemente de um site como o Youtube, é a possibilidade de disponibilizar em larga escala obras que até a pouco tempo ficavam restritas a cineclubes ou fitas gravadas por cinéfilos após uma longa labuta. Um caso assim é o curta metragem “Ilha das Flores” (1989), dirigido pelo diretor Jorge Furtado, que anos depois seria o responsável por sucessos como “O Homem que Copiava” (2004) e “Saneamento Básico” (2007). Usando do humor com um toque de ironia, Furtado conta a história de um lixão existente em Porto Alegre, onde todos os dias dezenas de pessoa tiram seu sustento. Assisti esse filme em um especial da TV Cultura lá por 1990, mas nunca mais tive a oportunidade de revê-lo, até o surgimento do Youtube. A espera valeu à pena.
Olha só a diferença de mentalidade: Enquanto aqui a revista Playboy convida pivôs de escândalos políticos para faturar ainda mais dinheiro a edição francesa da mesma revista traz Juliette Binoche, uma das melhores atrizes de sua geração posando nua aos 43 anos. Clicada pelas lentes da fotógrafa Marianne Rosenstiehl, o ensaio (de um extremo bom gosto) ainda vem acompanhada de uma entrevista onde a atriz fala de cinema, política, sexo, mundo das celebridades e a vida após os 40 para uma mulher que já foi símbolo de beleza na França. Ah, o primeiro mundo!
Em meados de 1998, eu e um amigo estávamos na platéia de um show do grupo Racionais Mc, na cidade de Osasco. O novo disco deles tinha explodido em vendas chegando a 500 mil cópias, um recorde para artistas sem assessoria de imprensa, gravadora ou divulgação na mídia. Mesmo assim, cada um dos presentes ali cantava cada sílaba das longas letras de Mano Brown, que faziam uma crônica perfeita do submundo periférico. Passados quase dez anos de seu lançamento, “Sobrevivendo no Inferno”, disco lançado um pouco antes daquela apresentação ainda não perdeu um milímetro de sua força bruta, o que reflete nossa total falta de evolução social no Brasil. Colocado na chamada linha evolutiva da música popular brasileira, onde se afileram “Chega de Saudade” (João Gilberto, 1958), “Tropicália” (Vários, 1968), “Mutantes” (Os Mutantes, 1968), “Acabou Chorare” (Novos Baianos, 1972), “Beleléu, Leléu, Eu” (Itamar Assumpção, 1980) e “Da Lama ao Caos” (Chico Science e Nação Zumbi, 1994) e alguns outros, “Sobrevivendo...” encerra o fim do sonho de nação brasileira, através de pesadelos urbanos narrados com contundência e desesperança. Isso mesmo, o que faz da obra uma coleção tão importante de não-canções é que em nenhum momento as músicas deixam escapar pingos de otimismo no futuro. Tudo ali é negação: “Não-música”, “não-melodia”, “não-refrão”, “não-amor”, “não-suavidade”, “não-poesia”. Se na MPB engajada dos anos 60 e 70 havia uma busca por algo digno, como a liberdade de expressão ou a igualdade social, no rap dos Racionais isso cai por terra, pois nenhum dos membros do grupo acredita em qualquer melhoria. Nem a aclamada diversidade racial é aceita com facilidade por eles pois todos o samples utilizados no disco são de artistas negros (Isaac Hayes, Jorge Ben), da cor daqueles que vivem nas casas vizinhas de Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay, no bairro do Capão Redondo. Alguns anos depois, trabalhando durante uma tese de faculdade na favela de Heliópolis, a maior da América Latina com 90 mil habitantes, voltei a conversar com jovens moradores sobre os shows que havíamos visto dos Racionais Mc. A maioria dos jovens se referia ao grupo com reverencia, evidentemente porque nenhuma outra formação musical conseguia traduzir para eles em palavras aquilo que sentiam na pele todos os dias. Nestes dez anos, penso que assim como obras primas do quilate de “Construção” (Chico Buarque, 1971) não existiriam sem o regime militar, “Sobrevivendo no Inferno”, não seria possível sem as senzalas urbanas regadas pela desigualdade social e racial, após serem plantadas por nossa brutal disparidade de renda, oportunidades e educação. É triste, mas eu preferia nunca ter ouvido maravilhas como “Jorge de Capadócia”, “Capitulo 4, Versículo 3”, “Em qual Mentira Acreditar” e “Mágico de Oz”.
Se o mundo fosse um lugar justo e tivesse bom gosto musical, ao invés do espaço que os jornais perdem com os escândalos da Britney Spears, a mídia estaria falando do disco “White Chalk”, lançado esse mês pela cantora inglesa P.J. Harvey. Belo e poético, “White...” mostra uma PJ longe de sua angulosa e ruidosa guitarra e próxima do piano, instrumento que ela passou a se dedicar com afinco nos últimos três anos. A faixa acima faz parte de uma coletânea em homenagem ao compositor alemão Kurt Weill (1900 – 1950), parceiro do poeta Bertold Brecht, lançada em 1997. A canção se chama "The Ballad Of A Soldier's Wife" e o disco "September Songs". Ah, e como você pode conferir no Clipe, nem dá para alegar que a Britney ganha mais espaço porque é mais bonita!
O samba é o maior gênero musical urbano já criado em um país de língua portuguesa. Nenhum outro reúne poesia, balanço, musicalidade, sofisticação e apelo popular como ele. Nada mal para uma música que nasceu sob a égide do preconceito e chegou a ser considerada despudorada e “contra o sistema” graças a compositores como Wilson Batista, que nos anos de 1930 foi perseguido pela polícia do presidente Getúlio Vargas. Suas letras louvando os boêmios e malandros eram uma verdadeira subversão à plataforma de governo de Getúlio, que tinha o trabalho como símbolo de brasilidade para o crescimento do país. Desde que foi registrado pela primeira vez na Casa Edson, em 1917, o samba não parou mais de produzir gênios, como Cartola, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho. Até a Bossa Nova tinha como gene o samba, mesmo que ele viesse travestido de jazz, para horror de críticos mais tradicionalistas, como José Ramos Tinhorão, que afirma até hoje que aquela turma só fazia aquilo porque não conheciam o verdadeiro samba, por medo de subir os morros cariocas e se juntar aos pobres. Não sei se concordo totalmente com Tinhorão em relação à Bossa Nova, mas imagino que ele deve estar horrorizado se andou ouvindo nas últimas semanas o Cd “Samba Meu”, de Maria Rita. A cantora de MPB que mais vende discos no Brasil atualmente resolveu prestar sua “homenagem” ao samba e nos presenteou com uma verdadeira bomba elitista, repaginando sambas clássicos e inéditos de grandes nomes do gênero, para a classe A e B. Aliás, esse é o grande defeito da MPB das últimas décadas, delirar sobre um suposto bom gosto musical confundindo sofisticação com asceticismo. O samba cantando por Maria Rita é distante, carece de calor e verdade. Faltou a ela ouvir mais Elza Soares, cujo samba brota das entranhas corroídas pela vida cheia de amargura e alegria. Mas para dizer que não falei das flores, o contraponto para Maria Rita é Teresa Cristina, que por coincidência lança neste mesmo mês o Cd “Delicada”, ao lado de seu Grupo Semente. Essa ex-professora e estudante de Letras do ensino fundamental do Rio de Janeiro, Cristina é mais descendente de Clara Nunes do que Maria Rita é de Elis Regina, pois apesar de destilar uma música envolta em poesia e beleza, é acima de tudo uma cantora popular, que poderia ser consumida vorazmente em rádios e TVs brasileiras se essas não estivessem em um estágio tão lamentável. Se você não estiver a fim de arriscar com Teresa Cristina, procurem o recém lançado “Acústico MTV”, de Paulinho da Viola, só os versos “A Razão porque mando um sorriso/ E não corro/ É porque andei levando a vida quase morto” (reparem na musicalidade dos erres) , de “Para Um Amor no Recife” valem o disco.
Politique Du Auteur é um termo muito usado pela crítica francesa de cinema e que cai como uma luva para explicar esse ótimo filme coreano, que mesmo não passando nos cinemas brasileiros agora pode ser apreciado em qualquer boa locadora. A expressão é sacada quando os fãs de cinema da França se referem a uma obra que apesar de dialogar com o grande público através de uma história fantasiosa traz escondido um conteúdo altamente político. No caso de “O Hospedeiro”, a crítica recai sobre a burocracia moderna e as relações interpessoais que ficam à mostra quando um monstro aparece numa lagoa em Seul.
“Sem Comentários” (Editora Cosac Naify, 272 págs)
Há dois anos a editora Casac Naify lançou esse belo livro de fotos do monstro sagrados dos palcos brasileiros, Paulo Autran, que morreu no último dia 12 de outubro. O interessante é que apesar de não conter textos, apenas fotografias em peças interpretadas por ele, é impressionante a quantidade de nuances e mudanças que apenas um rosto podia expressar, indo da comédia à tragédia, provando que todos os adjetivos elogiosos tecidos a ele não eram exagerados.
“Acústico MTV”, Paulinho da Viola
Sei, a palavra acústico assusta você, e confesso que a mim também. Acho que o fundo do poço do formato no Brasil foi quando um grupo de pagode lançou um disco chamado acústico (pagode acústico não é redundância? Pensei). Mas o negócio desceu ainda mais e tivemos muitos outros lançamentos para nos embrulhar o estômago. Mas agora papo é diferente, pois em invés de ser engolido por idéias de jerico, mestre Paulinho da Viola formatou o acústico ao seu estilo e desfilou poesia, bom gosto e seu repertório acima de qualquer suspeita. Esse é gênio!
www.gafieira.com.br
Simpático site que se propõe a discutir de forma profunda idéias acerca da música popular brasileira. Só não acesse quando estiver com pouco tempo, pois os textos são looooooongos. O último que li (“Jornalismo Aberto para Balanço”) me fez perder umas duas horas, e para falar a verdade ainda falta um pedacinho. Mas a dedicação é compensada.
No início de 2003 entrei na redação do LIBERAL pela primeira vez para participar de um teste para o Caderno de Suplementos do jornal. Trabalhei por volta de uma hora na pauta (acho que ficou boa, pois fui contratado) e ao final sugeri uma foto com um dos casais que eu havia entrevistado, e que aceitara posar tendo a igreja Matriz de Americana como fundo. Foi nessa ocasião que conheci Paulo Tibério, fotografo que tinha chegado aqui no LIBERAL não muito tempo antes de mim, mas que carregava nas costas mais de 25 anos de experiência no ofício e o título de um dos melhores fotógrafos do interior de São Paulo. Quando eu deixava o jornal, naquele dia, ansioso pelo resultado do teste, ele veio se despedir e me desejar boa sorte. Fui contratado no dia seguinte. Lembrei desse fato ao visitar a exposição em comemoração aos 30 anos de profissão de Paulo Tibério, que está acontecendo durante toda essa semana na Unisal, em Americana, e notar que das 30 imagens feitas para as páginas do LIBERAL nos últimos sete anos, oito foram para matérias minhas. Lembrei de cada uma delas, e também das várias histórias contadas por ele em nossas jornadas atrás de fatos para abastecer a edição do dia seguinte. Como Paulo, também sou aficionado por futebol e costumo compará-lo a um grande centroavante, que antes da bola chegar, já visualiza o lance para arrematar a jogada. Sua capacidade de perceber o movimento é nata, e essa sensibilidade somada a sua compaixão para com o ser humano o transforma no artista da imagem que é. Grande, Tiba!
Os motivos são plenamente explicáveis, e passam pela maior circulação de informações através de tecnologias como a Internet que nos últimos dez anos jogou em locais até então isolados do país um caminhão de novos signos musicais, formando cenas que mesmo comungando de suas raízes características locais, também passaram a beber em fontes cosmopolitas. Por esse e outros motivos, estamos assistindo pela primeira vez no Brasil ao surgimento de novas bandas vindas de Estados como Ceará (Cidadão Instigado), Acre (Los Porongas), e Paraíba (Zeferina Bomba), quebrando a corrente que desde os anos 80 consideravam Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre como únicas usinas de fabricação de bons grupos de rock (A Bahia só aparecia ocasionalmente com Raul Seixas nos anos 70, e o Camisa de Vênus, nos 80; e Pernambuco só deu as caras nos anos 90, com o Mangue Beat). O último a reforçar esse rock brasileiro fora do eixo são os meninos do Vanguart, de Cuiabá, que mesmo sob o calor de 40 graus da cidade emulam uma sonoridade folk de fleuma tipicamente inglesa, adornadas com letras (trilingue) bem sacadas e originais. Surgido em 2004 com os amigos Hélio Flanders (voz e violão), David Dafre (guitarra e voz), Reginaldo Lincoln (baixo e voz), Luiz Lazarotto (teclados) e Douglas Godoy (bateria), o Vanguart acabou de lançar seu disco de estréia, com canções que se tocarem no rádio podem até chegar ao sucesso em sua desencanada mistura de Bob Dylan, Wilco, Radiohead, Dorival Caymmi (segundo a própria banda) e afins. Abaixo, uma das faixas do disco:
Um professor escandalizado com as respostas que alguns alunos davam nos vestibulares de música resolveu selecionar todas as besteiras que já tinha visto e o resultado são essas 30 pérolas abaixo. Torçamos para que nenhum de nós sejamos obrigados a cruzar com um desses “gênios” tocando por aí:
1 - Bach está morto desde 1750 até os dias se hoje. 2 - Häendel era meio alemão, meio italiano e meio inglês. 3 - Beethoven escreveu música, mesmo surdo. Ele ficou surdo porque fez música muito alta. Ele caminhava sozinho pela floresta e não escutava ninguém, nem a Pastoral, uma MOSSA que poderia ser a sua Amada IMORTAU e inspirou ele criar uma sinfonia muito romântica. Ele faliu em 1827 e mais tarde morreu por causa disto. 4 - Uma ópera é uma canção que dura mais de 2 horas. 5 - Henry Purcell é um compositor muito conhecido, mas até hoje ninguém ouviu falar dele. 6 - O Bolero de Ravel foi composto pelo Ravel. 7 - A harpa é um piano pelado. 8 - Opus Póstuma é música composta quando o compositor compôs depois de morto. 9 - Mozart morreu jovem. Sua maior obra é a trilha do filme Amadeus. 10 - A importância de Tristão e Isolda reside no fato de que é uma música muito triste. Mais triste que a Tristesse, de Schopping. 11 - Virtuoso no piano é um músico com muita moral. 12 - Os maiores compositores do Romantismo são Chopin, Schubert e Tchaikovsky. No Brasil, temos Roberto Carlos e Daniel. 13 - Música cantada por duas pessoas é um DUELO. 14 - Eu sei o que é um sexteto, mas não sei dizer. 15 - Carmen é uma ópera e Carminha Burana é sua filha. 16 - Muitos pesquisadores concordam que a música medieval foi escrita no passado. 17 - A ópera mais romântica é a Paixão de Mateus por Bach. 18 - Tem dois tipos de Cantatas de Bach: as Cantatas religiosas e as Cantadas di Profanação, que ele usou no palácio. 19 - Meu compositor preferido é Opus. 20 - Chopin fez poucas baladas, pois sofria de tuberculose. Assim não dava para ele cair na gandaia à noite, dançar, beber e curtir as minas, MAIS parece que ele não era chegado. 21 - Cage inventou os 4 minutos de silêncio. 22 - Há uma espécie de Corais feitos por Bach, que se chamam Florais e são usados como remédios milagrosos. 23 - Messias é uma missa de Handel cuja originalidade é ter muitas aleluias. 24 - Os menestréis e trovadores transmitiam notícias e estavam nas festas. Andavam de cidade em cidade, de castelo em castelo e iam até nos shows de TV. 25 - O regente de uma orquestra é igual a um guarda de trânsito maluco porque agita os braços controlando muitos instrumentos na sua frente. 26 - Os compositores renascentistas reviveram a música, pois ela havia sido morta pela Inquisição. 27 - As Fugas de Bach são famosas porque ele não queria ficar preso em nenhum sistema. 28 - A música eletroacústica é a mais avançada das tendências da música eletrônica hoje em dia. Seus principais compositores são os DJs e a banda Craftwork (ele quis dizer Kraftwerk). 29 - Handel compôs muitas peças geniais para COURO. 30 - Música atonal é aquela sem som ou que explorou o não-som, mais ou menos quase um anti-som. Seus mais importantes criadores são da família Berg: Schoenberg, ALBANBERG e WEBERG.
Para quem perdeu, disponibilizo minha matéria com o Ney Matogrosso que foi capa do LIBERAL na edição da última terça-feira. Sempre me foi dito que ele era avesso a entrevistas e respondia aos jornalistas sem muito entusiasmo, no entanto não foi isso que ele demonstrou ao receber nossa equipe em Piracicaba.
O inclassificável
Quase tudo no cantor Ney Matogrosso é paradoxal: sua extrema boa forma física contrasta com seus 66 anos de vida, assim como sua extrema discrição e timidez ao falar não encontram ligação com aquela figura exótica que há quase 40 anos apaixona, assusta e incomoda o público brasileiro. Essas diversas camadas, e outras mais, acabam por dar nome ao seu novo show, sintomaticamente chamado de “Inclassificáveis”, que tem pré-estréia nesta terça-feira no Teatro da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), a partir das 21 horas. O espetáculo subverte a ordem natural da industria fonográfica, que dita que um artista deve lançar um Cd novo para depois sair em turnê. No caso de “Inclassificáveis”, Ney Matogrosso fará o contrário, talvez assinalando o que há anos já discute-se: o fim da industria fonográfica tal qual nós a conhecemos. “Para mim, o disco sempre foi um veículo para meus shows. Agora com a derrocada do CD sinto-me mais livre para exercitar minha verdadeira paixão, que é o palco”, destacou o cantor, em entrevista na tarde de ontem, em Piracicaba. Com dez músicas inéditas (entre elas duas nunca gravadas de Cazuza) e 12 de autores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, o show tem assinatura no figurino de Ocimar Versolato, numa recuperação do Ney “exótico” dos anos de 1970 e 80, época que encarnava um pavão misterioso andrógino e espalhafatoso. “Não é uma tentativa de recuperar nada daquela época, apenas uma proposta visual que achei bonita. Do passado só guardo meu espírito sempre crítico”, ressalta. E o passado é um tema sempre constante em suas entrevistas, mesmo que Ney faça questão de não passar ao seu interlocutor nenhum tipo de nostalgia barata. “O novo sempre me interessa, por isso gosto de me meter com novos grupos. Foi assim com o Placa Luminosa, é assim com o Pedro Luiz e a Parede”, compara, se referindo a grupos que gravaram com ele no decorrer da carreira.
Rock And Roll
Ao terminar a turnê de “Canto em Qualquer Canto”, conduzido apenas ao violão e voz, em Milão, no início do ano, Ney Matogrosso já começou a pensar neste show que hoje estréia em Piracicaba. Em uma palavra, o cantor nomeia “Inclassificáveis” como um show rock and Roll, em temática e revolta. “Parti de duas músicas que eu queria muito cantar: “O Tempo Não Pára (Cazuza) e “Ode aos Ratos” (Chico Buarque). Nisso percebi que ambas traziam uma revolta urbana consigo que deveria guiar essa apresentação. É evidente que há momentos mais leves, mas essa raiva politizada é uma característica”, descreve Ney. O tema política entra em pauta, e o velho hippie (mais que tomava banho, como o próprio brinca) se mostra cético com os novos rumos do mundo. “Nenhum político vai nos resolver problema nenhum. Essa consciência é importante para que comecemos a cuidar melhor de nós mesmos e dos que estão ao nosso redor”. A consciência política desse matogrossente nascido em agosto de 1941 sempre andou de mãos dadas com a vida artística, tanto que hoje ele enxerga seu primeiro grupo, Secos e Molhados, como uma válvula de escape naqueles tempos pesados de Regime Militar. “Nós não falávamos diretamente de política, mas éramos um respiro comportamental para um tempo que parar na esquina para falar com os amigos podia significar a morte. Muita gente viu na gente uma ilha isolada de liberdade num país tomado pela ignorância”, resume. Liberdade que ele diz carregar até hoje, mesmo que às vezes suas atitudes sejam confundidas com inclassificáveis exotismos para chocar os mais impressionáveis.
Deborah Kerr morreu hoje. Poderia falar muito sobre ela, mas um beijo vale mais que mil palavras. Ainda mais se esse beijo for o primero da história do cinema.
Mais do que um artista, o Brasil perdeu um símbolo com a morte do ator Paulo Autran, aos 85 anos, no último dia 12. Autran simbolizava um tempo em que fazer teatro era uma aventura ainda mambembe (poucos percorrerem tanto esse país quanto ele), marginal e maldosamente estereotipada pelo senso comum médio brasileiro. Mesmo assim, sua geração foi em frente, brigando contra moinhos de ventos, feito Dom Quixote. E para surpresa geral, venceram, colocando toda aquela geração surgida na década de 1950 como a mais prolixa do tablado brasileiro. Autran carregava a alegria de fazer parte daquela era e ainda estar vivo (se não estou esquecendo de ninguém, agora só temos Fernanda Montenegro, Tônia Carreiro e Cleyde Yáconis). Na única e inesquecível vez que o entrevistei, ele não pareceu se impressionar muito com essas lembranças. Disse que fazer teatro é muito melhor agora, quando as peças ficam mais tempos em cartaz. Nostalgia não era com ele, tanto que na ocasião levei algumas perguntas de diretores e atores da região, numa tentativa de provocar uma troca de informações entre o velho mestre e gente que ainda estava começando. As perguntas eram do tipo: “Como fazer para sobreviver do teatro hoje em dia?”. “Por o brasileiro não vai ao teatro?”. “O que fazer para popularizar o teatro no Brasil?”. “Mesmo com anos em cartaz minha companhia não consegue nenhum tipo de patrocínio porque optamos por um teatro experimental. Como fazer teatro em um país escravo da TV?”, etc. Ele respondeu todos os questionamentos com alegria e entusiasmo (quando o assunto era teatro ele esquecia da vida), mas ao final me confidenciou que ficava triste com tantos jovens céticos reclamando. “Na minha época era muito pior. Hoje as peças ficam anos em cartaz. Na minha época ficávamos uma semana, isso quando a igreja não nos expulsava de alguma cidadezinha do interior por montarmos algum autor que estivesse no index do Vaticano”, lembrou. Foram 23 minutos de entrevista, e mais 12 de bate papo que valerá por uma vida.
Há anos mantenho um hábito bastante saudável e que me dá muito prazer: Umas três ou quatro vezes no ano saio daqui do interior em um sábado de folga e passo o dia percorrendo sebos do Centro de São Paulo, garimpando discos de vinil fora de catálogo, Cds e livros. Essa mania já me valeu algumas descobertas bastante inusitadas, como a aquisição de obras raríssimas que me saíram por R$ 2,00 ou R$ 3,00. O oposto também acontece, e meu cartão de crédito pede arrego na compra de um Cd importando de um pequeno selo escocês ou australiano. É uma mania que já se tornou indissociável da minha vida e que sempre garantiu muitos domingos de felicidade na frente do aparelho de som. Em uma época que morei no exterior fazia a mesma coisa, passando reto por cartões postais europeus para ir naquela loja empoeirada indicada por amigos. Em setembro estive em férias e, como faço em todos esses períodos, rumei à minha Disneylândia. Fiz o mesmo caminho que sempre faço, mas desta vez devo confessar que o prazer foi menor. E isso por um simples motivo: me senti solitário. Notei que a maioria dos sebos de discos que conhecia desde criança foram fechados. Na famosa Grandes Galerias, onde no passado se encontrava as maiores novidades do mundo da música, muitas lojas foram fechadas dando lugar às de roupas e acessórios para emos e camisetas de rock, numa prova que hoje estilo é mais importante que aquilo que se ouve ou se sabe sobre música. O último balde d’água sobre meu romantismo foi jogado essa semana, quando o Radiohead, uma das minhas bandas preferidas, lançou seu novo álbum, “In Rainbow”, somente via download, abrindo um caminho que provavelmente será seguido por muitos outros artistas no futuro. O grupo nem ao menos está cobrando pelo Cds, deixando ao comprador a escolha do valor a ser pago, num ato que pode significar uma revolução no mundo da música. Entusiasta dos arquivos trocados via computador desde o Napster, em 1999, não ficarei chorando como muita gente que afirma, erroneamente, que essa nova relação artista/consumidor vai acabar com a música. As coisas estão aí para serem mudadas e a Internet pode ser o melhor caminho para novos nomes da música desenvolverem obras livres das ditaduras de marketing e de empresário burros. Infelizmente o efeito colateral disso tudo é que a música que antes era correlacionada com a atividade física de manusear uma capa enorme e seus encartes cheio de informações resume-se, há algum tempo, apenas ao prazer virtual, mimetizando as relações inter pessoais que tomou conta de nossas vidas em diversos setores. Mas sentirei nostalgia se um dia perguntar para meu filho se ele viu meus discos do Neil Young e ele responder: “O seu o quê?”. Impressão minha ou estamos ficando ultrapassados cedo demais?
Para quem não leu, coloco aqui minha coluna de Domingo, publicada no Caderno L, onde volto ao assunto "Tropa de Elite". Desta vez enfocando a mensagem distorcida que o filme vem causando entre o público:
É no poder transformador de uma obra artística que reside sua importância para além do produto comercial. Isso requer a dizer que não importa se um filme, um quadro, uma música ou uma peça de teatro é vista por meia dúzia de pessoas; Eles são artisticamente valiosos se provocarem algum tipo de reação transformadora ou construtivamente revoltosa neste pequeno público. O sucesso estrondoso do filme “Tropa de Elite”, que estreou nesta sexta-feira nos cinemas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro em função da pirataria é um exemplo de obra que poderia provocar uma onda de discussões positivas se não fosse um pequeno detalhe: Entre suas intenções sociológicas e seu público, a mensagem do filme foi distorcida transformando-o exatamente naquilo que seu diretor, José Padilha, queria combater. Vamos por parte: “Tropa de Elite” conta a história de um batalhão especial do Rio de Janeiro que luta contra o tráfico de drogas na cidade, sob o ponto de vista do Coronel Nascimento (o ótimo ator Wagner Moura), um torturador impiedoso que repensa sua vida a partir do momento que a esposa fica grávida. Diretor de um dos documentários mais humanistas e importantes das últimas décadas (“Ônibus 174”), Padilha está longe de ser o fascista que alguns críticos o acusam, mas sua obra tem servido de bode expiatório para legitimar reacionários pensamentos do tipo “bandido tem que morrer mesmo” e “Traficante tem que sofrer assim mesmo para limpar a cidade”. Em pré estréia no Rio de Janeiro, há algumas semanas o público chegou a aplaudir cenas de torturas quando estas deveriam exatamente servir como mensagem de que numa sociedade esvaziada de valores morais de ambos os lados, só sobra a barbárie. Talvez a culpa da distorção seja do próprio roteiro do filme, que para fugir da sombra de sucessos recentes do cinema nacional dos últimos tempos como “Cidade de Deus” e “Carandiru” tira a narração do oprimido e o joga sobre a polícia, sem conseguir clarear aos olhos do espectador que a turma do capitão nascimento também foi engolida pela violência na ânsia de combatê-la. Não à toa, ouvi de camelôs de Americana que grande parte dos compradores do DVD pirata estava sendo feita pelos próprios policiais da cidade. Particularmente espero esse descuido no roteiro seja a explicação real, pois achar que chegamos ao limite de uma sociedade achar que a violência extrema, desmedida contra todos aqueles que “parecem bandidos” seria a única forma de combater o crime e deixar a classe média em paz, seria triste demais.
PS - A charge que ilustra esse post é uma das geniais criações do cartunista Laerte, que apesar de focar a violencia do exército americano na guerra do Iraque, encaixa-se bem em qualquer discussão envolvendo violência estatizada.
Um verdadeiro tratado sobre a solidão humana em meio à vida urbana. Assim poderia ser descrito “Táxi Driver”, clássico do cinema americano que agora ganha lançamento caprichado em DVD. Gravado em 1976 dando início à parceria Martin Scorsese/ Robert De Niro, “Táxi Driver” é um dos cinco melhores filmes daquela década, que reinventou o cinema americano mostrando que boas idéias valiam mais que grandes orçamentos. Usando um argumento simples: um ex-combatente do Vietnã atormentado pela guerra que decide ser motorista de táxi para combater a insônia, Scorsese mergulha ao mesmo tempo na mente do personagem Travis Bickle e na solidão das grandes metrópoles super populosas.
Acima uma das cenas do filme, onde Travis (De Niro) discute com ele mesmo diante do espelho:
Inglês adora listas. Aliás, é quase uma compulsão deles. A última a ganhar destaque foi a publicada na revista “Q”, que elegeu o clipe da música "Bohemian Rhapsody", do Queen, como o melhor de todos os tempos. Não concordo muito em relação ao clipe, pois logo me chega à cabeça outros muito melhores e mais importantes para a história dessa linguagem que ganhou tanta importância de duas décadas para cá. Agora, se a escolha está coligada com a canção aí sim eu assino embaixo, pois "Bohemian Rhapsody" é um dos mais extravagantes, pomposos e divertidos clássicos da época (1975), cuja composição assinada apenas por Freddie Mercury, só foi possível após a junção de três músicas descartadas pela banda alguns meses antes. Acima está a clipe campeão. Gritemos em uníssono: "We Are The Champions"
A editora Alfaguara começou a colocar nas livrarias a obra completa do poeta João Cabral de Mello Neto, que apesar de toda sua produção ao longo de quase 80 anos, é conhecido pela maioria apenas pela obra prima “Morte e Vida Severina”. A cereja do bolo desses lançamentos é o livro “O Artista do Invisível” uma coletânea de poemas autobiográficos, que ressalta as mudanças tanto políticas quanto religiosas do gênio pernambucano.
Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito de um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão.
Na capa do caderno L da edição desta terça-feira do LIBERAL, assino uma matéria sobre a venda de DVDs piratas do filme “Tropa de Elite”, em barracas de camelôs da região. Percorri várias delas na tarde da última segunda-feira e ouvi depoimentos interessantes sobre as opiniões dos compradores acerca da aquisição do filme em cópias piratas, antes de seu lançamento oficial nos cinemas, que deve acontecer no dia 12 de outubro (foi antecipada em função do vazamento da obra). Pelo que percebi, a discussão ética, do “não posso ter em casa um produto pirata, pois contribuo com uma contravenção” inexiste, pois a compra de tais cópias tornou-se lugar comum na sociedade. Protagonizado por Wagner Moura, a obra é vendida (sem legendas e créditos, o que denuncia que alguém da pós-produção passou a cópia para os camelôs) até para policiais em Americana, segundo me disse um vendedor ilegal. O problema da pirataria não é uma novidade para ninguém, tanto que nas páginas do LIBERAL, ele já foi discutido várias vezes. Mas desta vez, entrou em pauta a questão da ética sobre o produto não autorizado. O ator José Wilker ofendeu-se quando um jornalista da revista Época perguntou a ele se já havia visto o filme. “Eu tenho ética, não vou consumir um produto fruto de crime”, bradou Wilker. O problema é que a maioria dos meios de comunicações discutem o filme, o que indica que nos jornais, revistas e emissoras de TV, ele está sendo consumido através de cópias piratas. Eu mesmo estou em um dilema: Quero ver o filme, mas me questiono se é certo pagar R$ 5,00 na cópia pirata, para comentá-lo aqui, com vocês leitores. Alguém já tem opinião formada sobre isso?
Acima vocês conferem o trailer do documentário “Fabricando Tom Zé”, dirigido por Décio Matos Junior, e que está sendo exibido gratuitamente durante toda essa semana no Cineclube Humberto Mauro, do Campus Taquaral da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba). O filme retrata vida e obra do eterno outside da música brasileira usando como fio condutor sua turnê pela Europa em 2005 e os depoimentos de nomes como David Byrne (ex-Talking Heads), Arnaldo Antunes, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Vale a penas dar um pulinho lá. O cine fica no bloco 2, campus Taquaral (rodovia do Açúcar, km 156, Piracicaba). Sessões: segunda a sexta-feira, às 9h, 15h e 19h30, e aos sábados, às 9h e 14h.
Nesses 20 dias que fiquei em férias aqui do LIBERAL, acompanhei em silêncio a acalorada discussão entre as diversas alas que acompanham, produzem e comandam o teatro americanense. Pareceu-me que o descontentamento com as decisões da Comissão de Organização do Festival desse ano era bem maior do que pensei quando propus esse debate, no entanto, também notei aquilo que Raul Seixas chamava de “falta de cultura para cuspir na estrutura”. Ou seja, muita gente era contra, mas poucos expuseram idéias que fossem além da expurgação do ódio contido. Mas deixando isso de lado, retorno ao LIBERAL poucos dias antes do início do famigerado festival, que terá início na próxima semana, com 21 Companhias teatrais de diferentes regiões do País. Aos americanenses, resta apenas assistir, o que não é nada ruim se as peças participantes tiverem um nivelamento pelo alto, trazendo aos espectadores aquilo que todos queremos dessa tão vilipendiada e amada arte chamada teatro. Se isso não acontecer, proponho um novo debate, desta vez apenas de idéias, pois pareceu que dos momentos de puro ódio não brotaram produtivas sementes.
Em 1997, o grupo inglês Radiohead radiografou de forma precisa as angústias humanas à espera por um novo século, no aclamado álbum “Ok Computer”, um dos cinco melhores trabalhos daquela década. Três anos depois, quando a Internet ainda não controlava nossas vidas como atualmente, Thom Yorke e sua turma gravaram “Kid A”, um exercício de quebra de padrões da linguagem musical, que foi o primeiro trabalho da história a ganhar a Internet antes de seu lançamento em forma física. Agora, sete anos depois, o grupo retorna dando provas que ainda não perdeu a capacidade de surpreender o mundo. O sétimo disco de estúdio do Radiohead, "In Rainbows" já estará disponível em formato mp3, no site radiohead.com, a partir de 10 de outubro. O interessante é que o preço para baixar o disco ficará a cargo dos fãs. Isso mesmo, no site há um link em que o Internauta coloca ali o preço que estiver disposto a pagar pelas 18 músicas do Cd, que será lançado também no formato disco de vinil duplo (foto ao lado). Resumindo: Conceitualmente o Radiohead ainda é a banda mais antenada com sua época. Resta saber se musicalmente, eles continuam surpreendentes.
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.