Quem cresceu entre o final dos anos de 1970 e meados dos 80, conheceu a Série Vagalume, coleção de livros da editora Ática que ensinou muitos trintões de hoje a pegar gosto pela leitura. A série, que em 2007 completa 35 anos, continua sendo editada de forma discreta, sem a mesma força do passado. Mas não importa, como muitas outras obras, a Série Vagalume pertence a uma época. Eu mesmo tive minha iniciação nas letras através do livro “Tonico”, de José Rezende Filho. Até hoje, guardo a edição velha em casa, e confesso que de vez em quando dou uma lida em alguns capítulos da história do menino de classe média baixa, que sonha em ter a mesma liberdade dos meninos de rua, que vagavam pelo mundo sem precisar dar explicações para ninguém, sejam pais ou professores. Na seqüência vieram “O Escaravelho do Diabo”, da Lucia Machado de Almeida, “Açúcar Amargo”, de Luiz Puntel e todos do Marcos Rey, que tinha uma fixação pela cidade de São Paulo, assim como eu. O primeiro livro da série, foi “A Ilha Perdida”, de Maria José Dupré, em 1972, que logo passou a ser adotada por professores na iniciação de seus alunos que muitas vezes tinham certa resistência às histórias descritivas do Romantismo de José de Alencar. Nestes 35 anos, aplaudamos essa verdadeira instituição da literatura nacional.
Aproveito e pergunto: Qual seu livro preferido da série Vagalume?
Poucos nomes da literatura ou do jornalismo podem descansar em paz sabendo que criaram uma escola seguida por muitos, mas nunca igualada. Hunter Thompson é um desses, o que não é nada mal para uma pessoa totalmente maluca e inconseqüente, que um belo dia acordou de mau humor e deu um tiro na própria cabeça, sem maiores explicações ou bilhetes de despedida. Hunter S. Thompson nasceu nos Estados Unidos, em 1937, e desde cedo se envolveu em literatura escrevendo para suplementos literários de jornais americanos. No começo dos aos 60 partiu rumo à América do Sul, onde trabalhou em países como Colômbia, Peru e Brasil, chegando até a causar algumas confusões diplomáticas, devido a seu humor irônico em cobrir visitas de autoridades estrangeiras a esses países. Mas foi em 1971, já de volta aos Estados Unidos que ele escreveria o livro reportagem que o colocaria na história, como o mais pitoresco dos “filhotes” do New Journalism, fundado nos anos 50, por Tom Wolf. Nesse “novo jornalismo”, o repórter não apenas descreveria ao leitor a notícia, mas viveria essa notícia na própria pele, dando contornos literários aos acontecimentos, aproximando as frias reportagens da época do calor da ficção. Mas de todos eles, ninguém “viveu” mais aquilo que escrevia do que Thompson, em seu “Medo e Delírio em Lãs Vegas”, que pela primeira vez ganha tradução para português, chegando às livrarias nesta próxima semana pelas mãos da editora paulista Conrad. Contratado pela revista Rolling Stones para cobrir uma corrida de carros no meio do deserto e uma convenção antidrogas, Thompson e mais um amigo encheram o carro de substancias ilícitas e partiram deserto adentro para viver, ironizar e ridicularizar tanto o ideal hippie que via nas drogas uma chamada para novas percepções, quanto o moralismo das autoridades que viam nas drogas o grande satã do mundo. Mais que um relato sem cortes e aventureiro do mundo das drogas e da contracultura dos Estados Unidos, Thompson redigiu a decadência da década de 1970, em comparação ao sonho colorido da juventude dos anos anteriores. Milhares de seguidores foram surgindo após a publicação na Rolling Stones (e depois em livro) de “Medo e Delírio em Las Vegas”, mas poucos chegaram aos pés de Thompson, que mesmo em meio a toda sua loucura conseguia expressar, a cada passagem do livro, irônicas observações através de um texto maravilhosamente bem escrito, carregando toda uma geração de contistas, de Edgar Allan Poe e Ernest Hemingway, passando pelo já citado Tom Wolf. Em 1998, o diretor Terry Gillian dirigiu uma versão cinematográfica do livro, com Johnny Depp e Benício Del Toro no elenco, que apesar de louvável, não conseguiu transmitir a mesma intensidade da obra em papel, que, agora, pode ser apreciada em português.
O presidente da Comissão Organizadora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba deste ano, Ricardo Viveiros, suspendeu a entrega do prêmio para o primeiro colocado na categoria Cartum. A decisão foi em função da suspeita de plágio do ganhador Evaristo Daniel Rodrigues, cujo desenho é muito parecido com o do cartunista mineiro Cau Gómez, que participou do Salão de Piracicaba em 2002. Os dois cartuns mostram um canibal, com uma medalha no peito, no alto de um pódio, numa brincadeira que sugere que ele tenha vencido o campeonato comendo seus concorrentes. Realmente a idéia dos dois cartuns são exatamente iguais. Caso seja considerado plágio, daremos o prêmio ao segundo colocado, a primeira Menção Honrosa da categoria. Caso contrário, entregamos ao vencedor”, adiantou Viveiros. Veja e compare os dois trabalhos: Acima está cartum vencedor deste ano, e aqui em embaixo o classificado em 2002 do Salão.
Passeando por uma grande loja de departamento de Campinas, no último final de semana, fiquei surpreso com as dezenas de referências há datas feitas por revistas de Cultura. Era 40 anos de Tropicalismo, 30 anos da morte de Elvis, 20 anos sem Carlos Drummond, 18 anos do falecimento de Raul Seixas, 50 anos de movimento Concretista, etc, etc, etc. O pior é que a maioria das matérias tratavam de forma pouco profunda cada um desses nomes citados, ressaltando apenas o lado “perfeito e imaculado” das personalidades. Em todas as páginas que tive a oportunidade de ler faltou uma ligação entre o tema e o presente, mostrando os desdobramentos daquilo que esses nomes criaram no passado e sua relevância com os dias que correm. Sem esse elo de ligação, ficamos à mercê da pura necrofília da arte, que é perigosíssima.
Há 18 anos morria Raul Seixas, um dos mais controversos e geniais músicos da história de nossa música popular brasileira. Apesar de estar longe do esquecimento absoluto e sempre ser lembrado em datas como a de hoje, uma constatação é triste: precisamos aprender a ouvir Raul Seixas. E isso inclui tanto a estagnada elite intelectual/ musical brasileira, que nunca aceitou Raul por sua não filiação a nichos específicos (esquerda marxista, MPB, nacionalismo cego, etc) quanto, principalmente, seus fãs, que nada mais fazem que distorcer os 21 anos de uma carreira repleta de tesouros musicais em simbolismos baratos como desculpas para vazias demonstrações de rebeldia, que de forma alguma faz jus à maluquice subversiva de Raul. Isso mesmo, Raul era um subversivo, mas também era popular, nunca deixou de ser e fazia questão disso, como demonstrado em toda sua obra. Era um cantor do povo em todos os sentidos que a palavra povo pode abranger. Desde o início suas letras estavam na boca das empregadas domesticas que limpavam a casa do patrão ouvindo-o em seus rádios portáteis; na cabine dos caminhoneiros que cruzavam o Brasil tocando seus discos em toca-fitas vagabundos. Mas Raul também era uma pedra no sapato da ditadura e dos moralistas de plantão. Foi o único que conseguiu ser cantado pelo mesmo público de Odair José e Amado Batista, falando de filosofia (“Eu Sou a Areia da Ampulheta/ O Lado mais Leve da Balança”), amor livre (“Se eu te amo e tu me amas/ Um amor a dois profana/ O amor de todos os mortais”), existencialismo (“Vou subir/ Pelo elevador dos fundos que carrega o mundo sem sequer sentir/ Vou sentir/ Que a minha dor no peito que eu escondi direito agora vai surgir/ Vou surgir/ Numa tempestade doida pra varrer as ruas em que eu vou seguir”) e a dor de viver (Oh, morte, tu que és tão forte/ Que matas o gato, o rato e o homem/ Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar”). E embalou esses tratados em forma de canção com rocks virulentos (“Aluga-se”), modas de viola (“Na Beira do Pantanal”), música brega (“Tu És o MDC da Minha Vida”), tango (“Canto para Minha Morte”) e belíssimas obras-primas que fogem de qualquer rótulo (“O Homem”, “Ouro de Tolo”, “A Hora do Trem Passar”). Que pelos próximos 18 anos aprendamos a (re) ouvir tudo isso, pois uma obra dessa magnitude ficar pairando por aí sem ser captada é de um desperdício assustador.
Música do dia
Por falar em Raul Seixas, deixo um presente para vocês: A música “Porque”, incluída na trilha da novela “O Rebu”, de 1974. Todas as 14 músicas dessa novela, por sinal, são assinadas pela dupla Raul Seixas e Paulo Coelho e interpretadas por cantores como Elza Soares, Alcione (em começo de carreira) e a Orquestra da Som Livre. “Porque” é cantada por uma cantora chamada Sonia, que acabou despontando para o anonimato.
Os famosos festivais promovidos por emissoras do Rio de Janeiro e São Paulo entre os anos de 1965 e 1966 tinham como característica uma reafirmação da brasilidade, por influências políticas da ala estudantil de esquerda do período. Essa temática acabou sendo deixada para trás a partir do Tropicalismo que começou a dar frutos no segundo semestre de 1967, rezando numa cartilha mais universal e abrangendo influencia da cultura de massa via música pop. No Americanta, realizado em Americana no último final de semana, várias canções beberam de forma indireta justamente nesse primeiro período dos festivais, tanto que canção vencedora foi “Lendas Brasileiras”, do compositor Eraldo dos Santos, na interpretação da americanense Janaína de Cássia. Por que isso aconteceu? Bem, tenho uma teoria, mas volto a falar dela nos próximos dias. Agora, deixo apenas a canção ganhadora para vocês me dizerem se gostam.
Os 20 anos da morte de Carlos Drummond de Andrade foi bem menos lembrado que o necessário, porém quase a totalidade de sua obra encontra-se disponível nas livrarias, o que é um consolo e tanto à memória do mestre que foi um dos principais responsaveis pela modernização da poesia brasileira em meados do século XX. Abaixo uma pequena homenagem ao poeta, através do meu poema preferido dele.
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo, Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga.
Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo bastante ou demais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.
Ser escritor ou jornalista é antes de tudo saber cortar aquilo que deu um trabalhão para escrever. Na capa do Caderno L do LIBERAL de hoje, o ator Felipe Carvalhido, de Americana, nos cedeu uma bonita entrevista falando de sua vida e de seu atual momento, em que está sendo elogiado pelo desempenho no musical “Peter Pan – Todos Podemos Voar”, em cartaz em São Paulo. Vivendo o Capitão Gancho, ele foi elogiado por veículos como Veja e O Estado de São Paulo. Abaixo separei um trecho da matéria que foi cortada na edição final, mas que merece ser lida pela emoção do artista em falar da situação emocional em que estava nos meses de antecederam sua aprovação para viver o vilão da Terra do Nunca:
“Até a data em que recebi a notícia de que havia passado no teste pra fazer o Capitão Gancho, eu estava há uns 5 meses passando talvez pela fase mais difícil, crítica e depressiva da minha vida. Estava desempregado por opção, mas também não sabia o que eu poderia fazer a não ser trabalhar com teatro ou música. Fazia muitos testes pra comercias para televisão e confesso que de muitos eu passei só em um, de uma marca de cerveja no qual eu era o protagonista. Gravei o comercial. Ficou muito bacana, me animei um pouco; mas, o comercial não foi pro ar! E eu fui pro chão novamente. Mas após me enfiar numa fila pra fazer o teste pra ser o protagonista de “Miss Saigon” (musical que está em cartaz no Teatro Abril em São Paulo) em que o perfil exigia ser loiro e de olhos azuis, nada a ver comigo, minha vida começou a mudar. Quem me adicionou neste teste me indicou para fazer o teste pra ser o Capitão Gancho. Aceitei a indicação, recebi o material, estudei por duas semanas, me preparei e fui acreditando em uma coisa só: "Este é o momento que minha vida vai mudar". Olhava pra todos os candidatos e a maioria tinha acabado de sair do musical “Fantasma da Ópera” e óbvio que sentia um medo por "eles serem melhores do que eu", acreditava eu, mas não podia dar vazão a este tipo de pensamento neste momento. Fiz o teste e passei. Eu estou muito feliz com todas as críticas que estou recebendo, mas também assustado com tudo isto. Eu agradeço a Deus por tudo isto. Teve um dia em que eu acordei já com vontade de chorar...uma mistura de alegria com estranhamento..muita coisa, foi então que eu resolvi ligar pra todos que são responsáveis por eu estar vivendo isto tudo..acho ótimo eu estar passando por esta etapa da minha vida com consciência e muito pé no chão. Digo que toda dificuldade que estava passando antes de entrar no musical serviu prá me preparar para viver o que estou vivendo, sem estrelismos e deslumbramentos. Deus sabe o que faz!”
Como foi muito legal a participação de todo no tópico que destacou os piores versos ou estrofes de música brasileira, resolvi fazer outro, desta vez mais construtivo. Então, lá vai: Qual o MELHOR verso ou estrofe de uma música brasileira. Como de praxe, dou um exemplo das minhas preferidas. O resto é com vocês:
“Oh, pedaço de mim/ Oh, metade arrancada de mim/ Leva o vulto teu/ Que a saudade é o revés de um parto/ A saudade é arrumar o quarto/ Do filho que já morreu”, “Pedaço de Mim” (Chico Buarque)
“Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor”, “A Flor e o Espinho” (Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito)
“Tão longa é a noite, a noite eterna do tempo/ Se comparada ao curto sonho da vida”, “Nuit” (Raul Seixas)
“Eu bato o portão sem fazer alarde/ Eu levo a carteira de identidade/ Uma saideira, muita saudade/ E a leve impressão de que já vou tarde” “Trocando em Miúdos” (Chico Buarque)
“É que Narciso acha feio o que não é espelho/ e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho” “Sampa” (Caetano Veloso)
“Um homem com uma dor/ É muito mais elegante/ Caminha assim de lado/ Como se chegando atrasado/ Chegasse mais adiante”, “Dor Elegante” (Itamar Assumpção e Paulo Leminski)
“Eu sei que esses detalhes/ vão sumir na longa estrada do tempo/ que transforma todo amor em quase nada/ Mas quase também é mais um detalhe”, “Detalhes” (Roberto e Erasmo Carlos)
“O meu egoísmo é tão egoísta/ Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar” “Carpinteiro do Universo” (Raul Seixas e Marcelo Nova)
“Louco, o bêbado com chapéu-coco/ Fazia irreverências mil pra noite do Brasil” “O Bêbado e o Equilibrista” (Aldir Blanc e João Bosco)
“Um mestre do verso, de olhar destemido/ disse uma vez, com certa ironia: “Se lágrima fosse de pedra, eu choraria/ Mas eu, Boca, como sempre perdido/ Bêbado de sambas e tantos sonhos/ Choro a lágrima comum/ Que todos choram/ Embora não tenha, nessas horas/ Saudade do passado, remorso/ Ou mágoas menores/ Meu choro, Boca/ Dolente, por questão de estilo/ É chula quase raiada/ Solo espontâneo e rude/ De um samba nunca terminado /Um rio de murmúrios da memória/ De meus olhos, e quando aflora/ Serve, antes de tudo/ Para aliviar o peso das palavras/ Que ninguém é de pedra”. “Bebadosamba” (Paulinho da Viola)
Na apresentação que a banda Pearl Jam fez no festival Lollapalooza, no último final de semana não faltaram duras críticas ao governo do presidente americano George W. Bush. Mas o site do evento cortou essas criticas em sua transmissão pela Internet e pela TV. Assim, os internautas não puderam ver ou ouvir a cover de “Another Brick in The Wall” do Pink Floyd, onde o cantor Eddie Vedder trocou os versos originais ("Hei, Professor, deixem as crianças em paz") para “Hei, Bush, deixe o mundo em paz”. A organização do Lollapalloza negou-se a comentar o assunto. Aqui está o trecho censurado.
A assessoria de imprensa do Tim Festival, o mais charmoso festival musical brasileiro, anunciou hoje que vai divulgar toda sua programação de shows no próximo dia 21. O Festival acontece no final de outubro, mas pelo que se sabe até agora dá para se ter uma idéia que esse será o mais feminino de todos os já realizados. Bjork, Feist, Cat Power e Juliette and The Licks são nomes certos e de contratos assinados, além dos “meninos” do Artic Monkeys e The Killers. Juliette And The Licks é a grande surpresa do ano. Liderado pela atriz Juliette Lewis (“Cabo do Medo”, “Assassinos por Natureza”) a banda é praticamente desconhecida no Brasil, mas lançou um dos melhores discos do ano bebendo no melhor do punk rock americano dos anos 70. Aqui está uma pequena amostra do som que poderemos ver ao vivo nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Vitória.
Aquela velha história que a dor é capaz de causar revoluções cai como uma luva para tentar explicar a reviravolta estética pela qual passou o cartunista Laerte após a morte de seu filho, há cinco anos. Dono do melhor traço de sua geração, Laerte deixou seus personagens mais famosos de lado e investiu em um humor nonsense, sutil e rico em sua aparente simplicidade. Não o conheço pessoalmente para afirmar o quanto a perda do filho influiu nessa radical mudança, mas como fiel acompanhador da obra dele, percebi que a mudança deu-se aos poucos, a partir do fato. Especulações de lado, suas criações para a página de humor da Ilustrada, no jornal Folha de São Paulo é programa obrigatório na leitura diária. Acima um exemplo do que estou falando.
Mestre em se auto promover (isso é um elogio e uma critica) Caetano Veloso aparece de maquiagem feminina na capa da revista Rolling Stones desse mês, que deve bater nas bancas de todo o país nos próximos dias. Assuntos não faltaram para a matéria interna, já que em agosto comemora-se os 65 anos do cantor e os 40 anos da Tropicália. Outra boa opção de leitura nas bancas é a Bravo, que coloca o mesmo Caetano e foca na importância dos tropicalistas para a cultura nacional.
Em 2002 eu morava em Paris e para ir trabalhar costumava passar por dentro do cemitério Pére Lachaise como forma de cortar caminho para a labuta diária. O Pére Lachaise é um dos maiores cemitérios da Europa, e ponto turístico obrigatório para quem visita a cidade por sua coleção de túmulos de grandes personalidades. Estão lá, além de muitos reis e rainhas, o escritor Oscar Wilde, o músico Frederic Chopin, espírita Alan Kardec e mais uma constelação de túmulos de gigantes da arte que já partiram. A grandiosidade das sepulturas também impressionava, pois ficava pensando nas vantagens de passar eternidade em um túmulo maior que o quarto onde eu dormia. Mas nada daquilo era tão fascinante quanto um pequeno túmulo escondido a alguns metros da entrada do portão principal do cemitério. Todos os dias, via dezenas de jovens de cabelos vermelhos, velhos hippies perdidos no tempo e senhoras nostálgicas olhando emocionadas para uma pequena caixa de areia, simples, suja e maltratada, com uma placa escrita “James Douglas Morrison 1943 – 1971”. Lá fica o corpo do líder de uma das maiores bandas da história, o muito provavelmente um dos cinco mais carismáticos nomes da história do rock. Lembrei-me desse período porque em comemoração aos 40 anos do lançamento do primeiro disco do The Doors está chegando às lojas os seis discos do grupo, todos caprichadamente remasterizados e com gravações raras como bônus. Poderia falar da importância da banda para a música dos anos seguintes ou descrever em detalhes os seis (perfeitos) discos lançados por eles (The Doors, Strange Days, Waiting For The Sun, The Soft Parade, Morrison Hotel, LA. Woman), mas uso uma frase do crítico Tim Robbins, que em 1967 descreveu o grupo como “canibais em uma época de vegetarianos”. Perfeito. Separei uma raridade para vocês: Uma gravação de 1965, da música “Hello, I Love You”. Essa gravação saiu de um dos primeiros ensaios, poucos meses após formarem o grupo (o primeiro disco sairia apenas em 1967). Inspirada pelo grupo inglês The Kinks, a canção só seria conhecida pelo público três anos depois, quando abriria o terceiro disco da banda, “Waiting For The Sun”.
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Em outubro e novembro próximos as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro receberão pela primeira vez uma exposição da artista plástica japonesa Yoko Ono. Além de suas obras nada assimiláveis, São Paulo também já agendou um show dela, com músicas de seu Cd “Yes, I'm a Witch", lançado no final do ano passado, com a participação de nomes da nova geração como The Flaming Lips e Antony and the Johnsons revisando composições da multiartista. Todas essas novidades refletem uma inédita concepção para além da preconceituosa visão dela como um “monstro japonês que acabou com os Beatles”. Yoko Ono, que hoje está com 76 anos, nasceu em Tóquio, onde se envolveu com arte desde muito cedo. Nos anos 50, foi para os Estados Unidos onde mergulhou de cabeça em todo tipo de arte de vanguarda (Literatura Beat, Poesia concreta, Música atonal, etc). Passou a dividir seus dias entre Nova Yorque, Londres e sua Tóquio natal e, em 1966, durante uma exposição em Londres conheceu John Lennon, cujo casamento já estava em frangalhos, e acabou entrando para a história da pior forma possível, ao ser responsabilizada pelo fim da maior banda musical de todos os tempos. A verdade pode ser maniqueistamente divida em duas, sendo ambas verdadeiras sob pontos de vistas distintos e complementares. Yoko tornou a vida da banda horrível ao se meter em tudo, dando até palpites em gravações de estúdio e sem nenhuma noção de limites acompanhando Lennon em todos os lugares (a biografia “Many Years From Now” de Paul McCartney fala até que em banheiros públicos). Mas por outro lado, a personalidade forte e sem amarras sociais de Yoko caiu como uma luva ao temperamento inconstante do beatle, filho de lar desfeito e ansiando por uma mãe que o acolhesse desde criança (ela era dez anos mais velha que ele). Artisticamente a japonesa também foi importante. Casado com ela, a partir de 1968, Lennon conheceu a vanguarda de sua época (para o bem e para o mal, vide alguns discos deles lançados no final dos anos 60) e recuperou o espaço nos Beatles que desde 1967 estava nas mãos de Paul, que solteiro era o mais bem informado sobre as novidades da arte na época. Ponderando tudo isso, ainda não dá para se chegar a uma conclusão definitiva sobre Yoko, até porque faltou discutir seus trabalhos como artista plástica que sempre geraram controvérsia aos amantes de arte. Ousada para uns, e oportunista para outros, ela também nunca foi bem digerida neste segmento. Talvez durante suas exposições no Brasil, possamos tecer opiniões mais firmes aos estarmos frente a frente com suas criações. Deixando tudo isso de lado, pelo menos um elogio eu tenho para Yono Ono: Ela impediu que os Beatles estivessem compondo trilhas para desenhos da Disney ou aparecendo em algum Grammy, junto a Celine Dion e outras azias musicais. A magia ficou intacta, graças a ela. Como o mundo é surreal!
Com a morte dos cineastas Ingmar Bergman e Michelangelo Antonioni nesta semana, o cinema perdeu dois de seus mais representativos e importantes diretores ainda vivos. Minha pergunta é: Quem, hoje, é o maior cineasta vivo? Dou algumas opções, mas fique livre para incluir qualquer um que eu tenha esquecido.
Martin Scorsese Wim Wenders Jean Luc Godard Woody Allen Pedro Almodóvar Clint Eastwood Quentin Tarantino Steven Spielberg Luc Bresson Oliver Stone Francis Ford Coppola
Chico Science costumava dizer que modernizar o passado era uma evolução musical. A Orquestra Imperial, formada por 19 antenadas cabeças da atual música brasileira segue esse mesmo preceito em seu disco de estréia. Brincando com a tradição brasileira da gafieira, do samba e da Tropicália, o combo formado por gente como Jorge Mautner, Kassin, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso e Wilson das Neves (lendário baterista que toca há anos com Chico Buarque), consegue tirar um caldo moderno de todas essas referencias passadas, em faixas que buscam unir referencias antigas e tradicionais com a modernidade. Aqui está a faixa “Supermercado do Amor” para você opinar e dar seu veredicto.
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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.