11.27.2007

Linhas sobre meu fracasso

Foram três tentativas ao longo dos tempos, e todas fracassadas. Na primeira, eu tinha 15 anos e mal consegui passar da quinta página, depois de retornar para a primeira umas dez vezes ao longo de mais de uma semana. Já aos 20, pensei que já estaria com bagagem suficiente para uma nova tentativa. Estava completamente enganado. Depois, ouvi o maior crítico literário do Brasil, Antonio Candido, explicar que a leitura deveria ser no inglês, pois nenhuma tradução daria conta de sua complexidade. Não preciso nem me ater a esse novo fracasso, né?
Estou falando de “Ulisses”, o calhamaço de mais de 900 páginas do escritor irlandês James Joyce lançado há 85 anos, em Paris, e descrito, já na época, como o “romance que veio para acabar com todos os romances”. Considerado um desafio a leitores do mundo todo, “Ulisses” é o big bang de toda a arte conceitual moderna, dos poetas concretos brasileiros como os irmãos Campos aos multifacetados filmes de cineastas como David Lynch, David Cronenberg e Godard.
Joyce, pegou o clássico “A Odisséia de Homero”, o romance épico escrito no período pré-cristão e usou de sua estrutura para narrar o dia a dia besta de um medíocre cidadão chamado Leopold Bloom. O objetivo era provar que um dia na vida de qualquer pessoa poderia ser tão heróico quanto qualquer guerra mitológica.
O enredo nem é tão complexo, mas Joyce usa de toda forma de desestruturação lingüística para passar sua mensagem, nos 18 episódios agrupados em três partes (a mesma estrutura da Epopéia de Homero).
No Brasil existem duas traduções de “Ulisses”. A primeira, lançada nos anos 60 (e a que eu tentei ler) é bastante criticada pelos pesquisadores do livro. Uma segunda “traição” saiu há dois anos, e recebeu elogios.
Talvez em homenagem a essas oito décadas e meia eu faça uma nova tentativa, mas já adianto que não estou com muitas esperanças. Se falhar novamente, parto para os estudos bíblicos e daqui mais 25 anos, faço uma nova tentativa. Torçam por mim.

1 Comentários:

Soraya disse...

ahahahahahahahah
boa sorte, porque você vai mesmo precisar!

Tenho a mesma dificuldade com a Bíblia... vou, vou, vou, de repente não vou mais...eheh

inté

28 de Novembro de 2007 13:16  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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