10.16.2007

Prazer virtual

Há anos mantenho um hábito bastante saudável e que me dá muito prazer: Umas três ou quatro vezes no ano saio daqui do interior em um sábado de folga e passo o dia percorrendo sebos do Centro de São Paulo, garimpando discos de vinil fora de catálogo, Cds e livros. Essa mania já me valeu algumas descobertas bastante inusitadas, como a aquisição de obras raríssimas que me saíram por R$ 2,00 ou R$ 3,00. O oposto também acontece, e meu cartão de crédito pede arrego na compra de um Cd importando de um pequeno selo escocês ou australiano. É uma mania que já se tornou indissociável da minha vida e que sempre garantiu muitos domingos de felicidade na frente do aparelho de som. Em uma época que morei no exterior fazia a mesma coisa, passando reto por cartões postais europeus para ir naquela loja empoeirada indicada por amigos.
Em setembro estive em férias e, como faço em todos esses períodos, rumei à minha Disneylândia. Fiz o mesmo caminho que sempre faço, mas desta vez devo confessar que o prazer foi menor. E isso por um simples motivo: me senti solitário.
Notei que a maioria dos sebos de discos que conhecia desde criança foram fechados. Na famosa Grandes Galerias, onde no passado se encontrava as maiores novidades do mundo da música, muitas lojas foram fechadas dando lugar às de roupas e acessórios para emos e camisetas de rock, numa prova que hoje estilo é mais importante que aquilo que se ouve ou se sabe sobre música.
O último balde d’água sobre meu romantismo foi jogado essa semana, quando o Radiohead, uma das minhas bandas preferidas, lançou seu novo álbum, “In Rainbow”, somente via download, abrindo um caminho que provavelmente será seguido por muitos outros artistas no futuro. O grupo nem ao menos está cobrando pelo Cds, deixando ao comprador a escolha do valor a ser pago, num ato que pode significar uma revolução no mundo da música.
Entusiasta dos arquivos trocados via computador desde o Napster, em 1999, não ficarei chorando como muita gente que afirma, erroneamente, que essa nova relação artista/consumidor vai acabar com a música. As coisas estão aí para serem mudadas e a Internet pode ser o melhor caminho para novos nomes da música desenvolverem obras livres das ditaduras de marketing e de empresário burros. Infelizmente o efeito colateral disso tudo é que a música que antes era correlacionada com a atividade física de manusear uma capa enorme e seus encartes cheio de informações resume-se, há algum tempo, apenas ao prazer virtual, mimetizando as relações inter pessoais que tomou conta de nossas vidas em diversos setores. Mas sentirei nostalgia se um dia perguntar para meu filho se ele viu meus discos do Neil Young e ele responder: “O seu o quê?”. Impressão minha ou estamos ficando ultrapassados cedo demais?
Editor
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PerfilLuciano Assis
Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
Perfíl do Blog
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O Blog Entrelinhas é uma extensão do Caderno L do LIBERAL, e tem como meta informar, comentar e analisar aspectos relevantes da Cultura local, nacional e internacional de forma ágil e interativa com seus leitores, criando uma rede de discussão acerca do mundo dos espetáculos.

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