10.29.2007

O inferno são os outros

Em meados de 1998, eu e um amigo estávamos na platéia de um show do grupo Racionais Mc, na cidade de Osasco. O novo disco deles tinha explodido em vendas chegando a 500 mil cópias, um recorde para artistas sem assessoria de imprensa, gravadora ou divulgação na mídia. Mesmo assim, cada um dos presentes ali cantava cada sílaba das longas letras de Mano Brown, que faziam uma crônica perfeita do submundo periférico.
Passados quase dez anos de seu lançamento, “Sobrevivendo no Inferno”, disco lançado um pouco antes daquela apresentação ainda não perdeu um milímetro de sua força bruta, o que reflete nossa total falta de evolução social no Brasil.
Colocado na chamada linha evolutiva da música popular brasileira, onde se afileram “Chega de Saudade” (João Gilberto, 1958), “Tropicália” (Vários, 1968), “Mutantes” (Os Mutantes, 1968), “Acabou Chorare” (Novos Baianos, 1972), “Beleléu, Leléu, Eu” (Itamar Assumpção, 1980) e “Da Lama ao Caos” (Chico Science e Nação Zumbi, 1994) e alguns outros, “Sobrevivendo...” encerra o fim do sonho de nação brasileira, através de pesadelos urbanos narrados com contundência e desesperança. Isso mesmo, o que faz da obra uma coleção tão importante de não-canções é que em nenhum momento as músicas deixam escapar pingos de otimismo no futuro. Tudo ali é negação: “Não-música”, “não-melodia”, “não-refrão”, “não-amor”, “não-suavidade”, “não-poesia”. Se na MPB engajada dos anos 60 e 70 havia uma busca por algo digno, como a liberdade de expressão ou a igualdade social, no rap dos Racionais isso cai por terra, pois nenhum dos membros do grupo acredita em qualquer melhoria.
Nem a aclamada diversidade racial é aceita com facilidade por eles pois todos o samples utilizados no disco são de artistas negros (Isaac Hayes, Jorge Ben), da cor daqueles que vivem nas casas vizinhas de Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay, no bairro do Capão Redondo.
Alguns anos depois, trabalhando durante uma tese de faculdade na favela de Heliópolis, a maior da América Latina com 90 mil habitantes, voltei a conversar com jovens moradores sobre os shows que havíamos visto dos Racionais Mc. A maioria dos jovens se referia ao grupo com reverencia, evidentemente porque nenhuma outra formação musical conseguia traduzir para eles em palavras aquilo que sentiam na pele todos os dias.
Nestes dez anos, penso que assim como obras primas do quilate de “Construção” (Chico Buarque, 1971) não existiriam sem o regime militar, “Sobrevivendo no Inferno”, não seria possível sem as senzalas urbanas regadas pela desigualdade social e racial, após serem plantadas por nossa brutal disparidade de renda, oportunidades e educação.
É triste, mas eu preferia nunca ter ouvido maravilhas como “Jorge de Capadócia”, “Capitulo 4, Versículo 3”, “Em qual Mentira Acreditar” e “Mágico de Oz”.

5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Será que você sabe de tudo que esta falando Luciano????
Acho melhor ficar calado....

5 de Janeiro de 2008 00:24  
Blogger Luciano Assis disse...

Olá, Anonimo!

Na maioria das vezes gosto mais das discondancias em relação ao que escrevo do que dos elogios. Considero os antagonismos muito mais ricos e importantes do que os apoios, por isso respondo a cada critica com entusiasmo redobrado.
Pena não poder fazer o mesmo com o seu comentario, pois além de vir anonimamente (e dificil conversar às cegas com alguem) ele não traz um minimo de argumentos que apontem onde e por que estou errando.

Abraço, amigo! E lembre-se: opiniao sem argumento é peso morto em qualquer lugar...

7 de Janeiro de 2008 11:48  
Anonymous Stiven. disse...

Olá Luciano.

Não que seje contra o que tenha escrito, você se equivo quando se refere ao Mano Brown como apenas defensor dos negros, as letras em sua poesia vai muito mais além,ele se refere aos negros em suas musicas por que é a raça que infelizmente mais passou e passa por preconceitos,mas em seu rap "Jesus Chorou"ele faz referência a nomes de brancos como o do Che Guevara.
E os Racionais lutam para que essa realidade mude,na letra da "Formula magica da paz" ele pede para que lutamos para que o cotidiano violento não seje a nossa realidade.

Abraços.
Fica com Deus.

10 de Junho de 2008 17:09  
Anonymous Anônimo disse...

sempre abordando temas polemicos de nossa sociedade....
ondes os ricos viram a cara para não ver a verdade ai vem racionais
com o peso da palavra e nos mostra as fraquesas de nossa sociedade

10 de Agosto de 2008 10:26  
Anonymous Anônimo disse...

TBM ACHO QUE NA VIDA NASCEMOS PARA APRENDER, ENTÃO:
SE TIVER UM TEMPO DÁ UMA FAÇA UMA LEITURA:
http://www.espacoacademico.com.br/041/41netto.htm
RACIONASI VAI ALÉM DA RAÇA!

26 de Setembro de 2008 21:45  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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