Ao mestre com carinho
Mais do que um artista, o Brasil perdeu um símbolo com a morte do ator Paulo Autran, aos 85 anos, no último dia 12. Autran simbolizava um tempo em que fazer teatro era uma aventura ainda mambembe (poucos percorrerem tanto esse país quanto ele), marginal e maldosamente estereotipada pelo senso comum médio brasileiro. Mesmo assim, sua geração foi em frente, brigando contra moinhos de ventos, feito Dom Quixote. E para surpresa geral, venceram, colocando toda aquela geração surgida na década de 1950 como a mais prolixa do tablado brasileiro.
Autran carregava a alegria de fazer parte daquela era e ainda estar vivo (se não estou esquecendo de ninguém, agora só temos Fernanda Montenegro, Tônia Carreiro e Cleyde Yáconis).
Na única e inesquecível vez que o entrevistei, ele não pareceu se impressionar muito com essas lembranças. Disse que fazer teatro é muito melhor agora, quando as peças ficam mais tempos em cartaz.
Nostalgia não era com ele, tanto que na ocasião levei algumas perguntas de diretores e atores da região, numa tentativa de provocar uma troca de informações entre o velho mestre e gente que ainda estava começando. As perguntas eram do tipo: “Como fazer para sobreviver do teatro hoje em dia?”. “Por o brasileiro não vai ao teatro?”. “O que fazer para popularizar o teatro no Brasil?”. “Mesmo com anos em cartaz minha companhia não consegue nenhum tipo de patrocínio porque optamos por um teatro experimental. Como fazer teatro em um país escravo da TV?”, etc.
Ele respondeu todos os questionamentos com alegria e entusiasmo (quando o assunto era teatro ele esquecia da vida), mas ao final me confidenciou que ficava triste com tantos jovens céticos reclamando. “Na minha época era muito pior. Hoje as peças ficam anos em cartaz. Na minha época ficávamos uma semana, isso quando a igreja não nos expulsava de alguma cidadezinha do interior por montarmos algum autor que estivesse no index do Vaticano”, lembrou.
Foram 23 minutos de entrevista, e mais 12 de bate papo que valerá por uma vida.











1 Comentários:
Lu, você entrevistou uma lenda! Esses minutos vão valer pra vida inteira mesmo, com certeza..
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