8.30.2007

Medo e delírio em português

Poucos nomes da literatura ou do jornalismo podem descansar em paz sabendo que criaram uma escola seguida por muitos, mas nunca igualada. Hunter Thompson é um desses, o que não é nada mal para uma pessoa totalmente maluca e inconseqüente, que um belo dia acordou de mau humor e deu um tiro na própria cabeça, sem maiores explicações ou bilhetes de despedida.
Hunter S. Thompson nasceu nos Estados Unidos, em 1937, e desde cedo se envolveu em literatura escrevendo para suplementos literários de jornais americanos. No começo dos aos 60 partiu rumo à América do Sul, onde trabalhou em países como Colômbia, Peru e Brasil, chegando até a causar algumas confusões diplomáticas, devido a seu humor irônico em cobrir visitas de autoridades estrangeiras a esses países.
Mas foi em 1971, já de volta aos Estados Unidos que ele escreveria o livro reportagem que o colocaria na história, como o mais pitoresco dos “filhotes” do New Journalism, fundado nos anos 50, por Tom Wolf. Nesse “novo jornalismo”, o repórter não apenas descreveria ao leitor a notícia, mas viveria essa notícia na própria pele, dando contornos literários aos acontecimentos, aproximando as frias reportagens da época do calor da ficção.
Mas de todos eles, ninguém “viveu” mais aquilo que escrevia do que Thompson, em seu “Medo e Delírio em Lãs Vegas”, que pela primeira vez ganha tradução para português, chegando às livrarias nesta próxima semana pelas mãos da editora paulista Conrad.
Contratado pela revista Rolling Stones para cobrir uma corrida de carros no meio do deserto e uma convenção antidrogas, Thompson e mais um amigo encheram o carro de substancias ilícitas e partiram deserto adentro para viver, ironizar e ridicularizar tanto o ideal hippie que via nas drogas uma chamada para novas percepções, quanto o moralismo das autoridades que viam nas drogas o grande satã do mundo.
Mais que um relato sem cortes e aventureiro do mundo das drogas e da contracultura dos Estados Unidos, Thompson redigiu a decadência da década de 1970, em comparação ao sonho colorido da juventude dos anos anteriores. Milhares de seguidores foram surgindo após a publicação na Rolling Stones (e depois em livro) de “Medo e Delírio em Las Vegas”, mas poucos chegaram aos pés de Thompson, que mesmo em meio a toda sua loucura conseguia expressar, a cada passagem do livro, irônicas observações através de um texto maravilhosamente bem escrito, carregando toda uma geração de contistas, de Edgar Allan Poe e Ernest Hemingway, passando pelo já citado Tom Wolf. Em 1998, o diretor Terry Gillian dirigiu uma versão cinematográfica do livro, com Johnny Depp e Benício Del Toro no elenco, que apesar de louvável, não conseguiu transmitir a mesma intensidade da obra em papel, que, agora, pode ser apreciada em português.

3 Comentários:

Rodolfo Balo disse...

Massa!!! Mas Infelizmente a tradução do livro veio depois do filme... mas ta valendo!!!!

31 de Agosto de 2007 16:22  
Erika disse...

Como ainda não vi o filme, poderei ler o livro antes, e assistir depois... hehehe

4 de Setembro de 2007 10:03  
Fábio Shiraga disse...

Eu vi o filme de Terry Gillian logo depois de ter lido o On The Road, do Kerouac. Foi muito bom. Mas agora tô louco para LER o que vi no filme.

Abraço.

4 de Setembro de 2007 23:08  

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Luciano Assis, 29, é repórter do Caderno L do jornal LIBERAL, onde escreve diariamente sobre música, literatura, cinema, teatro e artes plásticas. É também o responsável pela coluna “Entrelinhas”, publicada na edição de domingo do jornal, onde analisa assuntos culturais que foram notícia no decorrer da semana.
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