
“Passamos nossas vidas a ocultar nossos desejos. Por isso há tanto medo no mundo”. A frase faz parte do texto “O Mágico dos Medos”, do livro “Aprendendo a se Comunicar”, de Jacques Salomé. Quem diz a frase é uma criança que consegue desvendar o segredo do tal mágico. “Por detrás de cada medo há um desejo. E há sempre um desejo debaixo de cada medo, por menor ou mais terrificante que ele seja. Fique sabendo que há sempre um desejo”, crava a criança.
Pois não há? Pense-se no maior sonho, aquele escondido por anos ou décadas e que faz sentir frio na barriga só de pensar em falar sobre ele. Pronto, o frio na barriga já revela o medo do desafio para conseguir realizá-lo (ou o próprio medo de falar sobre o assunto). Agora, pense-se nos medos, naqueles capazes de tirar o sono. Não será difícil descobrir desejos ocultados pela criação deles.
Um certo dia, um homem foi até o Mágico dos Medos, conta o texto de Jacques Salomé, dizendo ter medo de seus desejos. Foi quando o mágico lhe perguntou qual seria o desejo. E ele respondeu: o de não morrer nunca. Então, o mágico voltou a lhe perguntar, desta vez qual seria o medo. E a resposta: o medo de não lhe sobrar tempo de viver toda a vida.
Pois eis uma contradição interessante. A morte, para muitos, é uma assombração, mas, imagine-se o quão chato seria viver eternamente. Aqui, entramos em Freud, que revelou ter o homem dois desejos controversos dentro de si: pela vida e pela morte, o que explicaria até a atração (notória, por sinal) quando há um acidente de trânsito com “um corpo estendido no chão”. Quem chega à roda de gente em volta do acidente geralmente tem medo do que vai ver, mas o desejo é gritante, tanto que o curioso nem pensa em se afastar enquanto não dá de cara com a cena sangrenta.
Enfrentar desafios é também um medo constante. E um desejo latente dos que fazem o mundo “respirar” pensamentos novos. Imagine o que seria de nós sem Da Vinci, Darwin, Einsten, gênios que, sob a égide do desejo de descobrir, enfrentaram o medo de quebrar tradições muitas vezes mantidas sob o calor de fogueiras capazes de consumir humanos vivos.
Somos complexos, apesar de o mundo maquinicista e ainda turvo pelo transe dos dominadores de cérebros passar a falsa ideia de que tudo é simples, bastando pagar e pegar das prateleiras. Não, não é fácil. Mas é mágica, entre a tragédia e a glória, a vida. Tão longa que muitos a empurram com a lerdeza do tédio; tão curta que muitas vezes todos os desejos cabem numa taça de vinho, que por sua vez pode até ajudar a tirar o medo para tornar tais desejos inesquecíveis (e talvez únicos) momentos de uma sublime realidade.
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