29.7.08

Mau-trato e indignação

Tarde de sábado, um cão inofensivo passa no estacionamento de um centro de compras da região, não incomoda ninguém, mas chega o segurança, levanta-o pelo couro do pescoço e, segurando-o com apenas uma mão, começa a caminhar no sentido da rua, que está um tanto quanto longe. O cão chora, grita, tenta se livrar das mãos da pessoa que o maltrata, mas em vão.

Vi essa cena e eu e minha esposa não conseguimos ficar indiferentes. Corremos atrás do segurança e lhe disparamos várias palavras, entre as quais o fato de aquela sua atitude ser crime, o que o assustou. Pedimos seu nome, ele relutou a falar, mas fui incisivo, ameaçando chamar seu superior e denunciar ali mesmo o que eu via. Ele, então, informou seu nome, o que me servirá para denunciá-lo por maus-tratos a animais.

Maltratar animal é crime e, sendo crime, é caso de polícia, que pode dar até cadeia. Mas, o que está lavrado no papel ainda permanece longe da realidade das ruas. E continuará distante da prática enquanto não nos indignarmos com o que vemos de errado, enquanto esperarmos que a solução venha das autoridades. Se a lei existe, somos nós que devemos fazê-la ser respeitada, cobrando inclusive das autoridades sua viabilização prática.

Nossa indiferença diante de casos do tipo é também conivência.

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24.7.08

O cão salva o bebê

Toda a dita "superioridade" humana cai por terra quando uma cadela começa a latir desesperadamente no meio da noite até que sua dona acorde, abra o portão e descubra que ela quer salvar um bebê recém-nascido, jogado num terreno baldio por sua própria mãe.

Aconteceu ontem, em Minas Gerais. A cachorrinha não só encontrou o bebê como arrastou a caixa em que ele estava até a calçada, como que para mostrar o crime que se cometia contra uma vida indefesa. Graças à tão nobre atitude do cão, foi possível evitar a morte de um humano frágil e abandonado que certamente morreria até amanhecer o dia.

"A gente não sabe quanto tempo a criança ficou lá no sereno. Estava bem frio aqui e, se não fosse a cadela, não tínhamos achado naquela hora e ele podia não ter sobrevivido", relatou Valdeci Antonio da Silva, um dos vizinhos da dona da cadela, à Agência Estado.

Diante desse e de outros tantos exemplos, dói saber que os humanos ainda escravizam e torturam animais unicamente por prazer em arenas de touradas e afins; que os mantêm encarcerados para testar neles todos os tipos de drogas e dores em prol de uma "ciência" de resultados duvidosos; que os transformam em matéria-prima multiplicada numa espantosa indústria de laticínios e pedaços de carne, só pelo sabor, não pela necessidade.

Quem seria mais evoluído? Nós? Ou eles?

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23.7.08

Mordidas e mídia

É praxe nas faculdades de Jornalismo (ao menos, na época em que eu fiz era) dizer que um cachorro morder um homem era muito menos notícia do que um homem morder um cachorro. Pois acabo de ler que aconteceu, de fato: um garoto teve de morder um pit bull para escapar do ataque do cão, em Sabará (MG).

Não que as mordidas de cães não sejam notícia (as de pit bull têm ganhado manchetes ultimamente), mas a inversão das posições entre mordedor e mordido certamente traz o inusitado de que tanto gostam as folhas da imprensa.

É sobre ele (o tão buscado "inusitado") que gostaria de falar (ou, escrever, para ser mais literal). Porque essa busca tem extrapolado os limites de uma outra coisa de que sempre se falava em faculdades de Jornalismo (e espero ainda estar sendo falado): a ética.

Luciano Assis, repórter de Cultura do LIBERAL, escreveu de forma sublime, na sua coluna "Entrelinhas" de domingo passado, sobre o exagero da mídia de hoje em noticiar a vida privada de celebridades. Citou como exemplos a barriga de Ronaldo, os efeitos da droga na saúde de Amy Winehouse, entre outros. O jornalista fez um paralelo interessantíssimo com a época em que John Lennon resolveu largar a vida pública de estrela da música por cinco anos e não foi incomodado por lentes da imprensa, coisa imprensável hoje em dia.

Mas o fenômeno vai além do celebritismo desnudo. A busca pelo inusitado extrapola o ato de dissecar a vida privada de artistas, transcendendo a própria realidade (à qual o Jornalismo deveria ser fiel) para se inventar quase a ficção noticiosa. E nesse sentido a Internet é o maior dos celeiros, principalmente em espaços de opinião em que se despejam informações sem nenhuma checagem, nenhum fundamento, que acabam sendo confundidos com notícia.

Parece-me um perigo para a relativa democratização que a Internet traz com seu poder interativo. Um perigo que ameaça emburrecer a sociedade, trocando, por exemplo, a informação cultural por diários de vidas privadas e opiniões embasadas por centrais de boataria.

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16.7.08

Eles faltam, nós pagamos

Em apenas seis meses, você, caro leitor, pagou um carro zero quilômetro só para os vereadores que faltaram às sessões em Americana e, porque justificaram as faltas, você teve de pagar o vereador faltoso mais o seu suplente.

Sim, é isso mesmo: um carro zero. Nada menos que 30 mil reais, dinheiro que corresponde a 66 salários mínimos vigentes no Estado de São Paulo. Só para pagar as faltas dos vereadores em apenas um semestre. Pior: faltas que têm crescido à medida que a campanha eleitoral vai esquentando e ir às sessões da Câmara vai ficando menos importante aos legisladores do que tentar mais um mandato.

O pior de tudo é que as sessões acontecem apenas um dia por semana, ao contrário do seu emprego, por exemplo, que exige sua presença diariamente. Mesmo assim, o trabalho semanal dos vereadores soma faltas que, em um único semestre, chegam ao valor de um carro zero.

E de carro zero em carro zero jogado fora, a política do Brasil vai se mostrando cada vez mais um lamentável show de horrores para o qual você paga ingresso, banca o figurino dos artistas, custeia toda a estrutura do espetáculo e acaba ganhando apenas um nariz vermelho para ser o grande palhaço.

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13.7.08

"V de Vingança" e o mundo

Estava passando por canais a cabo e deparei-me com "V de Vingança", um dos melhores filmes dos que consegui assistir nos últimos anos. Não resisti a revê-lo e, ao saborear novamente a criativa forma com que se juntou no filme a ficção com paradigmas reais, não dá para não fazer um paralelo com o mundo de hoje.

"V de Vingança" mostra uma Inglaterra que mescla passado e futuro, dominada pelo totalitarismo político e, nesse sentido, faz lembrar George Orwell em seu livro "1984". Orwell "previu", na década de 50, que em 1984 a humanidade estaria nas mãos de ditadores e a tecnologia avançada seria usada para que todos os cidadão fossem observados e controlados até nos seus espaços mais privados e íntimos (em suas próprias casas, por exemplo).

"V" vai além: o protagonista é um ser quase totalmente destruído em campos de concentração mantidos para minorias raciais, sexuais e a quem contesta o modelo político. Ao sair de lá, ele dedica sua vida à vingança sobre todos que mantinham o monstruoso sistema. Mais: sua missão é um convite a destruir o próprio sistema, que é opressor, que tem uma mídia manipulada e em que toda a tecnologia está a serviço do controle de cada cidadão.

O paralelo com os dias de hoje está exatamente na questão da liberdade. Em pleno século 21, sobram regimes totalitários pelo mundo e mesmo nas democracias é pertinente a questão: há, de fato, liberdade?

Vejamos os EUA, tidos como um gigante democrático. Desde o atentado contra as torres gêmeas, o país mergulhou numa paranóia que ceifou vários direitos individuais através de leis "contra o terrorismo". Leis que permitem prisões arbitrárias contra os próprios norte-americanos. Imigrante, então, é bandido até que se prove o contrário. Vejamos a Inglaterra, onde se encena a história de "V" e onde um brasileiro foi fuzilado no metrô, "confundido" com um terrorista.

Vejamos o Brasil, agora. E uma lei que acaba de ser aprovada no Senado, do acusado de mensaleiro Eduardo Azeredo (PSDB), que institui o controle total do uso da internet. A desculpa é coibir a pedofilia (que deve ser coibida com todas as forças), mas, por tabela, impõem-se regras de vigilância sobre todos os sites que se consultam, taxando como pirataria tudo o que se é baixado da rede e expondo quem o faz ao risco de prisão. Há quem diga que a lei está a serviço de grandes corporações, que perdem dinheiro com a liberdade que o mundo virtual trouxe.

"V de Vingaça" não é, pois, apenas um dos melhores filmes já produzidos. Abaixo, um trailler.

8.7.08

O anjo metralhado

O desespero de um pai diante da morte do filho João Roberto Amorin Soares, que iria fazer apenas quatro anos, comoveu o Brasil na segunda-feira. Aliás, não só comoveu, mas revoltou.

Simplesmente porque quem matou o garoto foi um soldado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, que metralhou o carro em que estava o pequeno João Roberto, a mãe e mais uma criança.

“Ela encostou o carro como qualquer um faria para dar a vez à polícia, eles fecharam a minha mulher e metralharam o carro, com uma mulher e duas crianças”, gritava o pai do garoto, contando como a polícia acabou matando seu filho numa perseguição a bandidos, uma atitude que o próprio secretário de segurança do Estado qualificou como desastrada.

Desastrada e não isolada.

Vivemos num País em que a crise da segurança chegou a tal ponto que a polícia não basta. Pior: a polícia às vezes assusta os cidadãos que deveriam se sentir protegidos por ela. É mal preparada, mal remunerada e chega a ter membros corrompidos.

O resultado é escancarado no Rio de Janeiro, onde, nos morros, quem manda é o crime e traficantes chegam a ter mais respeito dos moradores do que policiais. E o motivo é claro: os traficantes oferecem segurança a quem mora ali, enquanto a polícia sobe atirando, muitas vezes em inocentes.

Eis uma inversão de valores mortal.

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5.7.08

A lei prefere o menor ao volante

O que é mais grave: dirigir após beber apenas dois copos de cerveja ou dar a direção do carro para um menor de idade, sem habilitação? Para o bom senso, com certeza é muito pior dar o carro para um menor de idade dirigir. Mas, para a nova lei seca inventada, aprovada e sancionada no Brasil, é mais grave dirigir após beber dois copos de cerveja, insuficientes para transformar o motorista em um assassino ao volante.

Veja a incoerência. À luz da “Lei Seca”, se você for pego após beber dois copos de cerveja ou dois chopinhos, pagará quase mil reais de multa e será preso. Se der o carro para um menor dirigir, terá de pagar pouco mais de 500 reais de multa.

Eis apenas um dos absurdos dessa nova lei, que está incomodando até os padres por conta do pequeno gole que dão na taça de vinho, durante as missas. Duas missas são suficientes para levar o inocente padre para atrás das grades.

Ou seja, se for levada ao pé da letra, a nova legislação vai punir quem não precisa ser punido. E não há garantia de que o problema das mortes nas ruas e rodovias do Brasil seja resolvido. Isso porque temos um código de trânsito que já é rígido e está há dez anos em vigor, mas muitas das suas regras não saíram do papel ainda. Regras como a que criminaliza a bebida ao volante (e poderia ter resolvido essa questão há uma década, sem precisar do radicalismo da atual lei).

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As eleições, O LIBERAL e você

Neste domingo começa a campanha eleitoral para as disputas nas Prefeituras e Câmaras de todo o País. E o grupo O LIBERAL de Comunicação traz uma notidade para os leitores do jornal O LIBERAL, os ouvintes da rádio VOCÊ e os internatas do site em que está este blog.

A cobertura política sempre ancorada nos princípios da imparcialidade e não adesão a candidaturas, que norteia a linha editorial do jornal explicada já no seu primeiro editorial, em 1952, continua. A novidade é que estamos abrindo todas as diretrizes adotadas pela Redação para que você, caro leitor, conheça em detalhes nossas decisões sobre o conteúdo noticioso e possa fiscalizar nossa cobertura.

Sim, isso mesmo, você vai fiscalizar nossa isenção. Nós o convidamos e fazemos questão da sua participação.

Entre as decisões que tomamos no sentido de não privilegiar involuntariamente nenhum candidato, está a de vetar a publicação de artigos ou cartas opinativos de postulantes a cadeiras em câmaras ou prefeituras na página 2 ou em outros espaços abertos ao leitor. Da mesma forma, estão vetadas fotos na coluna social. As reportagens sobre os candidatos terão como princípio fundamental dar a todos o mesmo espaço em texto, foto, áudio, possível vídeo (para a web) e só será focado um único candidato quando a reportagem fizer parte de uma série em que os outros tenham a mesma oportunidade, ou quando houver um fato jornalístico que necessite do foco naquele candidato especificamente, sem prejuízo dos outros.

O grupo investirá numa outra novidade: as sabatinas multimídia, que serão realizadas por jornalitas do impresso, do site e da rádio VOCÊ. O motivo é extrair do candidato não apenas promessas mas explicações aprofundadas sobre como será possível colocá-las em prática. Mais: as sabatinas terão a participação de leitores, ouvintes e internautas.

Na eleição passada, O LIBERAL participou de um "pool" pioneiro de comunicação unindo jornal, TV e rádio para transmissão de seis debates com candidatos a prefeito. A experiência foi ótima, mas sobrou bate-boca e faltou maiores detalhes sobre as promessas feitas ali pelos candidatos. Por isso, além de debates, o Grupo O LIBERAL investirá este ano na sabatina individual entre os candidatos, onde ele não poderá fugir das perguntas incisivas sobre seu plano de governo.

Uma reportagem no jornal impresso deste domingo explica as novidades e, aqui no Blogna, você já pode participar, dizendo o que achou da iniciativa e já sugerindo o que gostaria de ver no jornal na nossa cobertura eleitoral para que o seu direito à informação imparcial e à escolha sobre seu voto seja plenamente respeitado.

Bem-vindo, pois!

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4.7.08

A palavra é sua

Na semana passada, este blog foi amplamente comentado quanto ao problema dos buracos nas ruas de Americana.

Pois, aproveitando a participação de muitos leitores, vamos hoje intensificar um espaço que já existe no Grupo O LIBERAL, mas que sempre podemos melhorar, convidando-o a sugerir temas que possamos abordar em nossas reportagens.

Com a palavra, você, nobre leitor.

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2.7.08

A violência e cada um

"Primeiro levaram os negros / Mas não me importei com isso / Eu não era negro // Em seguida levaram alguns operários / Mas não me importei com isso / Eu também não era operário // Depois prenderam os miseráveis / Mas não me importei com isso / Porque eu não sou miserável // Depois agarraram uns desempregados / Mas como tenho meu emprego / Também não me importei // Agora estão me levando / Mas já é tarde. / Como eu não me importei com ninguém / Ninguém se importa comigo."

O texto acima é imortal, do genial Bertolt Brecht. Serve para refletirmos sobre tantas coisas, entre elas a violência que destrói o Brasil e que está presente, sim, na região, apesar dos discursos amenos de autoridades que consideram Americana, principalmente, "tranqüila".

Pois em Americana um taxista foi morto a facadas nesta terça-feira, o segundo crime fatal contra profissionais da categoria em apenas sete meses. E o texto de Brecht se encaixa perfeitamente em nossa realidade, porque, enquanto se foge do problema, mais terreno se dá para ele alastrar.

Enquanto se pensa viver tranqüilamente com carros blindados, condomínios fechados, guardas particulares de rua, cercas eletrificadas, câmeras ou alarmes, deixa-se de discutir uma questão que deveria ser de todos: a segurança pública apodrecida, que custa dinheiro dos nossos impostos mas não funciona, porque não tem a atenção devida de nenhuma instância de governo, nem tem a devida cobrança por parte de quem paga a conta (a população).

Enquanto se pensa que a violência está na periferia ou nas cidades vizinhas, deixa-se de enxergar que ela está por todo lado e todos são alvos, principalmente os que pensam estar seguros.

Enquanto se chega, na vida prática, ao fim do poema de Brecht, chega ao fim o ideal de uma sociedade onde se possa viver minimamente.

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1.7.08

Ir e vir ficou mais caro

O direito de ir e vir está mais caro a partir de hoje nas estradas paulistas. Os pedágios subiram novamente. Desta vez, 11,5% em média, chegando a 20% em alguns casos.

Na praça de Nova Odessa, são R$ 5,20 para ir, mais R$ 5,20 para voltar. Descer para Praia ficou bem mais caro: absurdos R$ 17 no sistema Anchieta/Imigrantes.

A pergunta que esse novo aumento inspira é: quem conseguiu um reajuste salarial de 11,5% em seu dissídio coletivo entre o ano passado e este ano? Certamente, nenhuma categoria, já que a cifra que manda para o alto o preço dos pedágios paulistas sempre está muito acima de qualquer índice.

Pior de tudo é ver a dinastia tucana que ocupa o Palácio dos Bandeirantes bater no peito para dizer que São Paulo tem as melhores estradas do País, como se tal afirmação (verdadeira, sim) fosse mérito deles próprios.

Ora, mas que desrespeito com o paulista. O modelo que coloca São Paulo como o Estado com as melhores estradas do País não tem um dedinho do governo. Pelo contrário, o governo lavou as mãos e entregou tudo à iniciativa privada: manutenção e construção de novas estradas além de, mais que tudo isso, "terceirizou" o lucro exorbitante com a implantação e operação das praças de pedágio, muito próximas umas das outras, além de muito caras.

O absurdo chega a tal ponto de ficar mais barato cortar o Estado de São Paulo de avião do que enfrentar os pedágios, através das rodovias.

Deveria ser motivo de vergonha isso. Mas, no Brasil, há quem se orgulhe. Pior, se eleja.

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