29.5.08

Fé na ciência

A aprovação das pesquisas com células tronco, que acaba de ser decidida pelo Supremo Tribunal Federal, simboliza que o Brasil se libertou ao menos de um dos muitos ranços religiosos que nos mantém nas trevas. Com tal decisão, a Corte máxima do País mostra que a lei é laica e não está sob a custódia do Vaticano ou de qualquer outra instância religiosa.

Curioso é que a mesma igreja que tenta obstruir as pesquisas com embriões que iriam para o lixo se coloca contrária à utilização da camisinha, a única prevenção plausível contra o contágio do HIV (única, considerando-se que o ser humano faz sexo, sim, independente das palavras papais).

Que a decisão do Supremo Tribunal sirva de exemplo para o desenvolvimento da ciência que cura e não da religião que, em nome de dogmas medievais, contribuem para a disseminação da morte.

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28.5.08

Mais vereadores: você paga

419 deputados federais fizeram nesta noite de terça-feira um remendo na Constituição para driblar uma decisão judicial de 2004 e aumentar as cadeiras para vereadores nas câmaras municipais brasileiras. Em plena calada da noite (mais de 22 horas) e bem em ano eleitoral (podendo valer, inclusive, já para este pleito).

Uma decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) havia diminuído 8.481 cadeiras em 2004. Agora, o remendo dos legisladores na Carta Magna (que ainda será votado em segundo turno, seguindo depois para o Senado) aumentará em 7.554 o número de "representantes do povo" ganhando o dinheiro do povo, nos legislativos municipais.

Na RPT (Região do Pólo Têxtil, formada por Americana, Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia), serão 32 novas cadeiras de vereadores, revela a edição impressa do LIBERAL desta quarta-feira.

A pergunta é: se de 2004 até agora não fizeram falta os vereadores que saíram, por que agora, em pleno ano de eleição, estão criando mais "boquinhas" sustentadas pelo erário? Seria por preocupação em relação ao bom atendimento do interesse público? Por justa representatividade dos eleitores? Ou para multiplicar o que tem se tornado a política: um empregão do qual quem entra nunca mais quer sair?

A resposta é sua, caro leitor.

PS Amanhã buscarei postar aqui a lista dos 419 deputados federais. Para que nos lembremos deles na hora do voto.

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27.5.08

O fedor e a vergonha

Escrevi na coluna "Contextualidade" do último domingo, no LIBERAL impresso, que a poluição do ar de Americana deveria ser motivo de vergonha a todos nós americanenses. Porque é um absurdo uma cidade tão desenvolvida ostentar por décadas o mesmo fedor e não conseguir sequer enquadrar quem o emite, quanto menos se livrar dele.

Quatro e-mails chegaram até mim na manhã e tarde de ontem, de leitores que se posicionaram a respeito do assunto, também defendendo uma reação da sociedade quanto ao problema. Por conta dessa repercussão, estou estendendo o debate do tema aqui para o Blogna.

Claro que não se deve ter a ingenuidade de achar que uma cidade industrial como é Americana possa ter ar de estância hidromineral. Mas precisa ter o cheiro que tem? Não é possível fazer com que as empresas poluidoras diminuam minimizem seus despejos? Fiscalizá-las? Puni-las? Fazê-las entender que, mais importantes que o produto que saem de suas máquinas, há vidas que precisam respirar fora da linha de produção?

Como disse no texto do jornal impresso, nasci em Americana há 34 anos, sinto o mesmo fedor desde criança e não consigo entender a incapacidade de a cidade se livrar disso. Até Cubatão conseguiu e nós ainda não.

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26.5.08

Na ativa

Semana passada tive de me afastar do trabalho por conta de uma conjuntivite, mas esta semana o blog volta ao normal.

20.5.08

Alguém tem de reagir

O caso do seqüestrado que acabou matando um seqüestrador a machadadas em Americana levanta a velha questão: reagir ou não reagir a um crime?

A polícia é categórica em dizer que nunca devemos reagir, seja a um assalto, um seqüestro-relâmpago ou um seqüestro com direito a cativeiro e dias de tortura e ameaças. E há uma razão para essa orientação da polícia: em geral, a vítima está em desvantagem diante do criminoso armado, portanto as chances de ter sucesso ao reagir são mínimas.

Mas há uma outra razão que nos coloca em xeque-mate. Se reagir significa o risco de uma vítima morrer instantaneamente, não reagir é sinônimo de uma sociedade se desintegrar em longo prazo. Porque enquanto os honestos se mostrarem passivos diante dos desonestos e o Estado não proteger os cidadãos de bem, o crime vai compensar e triunfar.

A segurança pública brasileira está degradada. A violência nas ruas foge ao controle da polícia, o sistema carcerário é caquético e a Justiça é lenta ao aplicar a pena a quem deve ser punido. Mistura pior só nitroglicerina e tem-se, portanto, um quadro que caminha ao bangue-bangue, ao salve-se quem puder encontrar um tropeço do bandido e lher dar um golpe fatal.

Estamos voltando à barbárie e alguém tem de reagir.

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19.5.08

Abaixo os sachês!

Para acompanhar o chopinho do final de semana, pedi um lanche de berinjela numa casa noturna de Americana e tive uma grata surpresa. Em vez dos sachês horríveis de se abrir e totalmente anti-ecológicos, vieram dois tubos, um de mostarda, outro de ketchup.

A era dos sachês é o cúmulo do mundo descartável. Carregam uma falsa idéia de higiene mas, na verdade, são o símbolo de uma geração individualista, especializada em produzir lixo que demora décadas e até séculos para se desintegrar.

Ir a redes de fast-food (coisa que quase nunca faço, pois os vegetarianos são geralmente excluídos dos seus cardápios) é ter uma noção maior disso: você compra um lanche minúsculo que vem em embalagens imensas, com direito a papel, papelão, plásticos e até a isopor. Tudo marketing querendo satisfazer sua percepção visual, não sua fome.

Está na hora de repensarmos isso, pois a situação do planeta não é uma questão de percepção, é real e assustadora.

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14.5.08

O Brasil perde Marina

A saída da Ministra Marina Silva da pasta de Meio Ambiente do governo Lula é um triste sinal de que o Brasil, assim como vários outros países, ainda não colocou a questão ambiental como prioritária em sua agenda de discussões.

Marina pediu demissão após vários choques com outros ministérios, teve vitórias, mas as derrotas somadas deixaram evidente que o crescimento do País sempre esteve acima da preservação dos bens naturais como a Amazônia, por exemplo.

A ministra que sai perdeu a batalha dos transgênicos, não foi ouvida quando se colocou contra o licenciamento ambiental para a transposição do Rio São Francisco, da mesma forma que a ignoraram no caso do avanço das hidrelétricas na Amazônia ou do projeto da usina nuclear Angra 3. Tudo ficou pior quando se revelou que o desmatamento da Amazônia está crescendo.

Ainda na questão amazônica, Marina Silva levou o golpe de misericória quando ficou sabendo, em público, que o Plano da Amazônia Sustentável seria coordenado por Roberto Mangabeira Unger, ministro do futurismo do governo Lula, e não por ela, que seria uma coordenadora natural.

Marina deixa um governo que nunca a mereceu. Mas o Brasil perde a oportunidade de ter como líder máxima da questão ambiental uma das pessoas com maior integridade moral para defender o assunto.

Talvez um dia os políticos descubram que, sem planeta, não há crescimento, não há PIB, não há economia, não há nada...

Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil

10.5.08

O que pôr no cofre

O presidente da Câmara de Americana, Marco Antonio Alves Jorge (PDT), resolveu torrar R$ 210 mil na compra de cinco cofres a prova de fogo e água para o Legislativo, nos quais guardará, por exemplo, arquivo morto da casa, documentos antigos e até livros.

O valor gasto já é uma ironia, pois lembra os mesmos R$ 210 mil que o Executivo gastou no tomógrafo-sucata, tão caro quanto inútil. Alguns dos materiais a serem guardados também são uma ironia. Livros e documentos antigos (como um de 1925 citado por Alves Jorge) estão mais para biblioteca e museu do que cofre ultraprotegido.

Não é a primeira vez que Alves Jorge torra dinheiro público em coisas de necessidade discutível. Mudou a Câmara para um prédio imenso, de aluguel quatro vezes mais caro (R$ 29 mil) que o anterior e sem plenário; comprou notebooks e câmeras digitais para todos os vereadores, instalou câmeras para identificar todos os visitantes do Legislativo e vai instalar painel eletrônico no plenário. Só não gastou na construção de uma Câmara que faça sua obrigação: investigar o Executivo, discutir e fazer leis em defesa do interesse público.

Voltando aos cofres, este blog quer contribuir danto idéias sobre o que guardar nos cofres de Alves Jorge: o tomógrafo-sucata, os loteamentos de 150 metros quadrados (sua maior bandeira na Secretaria de Habitação) e os inúmeros títulos de honraria com que a Câmara agrada líderes religiosos e autoridades.

Fique à vontade para deixar sua sugestão, caro leitor.

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6.5.08

Mídia, Ronaldo, limites

Cada vez mais o escândalo estampa com destaque os veículos de comunicação de hoje em dia. Começam nos sites, onde se tem a apoteose da fofoca, e acabam respingando até nos jornais impressos, ainda os maiores guardiões da ética entre todas as outras mídias. E eis um perigo.

Nós jornalistas aprendemos na faculdade que notícia é um fato que passa pelo filtro do interesse público. Um fato que se encaixa na intersecção entre o que mais muda e o que mais interfere na vida da sociedade focada pelo veículo de comunicação. Mas, essa fórmula há muito tempo vem sendo trocada pelo celebritismo, uma febre no jornalismo que atropela o interesse público em nome da curiosidade sobre a vida privada.

Um exemplo é o programa que o jogador Ronaldo teria feito com três travestis. Seria isso notícia? Em que as manchetes sobre sua vida sexual muda e/ou interfere na vida dos leitores? Em que, portanto, configura interesse público? Aliás, qual o limite entre a vida privada do jogador e a pública? E qual o limite da mídia em relação a isso?

São perguntas que os jornalistas estão deixando de fazer porque, assim como o Ibope tem ditado a programação televisiva, o número de cliques tem determinado o que se posta nos sites. Assim como a venda em banca ou o "chamar a atenção" tem sido a tônica também dos impressos.

Mas o caminho é muito perigoso e um exemplo muito simplório ilustra tal perigo. Entre uma pessoa que vive lhe contando fofocas e outra mais séria, que não perde tempo com a vida alheia, em qual você acredita mais? Se você respondeu que acredita mais na pessoa menos fofoqueira, está comprovando que a fofoca na mídia gera perda de credibilidade. E credibilidade é o oxigênio de qualquer veículo de comunicação.

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4.5.08

Plantar é de Primeira

Faz meses que estamos trabalhando para chegar à manchete deste domingo do LIBERAL: o plantio de mil mudas de árvores que será feito nesta semana na região, para compensar o carbono dos veículos dos funcionários do Grupo O LIBERAL (que inclui a rádio VOCÊ) e também criando 500 assinaturas ecológicas, cada uma sendo presenteada com uma muda plantada.

Está sendo um trabalho muito interessante, principalmente porque estamos contando com parceiros importantes, como as empresas Autoban e CPFL Paulista, que doaram mudas. Também contamos com a atitude valiosa do Rotary Club de Americana e da Fazenda Santo Ângelo ao inserir o programa "Plantar é de Primeira", que inicia as comemorações dos 56 anos do LIBERAL, num grande reflorestamento já em curso.

Mais que denunciar a agressão ao meio ambiente e cobrar de autoridades e empresas atitudes responsáveis, agora O LIBERAL busca fazer sua parte, indo além das palavras, arregaçando as mangas e ajudando a plantar a maior esperança para o futuro: o verde da natureza. Mais que isso: o jornal lança um convite à sociedade para que cada empresa, cada esfera do Poder Público, cada cidadão faça sua parte por um mundo melhor.

O jornal que foi único em enfrentar o poder econômico ao denunciar a agressão ambiental que traria a gigante termelétrica Carioba 2 quer também deixar para as futuras gerações algumas sementes de ação concreta pelo meio ambiente.

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1.5.08

Furtos, roubos e afins

Manchete de quarta-feira deste LIBERAL preocupa. Revela uma informação aparentemente positiva, a queda de 27,8% nos furtos de veículos em Americana. Mas, a informação vem junto de outra bem pior: os roubos aumentaram 45,4% no mesmo período, o primeiro trimestre deste ano em comparação com 2007.

Furtos acontecem sem ameaça ou violência contra o dono do bem levado pelo bandido. Já os roubos trazem não apenas ameaça, como também violência. Acontecem em geral com o criminoso armado e disposto a fazer algumas barbaridades com a vítima, como deixá-la no porta-malas por horas em tenebrosos seqüestros-relâmpago.

Autoridades de Americana não conseguem coibir furtos e roubos de veículos, eis um fato inegável. O problema é velho e acarreta seguros 30% mais caros aqui do que em uma cidade como Limeira, por exemplo. Após os números divulgados ontem, constata-se que a situação se agravou, pois cresce o pior tipo de crime contra o patrimônio sobre rodas, cometido com a vítima correndo riscos.

Coibir os desmanches através de investigação, atuar de forma preventiva, fiscalizando por meio de blitze policiais a frota de veículos que está nas ruas, são algumas das ações que coíbem o problema. Entretanto, são feitas ainda de forma insuficiente, pois o crime anda compensando no que tange aos veículos (e não só eles). É preciso que as autoridades fechem o cerco para que esse crime não mais compense, pois só assim se conseguirá vencer o problema.

Claro que há, em contrapartida, a iniciativa dos próprios motoristas. Se nenhum deles comprasse peças usadas sem nota, o roubo e furto de veículos seriam praticamente inviáveis, considerando que a maioria dos carros levados vai para desmanches, onde são picados para suas peças serem vendidas. Uma nação não se constrói apenas com a ação do Estado, mas principalmente com a iniciativa de cada um. No Brasil, ainda faltam as duas coisas.