29.4.08

Divisor de águas

Santa Bárbara d’Oeste anuncia planos para construir uma represa capaz de armazenar 1 bilhão de litros de água. A idéia é utilizar a área da Usina Santa Bárbara, onde há nascentes, para se criar um reservatório “natural”, visando o abastecimento de gerações futuras. Eis um projeto que caminha no sentido de pensar o futuro em vez de remendar erros passados e presentes.

Santa Bárbara já tem duas represas das quais tira água que serve à população, frutos de planejamento que hoje se mostra fundamental para a vida dos barbarenses. Por conta desse planejamento, a cidade raramente tem escassez do produto, como têm Americana e Sumaré, ambas dependentes de rios que, quando em vazão baixa, deixam a captação em sinal de alerta. Mais que isso: Santa Bárbara tem água não só em quantidade, mas de maior qualidade que as cidades vizinhas.

É bem diferente de Americana, onde o DAE patina, não conseguindo sequer levar água a todas as residências e mantendo sob o asfalto uma rede sucateada e constantemente avariada, fazendo jorrar o precioso produto já tratado. Mais: um DAE que começou pioneiro a tratar esgoto na região, mas hoje precisa da cidade vizinha, porque não dá conta do tratamento que deveria fazer. Também é diferente de Sumaré, onde um rodízio de água foi implantado, ao que tudo indica, para a eternidade.

O que Santa Bárbara tem que as vizinhas não têm? Como a cidade consegue, com uma arrecadação muito menor, ter qualidade e quantidade de um produto cada vez mais valioso, como a água?

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25.4.08

Terra?

A edição impressa do LIBERAL desta sexta noticia como manchete que o grupo de sem-terra que invadiu área em Americana na semana passada ocupou um novo espaço nesta quinta. E mais: quando viu repórter e fotógrafo do jornal no local, ameaçou os jornalistas batendo com o facão num dos carros do reportagem.

A reação dos invasores contou com o uso de equipamentos eletrônicos de controle das “entradas” da área. Além de violência e ameaça, como se o jornal é que estivesse invadindo uma área privada para se apropriar daquilo que não lhe é de direito.

A situação é no mínimo irônica, ainda mais considerando a tecnologia de comunicação utilizada pelos invasores: rádios através dos quais “vigiam as porteiras” das terras que não lhes pertencem.

Seria isso um problema social? Ou político?

22.4.08

Isabella e o coelhinho

Eu havia acabado de voltar de São Paulo para trabalhar, em minha cidade, como repórter do LIBERAL, jornal em que já escrevia na querida página 2 e que me despertou a paixão pelo Jornalismo. E fui pautado, certa vez, para cobrir um incêndio criminoso em uma área verde de Americana.

Cheguei ao local e havia integrantes dos Bombeiros ali. Eles estavam com um filhote de um tipo de coelho selvagem e isso me chamou a atenção. O animal havia sobrevivido ao incêndio, mas sua mãe morrera. O motivo: ela o encobriu com o próprio corpo e se deixou queimar para proteger a cria. Sábia lição da natureza: tudo pela sobrevivência da espécie; nunca o individualismo.

Lembrei-me deste caso, que já faz quase uma década que presenciei, diante do bombardeio de notícias sobre a garotinha Isabella, jogada covardemente do sexto andar de um prédio em São Paulo, sendo o próprio pai e a madrasta da menina apontados como maiores suspeitos de terem cometido essa aberração que choca todo o País.

Se há algo que nos diferencia bastante dos animais que, preconceituosamente, chamamos de irracionais, é o fato de eles darem muito mais valor à vida do que nós. Não matam por prazer ou por exercício de poder, nem se destroem por crises existenciais. Suas regras são as regras da natureza, diferentes das regras que criamos, muitas vezes em desacordo com o meio ambiente, e recheadas de hipocrisia.

O pouco de pureza que se vê nos animais parece se resguardar nas crianças como Isabella, que faria apenas seis anos ontem e certamente mal conhecia as tantas injustiças impostas pela humanidade que se acha capaz de “dominar sobre todas as espécies”.

Na verdade, o homem não só é incapaz de exercer domínio e zelo sobre outras espécies como não consegue ter domínio sobre si próprio, sendo fraco até para entender sua própria condição de mortal. É incapaz até de proteger sua própria cria, como conseguem os coelhos do mato ou quaisquer outros bichos selvagens.

Isabella é uma de tantas inocentes vítimas das regras cruéis moldadas pela “espécie superior”. Outras já houve e outras haverá numa humanidade que transformou até a concepção da vida em uma enorme prateleira. Procria-se como num modismo, mesmo com o mundo já dando mostras de que não suporta mais tanta gente esgotando suas reservas naturais. E, contraditoriamente, não se consegue dar o mínimo de proteção a crianças que chegam, muito menos o amor que muitos dizem ser um sentimento exclusivo nosso.

Triste humanidade. Até os coelhinhos do mato têm muito a nos ensinar.

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17.4.08

Perguntas sem respostas

Logo após liminar da Justiça embargando 9 loteamentos de 150 metros quadrados em Americana, colocando todos os outros "sub judice", a reportagem do LIBERAL mandou questionamentos ao prefeito Erich Hetlz Junior, que chegou a aprovar alguns dos loteamentos idealizados na gestão Tebaldi, e ao ex-diretor de Habitação, Marco Antonio Alves Jorge, idealizador dos lotes ditos "populares".

Ambos ainda não responderam e, para conhecimento do leitor, este blog publica as perguntas feitas, na íntegra:

Ao prefeito:

- O sr. sempre diz que aprovou os lotes de 150 metros cujo processo estava em andamento porque era melhor aprovar do que impedir sua instalação, pois poderia haver problemas futuros na Justiça. Mas, agora, a própria Justiça está barrando os tais loteamentos, o que contraria sua decisão. O sr. continua achando que fez certo ao aprovar esses loteamentos?

- Qual a sua opinião sobre a decisão do juiz?

- O que a Prefeitura tem a dizer a quem comprou um lote desses, considerado por um juiz de direito uma afronta à legislação?

- O projeto dos lotes "populares" comercializáveis, que duplicaram a possibilidade de lucro dos loteadores, não foi um erro do Poder Público de Americana? O que o sr. tema dizer sobre essa "invenção" da administração Tebaldi?

- Falemos um pouco do problema estrutural que os lotes populares impõem à cidade. Por exemplo, se o DAE não tem condições de servir toda a cidade com água e tratamento de esgoto hoje, como terá quando esses lotes forem povoados? Quais os investimentos a Prefeitura está fazendo para atender à nova demanda?

Ao ex-diretor de Habitação:

- Quando esteve na Prefeitura, o sr. foi um dos idealizadores dos loteamentos de 150 metros quadrados em Americana, chamados de "populares". Hoje, a Justiça os chama de uma afronta à legislação, embarga nove projetos e coloca todos os outros "sub judice". Qual a sua opinião sobre essa decisão, manchete do jornal O LIBERAL de hoje (terça-feira)?

- O sr. acha que o juiz está errado na sua interpretação? Ou a Prefeitura errou ao instituir os lotes ditos "populares", inclusive permitindo que eles extrapolassem os objetivos "sociais", aumentando os lucros da iniciativa privada?

- Como defensor desses lotes desdobrados, o que o sr. tem a dizer a quem comprou esses pedaços de terra e hoje está preocupado com as ações da Justiça?

- Como uma cidade cujo DAE não dá conta, hoje, de abastecer com água nem de tratar todo o esgoto comportaria 11 mil novos lotes? Considere ainda o fato de o próprio DAE alegar não ter dinheiro para investir nas necessidades atuais.

- Por que a Câmara que o sr. preside não foi mais investigativa no caso dos lotes "populares"? O que a Justiça está fazendo não poderia ser evitado, se os vereadores fizessem seu papel de investigar o Executivo?

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14.4.08

O biocombustível e o bife

A ONU acaba de declarar guerra aos biocombustíveis. "A produção em massa de biocombustíveis representa um crime contra a humanidade por seu impacto nos preços mundiais dos alimentos", declara o relator especial da organização para o Direito à Alimentação, o suíço Jean Ziegler.

A justificativa é que a utilização de espaço para o plantio de vegetais - como a cana - destinados à fabricação de biocombustíveis - como o álcool - elimina áreas que poderiam ser usadas para se plantarem alimentos.

Sim, é verdade, mas apenas uma meia verdade. Os biocombustíveis representam uma esperança de se evitar um futuro em que não serão as terras que faltarão, serão as condições de se viver por aqui. Caso continuemos utilizando o petróleo como principal fonte de energia, o aquecimento global que já está em curso se agravará, tornando o chão (mesmo que haja espaço) improdutivo e o planeta, inabitável. E ainda há muito o que se estudar sobre o aprimoramento da produção de álcool.

Há uma outra parte da verdade que a ONU parece não enxergar, mas que afeta muito mais os espaços onde poderiam ser plantados alimentos: as pastagens. Só para se ter uma idéia, no Brasil, quase metade de tudo o que se planta de cereais é destinada à alimentação de animais de criação. Quase metade!

Mas o problema não pára por aí. Os vegetais empregados na criação de gado para se conseguir extrair um único bife (um bife!) de 225 gramas seria suficiente para alimentar 40 pessoas (sim, 40 pessoas!). E o bife não reduz a poluição no planeta, muito pelo contrário. Já é cientificamente provado que o metano emitido por 1,3 bilhão de bois e vacas que se criam no mundo (é isso mesmo, 1,3 bilhão!) está influenciando no aquecimento global, já que o metano é muito mais poluente que o dióxido de carbono.

O biocombustível toma áreas, sim, em que se poderiam plantar alimentos. Mas sua função nos dias de hoje é vital, muito mais nobre que a produção de bife tirado de cadáver de boi. Podemos viver com menos bife, mas não poderemos viver se a Terra ficar alguns graus mais quente.

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10.4.08

Área vermelha

A manchete do jornal O LIBERAL desta quinta-feira levanta algumas interrogações. Revela que a Prefeitura de Americana tem de desembolsar, todo mês, R$ 10 mil para manter a Área Azul. Ou seja, o sistema dá prejuízo, pois os custos não cobrem sequer os gastos para mantê-lo.

A primeira interrogação é: por que, então, ter Área Azul, se, de um lado, ela tira dinheiro dos motoristas e, de outro, onera os cofres públicos? Não seria melhor manter os espaços livres para que os motoristas estacionassem sem precisar pagar?

Os comerciantes da área central dizem que não, pois, desta forma, haveria carros estacionados por tempo muito grande, inviabilizando o rodízio de veículos e pessoas no Centro da cidade. Argumento plausível.

Mas, mesmo havendo uma justificativa para manter a Área Azul funcionando, há mais interrogações. Como, por exemplo: por que o serviço chega a dar lucro em cidades que o terceirizaram, como Sumaré? E um detalhe: Sumaré não cobra mais que Americana pelo cartão.

Não, caro leitor, não se está defendendo aqui a terceirização da Área Azul. Mas intriga o fato de o Poder Público sempre ter dificuldades para fazer um serviço ser lucrativo, enquanto a iniciativa privada consegue, até porque, se não o fizer, não sobrevive.

A explicação certamente está no fato de não haver falência no Poder Público, já que o dinheiro sempre entra através dos impostos (que são impostos, como o próprio nome diz). Na iniciativa privada, é bem diferente: precisa-se convencer o consumidor a consumir, sem impor. E sempre há um dono, ao contrário do erário, que é de todos e não é de ninguém.

8.4.08

Crime sem castigo

Um homem que matou a amante grávida enterrando-a viva na Itália foi condenado a 30 anos de prisão nesta semana e o fato escandalizou o ministro da Justiça daquele País, que fez a seguinte pergunta: o que uma pessoa precisa fazer para ser condenada à morte neste país?

A Itália tem a pena capital para casos extremos, diferente do Brasil, onde não só não existe a pena de morte (sou contra esse tipo de pena) como as próprias condenações por prisão são uma verdadeira mãe para os criminosos.

Ser condenado aqui a 30 anos de prisão não significa ser condenado a 30 anos de prisão. Parece confuso, mas é fato. A lei brasileira permite tantas maneiras de o criminoso recorrer que, na maioria das vezes, um condenado não fica mais que um terço da pena na prisão, desde que possa pagar um bom advogado.

Pior que isso. No Brasil, inventou-se uma aberração jurídica que permite ao condenado em júri popular recorrer da condenação em liberdade. Ou seja, o criminoso é sentenciado à prisão, mas não é preso. E fica anos em liberdade esperando resultados da burocracia estatal. Pimenta Neves, ex-todo-poderoso do "Estadão", é um exemplo: matou em 2000, foi condenado em 2005 mas continua, quase oito anos após o crime e três após ser condenado, solto, aguardando os passos de tartaruga da Justiça brasileira. Logo, pode morrer de velhice sem que a Justiça seja feita.

Eis a tão falada impunidade, que explica porque aqui se comete crime sem medo do castigo, simplesmente porque o castigo funciona apenas para os pés-rapados que não têm dinheiro para pagar advogado, e às vezes nem para comer (por isso roubam).

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2.4.08

A cidade em xeque

O LIBERAL desta quarta-feira revela que Americana está na lanterninha na Região do Pólo Têxtil (que ainda congrega Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa, Sumaré e Hortolândia) em crescimento do repasse do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços).

Mais: a cidade, que sempre foi a primeira no total arrecadado, acaba de ser ultrapassada por Sumaré no primeiro trimestre deste ano. E não se trata de números isolados, mas, ao que parece, uma tendência.

Americana vem perdendo terreno em investimentos e arrecadação e isso deveria servir de alerta para as autoridades. A cidade tem pouco espaço para crescer, os terrenos encarecem com isso, as empresas mudam para cidades vizinhas (muitas vezes atraídas pela guerra fiscal) e a arrecadação vai minguando cada vez mais.

A bomba-relógio se percebe numa outra característica de Americana: a cidade é disparada a que mais emprega funcionários públicos, ou seja, tem uma máquina estatal inchada e cara, com cinco mil servidores e uma relação de funcionário público por habitante muito maior que as vizinhas.

Já passou da hora de rever conceitos. O velho modelo tebaldista, se já era discutível décadas atrás, hoje é totalmente inviável. Enxugar a Administração, torná-la mais eficiente, rápida e competitiva é necessidade para ontem.

Não é, caro leitor?