
A seção "Tendências/Debates", da "Folha de S.Paulo" do último sábado, aborda uma discussão muito interessante e polêmica: "A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?", pergunta o jornal a dois cientistas, Luiz Eugenio Araujo de Moraes Melo e Sônia Teresinha Felipe, ambos pós-doutorados.
Luiz Eugênio diz que não, não se pode deixar de utilizar cobaias na pesquisa científica porque, tal qual os humanos precisam de oxigênio, precisam também do sofrimento de outras espécies nas quais se testam vacinas, se injetam vírus e bactérias, se medem as reações psíquicas em situações extremas. "O uso de animais em ciência é absolutamente necessário. Ciência é questão de soberania nacional", sentencia. E exemplifica: "Lembremos a dengue. As pesquisas com animais em laboratórios indicam que há uma possível vacina. Teríamos essa vacina sem animais? Não. Talvez no século 22, 23, ou num futuro remoto."
Sônia traz o contraponto, dizendo sim, ou seja, é possível à ciência abrir mão do sofrimento animal em suas pesquisas, sem prejuízos aos avanços da medicina. Ela frisa que a utilização de outras espécies só trouxe enormes gastos e fracassos ao meio científico, dada a diferença entre elas e o organismo humano. "Ao adotar o organismo de camundongos, ratos, cães, gatos, porcos, cavalos, aves e primatas não humanos como referência para a investigação, a ciência deixa de estudar e conhecer o organismo e o psiquismo dos seres da espécie humana, a destinatária de tais resultados", argumenta. Ela diz mais: "As drogas (após pesquisadas em animais) não funcionam como prometido. Muitas delas são retiradas do mercado após constatada sua letalidade para humanos"
Fico com os argumentos da doutora Sonia. Mas nenhum dos dois aborda um outro fator: teríamos, nós humanos, o direito de encarcerar outras vidas (algumas delas com mais de 90% dos seus gens idênticos aos nossos, caso dos primatas) e fazê-las adoecer e agonizar? Pior: em nome de uma ciência de resultados questionáveis, como se aponta entre os próprios cientistas? Penso que não.
Defender sistematicamente o uso de cobaias parte de uma premissa especista, que coloca o homem e a mulher na condição de supremos donos de um planeta muito mais diverso, com muitos outros tipos de vida que, apesar de diferentes, não são inferiores nem desprovidos do merecimento à dignidade.
Os humanos já mostraram que são o maior perigo à vida na Terra, já provaram ser daninhos a todas as outras espécies e até a si próprios. Em dois séculos, o desenvolvimento industrial humano criou nada menos que uma crosta de lixo em volta do planeta capaz de mudar drasticamente o clima, com efeitos trágicos e já irreversíveis. Nenhum outro ser conseguiu destruir tanto, em tão pouco tempo.
Esse "currículo" nos descredencia a gerenciar o mundo.