30.11.07

A peste não é gay

Quem mais pega Aids na região de Americana, Santa Bárbara d'Oeste, Nova Odessa e Sumaré são heterossexuais. É o que informa matéria publicada na edição impressa do LIBERAL desta sexta-feira.

Não é apenas a realidade da região, mas também um fenômeno nacional e mundial. Ou seja, acabou de vez qualquer argumento para se sustentar a tese absurda de que a doença é uma "peste gay", como se chegou a afirmar logo que o HIV começou a infectar os humanos, ainda como uma praga letal e desconhecida.

Os grupos mais afetados pela Aids hoje são extamente os que se achavam imunes à contaminação: pessoas casadas que imaginam ser o matrimônio uma garantia contra o vírus. Não é. Assim como nunca será a ótica moralista do sexo uma barreira contra a transmissão.

A Aids é uma peste, sim, mas não escolhe gays, héteros, casados, solteiros, jovens, velhos. Ao contrário dos humanos, o HIV não tem o mínimo preconceito ao se alojar em quem se expõe a ele. Ataca todos, bastando que tenham uma conduta de risco, como sexo desprotegido, ainda praticado apesar de tanto esclarecimento que existe hoje.

Antes de vencer o HIV, portanto, os humanos devem vencer os próprios limites do preconceito.

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26.11.07

Fonte Nova, velho Brasil

"Sabíamos que havia trecho do concreto se soltando. Em janeiro desse ano interditamos 75% do estádio. A liberação se deu depois de tratamento da ferragem exposta para controlar a corrosão. Várias medidas foram tomadas no período. Havia preocupação com estrutura, mas nada que sugerisse uma tragédia dessa proporção", declarou o secretário estadual do Trabalho, Renda e Esporte da Bahia, Nilton Vasconcelo.

A primeira palavra já inspira ao asco: "sabíamos". Ou seja, as autoridades sabiam que o estádio Fonte Nova estava se despedaçando e, mesmo assim, esperou-se acontecer uma tragédia para, depois dela, tomar a atitude que já deveria ter sido tomada há tempo: interditar para demolir e fazer um outro estádio.

Nesse meio tempo, sete vidas se foram. Sete seres humanos estão mortos e, para suas famílias, não há explicação para tamanho descaso. Não adianta dizer que "havia preocupação com a estrutura". Uma ova que havia! Se houvesse, o estádio não estaria lotado no domingo, quase que programado para uma tragédia que acabou sendo a maior da história do esporte no Brasil.

Irônico é que ainda queremos sediar uma Copa do Mundo...

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22.11.07

Cicarelli, Karina e idiotização

Primeiro, foi Cicarelli. Agora, é Karina Bacchi que acaba de ser flagrada em cenas quentes com seu namorado numa praia e as imagens já estão nos principais sites brasileiros. Tudo bem, a praia é pública, ela é uma pessoa pública e a imprensa é livre. Mas, há uma outra questão em jogo. Aliás, em xeque: a qualidade da informação.

Desde que o fenômeno internet se tornou indispensável à maioria dos terráqueos, as notícias sobre a vida íntima de celebridades ganharam mais e mais destaque. É o celibritismo, sobre o qual meu ex-professor de Cásper (hoje diretor do Master para Editores), mestre Carlos Alberto Di Franco, escreveu recentemente no Estadão: "O culto da frivolidade indica inconsistência editorial".

Tal qual a TV, que define cada detalhe de sua programação com base no Ibope instantâneo, a Internet está se pautando pela contagem de clicks, também refém da audiência momentânea. Se falar da transa da Cicarelli dá acessos, dá-lhe paparazzi em busca de cenas picantes, que certamente vão para as capas dos sites.

O risco dessa "febre" é a frivolidade dominar o noticiário on-line, tomando o espaço da informação de qualidade, que já é minoria na rede mundial de computadores. Considerando que ainda há transferência de leitores do impresso para a web (e não sabemos até quando haverá), podemos ter, num futuro próximo, um nivelamento por baixo no mundo da informação, o que certamente contribuirá para uma sociedade idiotizada.

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20.11.07

Te callas, Chávez

Hugo Chávez não ouviu a recomendação do rei da Espanha, que lhe disparou um "cala-te" em plena cúpula Íbero-Americana. Ontem, ele se encontrou com Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, e já começou a falar como um Nostradamus contemporâneo. Ambos previram a derrocada do dólar e dos Estados Unidos.

"O dólar está caindo e com ele cairá, graças a Deus, o imperialismo dos EUA", disparou o presidente venezuelano. Bom seria se ele estivesse certo e pode até ser que esteja. Eric Robsbawm, considerado por muitos o maior historiador vivo, já disse algo semelhante, só que com muito mais propriedade intelectual e, portanto, argumentos (recentemente, a "Folha" publicou uma interessante entrevista com Robsbawm).

Tudo bem. Talvez possamos assistir aos indícios da queda do império hoje comandado pelo senhor da guerra, George Walker Bush, império que tanto interferiu no planeta, em geral de forma daninha, exploradora, violenta. Mas, em que o mundo ganha trocando o estilo Bush pelo estilo Chávez de governar?

Chávez já afirmou diversas vezes que desenvolverá em seu país a tecnologia nuclear, claro que para fazer a bomba atômica. Para tanto, anda alinhavando parceria com ninguém menos que o presidente do Irã, outro entusiasta da guerra através da explosão ao átomo (pioneirismo horrendo dos EUA). Fechou um canal de TV na Venezuela porque seu jornalismo o criticava (de maneira também nada democrática, Bush manipulou e ameaçou os veículos de comunicação na guerra contra o Iraque).

Ou seja, acabar o império dos Bush para uma hipotética vitória do pensamento dos Chávez seria trocar seis por meia dúzia, algo que lembra a estupidez da guerra fria. Fico com o rei da Espanha: "Te callas, Chávez".

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Justiça e barbárie

Gilmar Leandro da Silva Filho, um jovem de 23 anos, invadiu a casa da ex-namorada no dia 13 de julho deste ano. Ele estava armado, rendeu a moça mas, por sorte dela, a polícia agiu em tempo e ele se entregou. Foi preso em flagrante. Mas a sorte não se repetiu nesta segunda-feira para Evellyn Ferreira Amorim, de apenas 18 anos.

Novamente, Gilmar a manteve refém, também armado, desta vez na farmácia onde a moça trabalhava, em Praia Grande, litoral de São Paulo. A polícia não conseguiu impedir a tragédia: Gilmar matou a moça e se suicidou.

Perguntaria o leitor: mas, ele não estava preso, já que foi pego em flagrante mantendo uma pessoa em cárcere privado, com uma arma apontada para sua cabeça, sendo, portanto, um perigo à sociedade? Não, leitor, ele não estava preso. Porque uma juíza lhe concedeu liberdade provisória, provisória o suficiente para que ele tirasse em definitivo a vida da ex-namorada.

É mais um exemplo de que, enquanto leis antiquadas, feitas para reverter o horror cometido contra presos políticos da ditadura, continuarem valendo para cruéis assassinos de hoje em dia, sem nenhum ideal nem merecedores de tantos recursos, continuaremos a assistir cenas bárbaras e mortes gratuitas como essa.

Não adianta condenar Suzane a 39 anos se ela pode sair já no ano que vem - e pela porta da frente da cadeia. Não adianta condenar Pimenta Neves a 19 anos se ele sequer é preso. Não adianta prender em flagrande um criminoso que oferece perigo à sociedade se há concessão judicial para que ele volte à liberade.

Este País precisa acordar do transe jurídico que permite concessões demais a bandidos e mantém cidadãos de bem reféns da barbárie.

15.11.07

Vamos à Lua

Estivéssemos nós no mundo da Lua, assim veríamos a Terra: uma bela esfera azul, ora mergulhando ora surgindo no horizonte. As imagens são da agência espacial japonesa Jaxa e foram divulgadas nesta quarta-feira. Foram feitas graças a uma sonda espacial, que captou, com tamanha resolução, como um olho humano veria a Terra da Lua.

A foto é a principal da capa do LIBERAL desta quinta-feira. Porque não é apenas uma imagem da Terra, é um convite à reflexão sobre esta nossa casa, tão maltratada pelas ações inconsequentes da espécie humana, mas ainda tão aconchegante.

Yuri Gagarin, o cosmonauta russo que foi o primeiro homem a sair da atmosfera terrestre, olhou para nosso planeta em 1961 e exclamou: "A Terra é azul". Desde então, os terráqueos sabem disso. Mas diante de tanta poluição que geramos, a imagem captada pelos japoneses pode ser também uma novidade: a Terra ainda é azul. Da cor do mar que manchamos de petróleo, refletida no ar que pintamos de fumaça.

Deveríamos poder passar umas férias entre as crateras da Lua, onde tudo é escasso mas há algo que não existe por aqui e vale a a pena conhecer: a visão da Terra. Seria uma oportunidade única de, quem sabe, aprendermos de vez que ainda temos uma preciosidade a cuidar.

Bom feriado, caro leitor. E que a República, do latim "res publica" ou coisa do povo, seja um dia algo realmente do povo.

11.11.07

A ciência e os animais

A seção "Tendências/Debates", da "Folha de S.Paulo" do último sábado, aborda uma discussão muito interessante e polêmica: "A ciência pode abrir mão de fazer experiências com animais?", pergunta o jornal a dois cientistas, Luiz Eugenio Araujo de Moraes Melo e Sônia Teresinha Felipe, ambos pós-doutorados.

Luiz Eugênio diz que não, não se pode deixar de utilizar cobaias na pesquisa científica porque, tal qual os humanos precisam de oxigênio, precisam também do sofrimento de outras espécies nas quais se testam vacinas, se injetam vírus e bactérias, se medem as reações psíquicas em situações extremas. "O uso de animais em ciência é absolutamente necessário. Ciência é questão de soberania nacional", sentencia. E exemplifica: "Lembremos a dengue. As pesquisas com animais em laboratórios indicam que há uma possível vacina. Teríamos essa vacina sem animais? Não. Talvez no século 22, 23, ou num futuro remoto."

Sônia traz o contraponto, dizendo sim, ou seja, é possível à ciência abrir mão do sofrimento animal em suas pesquisas, sem prejuízos aos avanços da medicina. Ela frisa que a utilização de outras espécies só trouxe enormes gastos e fracassos ao meio científico, dada a diferença entre elas e o organismo humano. "Ao adotar o organismo de camundongos, ratos, cães, gatos, porcos, cavalos, aves e primatas não humanos como referência para a investigação, a ciência deixa de estudar e conhecer o organismo e o psiquismo dos seres da espécie humana, a destinatária de tais resultados", argumenta. Ela diz mais: "As drogas (após pesquisadas em animais) não funcionam como prometido. Muitas delas são retiradas do mercado após constatada sua letalidade para humanos"

Fico com os argumentos da doutora Sonia. Mas nenhum dos dois aborda um outro fator: teríamos, nós humanos, o direito de encarcerar outras vidas (algumas delas com mais de 90% dos seus gens idênticos aos nossos, caso dos primatas) e fazê-las adoecer e agonizar? Pior: em nome de uma ciência de resultados questionáveis, como se aponta entre os próprios cientistas? Penso que não.

Defender sistematicamente o uso de cobaias parte de uma premissa especista, que coloca o homem e a mulher na condição de supremos donos de um planeta muito mais diverso, com muitos outros tipos de vida que, apesar de diferentes, não são inferiores nem desprovidos do merecimento à dignidade.

Os humanos já mostraram que são o maior perigo à vida na Terra, já provaram ser daninhos a todas as outras espécies e até a si próprios. Em dois séculos, o desenvolvimento industrial humano criou nada menos que uma crosta de lixo em volta do planeta capaz de mudar drasticamente o clima, com efeitos trágicos e já irreversíveis. Nenhum outro ser conseguiu destruir tanto, em tão pouco tempo.
Esse "currículo" nos descredencia a gerenciar o mundo.

9.11.07

Combustível à nação

Numa época em que se prevê o fim do petróleo e a escassez de água para breve em escala planetária, o Brasil, país mais farto em água doce, descobre em Santos uma gigantesca reserva do óleo negro que move o mundo. Reserva que pode lhe garantir uma posição entre os dez maiores produtores mundiais, na condição de exportar essa fonte de energia sem a qual a humanidade não sabe mais viver desde que dela passou a fazer de tudo.

Eis mais uma prova de que a natureza foi generosa com esta porção continental de terra tropical. Bom clima, chão firme e fértil, ventos calmos, água abundante e, para completar, petróleo que vai sobrar. É muito privilégio se nos compararmos com os outros. Com países como o Japão, uma ilha cheia de vulcões e solo propenso a terremotos constantes que, mesmo assim, consegue ser muito mais desenvolvido socialmente que nós. Mesmo tendo ainda de superar a explosão de duas bombas atômicas.

O Brasil é uma contradição inexplicável. Do milionário ao miserável, da alta tecnologia à escassez do básico, dos fatores óbvios de sucesso ao fracasso. E não caiamos na baixa auto-estima de supor que somos inferiores aos outros povos. Criamos o proálcool que o mundo quer copiar, nossas eleições com urnas eletrônicas são muito mais modernas que as dos Estados Unidos e a estatal (!) Petrobras, que descobriu a reserva, tem a melhor tecnologia do mundo para extrair petróleo de águas profundas! Isso para citar três exemplos de criatividade e sucesso.

Talvez falte "cair a ficha" ao brasileiro, ter entendimento de que aqui tem tudo para ser uma nação. E, principalmente, que uma nação começa existir dentro de cada um de seus cidadãos, em todos os detalhes de seus atos.

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8.11.07

Os pêlos da Rogéria

A Câmara dos Deputados montou nesta quarta-feira uma exposição de fotos chamada "Heróis", mas com a intenção de criticar o significado do heroísmo. As imagens têm desde esportistas de sucesso como Diego Hipólito até políticos de escândalo como Fernando Collor, passando pelo presidente Lula. Deveria ter também Rogéria, um ícone gay no Brasil, mas sua foto foi censurada.

O motivo alegado são alguns pêlos pubianos que aparecem na foto da transexual (de Luiz Garrido, reproduzida aqui). Que veto curioso! Pode Fernando Collor, cuja passagem pela Presidência da República foi mais que pornográfica, mas não pode Rogéria, que apesar de carregar o pesado fardo do preconceito que se tem por sua orientação sexual, nunca roubou dinheiro público.

Mais que isso: pode nas propagandas de cerveja veiculadas em meios de comunicação de massa aparecer mulher semi-nua e retratada como um objeto feito apenas para o prazer masculino. Mas Rogéria não pode num salão do Congresso Nacional, casa em que, diga-se de passagem, existem orgias diárias com o suado imposto dos cidadãos brasileiros.

Aliás, em outra câmara legislativa federal, o Senado, exemplares da Playboy com a amante do então presidente da casa foram escancarados recentemente, durante sessão ordinária, por inúmeros senadores, que "trabalhavam" em suas bancadas com a revista aberta, sendo flagrados pelas lentes dos principais jornais do País. E não apareciam apenas pêlos pubianos da tal Mônica...

Ora, se todo o problema no Congresso fossem os pêlos da Rogéria...

foto Luiz Garrido

2.11.07

Suzane quase livre

Resolvo abrir o notebook num feriadão -neste, de folga. E deparo com esta notícia: Suzane von Richthofen, a menina rica que planejou a morte dos pais com golpes de barra de ferro, pode deixar a cadeia em três meses.

É o que espera seu advogado, que se baseia em uma apelação requerendo anulação do julgamento de Suzane e redução da pena para 22 anos. Se isso acontecer, ela já teria cumprido um sexto do tempo determinado e pode pleitear o regime semi-aberto.

A notícia explica o Brasil. A moça foi condenada, no ano passado, a 39 anos de prisão. E já pode estar às portas da liberdade. Um deboche, para dizer o mínimo, que começa na própria legislação brasileira , caquética e feita para presos políticos, não para bandidos de verdade.

A mesma legislação, por sinal, permite que outro assassino rico, o ex-diretor do "Estadão" Pimenta Neves, permaneça em liberdade mesmo após condenado. E muitos outros, desde que possam ter bons advogados.

Fecho o notebook. Preciso de um chope. Bom feriado, leitor.

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