30.9.07

Haja fígado

No meio jornalístico a semana foi agitada com a inauguração da Record News, primeiro canal de notícias da TV aberta. Uma nova opção para benefício dos telespectadores, certo? Nem tanto. Porque a figura de Edir Macedo apertando a chave que controla o canal traz frustração.

O bispo da Igreja Universal do Reino de Deus já foi preso acusado de charlatanismo. Já apareceu na TV contando pacotes de dinheiro com sorriso maroto após evento que lotou de fiéis um estádio de futebol em São Paulo. Sua Igreja, que cresce assustadoramente, promove exorcismos e usa a televisão constantemente para angariar dinheiro dos telespectadores.

Macedo é um grande mestre do transe e o transe nada tem a ver com o "News" do novo canal. Notícia é interesse público, um produto que deve ser objetivo e sem paixões religiosas, imparcial, laico, empírico. Pode a Record News ser tudo isso, mas seu dono continuará sendo o bispo evangélico, com a palavra final para qualquer decisão.

Isso é uma defesa da Globo, que o próprio Macedo prometeu atacar "cutucando o fígado até cair"? Não. A TV de Roberto Marinho já fez muito mal ao Brasil e, lembrando um fato recente, interferiu nas últimas eleições presidenciais, forçando um segundo turno que não estava no horizonte.

A concorrência é mais que saudável à carioquíssima Vênus Platinada, que não exercita a criatividade nem nas repetitivas novelas (o "Quem matou Taís?" repete o "Quem matou Salomão Ayala", da década de 70). O problema é que a elite empresarial brasileira, que também controla meios de comunicação (nos quais isenção de verdade é exceção), é de doer o fígado. E isso explica um país riquíssimo repleto de miseráveis.
imagem sxc

26.9.07

Suzane ri da República de Bananas

Suzane Von Richtofen, a moça rica que está presa por ter tramado a morte dos pais, está processando o Estado por danos morais e materiais. Sim, leitor, é isso mesmo. Ela quer R$ 950 mil de indenização dos cofres públicos (mantidos pelo meu e pelo seu dinheiro), por ter sofrido ameaça, passado fome e ter sido "obrigada" a dar entrevista à imprensa.

Tem mais. Por ter vivenciado uma rebelião, que a deixou "sob intensa violência, pressão psicológica, sofrimento, angústia e terror em plena escuridão" (trecho da ação feita por seus advogados), ela quer mais 500 salários mínimos, ou R$ 190 mil do dinheiro público.

Ora, será que os pais de Suzane também não sentiram medo, pressão psicológica, sofrimento, angústia e terror quando, em plena escuridão de seu sono, foram acordados com pancadas de ferro na cabeça? Quando foram covardemente mortos sem direito à defesa, enquanto dormiam em seus próprios quartos? Suzane teve compaixão nessa hora para evitar ou reparar os danos que os levariam a uma morte lenta e dolorosa?

Eis o Brasil, onde preso rico, quando vai preso (Pimenta Neves matou, foi condenado e está solto, uma aberração que só acontece por aqui e em republiquetas de bananas), se acha no direito de tirar uma casquinha do Estado em ações do tipo: "Você não sabe com quem está falando".

Continuo com inveja de países onde Paris Hilton e o ator que vive o herói Jack Bauer na telinha vão para o xinlindró apenas por dirigirem após uma dosinha de bebida. E não adianta reclamar.

22.9.07

Com ou sem carro

Só vejo uma pequena utilidade no tal "Dia Mundial Sem Carro" (que aqui em Americana está no calendário oficial após aprovação de projeto na Câmara): escancarar ainda mais nossa dependência dessa máquina sobre rodas.

Tal qual dependemos da energia elétrica, cuja geração de alguma forma agride o meio ambiente, dependemos do carro. E ninguém é louco de propor um "Dia Sem Energia Elétrica". A dependência do carro só pode ser amenizada com investimentos muito grandes no transporte coletivo, que não está no horizonte de nenhuma cidade brasileira. São Paulo tem o maior metrô do País, mas muito, muito menor do que a metrópole precisa, além de superlotado.

Claro que é necessário diminuir o comodismo de se usar o carro para distâncias diminutas, possíveis de se vencer a pé (com acréscimo de saúde), mas simplesmente deixá-lo na garagem por um dia me parece algo muito surreal, quase carnavalesco. Há muitas outras formas mais concretas de se reduzir a poluição veicular.

Um exemplo? Na Alemanha, acontece o Salão de Frankfurt, o melhor evento do mundo envolvendo automóveis. Por lá, estão sendo apresentados carros que emitem baixíssimos índices de poluentes e ainda rendem muito mais com um tanque de combustível (o revolucionário VW Golf Blue Motion, que não existe por aqui, é um deles). Seria porque os donos das montadoras são ativistas ambientais? Não. Na Europa, as leis são muito mais severas quanto aos poluentes gerados por veículos e, em 2010, uma nova legislação estipulará limites ainda menores, o que obriga as empresas a investirem em tecnologia ambiental.

Por aqui, não há sequer fiscalização eficiente sobre a frouxa lei em vigor. As Prefeituras (responsáveis por tal serviço) sequer têm aparelhos para fazer medição dos gases que saem dos escapamentos dos veículos na região, como mostrou O LIBERAL não faz muito tempo. A legislação permite que montadoras vendam carros bonitinhos por fora mas com motores muito atrasados em relação à Europa, pouco eficientes e muito poluidores.

Portanto, um dia sem carro nada resolve.
imagem sxc

18.9.07

A ilha e o mar

Como sempre, o Brasil é um país de abismos. Não seria diferente na educação, área primordial para o futuro de qualquer nação. Um estudo que acaba de ser divulgado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), feito em 34 países, aponta o Brasil como lanterninha, ou seja, de menor investimento por estudante.

Os 34 países gastam, em média, R$ 14.376 anuais por aluno. Luxemburgo é o que mais investe, desembolsando dos cofres públicos R$ 25.705. No Chile, o gasto é de R$ 5.470. O Brasil dispensa modestos R$ 2.488 por aluno, anualmente.

Mas, e o abismo? Ei-lo: somos o país com maior diferença entre o que é investido no estudante de ensino fundamental e no universitário. Enquanto o Brasil é o penúltimo no gasto com alunos primários (R$ 2.213 per capita anuais) e o último com estudantes do ginásio e segundo grau (R$ 1.973), a verba para universitários chega a R$ 17.226. E, pasmem, o Brasil gasta mais com universitários do que a Itália, Portugal e Nova Zelândia.

Não há fórmula mais cruel que essa para a elitização do conhecimento. Porque o País usa os recursos públicos para privilegiar as universidades, deixando para a base da educação pública apenas migalhas. O resultado: sem dinheiro, escolas de primeiro e segundo graus do governo não conseguem formar alunos capazes de chegar a faculdades como USP, Unesp, Unicamp etc. E quem chega até elas? Em geral, alunos de escola privada, de famílias que podem pagar pelo ensino.

Fecha-se o ciclo vicioso. E escancara-se um mar de ignorância no qual se mantém uma diminuta ilha de saber, habitada em geral pela elite econômica, que é graduada com dinheiro público.

imagem sxc

12.9.07

Senado envergonha o Brasil

Pode até haver argumentos pró-absolvição do senador Renan Calheiros, que escapou da cassação nesta quarta-feira por 40 votos a 35. Mas não há explicação decente para o fato de nunca os brasileiros poderem saber como cada representante do povo votou numa sessão tão secreta quanto um conclave para se eleger um papa.

Fosse a votação aberta, o resultado seria esse? Estivessem os senadores cara a cara com a opinião pública, tendo de dar satisfação sobre seu poscionamento, haveria 40 deles defendendo Calheiros (que é acusado de quebra de decoro parlamentar)? Haveria seis fujões, que se abstiveram?

É vergonhoso, para dizer o mínimo, uma casa que tem a função de representar os eleitores de cada estado da federação fechar-se completamente para decidir, de forma secreta, o futuro de seu presidente, ocupante de um cargo pago pelo dinheiro público e diante de acusações que interessam à opinião pública.

O Senado envergonhou o Brasil nesta quarta-feira, pois acovardou-se diante de quem deveria dar satisfação diária: o eleitor. E por causa de 40 homens, número que faz lembrar um tal Ali Babá...

imagem sxc

11.9.07

O trem-bala

A frase do governador Sérgio Cabral após os tiros que atingiram o trem em que viajavam dois ministros de Estado no Rio de Janeiro chega a ser surreal. "Não vou tolerar ações criminosas", disse. Mesmo acreditando que ele seja o carioca mais empenhado em acabar com a violência, ainda assim parece uma piada.

Não é a primeira, tampouco será a última ação criminosa intolerável no Rio, onde o tráfico dita até a hora em que o comércio tem de fechar e abrir, administrando morros onde o Estado não tem mais "moral" para subir (simplesmente porque se ausentou quando a população precisou de creche, escola, saneamento, dignidade). Fato é que o tráfico encurralou os cariocas entre o morro e o mar.

Agora que as balas quase acertaram dois graudões de Brasília, correu-se matar um homem na favela donde os tiros saíram, como se bastasse apenas um revide instantâneo sobre um problema que é muito maior e mais antigo: o crime organizado que coloca em xeque-mate o Estado desorganizado.

No Rio, é gritante tal situação. Não muito diferente, entretanto, do resto do Brasil. Até porque o crime só é organizado porque conta com a ajuda de gente corrupta da polícia e da política. Também porque os governos mantêm um abismo social dos mais estúpidos do mundo.
Por tudo isso, a melhor frase após o ataque ao trem foi do humorista José Simão: "Ministros vão ao Rio inaugurar tem-bala". Simão para presidente! Pelo menos, o humor estará garantido.

imagem sxc

7.9.07

Independência

Genilson Brandão deixou uma frase em comentário no artigo sobre o aborto que me chama a atenção para um tema que vai além do aborto e, por isso, abro uma nova postagem. "Tenha um ótimo Dia da Independência", disse ele. Mas, antes de mais nada, tratarei de apresentá-lo.

Genilson é um jornalista americanense tal qual este blogueiro. Fizemos cursinho juntos sonhando com a faculdade em São Paulo e com um jornalismo pluralista e a serviço do interesse público. Eu acabei indo para São Paulo me graduar e ele encontrou a chance de se formar não aqui no Brasil, mas nos Estados Unidos, onde mora até hoje e exerce a profissão de jornalista. Voltei para trabalhar em Americana e meu amigo continua nos EUA.

Feita a apresentação, voltemos à frase, incomum para nós brasileiros porém corriqueira para os norte-americanos quando se aproxima o 4 de Julho. Lá, o dia da independência é a apoteose do amor ao ideal de nação; aqui, das estradas entopidas rumo à praia.

Sim, leitor, o ufanismo norte-americano chega a ser exagerado e, muitas vezes, pensa-se por lá que o resto do mundo só existe para servi-los. Mas, o desprezo que há por aqui pela história e pelo conceito coletivo de país também incomoda.

Pero Vaz Caminha, quando escreveu o primeiro documento descrevendo o que seria o Brasil ao rei de Portugal, apontou: "A terra em si é de muito bons ares frescos e temperados. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo". Caminha disse isso há mais de 500 anos e, hoje, fica uma pergunta: aprendeu-se a plantar, colher e dividir nesta terra onde tudo dá? Aprendeu-se a valorizar um quase continente de terra onde a natureza foi extremamente generosa?
Um ótimo Dia da Independência a todos!

imagem sxc

5.9.07

Encare-se o aborto

A cada ano, 230 mil mulheres no Brasil buscam atendimento no SUS para tratar complicações causadas por abortos clandestinos. É mais que a população inteira de Americana. Isso sem contar as mulheres que têm sucesso no procedimento, portanto não entram nessas estatísticas.

Tapar os olhos para o problema é mais que hipocrisia. Chega a ser irresponsabilidade. O aborto é uma questão de saúde pública. E, por causa da lei que proíbe a prática pensando estar defendendo a vida de fetos, está-se colocando também a de seres adultos, constituídos e já cidadãos, sob risco.

Não, leitor, não se está defendendo a prática do aborto neste blog. Mas sua criminalização tal qual é feita no Brasil, é uma atitude inócua, muito mais sob influências religiosas do que qualquer outro tipo de motivo.

Nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, o aborto é livre e feito até em hospitais públicos, claro que dentro de regras (início da gravidez, por exemplo). A decisão é da mãe junto à sua consciência. No Brasil, a decisão é do Estado e a mãe, junto com o médico, pode ir para a cadeia.

A pergunta que surge é: quem está certo? Quem deixa deixa a decisão para cada consciência ou quem impõe a proibição? Antes de se responder tal pergunta, há que se lembrar do início desta postagem. Mesmo proibindo, o Brasil não impede que mais de 200 mil mulheres pratiquem aborto em verdadeiros açougues, matando o feto e ainda correndo risco de morrer também.

imagem sxc

4.9.07

O buraco

"Teríamos um buraco de R$ 36 milhões no orçamento", alega o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao defender a manutenção da CPMF, o imposto sobre movimentações financeiras, cujo "p" de "provisório" está significando "permanente".

Analisando-se a situação de forma imediatista, haveria, sim, o buraco. Mas, o verdadeiro buraco do Brasil é mais embaixo e deveria ser mais abrangente a visão do ministro da Fazenda de um governo eleito prometendo acabar com velhos vícios do País.

A carga tributária brasileira é inaceitável e aí está o buraco, em que nenhum presidente bota o dedo. Nem Lula, que continua bancando a política fernandohenriquista de gerar orgias lucrativas aos bancos, relegando crescimento pífio à indústria que gera empregos. Mantém-se o velho "tributarismo", com crescimentos sucessivos do recolhimento, sem a contrapartida dos benefícios.

No ano passado, o brasileiro pagou 38,8% do PIB (a soma das riquezas produzidas no País) só de impostos. E o que recebeu em troca? Um país que cresceu 2,9%, uma educação sucateada, uma saúde sucateada, estradas indecentes (transitáveis só quando há pedágios, custo que vai além dos impostos já pagos).

O buraco, portanto, é bem maior do que consegue enxergar o governo. Nele, cabe um sonho de País, atolado no pesadelo dos governos.

imagem sxc