27.8.07

Enterrados vivos

Vítimas da Aids enterradas vivas pelos próprios familiares.

Sim, leitor, é o que informa reportagem da BBC Brasil nesta segunda-feira. Os casos acontecem em Papua-Nova Quiné e os motivos são a falta de condições de tratamento e a ignorância transmitida via religião. Acredita-se por lá que a doença é passada por algum tipo de bruxaria, o que torna o doente ainda mais passível de abandono.

Uma assistente social daquele país relata à BBC que presenciou uma garota doente gritando "mãe, mãe!" enquanto eram jogadas pás de terra sobre seu rosto. Uma situação horrenda, para dizer o mínimo.

Mais que horrenda, inadmissível. Enquanto onde há civilização utilizam-se remédios que transformaram a Aids em uma doença crônica (cujo vírus pode ser controlado), em alguns lugares do mundo prevalece não só o descaso com as vítimas como se mantém um transe irracional, oriundo da épocas das sombras.

Por que, em vez de mandar bombas para o Iraque ou naves para o infinito, países ricos como EUA e Inglaterra não levam remédios e um pouco de razão científica a lugares como Papua-Nova Guiné?

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24.8.07

Inveja

Os pilotos norte-americanos do Legacy que bateu com o boeing da Gol, matando 154 pessoas em setembro do ano passado, estão se negando a vir depor no Brasil, informa o blog do jornalista Josias de Souza (na Folha on-line). Eles só aceitam ser inquiridos nos Estados Unidos, para onde já foram liberados desde o final do ano passado pelo governo brasileiro.

A Polícia Federal brasileira chegou à conclusão de que os dois norte-americanos agiram com “negligência” e “irresponsabilidade” quando pilotavam o Legacy. Mesmo assim, eles foram liberados e, como era óbvio imaginar, não voltarão à Terra de Santa Cruz que acabou se tornando Brasil.

Façamos um paralelo com o que aconteceu com o casal de brasileiros fundadores da Igreja Renascer, preso em janeiro nos Estados Unidos por ter entrado lá com dinheiro não declarado. Em nenhum momento, "bispa" Sônia e "apóstolo" Estevam foram liberados para voltar e acabam de ser condenados a 140 dias de reclusão, mais cinco meses de prisão domiciliar e ainda dois anos de liberdade condicional.

Eis a direfença. Aqui, dois pilotos podem agir com "negligência e irresponsabilidade", causando 154 mortes e ainda são premiados com a liberação para seu país de origem. Lá, entrar com dinheiro não declarado mesmo sem causar morte alguma dá cadeia (em julgamento que não se arrasta por aos como aqui). E não adianta chorar ou pedir clemênciana na frente do juiz. Errou, pagou pelo erro.

Que inveja...
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23.8.07

O Brasil na fila

Fabio Iglesias, do Instituto de Psicologia da UnB (Universidade de Brasília), defendeu uma tese de doutorado sobre o comportamento dos brasileros em filas, seja no banco, supermercado, rodoviária, aeroporto. Para o trabalho, o pesquisador encarnou o papel de furador de filas e, em 206 intrusões nas quais esteve, nada menos que 80% das pessoas não reagiram, sendo, passivamente, deixadas para trás.

A conclusão da tese é que o brasileiro é cordial, pacífico e não gosta de brigar por seus direitos quando o assunto é fila. Mas, seria apenas em filas? Não creio. E são muitos os exemplos de que a passividade bovina reinante neste País é responsável pelas mazelas que nos acompanham ao longo da história.

Quer exemplo dos mais significativos? Olhe-se a política e está lá escancarada a passividade do brasileiro. Vota, vê depois seu representante atolado em denúncias de corrupção, mas sequer lembra que votou nele. E é bem capaz de reelegê-lo nas próximas eleições. Claro que isso não é uma regra, mas está longe de ser exceção. E, se é dessa forma a escolha de quem vai decidir os rumos do País, nem se precisam citar outras exemplos.

E assim continuamos lá no fim da fila, esperando que um dia sejamos uma nação de verdade.

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20.8.07

Sem segredo

Uma das principais lojas de livros de Americana tem sua vitrine tomada por exemplares do livro "O Segredo". Em locadoras, há o filme de mesmo nome e, dia desses, acabei aceitando a sugestão do atendente (que fez enormes elogios à obra) para locá-lo. Consegui assistir à metade apenas, pois me senti um perfeito idiota perdendo tempo com tanta bobagem. Devolvi-o imediatamente, pedindo ao atendente da locadora que nunca mais me indique filmes do tipo.

A obra -se é que se pode chamar assim- vende a idéia de que grandes mestres da hitória mundial (Newton, Einsten...) guardavam um segredo comum. E pensei ser alguma vertente de "O Código Da Vinci" que, apesar do que é criticável na obra de Dan Brown, tem criatividade e consegue prender tanto o leitor do livro quanto o espectador do filme. "O Segredo" é muito diferente, pura auto-ajuda e das mais fajutas.

Para se ter uma idéia, o "segredo" revelado é mentalizar bens materiais para conquistá-los: um carro zero, uma mansão, o cargo do diretor. Os tais grandes mestres citados na propaganda do filme e do livro devem estar se revirando no túmulo.

O pior é que "O Segredo" não é um caso isolado. É um fenômeno do mundo descartável de hoje, cujos valores se resumem ao material, à competição a qualquer custo, à coisificação do ser humano feita através de lavagens cerebrais travestidas de ideais até "secretos".
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18.8.07

Cansei de bobagens

Acho legítimas todas as manifestações não violentas contra governos. Mais que isso, são bem-vindas, pois fortalecem a democracia e cobram dos homens públicos aquilo que lhes é obrigação. Porém, é no mínimo curioso o tal "Cansei", movimento que reuniu dois mil (segundo a Polícia Militar) ou cinco mil (segundo organizadores) na Praça Sé, em São Paulo, nesta sexta-feira.

Uma das estrelas do movimento, Hebe Camargo, chegou em um Mercedes F-65 preto, com seu motorista, e disse ao sair do carro, escoltada por vários seguranças: "Eu sou o povo". Carlos Alberto da Nóbrega, outro participante do movimento, soltou: "A praça é nossa" - seria "merchan"? E o dublê Luiz Alexandre da Silva veio com essa: "Minha mãe aprendeu na TV que sexo é normal e, por causa disso, eu não conheci meu pai".

Ana Maria Braga, Ivete Sangalo (que não abriu a boca) e Agnaldo Rayol (que cantou o hino nacional com seu vozeirão) também estiveram por lá. Padre Antonio Maria, que fez a cerimônia religiosa do efêmero casamento de Daniela Cicarelli e Ronaldo, deixou a pérola: "Hoje, Deus diz pra nós: 'Estou cansado'. Deus está cansado".

E o Lula é que fala bobagem...
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15.8.07

A vida queima

Alguém já viu alguma pessoa ser presa por incendiar matas? Eu, nunca, apesar de botar fogo no mato ser crime contra o meio ambiente. Um crime para o qual, na prática, inexiste punição simplesmente porque a fiscalização é falha, para não dizer ausente. E basta se observarem quantas matas viram cinzas no Brasil, sem a contrapartida dos responsáveis por tais atos estarem atrás atrás das grades.

A manchete do LIBERAL de hoje traz um fato de extrema tristeza: 70 mil metros quadrados (ou metade) de uma das poucas áreas verdes de Americana viraram pó por conta de uma queimada criminosa. No local, havia 150 espécies de vidas e pode levar 30 anos para a ecossistema dali voltar a ser o que era minutos antes de o fogo consumir tudo.

Uma pessoa foi presa saindo com uma caixa de fósforo do local, mas acabou solta logo em seguida -pasmem!- por falta de provas. Tudo bem que o fósforo poderia ser para acender cigarro. Mas, fosse um homem saindo da cena de um homicídio com uma faca que poderia ser para cortar laranja, haveria tamanha impunidade?

Explica-se por que a Terra arde rumo à extinção de muitas de suas espécies, senão de todas. A se continuar nesse ritmo, seria bom que a humana estivesse entre as primeiras, pois assim haveria esperança de sobrar alguma vida nesta bela esfera azul.

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11.8.07

O repórter lixeiro

José Roberto Silva, repórter do LIBERAL, tinha como pauta esta semana revelar como é sobreviver do lixo da socidade, coletando aquilo que todos já descartaram. E Beto, como o chamamos na redação, saiu a campo da forma mais próxima possível do tema de sua reportagem: trabalhou junto aos coletores da Limpeza Pública de Americana por um bairro inteiro, descendo e subindo à caçamba do caminhão, apanhando sacos e mais sacos pela cidade.

O resultado da experiência está na edição impressa do LIBERAL deste domingo. Um relato testemunhal não só da árdua tarefa e dos seus riscos, mas também da insignificância que ela tem perante muitos. "Somos invisíveis", escreve Beto, que sequer recebeu respostas aos "bom dia" que deu a moradores pelas ruas. Paradoxalmente ao senso comum, a matéria conclui o quão imprescindível é a atividade para a sobrevivência de uma civilização que, a cada dia, produz mais lixo.

A reportagem do Beto, mais que digna do nome "especial", revela não apenas como é difícil trabalhar limpando a sujeira produzida pelas pessoas. Mostra, também, que há um tipo de lixo infelizmente ainda impossível de ser coletado: o do preconceito. Lixo que se escancara, por exemplo, no fato de uma dona de casa, a quem foi pedida água, mandar os coletores jogarem fora os copos (de vidro) em que beberam.

Leitura imperdível para muitas reflexões, às quais este espaço está aberto. E bom domingo!

10.8.07

Das sacolas

Quando o jornal O LIBERAL e este blog questionaram o projeto das sacolas oxi-biodegradáveis em Americana, não se tratava de ser a favor ou contra. Apenas havia um parecer do governo do Estado atestando que o produto continuava nocivo à natureza. Então, cumprindo o papel inerente ao jornalismo, questionamos a Secretaria de Meio Ambiente local sobre o motivo de se insistir no projeto aqui.

Na ocasião, o secretário Victor Chinaglia chegou a disparar um palavrão à repórter Jaciara Romero, da Rádio VOCÊ (AM-580), que pertence ao Grupo O LIBERAL. Disse que não se pautava pelo governo do Estado e não falaria sobre o assunto porque o jornal já havia feito um "estardalhaço" sobre o tema, assim como "a m... daquele blog" (palavras do secretário sobre este espaço).

Ontem, o mesmo secretário falou em um novo projeto "decorrente da polêmica", agora de sacolas retornáveis. Disse ainda que "todo projeto tem suas polêmicas e correções no andamento". Uma evidência de que os questionamentos do jornal e deste blog não eram "estardalhaço" nem outro adjetivo deselegante, principalmente quando dito pelo alto escalão do poder público.
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9.8.07

A cadela arrastada

Com uma corda, um jovem que hoje tem 23 anos amarrou uma cadela prenhe no pára-choque de seu carro, deu a partida e acelerou. Por pelo menos seis quarteirões, até a morte do cão. Testemunhas dizem que era possível ver os filhotes ralando no asfalto.

O caso aconteceu em 2005, e causou comoção na cidade gaúcha de Pelotas, palco de passeatas pedindo a punião dos responsáveis pela barbaridade. Nesta quarta, o jovem de 23 anos foi condenado à prisão por um ano em regime aberto. Antes disso, outros envolvidos tiveram de pagar multa e prestar serviços comunitários.

Puniões brandas e, ainda assim, um avanço num país onde maltratar animal é um ato tão comum quanto premiado com a impunidade. Para se constatar, basta uma volta pelas ruas: são cães abandonados ou encarcerados em condições insalubres, cavalos amarrados a carroças pesadas para uma rotina cruel. Já tentou denunciar? Uma autoridade empurra para outra.

E ainda há quem insista em dizer que o que nos difere dos outros animais é a inteligência. Que inteligência?

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5.8.07

O juiz machão

O juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho arquivou uma queixa-crime apresentada pelo jogador Richarlyson contra o diretor adminstrativo do Palmeiras, José Cyrillo Júnior, que insinuou que o atleta é homossexual. Na justificativa, o magistrado classifica o futebol como "jogo viril, varonil e não homossexual" e chega a sugerir que um atleta gay deve abandonar a carreira.

Trata-se de uma aberração judicial, preconceituosa e machista. Seguindo o raciocínio do juiz, podemos concluir também que lugar de mulher é na cozinha e no tanque de lavar roupas. E que as meninas campeãs mundiais que deram um show nos Jogos Pan-Americanos estavam roubando o lugar da "viril, varonil" e não campeã equipe masculina, a única credenciada, na visão do juiz, a pisar os gramados.

Richarlyson, assim como qualquer ser humano, tem todo o direito de ser jogador de futebol, com orientação homo ou heterossexual. Assim como as mulheres o têm para preencher espaços que antes eram exclusividade dos homens, por conta do histórico machismo da sociedade brasileira. Mais que isso: o atleta tem o direito inviolável de ser respeitado e de recorrer à Justiça quando ofendido.

É lamentável que um magistrado não consiga enxergar isso e recorra a argumentos dantescos que ferem dois dos ideais que a humanidade ganhou ainda na Revolução Francesa: liberdade, igualdade.

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3.8.07

O etc

O presidente da TAM, Marco Antonio Bologna, chegou a ser surreal em seu depoimento na CPI do Apagão Aéreo, nesta quinta, em Brasília.

Um deputado lhe pediu que ele lesse um trecho do documento da Agência Nacional de Aviação que orienta pilotos para pousos em pistas molhadas. Bologna começou a ler, listando os mecanismos que devem estar em funcionamento na aeronave. Mas, ao chegar no reversor da turbina -que estava travado propositalmente pela TAM no avião acidentado em São Paulo-, não leu. Disse "E etc..."

O deputado que lhe pediu para ler o documento questionou: "Está escrito 'etc' aí?". E Bologna, descaradamente, disse: "Sim". Óbvio que não estava. O que se dizia ali era que, além dos mecanismos já lidos pelo presidente da TAM, o reversor também é recomendado, e não como "etc", mas como reversor, que ele não leu.

Se em um depoimento no Congresso Nacional, diante de câmeras de TV, o presidente de uma das maiores companhias aéreas do País oculta a verdade, como ele agiria entre as quatro paredes da manutenção de suas aeronaves?
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2.8.07

Revelações

Foram várias as críticas à divulgação do diálogo entre piloto, co-piloto e torre nos últimos momentos de vida de quase 200 seres humanos na chuvosa noite de 17 de julho. E uma voz lúcida ecoou do deputado Fernando Gabeira, nesta quarta: "A imprensa existe para revelar, não para ocultar".

Jornalistas existimos para levar fatos relevantes ao conhecimento dos leitores, ouvintes, telespectadores e internautas. Portanto, não creio que a "Veja" tenha errado ao adiantar uma nova e sigilosa linha da investigação no final de semana, com base nas caixas-pretas; nem a "Folha", ao adiantar o diálogo na cabine do Airbus nesta quarta, antes de ele ser divulgado.

Mas, tanto "Veja" quanto "Folha", tampouco acertaram. Porque ambas afirmam em suas manchetes que o erro foi do piloto, o que ainda é prematuro concluir. Revelar as vozes desesperadas segundos antes da tragédia é doloroso, porém factual. Sentenciar, sem argumentos conclusivos, que o culpado é alguém que está morto e não pode dar sua versão é algo irresponsável, que foge ao jornalismo.

Uma frase do piloto revelada nesta quarta, ao não conseguir frear o avião, chama a atenção: "Olhe isso!", diz. Só o co-piloto viu. Ninguém mais. Poderia ser uma falha dos aparelhos do avião? Sim, poderia. Sua possibilidade é remota segundo especialistas, mas tanto quanto o fato de um piloto experiente deixar uma turbina acelerando propositalmente no instante do pouso de uma aeronave.

Voltando ao Gabeira, a imprensa existe para revelar, não ocultar. Nem pré-julgar.

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