
Pegou moda no jornalismo impresso e on-line a "cobertura" constante do mundo das celebridades. Virou até uma editoria em alguns dos principais sites do País a inscrição "celebridade". Clica-se ali e dá-lhe fofoca da vida de famosos e seus comportamentos, da mesa do café da manhã à cama.
Parece mais uma onda que, utilizada de forma exagerada, ofusca a missão verdadeira do jornalismo: investigar os poderes, defender o interesse público e prestar serviços, enfim, informar com o compromisso de ajudar a formar e possibilitar o transformar de uma sociedade. O fenômeno também revela a falta de criatividade dos meios em conseguir publicar o que é importante de forma interessante.
Aliás, esse é o grande dilema das redações, hoje. Como equilibrar o importante com o interessante? Como fazer com que temas políticos, por exemplo, que precisam ser revelados pelas páginas da mídia, sejam saborosos aos olhos do leitor? Ou, como fazer a cobertura verdadeiramente cultural ter o mesmo interese do novo namoro do ex-Big Brother?
As respostas para isso com certeza não passam pela concessão. Deixar-se seduzir pelo modelo mais fácil -ou seja, ceder ao celebritismo imaginando que, assim, não se vai perder leitor- é matar o doente para curar a doença. Necessário é repensar o modelo informativo, sair das manchetes declaratórias (aquelas que se baseiam apenas no que falou um político, fácil de fazer, difícil de engolir), buscar nos fatos o que realmente interfere na vida dos leitores e investigar, investigar, investigar.
Mais que isso: é preciso humanizar as folhas de jornais e telas de sites. "Um bom jornal é uma nação conversando consigo mesma", já disse Arthur Miller. Esse diálogo tem de ser franco, honesto, transparente. Não pode ser um anzol de sensacionalismos para fisgar leitor a qualquer custo.
Um exemplo caseiro para ilustrar o tema. Semana retrasada uma repórter e um fotógrafo do LIBERAL ficaram manhã e tarde navegando e encalhando em 15 quilômetros das águas poluídas do Ribeirão Quilombo para contar ao leitor quantos despejos de esgoto se viam ali. Seria muito mais fícil, rápido e barato fazer a matéria da redação, apenas ligando ao setor de fiscalização e perguntando se havia denúncias sobre despejos no ribeirão. Mas fugiria à raiz do jornalismo: o repórter como testemunha ocular dos fatos. Prova disso é que a matéria acabou forçando o setor de fiscalização a fiscalizar, de fato. E a matéria teve grande repercussão na opinião pública.
Outro exemplo, citado sempre pelo mestre Carlos Alberto Di Franco, meu ex-professor de Cásper Líbero. Uma das melhores edições de "O Globo" foi publicada quando o editor-chefe do jornal, cansado do jornalismo burocrático, colocou toda a reportagem numa Kombi e mandou os jornalistas às ruas do Rio, para buscarem notícias novas e trazerem à redação. Foi sucesso de público.
Ou seja, há leitores para bom jornalismo. Mas os jornais precisam, antes de tudo, acreditar na inteligência deles. Depois, apostar nela.