26.5.07

A semana em três atos

Abaixo, três temas polêmicos para que o leitor escolha qual o mais exótico da semana e comente sobre ele.

[ ] A Câmara de Americana acerta a mudança de um prédio de 600 metros quadrados para um de quase 5 mil metros quadrados. Entre as justificativas para passar a pagar R$ 29 mil mensais de aluguel em vez dos atuais R$ 7 mil, um cálculo no mínimo estranho: o presidente da Casa diz que o metro quadrado ficou mais barato. Ora, se você, caro leitor, mudar de sua casa alugada para um estádio de futebol, provavelmente também pagará menos por metro quadrado, mas a pergunta é: você previsa morar em um estádio de futebol?

[ ] A memória do prefeito Waldemar Tebaldi é ressuscitada em debates político-eleitorais. Estaria o prefeito, no além, zangado com a administração de Erich Hetzl. Até a lágrima que Tebaldi soltou no último comício de Erich teria sido profética, já que ele estaria prevendo a "traição" do candidato que apoiava. Tudo isso vem à baila em plena efervescência precoce do debate eleitoral, com o surgimento de pré-candidaturas declaradas e a contribuição de setores da mídia para um ilusionismo perigoso e antiético.

[ ] O prefeito de Santa Bárbara anuncia um "pool" de comunicação. Rádio, TV e portal na Internet. E, durante mais uma de suas coletivas, anuncia que o lançamento de um jornal está entre seus planos. Um jornal bancado com o dinheiro público, que pudesse falar das benesses da sua administração. O povo poderá interagir com esse futuro jornal, pergunta a reportagem do LIBERAL. O prefeito nega, dizendo que, para a população participar, será com outro setor. Ou seja, no jornal só devem caber elogios. Chapa-branca, para lembrar um velho jargão.

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25.5.07

A tocha é sua

Se a tocha olímpica vai passar por Americana apenas por duas horas e custará R$ 23 mil (até agora colocados nas costas do Poder Público Municipal), significa que o minuto olímpico do tal evento vale R$ 191,66. Apenas para a tocha passar em uma das 52 cidades que foram escolhidas (até politicamente) para recebê-la.

Imagine que você fosse o prefeito da cidade, caro leitor. O que faria? Pagaria os R$ 23 mil, mesmo após o ministro dos Esportes ter dito (na "Folha de S.Paulo") que a cobrança de tal "pedágio" é ilegal? Sairia à caça de patrocínio para dividir o ônus ou mandaria a tocha embora? Agora, imagine que você fosse um empresário. Bancaria ou não quase R$ 200 por minuto como patrocinador dessa essa efêmera passagem?

A resposta é sua. E bom final de semana aos companheiros de blogosfera.

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23.5.07

Dias piores virão

O debate eleitoral chegou cedo demais a Americana. Discursos acalorados, tanto do lado da oposição quanto da própria Administração, estão ofuscando a necessária gestão do interesse público, obrigação dos eleitos. Contribui para isso a mídia que faz o jogo político, em vez de se manter no seu papel de informar e deixar ao leitor/ouvinte/espectador a conclusão sobre os fatos.

Pelo cenário que começa a se delinear, viveremos uma das mais baixas campanhas eleitorais da história da cidade. Até a memória do ex-prefeito Tebaldi está sendo usada, sem nenhum respeito por alguém que não está mais no jogo político, nem entre nós. Ontem, a filha do prefeito se lançou candidata disparando críticas e fazendo drama até em relação às lágrimas que o pai derramou no último comício do então candidato Erich.

E tudo isso parece ser só o aperitivo do que está por vir. Não apenas os espaços do poder público mas também as folhas da imprensa serão utilizadas como palanque, não no sentido de informar, mas de deformar, buscando-se eleger ou destruir.

O grande mediador de tudo isso será o poder de discernimento do (e)leitor, que tenho certeza ser bem mais inteligente do que muitos imaginam.
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19.5.07

Mundo em transe

Um jovem do Texas colocou a própria filha, de apenas dois meses, no microondas. Pego pela polícia, disse que estava fazendo tudo aquilo "seguindo ordens de Deus". Loucura? Certamente, porém nem tão nova diante das insanidades que se fazem em nome do "todo poderoso" pelo mundo afora.

O caso do microondas é extremo, mas o fanatismo religioso gera atitudes correlatas, desde os homens-bomba até as pessoas que se privam da vida ao serem manipuladas por líderes que pregam a ditadura do moralismo. Explode-se em nome de Alá, mas também se auto-flagela em nome de Cristo.

Exemplos? Olhem-se as alienantes condutas que várias seitas neopentecostais impõem a jovens que sequer descobriram os valores e sabores da vida. E não é só no meio evangélico. Na "Folha" da semana passada, relata-se que um padre brasileiro, inspirado pelos discursos de Bento 16 por aqui, está orientando jovens a sequer tocarem em seus órgãos genitais durante o banho.

Ou seja, em vez de pregarem a solidariedade e harmonia na Terra em homenagem ao "criador", muitos religiosos semeiam o ódio, a segregação e o castigo como conduta a ser seguida. Vivemos num mundo estranho, para dizer o mínimo.

17.5.07

Arrastão de carros

A edição impressa do LIBERAL desta quinta-feira noticia que sete veículos foram furtados em um arrastão que demorou apenas duas horas, em plena área central e à luz do dia, em Americana. Um problema cada vez mais agudo e para o qual parece não haver solução entre os homens do poder político e policial.

Aqui no Blogna, fica o convite para o internauta que já teve o carro furtado ou roubado na cidade contar sua experiência. Relatar a humilhação de, apesar de pagar tantos impostos, não ter segurança. O convite se estende a todos, já que que todos os motoristas são vítimas desse crime crônico na cidade porque as apólices de seguro por aqui são as mais altas da região (justamente por conta de tanto furto e roubo).

Começo com o que aconteceu comigo, poucos anos atrás. Saí de casa após um breve jantar para voltar ao jornal e o vidro do carro que tinha na época estava estourado, o toca CD arrancado do painel todo arrebentado e um guarda (que passou pela rua e o vidro estourado lhe chamou a atenção) observava o "serviço" feito pelo ladrão, com uma lanterna. O guarda me disse: "Até sabemos onde pode estar o teipe, mas nem adianta ir atrás, pois a lei protege o moleque que fez isso". Senti-me numa republiqueta de bananas. E esse foi só o primeiro caso. Mas, agora a palavra é sua, caro companheiro de blog.

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15.5.07

A tocha de grego

Matéria publicada nesta terça-feira no LIBERAL impresso revela que a passagem da tocha dos Jogos Panamericanos por aqui custará aos cofres públicos R$ 23 mil. Pode parecer pouco considerando o orçamento de uma cidade como Americana e seus atributos sócio-econômicos, que inspiraram a vinda de tal tocha. Mas o caso é um pouco mais complexo.

O evento já ganhou até conotação política. No dia seguinte ao anúncio da escolha de Americana, o deputado estadual Francisco Sardelli (PV) e possível candidato a prefeito da cidade no próximo ano, enviou nota à imprensa dizendo que essa era uma luta sua. Não se quer aqui negar que seja, mas, independente da paternidade da idéia, quem vai bancar deverá ser a população, a menos que a Prefeiura consiga patrocínio junto à iniciativa privada.

Para uma cidade que, apesar de ainda privilegiada em infra-estrutura, tem uma administração que vive chorando queda na arrecadação, parece um gasto desnecessário. Afinal, o que a tal tocha poderá trazer de recompensa por se gastar praticamente o valor de um carro zero por sua simples passagem por aqui? Carro zero, diga-se, que dispensaria um dos que a Prefeitura aluga (com gastos mensais) para sua frota. Tudo por alguns minutos "olímpicos".

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11.5.07

Indulto não. Insulto

Numa época em que a violência reina pelas ruas, deixar que 2.655 criminosos presos saiam em liberdade na região por conta do Dia das Mães (manchete do LIBERAL desta sexta-feira) parece um escárnio aos cidadãos de bem. Sim, eles têm esse direito garantido pela Constituição. Mas a Constituição também garante o direito dos honestos à segurança, à possibilidade de ir e vir, à sobrevivência digna.

É um deboche um País ser tão zeloso pelo direito dos que assaltam, matam, estupram e, ao mesmo tempo, não assegurar a tantas crianças o direito à comida ou a tantos idosos o direito a uma velhice digna. Sabe-se que parte desses presos não voltará para as celas, outra parte particará crimes enquanto solta, mas mesmo assim nada se faz para evitar o pior.

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9.5.07

Do nada a lugar nenhum

O papa chega ao Brasil e a grande mídia usa como manchete o tema aborto. Estaria havendo uma polêmica entre o governo federal e a igreja católica, em que Lula estaria dizendo ser o aborto um tema de saúde pública enquanto a figura do papa, como há muitos séculos, condena veementemente a prática.

O assunto parece um "samba de uma nota só" e não deve chegar a grandes conclusões, com ou sem o papa no Brasil. Primeiro, porque a mídia, em geral, gosta muito mais das polêmicas do que das soluções para elas. Segundo, porque o problema é mais embaixo, e envolve o governo, a igreja e também a mídia.

Discute-se o aborto como se não houvesse uma causa maior, esta sim digna de muito debate: o necessário controle da natalidade, a profunda reflexão em que um casal deve mergulhar antes de fazer um filho. Reflexão que passa até pelo pelo fato de o planeta não mais suportar o número de pessoas que nele vive. Mas, curiosamente, essa reflexão que não passa pela igreja e é pouco abordada pelo governo e também pela mídia.

As igrejas ainda querem multidões, então o raciocínio é que os fiéis se multipliquem e levem suas proles aos templos. Os governos sempre acabam apagando o fogo das conseqüências, porque falham em não atacar as causas. E a mídia se faz de desentendida, adora estimular a maternidade, aproveitando o apelo emotivo e comercial que esse mercado gera.

Nenhum dos três têm, portanto, propriedade para bater no peito e defender ou condenar o aborto. Por isso, se vai do nada a lugar nenhum.
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6.5.07

Vegetarianismo ambiental

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, ou IPCC, aponta pela primeira vez o que os vegetarianos sabiam há um bom tempo: deixar de consumir carne é também uma atitude de cunho ambiental. Entre as sugestões apontadas pelo IPCC, divulgado pela ONU, está a de comer menos carne vermelha, o que diminuiria a emissão de metano produzido pela infinidade de cabeças de gado criada no mundo. O metano é 22 vezes mais poluente do que o CO2.

Mas o caso não fica apenas na flatulência dos bois. Os enormes espaços de terra de que a pecuária necessita é um fator que explica a devastação das florestas. Mais: a quantidade de água e alimentos que os bois consomem até que sejam abatidos é um sinal claro de desperdício dos recursos naturais. Uma área capaz de sustentar um único indivíduo consumindo carne poderia sustentar até 30 pessoas consumindo alimentos vegetarianos, para se ter uma idéia.

"No Brasil, 44% das culturas destinam-se a produzir alimentos para os animais, isto é, quase a metade de tudo que nosso solo produz é usado para alimentar animais, que, por um lado, ao serem transformados em alimentos só podem nutrir reduzida parcela da população", diz a socióloga Marly Winckler, no site www.vegetarianos.com.br.

"Se damos 1.000 calorias de soja para um boi, 100 calorias viram carne. O resto o bicho gasta mugindo, balançando a orelha, criando pêlo e em outras atividades bovinas. Ora, muito mais eficaz é pegar essa soja e dar logo para um humano - precisaríamos de muito menos terra para manter o mundo humano funcionando", escreve o jornalista Denis Russo Burgierman, em "Vida Simples" (www.vidasimples.abril.com.br).

Argumentos não faltam para dizer que diminuir o consumo de carne ajudaria a resolver dois problemas: o da fome e do aquecimento global. Mas, o tema é muito polêmico. Sinto isso toda vez que digo a alguém que não me alimento de nenhum tipo de carne e vivo muito bem, mas me olham como se eu fosse um extraterrestre. Entretanto, agora o tema não é apenas colocado como uma questão de respeito a todos os tipos de vida, mas pelo futuro do próprio planeta.

Apenas para reflexão, uma frase do gênio Da Vinci que me inspirou ao vegetarianismo quando a li colada no vidro de um carro que estava na frente do meu, num semáforo: "Tempo virá em que os seres humanos julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassínio de um homem".
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4.5.07

País perdido

O Brasil não sabe o que fazer com um jovem que, quando ainda era menor de idade, torturou, estuprou e matou. Apesar de já maior, ele estava até a última quarta-feira na ex-Febem (que, após tantos adjetivos ruins que o nome suscita, recebeu o eufemismo "Fundação Casa"), fugiu com a maior facilidade mas foi capturado. A Justiça, então, mandou colocá-lo numa unidade também da ex-Febem que ainda não está em funcionamento, mas a instituição é contra. Há quem diga que ele deveria ir para presídios de adultos. Só não há solução para o caso.

Na verdade, o Brasil não sabe o que fazer com o crime que encontra terreno fértil entre adolescentes, evoluindo de forma diabólica até a vida adulta. Casas como a Febem não ressocializam, mas os presídios tampouco. Então, o debate minimiza-se em soluções mágicas como a diminuição da maioridade penal para 16 anos, que levaria muitos dos menores da Febem para presídios onde se consegue, de dentro das celas, comandar ataques à sociedade lá fora. Donde se foge com facilidade e onde o aprendizado é dos mais perversos.


Pudera. O País onde juízes ganham dinheiro da máfia dos bingos para fornecer liminares permitindo o jogo, onde políticos só pensam em eleições quase dois anos antes do pleito, onde a corrupção atinge todas as esferas de poder desde as Capitanias Hereditárias, onde na própria sociedade está enraizado o conceito do "jeitinho" e do "levar vantagem" só poderia estar mesmo perdido. Perdido há 500 anos, perdido agora e sabe-se lá até quando.
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1.5.07

Transe acultural

O senador Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo e integrante da cúpula da Igreja Universal do Reino de Deus, está quase conseguindo incluir templos religiosos entre os beneficiários da Lei Rouanet, criada em 1991 para dar incentivos à cultura no Brasil.

Se a proposta passar, os já minguados recursos que a classe artística consegue por meio de isenções fiscais de empresas, permitidas pela Lei Rouanet, passarão a ser disputados também pelos líderes religiosos, que já não precisam pagar impostos sobre todo o dízimo que recolhem não apenas das sacolinhas de antigamente, mas até dos modernos boletos bancários anunciados em redes de TV, rádio e toda a multimídia "de deus".

Se a lei passar, será mais uma pá de cal sobre um país que deixa sua memória mofar, não valoriza sua arte, despreza seus talentos e mergulha no transe que, ao contrário da cultura, aliena, sufoca, cega e destrói. Pobre, pobre, pobre Brasil.

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