14.2.07

Não há fórmula mágica

Redescobriu-se a roda. Basta diminuir a maioridade penal e tudo será resolvido em relação à violência. Eis o Brasil do jeitinho. Para problemas complexos, sempre há uma fórmula mágica que inflama os discursos dos políticos e a grande mídia embarca, anestesiada, incapaz do exercício crítico.

O juiz da 1ª Vara Criminal de Americana, André Carlos de Oliveira, nos refresca a memória numa reportagem da jornalista Aline Macário, do LIBERAL: não há lugar nos presídios sequer para os bandidos maiores de idade, quanto menos para os menores que possam ser criminalizados caso se mude a legislação. Ou seja, bater apenas nessa tecla é um exercício ilógico.

É claro que se precisa considerar o fato de os adolescentes terem cada vez mais cedo acesso ao mundo dos adultos, assim como estarem precocemente avançados (e violentos) nos seus costumes. Mas não basta apenas baixar numa canetada a sua maioridade penal se a estrutura do País não comporta sequer a atual legislação.

Vivemos num país onde presos ordenam ataques terroristas (sim, terroristas, pois não há outro nome para a obra atribuída ao PCC no Estado de São Paulo) a alvos policiais e civis de dentro das celas. E ninguém consegue (ou seria não quer) impedir que eles o façam! Vai resolver jogar nessas celas jovens de 16 e 17 anos?

Vivemos num país onde a impunidade prospera e se multiplica, principalmente nas classes mais abastadas, que se colocam acima das leis desde quando fazem arruaças (nas barbas das autoridades) com seus carrões totalmente fora das especificações legais, até quando matam alguém ou quando violentam o dinheiro público nas esferas do poder.

Vivemos num país onde não há espaço para fórmulas fáceis, porque a dignidade não é um direito natural dos seus cidadãos, mas uma sorte de poucos. Se se precisa diminuir a maioridade penal -e isso é uma discussão plausível desde que não isolada-, antes, precisamos construir uma nação onde a violência e o desrespeito à vida sejam repudiados por todos e não motivos de alvoroços apenas quando alguma aberração acontece.

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12.2.07

Jornais

A "Folha de S.Paulo" de sábado passado estampa como foto principal de sua capa o presidente Lula e a primeira-dama sentados sob a inscrição "good life", ou, "vida boa". Trata-se de um slogan ligado uma empresa que participava do evento em que o presidente estava, mas o jornal aproveitou para incitar um outro raciocínio no leitor. E é apenas mais uma das muitas capas da "Folha" em que Lula é colocado de forma vexatória.

Lembrou-me a foto que a mesma "Folha" publicou anos atrás, também em sua capa, quando seu novo parque gráfico foi inaugurado. Estavam na imagem o publisher do jornal, Otávio Frias de Oliveira, e o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, ambos rindo, numa imagem que denotava total amizade entre o patriarca da família proprietária da "Folha" e FHC.

Não sou adepto dos que defendem o fim do jornal impresso. Acho que ele tem qualidades muito fortes, tanto que sobreviveu a todos os novos tipos de mídia até então, como o rádio e a TV. Mas, diante da internet, o jornalismo impresso se vê em xeque. Não porque deixou de ter as qualidades inerentes ao papel, tais quais a praticidade do produto e organização do conteúdo, mas porque velhos vícios estão se escancarando.

Na última campanha eleitoral, a internet foi o grande palco em que se desmascaram jornais, revistas e também a televisão, que forçaram nas manchetes para tentar interferir no resultado das urnas. A web foi um palco em que os blogs, por exemplo, democratizaram uma discussão que nunca foi democrática nos meios impressos.

Me parece, portanto, que o principal desafio dos veículos impressos não seja vencer a internet, que em muitas situações é uma grande aliada do papel. O desafio é vencer os próprios defeitos, que contaminam as folhas de jornais e revistas desde que foram inventados. Muitos donos de jornais precisam passar por uma desintoxicação severa se não quiserem afundar na idéia equivocada de que são proprietários dos fatos que divulgam.

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9.2.07

Xeque-mate!

O caso do garoto arrastado por bandidos no Rio deve estar martelando na cabeça de muitos brasileiros. Na minha, está, e por isso retomo o assunto neste "post".

A frieza desses monstros ao percorrerem 14 ruas com uma criança pendurada para fora do carro, sendo destroçada no atrito com o asfalto, é algo que não contempla qualquer lógica.

Mais ilógico ainda é saber, já no dia do crime, que o adolescente que foi preso junto aos dois outros bandidos que cometeram essa barbárie, pegará, no máximo, três anos de prisão. Depois, voltará para as ruas, onde possivelmente cometerá outros atentados à vida.

Mas não pára por aí. Mesmo que esse adolescente fosse condenado a dez ou vinte anos de cadeia, faria sua pós-graduação atrás das grades, no ócio diabólico do cárcere brasileiro. Quando saísse (certamente muito antes de cumprida a pena, por causa dos benefícios da lei que é uma mãe à bandidagem ou com as fugas tão facilitadas), ele seria muito, mas muito mais perigoso do quando entrou.

Fecha-se o ciclo. Se prender, o bicho piora. Se soltar, o bicho mata. Se matar, outros bichos surgirão na grande fábrica de criminosos instalada neste Brasil desigual, corrupto, cruel. Xeque-mate!

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8.2.07

Não tem Carnaval

No Rio de Janeiro, ladrões ordenam que mãe e filhos desçam de um carro. Arrancam com o veículo antes que um garoto consiga descer. Ele fica pendurado e é arrastado por sete quilômetros. Morre após ser literalmente "ralado" no asfalto.

Em São Paulo, mais uma vez o PCC ataca. E a polícia de todo o Estado fica em alerta, com medo de que o terror vivido meses atrás volte. Medo que se materializa nas barreiras colocadas em volta dos plantões, distritos e batalhões. Ou seja, até a polícia, que deveria nos proteger, está acuada, tentando se isolar da fúria criminal.

Estamos em guerra. E perdendo a cada nova batalha, a cada novo embate entre criminosos cada vez mais profissionais e policiais cada vez menos preparados para o problema. Vivemos uma guerra que começa no abismo que separa as mansões dos cafofos e termina nas ruas, onde todos são reféns, ou de um modelo criminoso ou do crime propriamente dito.

Vamos parar com essa balela de que o Brasil é um país pacífico, cordial e alegre! O Brasil é um país em guerra, onde facções extremamente violentas estão se organizando, estimuladas pela política corrupta que não governa, pela economia lerda que não gera oportunidades e pela desigualdade social que mata tal qual a bala.

Esqueçamos um pouco que, em fevereiro, tem Carnaval.

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6.2.07

O alcaide troglodita

Foi grotesco, para dizer o mínimo, o comportamento do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, diante de um manifestante em uma unidade de atendimento hospitalar, nesta segunda-feira. Uma atitude que não condiz com alguém que pertença à civilização, quanto menos com uma autoridade que dirige uma das maiores cidades do mundo.

O homem protestava contra as mudanças nas regras para publicidade em espaços públicos e Kassab partiu para agressão, empurrando-o e o chamando de vagabundo, aos berros. Tudo diante das câmeras de TV, para pasmo geral.

O fato é mais uma prova de que a Prefeitura de São Paulo é um picadeiro de oportunistas, um trampolim para quem quer chegar ao governo do Estado ou ao Palácio do Planalto. Kassab foi o "presente" que José Serra deixou aos paulistanos, já que, mesmo tendo assinado documento prometendo ficar até o fim do mandato, Serra não cumpriu sequer metade porque resolveu disputar o governo, que assumiu já com olhos para seu verdadeiro objetivo: subir a rampa do Planalto Central.

A cidade onde está a força econômica do Brasil merece gente mais digna em seu comando.

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4.2.07

O legado da nossa miséria

Saiu a sentença, finalmente. E a culpa é nossa, sem sombra de dúvidas. Sombra, aliás, marcará o cenário do planeta Terra nas próximas décadas, nos próximos séculos. Pobres das gerações que virão, vítimas do que nossos ancestrais fizeram e do qeu nós estamos fazendo.

O relatório divulgado na última quinta-feira pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima), órgão criado pela ONU e que congrega 600 especialistas de 40 países, é assustador. Diz ali, por exemplo, que os últimos onze anos registraram calor nunca visto em 650 mil anos. O pior ainda virá: 4ºC a mais na temperatura do planeta até o final do século.

Outra conclusão é que passou o tempo de se tentar reverter o processo. Mesmo que se parasse de emitir gases poluentes na atmosfera hoje, os desdobramentos do efeito-estufa continuariam por muitos anos. O que se pode fazer é minimizar o futuro catastrófico, mas não mais evitar a catástrofe.

Eis o preco da arrogância, da ambição e do individualismo humanos. No pouco tempo em que essa espécie habita a Terra, criou tudo quanto foi máquina para satisfazer seus desejos. Carros, aviões, naves e navios, tanques de guerra, bombas atômicas. Extrapolou os limites do supérfluo, fomentou abismos entre riqueza e pobreza, passou a tratar outras vidas como coisa a se criar em confinamento e fatiar para as prateleiras do capitalismo. O homem só não conseguiu cuidar da própria casa, essa morada azul que nos acolhe com uma beleza que cada vez mais se destrói.

A Terra nunca foi só para os humanos, apesar de essa ser uma prerrogativa até do "sagrado", o mesmo "sagrado" que se adaptou tão bem à idéia do capital. De hoje em diante, esse planeta será cada vez menos para homens e mulheres. Culpa nossa.

Melhor seguir Machado de Assis, que num personagem de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" diz: "Não tive filhos. Não deixei a nenhuma criatura o legado da nossa miséria". O legado humano é vergonhoso, para dizer o mínimo.

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2.2.07

Waaal!

Há uma década morria Paulo Francis. Figura caricata, era quase a própria notícia, protagonista dos seus comentários na TV ou em grandes jornais impressos, em que sempre se lia a expressão que era seu sinônimo: "Waaal".

Sua pena arrogante marcou época e talvez não suportasse a dialética aberta pela internet, pelos blogs e afins, em que o leitor participa não apenas criticando, mas ajudando a construir ou a desconstruir opiniões. Francis era dono da opinião, e não a dividia com ninguém.

Mas quem viveu perto dele diz que todo aquele jeito de senhor da verdade escondia uma pessoa doce. O Francis arrogante chegou a declarar certa vez que os diretores da Petrobrás tinham conta na Suíça, o que lhe gerou um processo milionário e - dizem - apressou a morte de um Francis sensível e tímido.

Eu lia Paulo Francis na "Folha" e, depois, no "Estadão", quando estava debutando como leitor do jornalismo impresso. Eram textos enormes que a fúria da vida moderna não aceita mais. Não havia nada de cor e, em vez dela, muitas letras, palavras, frases.

Não sei se Francis e seus contemporâneos do jornalismo escreviam demais ou se a sociedade está ficando mais burra com jornais de hoje que mais se parecem com baleiros, oferecendo apenas drops de textos aos seus leitores e até prometendo leitura de toda a edição em cinco minutos. Waaal!