31.1.07

Lá, cadeia. Aqui, prêmio

Enquanto nos Estados Unidos, os líderes da igreja evangélica Renascer estão presos, investigados por contrabando de dinheiro e depoimento falso à polícia, aqui no Brasil o governo acaba de os presentear com uma concessão de TV.

A portaria que benefica a Ivanov Comunicação e Participações Ltda (empresa registrada no endereço da sede da igreja) já foi publicada no "Diário Oficial", nesta semana, informa a "Folha de S.Paulo". Ou seja, além de ser a pátria da impunidade, o Brasil vai além: ainda dá prêmios a quem em países mais civilizados estão atrás das grades.

Só por Deus!

30.1.07

Dignidade zero

Grávida de nove meses e com complicações para o parto, uma garota de apenas 17 anos perambulou por 22 horas, no Rio de Janeiro, na última segunda-feira. Ela buscou atendimento em quatro hospitais. Acabou morrendo, junto com o filho, que se chamaria Ronald Júnior.

As "notas oficiais" dos hospitais soam irônicas, para dizer o mínimo. Todos dizem que prestaram o atendimento necessário à paciente. Tão necessário quanto suficiente para que a moça e o bebê morressem. E mais irônico será o desfecho, a impunidade generalizada.

Pior de tudo é que Ronald e a mãe Joana Gomes de Almeida são duas de muitas vítimas de um Brasil cruel. Um Brasil que torra mais de cem bilhões de reais por ano só para pagar juros a banqueiros e não tem tempo nem dinheiro para garantir sobrevivência a uma jovem de 17 anos que apenas precisa de um parto digno, para gerar uma vida.

Mas o país é indigno.

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28.1.07

Nossa "auto-extinção"

É tão claro quanto o Sol que o aquecimento global já causa estragos pelo planeta. E tão assustador quanto isso é o descaso dos líderes políticos quanto ao problema. Os Estados Unidos, país que mais polui e suja o meio ambiente, é exemplo maior da situação, não assinando tratados para diminuir a emissão de gases. A Europa, bem mais consciente, sinaliza que pretende ir além do Protocolo de Kyoto, mas não se sabe se haverá tempo e adesão global.

É o nosso planeta, nossa morada única, que entra em processo de ebulição, uma ameaça a todos os tipos de vida. Mas, ficamos todos imóveis, assistindo ao processo de auto-destruição e contribuindo para com ele, gastando com o luxo e o supérfluo, valorizando o momentâneo em detrimento do futuro, que é cada vez mais trágico.

A terra aquece na mesma proporção que esfriam corações e mentes humanas. Depois de destruir tantos tipos de espécie com nossa ganância sádica, estamos num curioso processo de "auto-extinção".

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25.1.07

São Paulo

Cheguei a São Paulo em 1994 para iniciar minha graduação em Jornalismo. Subi as escadarias do metrô da Paulista, cheio de malas para o primeiro dia de morada na metrópole, olhei para um lado, para outro. Não sabia ao certo se o sentido da Rebouças era o da direita ou o da esquerda, tamanho o corredor de arranha-céus simetricamente dispostos, como que me olhando e dizendo "vai, se mexe!".

Aprendi a trocar a paixão que já tinha pelo "quilombo de zumbis" cantado por Caetano pelo amor a uma cidade que pulsa frenética, infernal, e nos obriga a conhecer o que há de melhor e também de pior de um país tão desigual.Uma cidade que só não estimula seus tantos filhos ao marasmo, porque São Paulo não pára, já diz o velho jargão, e vamos todos, na metrópole, caminhando no seu compasso, no sentido da glória ou do abismo.

São Paulo é o retrato fiel da perseverança de um povo que, mesmo massacrado pela injustiça social, ainda busca crescer, e crescer para cima, no sentido dos céus arranhados pelo concreto, pelo vidro, pelo aço, aço, aço. São Paulo também é o retrato fiel de uma elite que não divide nada e cuja mesquinez ora se escancara em crateras abertas como chagas. Porque São Paulo é o retrato fiel do Brasil, que pode voar alto, mas ainda escorrega, no chão.

E do chão de São Paulo, brota esperança, regada pela garoa fina mas estrangulada pelo concreto e pelo asfalto, o asfalto que homens e mulheres pisam apressadamente, mesmo sem saber para onde ir.

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24.1.07

Liberdade de imprensa

Thomas Jefferson disse uma frase que virou marco no mundo da comunicação: "Fosse deixado a mim decidir se deveriam ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir este último". Ou seja, a liberdade de imprensa vale mais que a própria idéia do Estado.

Entretanto, há uma "segunda parte" na carta de Jefferson que é pouco divulgada e completa a idéia acima. O ex-presidente americano também disse, nos mesmos texto e parágrafo em que está a frase: "Mas insistiria em que todo homem recebesse esses jornais e os soubesse ler".

A liberdade de imprensa deve ser plena, claro que sujeita às leis em casos de calúnia, injúria, difamação, inseridas numa legislação específica no caso do Brasil. Mas também deve ser pleno o direito dos leitores, ouvintes e espectadores à consciência, pois, quando incapazes do discernimento, podem ser tão usados pela má imprensa como são pelos maus governos.

23.1.07

O buraco impresso

A cratera nas obras do metrô de São Paulo seria um prato cheio para a grande mídia mostrar que é indispensável na consolidação da democracia. Desde o tipo de licitação (que deu ao consórcio de gigantes empreiteiras a possibilidade de se auto-fiscalizar) até a execução dos serviços (que contou com economia de materiais e menos análise do solo), tudo serve como indício grave a se apurar.

Seria um prato cheio, porque boa parte da mídia, passado o sensacionalismo inicial, já lavou-se as mãos, fugindo à tarefa de servir ao interesse público. O desinteresse fica evidente no setor das revistas. Das semanais, só "CartaCapital" e "IstoÉ" dão capa ao tema. "Época", prima mais nova da Vênus Platinada dos Marinho, dedica sua capa para abordar a "felicidade", em seu sentido filosófico. "Veja", aquela que, em plena campanha eleitoral, espalhou outdoors por São Paulo com a capa de Alckmin (responsável direto pela obra), propõe-se a falar sobre a velha relação entre homens e cães. Assuntos interessantes, mas não para capa numa semana em que uma ferida de proporções obscuras se abriu na maior cidade do Brasil.

Dá para entender por que, cada vez mais, o papel vai perdendo seu papel na vida de quem quer se informar de verdade. Enquanto barões do papiro ainda se acham donos também dos fatos, o mundo virtual ferve em discussões bem mais amplas, abertas ao contraponto e à participação do leitor. E o leitor está cada vez menos tolerante com a parcialidade velada, costumeira na velha mídia tupiniquim.

O problema vai além da tecnologia. Está no conteúdo e no caráter de quem o faz.

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20.1.07

Mostra tua cara, Brasil

Simone Cassiano da Silva, que colocou a própria filha recém-nascida em um saco plástico e a jogou na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, foi condenada na tarde deste sábado a 8 anos de prisão. Pensar que ela ficará todo esse tempo detida para pagar pelo crime que cometeu poderia trazer algum conforto a todos os brasileiros que se indignaram com a atitude de Simone, mas não é bem assim.

Logo após o julgamento, o advogado da ré disse que considera a pena "altíssima", e disse também ter certeza de que, "em uns seis meses", conseguirá o regime semi-aberto para sua cliente. A pergunta de um leigo em Direito: se, dos oito anos a que foi condenada, ela cumprirá na cadeia apenas seis meses, voltando em seguida para o convívio social, para que perder tempo e dinheiro público com o julgamento?

Está na hora de o Brasil escolher o que quer: ser um país sério ou deixar de hipocrisia e assumir a "zorra total". Mudar as leis que permitem defesas infinitas a criminosos (assim como suas execuções) ou fechar todas as cadeias, soltar todos presos e deixar que o "mercado" regule tudo, como já se faz com a ecomomia. Ora, para que manter um Estado tão caro, se ele não funciona?

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18.1.07

Já chega de carroça

Já era hora de, em pleno século 21, depois de o homem já ter pisado em solo lunar, as carroças deixarem de vez o cenário urbano. Campinas saiu na frente. Um projeto de lei elaborado pelo ex-vereador e agora deputado estadual Feliciano Nahimy Filho (PV) proíbe a circulação desse tipo de transporte na cidade. A proibição entra em vigor em três meses.

O motivo é evitar os maus-tratos aos animais, muito mais comuns do que se imagina. E a argumentação para uma medida do tipo pode ser contemplada até na inviabilidade econômica das carroças.

Convenhamos: manter um animal de grande porte para utilizá-lo em carretos no meio urbano, onde cada metro quadrado é cada vez mais disputado, chega a ser mais caro que ter uma Kombi velha. A menos que o animal seja mantido em cubículo, sem alimentação adequada e com horas excessivas de trabalho, o que é crime e deve ser combatido pela sociedade.

Animais são vidas dignas de respeito e mesmo os que parecem ser fortalezas sobre patas sentem dor e medo. Olhemos à nossa volta e percebamos o quanto se empilha peso em carroças a que os pobres bichos são amarrados, o quanto se açoitam esses seres indefesos. O ser humano não precisa sobreviver disso.

Quem tiver coragem, acesse o link abaixo para conhecer um pouco sobre a vida e a morte dos animais de tração:
http://www2.uol.com.br/focinhos/especiais/04_04_12_animais_charrete.shtml

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17.1.07

Cratera cardíaca

"Será que os indivíduos que contratam obras por mínimo custo global usam o mesmo critério para escolher os cirurgiões que tratarão suas mazelas cardíacas?". A pergunta é do vice-presidente da ISSMGE (Sociedade Internacional de Mecânica de Solos e Engenharia Geotécnica) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Waldemar Hachich, ao falar, nesta terça-feira, sobre o acidente ocorrido na linha 4 do metrô paulistano.

A resposta que este humilde blogueiro sugere é a seguinte: o que os olhos dos pobres cidadãos pagadores de impostos não vêem, os corações desses mesmos pobres cidadãos pagadores de impostos não sentem. Até que tudo desabe, claro, porque aí fica difícil de esconder as mazelas administrativas dos governos ao negociarem com empresas privadas. E até os barões da mídia noticiam, muitos deles excitados com as vendas que o assunto gera nas bancas.

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15.1.07

São Pedro é o culpado

Já está encontrado o culpado pelo desabamento nas obras da linha 4 do metrô paulistano: São Pedro, aquele que controla a torneira de chuvas que caem sobre nós e cuja imagem se reproduz ao lado.

Não é brincadeira, leitor. É o que a empreiteira responsável pelo serviço diz. Segundo a empresa, a chuva foi a causadora do desastre que pode ter soterrado sete pessoas. Considerando que, desde crianças, aprendemos que o responsável pela chuva é São Pedro, a culpa então é dele.

O que é brincadeira, na verdade, é uma empreiteira não se preparar para chuvas em janeiro, mês das águas. Brincadeira é a obra ser tocada a todo vapor mesmo com moradores próximos apontando rachaduras em suas casas. Brincadeira é a seqüência de acidentes que a perfuração subterrânea da linha 4 já acarretou.

E a pior brincadeira ainda está por vir: a impunidade generalizada, tanto para empresas ligadas ao caso como, principalmente, para o governo do Estado de São Paulo - responsável direto pelas obras do metrô.

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14.1.07

A mídia a ver aviões

As contradições que começam a aparecer depois da tragédia nas obras do metrô paulistano expõem não somente possíveis erros por parte de governos e empreiteiras. Os erros passam também pelas folhas da própria mídia.

Vejamos por que. Não é o primeiro acidente ocorrido na perfuração do subsolo para a linha 4 do metrô. Um sobrado chegou a cair no ano passado. E uma carta escrita, em setembro passado, por moradores próximos às obras, dava conta de que suas casas apresentavam rachaduras. Ou seja, uma denúncia séria de que poderia haver problemas.

Apesar disso, jornais, TVs, rádios e revistas estavam, na época, muito mais preocupados com o caos aéreo, numa cobertura que, quanto mais repetitiva ficava, menos informava.

Claro que nenhuma redação tem bola de cristal para adivinhar as "bombas" a estamparem manchetes, mas havia indícios para uma investigação jornalística nas obras do metrô, que nenhum veículo de comunicação se dispôs a fazer.

Fossem mandados para investigar a obra do metrô alguns dos tantos repórteres pautados para ver aviões em aeroportos, certamente alguma matéria poderia antecipar o problema que culminou na cratera de 80 metros de diâmetro, onde se estima haver soterrados sete seres humanos.

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13.1.07

Havia risco ou não?

Um dos engenheiros responsáveis pelas obras da linha 4 do metrô de São Paulo dizia na TV, horas depois do acidente de sexta-feira, que a monstruosa cratera que se formou, engolindo carros como se fossem de brinquedo, é um risco constante em obras do tipo. Mais: disse que o ideal seria a metrópole ter pensado em abrir seus túneis de metrô no século passado e não agora, quando a realidade acima do subsolo é de muita gente e muita vibração.

Independente do que seria ideal, acontece que, segundo informam sites neste sábado, moradores próximos à obra chegaram enviar uma carta à empreiteira reponsável pelos serviços avisando, em setembro passado, que havia rachaduras em imóveis ao redor. A resposta da empresa, em novembro, foi enfática: não havia nenhum (foi usada a palavra "nenhum") risco de desabamento.

Ora, havia risco "como sempre há em obras do tipo", segundo a explicação posterior à tragédia, ou não havia "risco nenhum", segundo a explicação dada antes de um buraco de 80 metros de diâmetro se formar? Essa é apenas uma das interrogações que esse caso inspira.

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12.1.07

Dinheiro na Bíblia

"Bispo" e "bispa" badalados do meio evangélico são presos nos Estados Unidos escondendo dinheiro até na Bíblia, o livro inspirador dos que não apenas escondem dinheiro nele, mas dele fazem brotar notas e mais notas.

Ora, se tudo é vendável no mundo de hoje, por que a idéia de Deus também não pode ser? Um tipo de deus que se compra em templos, com dízimos e mais dízimos pagos até com boletos bancários ou débito automático. Um deus que, bastando quitar a fatura, realiza, fácil, fácil, tudo o que o comprador deseja.

Se antes o dinheiro era coisa do capeta (esse grande aliado das religiões que, graças à invocação de seu nome, seguram os fiéis nos templos), agora é o mais puro sinônimo de divindade. A fórmula é tentadora se não há o senso crítico: ore um pouco, pague muito e receba a "graça", traduzida em enorme progresso financeiro, carros do ano, casas belíssimas etc.

E ai daquele que achar que isso é coisa de religioso charlatão e aproveitador! Sai, capeta! Então, ora-se mais e paga-se muito mais para se proteger desses críticos demonizados que tentam acabar com a "liberdade religosa".

Resultado: a "liberdade" é tanta que falta até lugar para guardar dinheiro. Apela-se até à própria Bíblia.

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11.1.07

Tiros pela paz

George Walker Bush tem tudo para ficar marcado para a história da humanidade como o mais monstruoso entre os patéticos. Ou, serve o "vice-versa": o mais patético entre os monstruosos seres que se meteram não apenas a líderes de grande nações, mas também a senhores de todo o globo terrestre.

Nesta noite de quarta-feira, Bush Júnior anunciou sua "nova" estratégia para "pacificar" o Iraque: mandar mais 21.500 soldados para lá. Sim, soldados, com armas, com munições, com equipamentos cheios de pólvora, tudo para "pacificar" o país que ninguém menos que o próprio Bush transformou em um inferno em chamas.

No anúncio de sua magnífica idéia, W.Bush chegou a admitir erros no que seu governo vem fazendo até então com o Iraque. Erros que culminaram, só no ano passado, em 23 mil seres humanos mortos naquele país. Erros como enforcar quase em praça pública o ex-ditador Saddam Hussein, fazendo de um outro monstro um mártir em meio ao barril de pólvora que se eterniza no Oriente Médio.

São erros inadmissíveis. Como o próprio comandante-em-chefe da maior potência bélica do mundo. Pobre mundo.

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10.1.07

Big Brother do asfalto

Os radares, aparelhos que em muitas cidades apenas servem para pegadinhas tipo “papa-multa”, custarão no mínimo R$ 341 mil ao ano em Americana.

Uma pergunta aguça: essa é a única saída para um trânsito melhor? Com R$ 341 mil por ano, não seriam possíveis outros tipos de investimentos visando a conscientização dos motoristas, como a presença de fiscais humanos e não eletrônicos, multando quando necessário mas também orientando sobre como se deve proceder?

Mais que isso: com esse dinheiro, não seria possível investimentos em obras mais que necessárias para minimizar o caos que já se faz presente no estrangulado trânsito de Americana?

Radar virou moda em tempos de Big Brother, em que você é convidado a sorrir (naquelas plaquinhas irônicas) porque está sendo filmado. E, pior: está pagando para isso. Seja em imposto, seja em multa.

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9.1.07

Que país é esse?

Após infringir a lei ao atentar contra o pudor numa transa com o namorado em uma praia pública, a bela e famosa Daniela Cicarelli ganhou na Justiça e conseguiu bloquear o YouTube.

Após matar a ex-namorada com dois tiros, o influente Pimenta Neves consegiu uma inédita decisão que o deixasse solto mesmo após condenado.

Após matar o líder ambientalista Chico Mendes, os irmãos Darci e Darly, capachos do latifúndio que ainda assola o Brasil, continuam soltos, apesar de também condenados.

Após fazer seis edições, a Rede Globo começa hoje mais um o Big Brother Brasil. E todos, ou quase todos, não terão outro assunto até que se defina o vencedor.

Como já perguntou Renato Russo, que país é esse?

8.1.07

Números mortais

Quase 23 mil morreram no ano passado no Iraque, informam agências de notícias internacionais nesta segunda-feira. São 23 mil vidas ceifadas pelo caos instalado no país durante a invasão das tropas militares de George Walker Bush.

A matemática fica intrigante quando lembramos que Saddam Hussein, o ex-ditador sanguinário do Oriente Médio, o demônio contra a paz mundial, foi condenado à forca (e executado rapidamente) por ter matado pouco mais de cem vidas.

A pergunta é: se a "justiça" é para todos, quando será o julgamento do sanguinário que causou a morte desses 23 mil?

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7.1.07

Chico Mendes, para sempre

É uma pena que na telinha da TV e muitas vezes até na telona do cinema, fatos que nunca deveriam sair da memória de um povo acabam sendo romantizados ao extremo. O naufrágio do Titanic, símbolo do limite da ganância do homem-níquel, foi açucarado e resumido demais em Rose e Jack na grandiosa produção de James Cameron. O mesmo está acontecendo, até o momento, com "Amazônia".

A saga a que Glória Perez (que fez "América", aquela lástima) se incumbiu de levar à tela global aborda um marco na história do Brasil, um assassinato que levantou o tema da preservação da floresta amazônica e da necessidade de se preocupar com o meio ambiente para se planejar qualquer tipo de desenvolvimento econômico.

Chico Mendes era precursor dessa preocupação num Brasil muito pior que hoje em se tratando de desmatamento. Se no século 21 ainda carecemos de condutas que respeitem a natureza, imagine-se em 1988, quando ele foi morto covardemente por dois monstros que, pasmem, estão livres (apesar de condenados), no solo da terra sem lei.

De qualquer forma, o fato de o tema ser levado ao ar na poderosa Vênus Platinada levanta a possibilidade de se conhecer a fundo o legado desse grande líder, desse grande homem, que pagou com a vida o sonho de um mundo melhor, para todos. Que Chico Mendes seja imortal em nossas memórias, exemplo para nossas condutas.

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6.1.07

O show da vida

Um dos grandes professores que tive nos tempos de graduação na Cásper Líbero, Clóvis de Barros (autor de "A Ética na Comunicação"), adorava citar em suas aulas a "Hipótese da Agenda Setting", que era mais ou menos assim: a mídia dita a agenda a ser discutida pela sociedade. Exemplo: se o "Fantástico" bombardeia determinado assunto no domingo, aquele assunto será pauta de discussões das pessoas durante a semana.

Lembrei-me do professor Clóvis porque estamos às vésperas de mais um Big Brother. E, pelo menos nos seis BBBs anteriores, muita, mas muita coisa girou em torno desse circo chamado de "reality show", que está muito mais para um desfile de modelos escolhidos a dedo para serem assimilados pela grande "massa" do que para realidade da vida.

Não parece que este será diferente. Até porque, antes mesmo antes de começar o show, a discussão sobre o assunto ferve: matérias e mais matérias em tudo quanto é publicação sobre os participantes e todas as novidades do BBB7.

Está começando de novo aquele transe que faz lembrar "O Show de Trumman". Será que, desta vez, a internet que tanto serviu de guardiã da democracia nas últimas eleições, servirá como uma luz no fim do túnel?

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4.1.07

O caos.com

Diz a lei que transar em local público é atentado ao pudor e quem o fizer pode até ser preso. Mas, no caso de Daniela Cicarelli, quem está sendo punido é o YouTube, por abrigar vídeo contendo cenas quentes da apresentadora da MTV e um suposto namorado, numa praia pública. A Justiça quer simplesmente tirar o site do ar no Brasil.

E aí entramos em uma outra praia interessante. Porque ninguém sabe como tirar o vídeo ou o próprio site do ar, nem quem deverá ser responsabilizado. Seria quem colocou o vídeo no YouTube? Mas, já que qualquer cidadão pode fazer isso, quem colocou? Seria a "empresa" YouTube? Mas, quem responde mesmo por ela no Brasil? O Google? Mas o Google daqui diz que não, alega que é a matriz, nos EUA.

Eis mais uma prova de que a internet veio para mudar tudo, não apenas os meios tradicionais de comunicação, mas toda a sociedade, seus costumes, suas tradições, suas leis. A rede mundial está instaurando um interessante caos em escala global que abriga, em muito, abusos absurdos, lixos horrendos. Mas também abre portas para a tão sonhada democratização da informação.

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3.1.07

Viva a impunidade!

O jornalista Antônio Marcos Pimenta Neves, ex-diretor de Redação do jornal "O Estado de S.Paulo", vai continuar solto. Mesmo tendo sido condenado, em júri popular, a mais de 18 anos de prisão.

Assim deseja o STJ (Superior Tribunal de Justiça), que negou pedido de reconsideração de liminar que já mantinha o jornalista solto.

Pimenta Neves matou a ex-namorada Sandra Gomide com dois tiros em 20 de agosto de 2000, em Ibiúna-SP. Confessou o crime, antes de ser levado à júri e receber a condenação. Ou seja, é um criminoso, homicida, como qualquer outro.

Apesar disso -e dos mais de sete anos passados desde o assassinato-, o jornalista ficou preso apenas por sete meses. Sete meses! E continua a gozar da leniência da justiça brasileira para com os ricos, que podem pagar bons advogados e permanecer acima do bem, do mal e do crime.

Não tem futuro um país onde pobre leva bala apenas por ser suspeito. E rico não é preso nem quando condenado.

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A lei e o abismo

O presidente Lula tocou num ponto crucial da discutissão sobre a violência no Rio, em São Paulo e no Brasil, na tarde desta terça-feira. Ele admitiu que é preciso mexer na legislação. "Você não pode tratar como crime comum gestos como aqueles que vimos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Isso é anormal", disse o presidente.

Não consigo enxergar nenhum crime como "normal", seja o furto de um objeto de outrém, seja um homicídio brutal. Todos, em graus diferentes, são inaceitáveis. Mas, independente disso, é fato que a lei brasileira é leniente com o crime. Pior que isso: vivemos num País cujo sistema judiciário perpetua a desigualdade social, quando mantém ladrão pobre apodrecendo na cadeia e presenteia tipos como Pimenta Neves com liberdade pós-condenação (uma aberração, para dizer o mínimo).

Precisa-se mexer na lei porque boa parte dela foi feita ecoando as detenções cheias de presos políticos, vítimas de um Estado repressor, que clamavam por uma legislação que lhes dessem direitos e mais direitos de defesa (afinal, seus "crimes" eram apenas pensar diferente dos milicos que estavam no poder). Hoje, a situação mudou: há nos presídios seres monstruosos, frutos também da sociedade injusta, sim, mas monstruosos, irrecuperáveis, frios e perigosos.

Entretanto, mexer na lei não basta se o Brasil continuar a ser um País onde a elite política e econômica é tão perversa quanto os monstros que, de dentro das cadeias, mandam matar com requintes de crueldade. Essa elite não usa coquetéis molotovs, mas desvia dinheiro de ambulâncias enquanto se morre em fila de hospital; desvia verba de merenda enquanto se morre por falta de comida; lucra de forma exorbitante até sobre quem sequer tem condições de subsistência.

Não só a lei precisa mudar. Os brasileiros que estão no topo da pirâmide do poder também precisam entender que vivem em sociedade. Por um simples motivo: se a base explodir como vem acontecendo, todos cairão no abismo da barbárie.

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2.1.07

Plano de carreira

A grande maioria dos telejornais noturnos desta segunda-feira destacou, em tom elogioso, o discurso de posse do governador José Serra. Nenhum veículo viu com olhos críticos um detalhe interessante: diferente dos outros governadores, Serra assumiu um Estado falando do País.

O mais curioso é que não é a primeira vez que ele faz algo do tipo. Quando assumiu a Prefeitura da maior cidade brasileira -após ter assinado documento se comprometendo a cumprir todo o mandato-, estava, na verdade, pensando num trampolim para as eleições ao governo do Estado. E deixou o vice como prêmio de consolação aos eleitores paulistanos.

Agora governador, Serra dá sinais de que o que quer, mesmo, é o Planalto. Um caso que não é isolado (mas generalizado) na política brasileira e explica em parte o desastre administrativo do poder público: cada vez mais, morre o ideal dos homens públicos para, em seu lugar, triunfar a aspiração por se fazer carreira, buscando sempre o melhor cargo, o que possibilita mais poder, mais prestígio. É a política "business".

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