31.12.06

Receita de ano novo

Carlos Drummond de Andrade foi um grande conhecedor da alma humana, a qual traduziu em palavras marcantes. Palavras que não apenas definem, mas convidam à reflexão e, mais que isso, à ação. Fechemos o ano com um trecho de seu poema "Receita de ano novo". E tchau, 2006! Que venha um novo ano junto com o ano novo.

"Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre."
Carlos Drummond de Andrade

Horror News

Uma placa gigante de gelo se desprendeu do Canadá, no pólo norte, fenômeno que os cientistas chamam de "assustador". Mais um sinal do aquecimento global em proporções muito além do que se imaginava. E, de novo, tal qual a ilha que foi engolida pelo mar na Índia, a mídia noticiou em notas de rodapé, como se fosse algo banal, apenas para registro.

Gelo deve ser também o que reina na consciência de barões da mídia e seus capachos. Só que não o gelo que é água em estado sólido, mas o gelo da insensibilidade pela vida. A forma mórbida como se noticiam em vídeos ou seqüência de fotos o enforcamento de Saddam Hussein mostra que se quer ir além da notícia. Quer-se, sim, o espetáculo. O espetáculo da morte, o espetáculo do horror.

Então, o horror se multiplica em escala global, num ciclo vicioso alimentado também pelos meios de comunicação, que aceitam o papel de reféns da audiência, reféns do consumismo, e se negam a discutir valores. Ora, valores não dão ibope. Então, o mundo que se arda...

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30.12.06

Bush cria um mártir

Saddam Hussein está enforcado, diz TV estatal árabe. Ironicamente, seu enforcamento aconteceu antes de se iniciar uma data religiosa no Iraque que proíbe sacrifícios (ora, ora...).

Bush júnior termina, portanto, o serviço iniciado por Bush pai. A família que já foi grande aliada de Osama Bin Laden e do próprio Saddam (este na guerra Irã-Iraque) agora elimina de vez o que se transformou numa pedra no sapato da fúria imperialista norte-americana.

Saddam foi um monstro, diga-se. Não fará falta a ninguém. Mas sua morte é uma piada de mau-gosto. Primeiro, porque, se se colocar na balança das almas quem matou mais, a família Bush já deveria ter sido enforcada há tempo, pai e filho.

Segundo, porque fica ainda mais evidente a total inabilidade de Bush júnior à frente do império puritano da América do Norte. Ele tomou um baile de Bin Laden, foi responsável por uma invasão desastrosa do Iraque e agora acaba de criar um mártir para muitos no Oriente Médio.

Bush está se tornando um Nero do mundo moderno, botando fogo não só no mundo, mas no seu próprio país, cada vez mais odiado em todo o globo terrestre.

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29.12.06

É sério, Rosinha

Rosinha Garotinho, que está quase saindo de cena após quatro anos desastrosos à frente do governo do Rio, poderia ter ficado quieta bem no dia em que a "cidade maravilhosa" foi alvejada pelo crime organizado. Mas, não ficou. E soltou um escárnio não apenas aos cariocas e fluminenses, mas a todos os brasileiros.

Logo depois da morte de 18 pessoas (sete delas carbonizadas em um ônibus incendiado por bandidos), disse a "lady" Garotinho que os criminosos não conseguiram reeditar o que aconteceu em São Paulo com o PCC, porque seu "competente" governo tratou de se preparar para os ataques.

Só pode ser uma piada de mau gosto a tentativa de, até na desgraça, utilizar-se da velha rivalidade entre São Paulo e Rio para tentar tirar algum proveito político. Primeiro, porque tanto os ataques do PCC em São Paulo como estes que acontecem no Rio são nefastos à sociedade. Segundo, porque não se trata de comparar números, mas entender que vidas inocentes estão se perdendo numa guerra inaceitável, agora no Rio, pouco antes em São Paulo. E terceiro porque nem se sabe ainda até quando vai a ação criminosa no Estado governado por ela para permitir uma -ridícula- comparação numérica (estamos às vésperas da festa do Réveillon na orla de Copacabana!).

Cariocas e paulistas são vítimas iguais da organização dos criminosos. Também vítimas iguais da incompetência demagoga de políticos que permitiram que a situação chegasse a este grau insuportável de violência. Políticos que permitiram no passado, políticos que estão perpetuando, hoje, o domínio do crime sobre o Estado.

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28.12.06

Uma ilha já foi

Deveria ser um o assunto mais estrondoso do dia na mídia mundial: uma ilha, que já foi habitada, foi engolida pelo oceano na Índia. E não por motivo que envolva apenas aquela localidade, mas fatores que põem o mundo em xeque-mate: é o primeiro de muitos espaços de terra a serem engolidos pelo aquecimento global causado pela emissão de poluentes e que faz o nível dos oceanos subir há vários anos.

Mas, curiosamente, o caso mereceu rodapés pelos jornais, naquele tom de "mais uma notícia sobre o que já se sabe, mas pouco sensibiliza". O caos nos aeroportos, um problema que atinge uma minoria de brasileiros, merece mais (e cansativo) destaque do que uma estrondorosa resposta da natureza a todos os seres humanos, a todo o modelo capitalista explorador que faz dos recursos naturais produtos a serem vendidos em prateleiras.

O apocalipse ambiental já se faz presente entre nós e muitos dos efeitos nefastos dele essa geração já sente e sentirá ainda mais antes de partir desta esfera ainda azul (as próximas gerações, pobres delas...). Apesar disso, os vícios do homem-níquel só pioram: as empresas cada vez mais pensam apenas no lucro momentâneio, as pessoas cada vez mais pensam apenas em si mesmas.

A escolha está feita: a maioria da humanidade quer mesmo ver a Terra pegar fogo. E não vai demorar para isso acontecer. Tenho pena da minoria dos humanos ecologicamente corretos e, mais ainda, dos animais ditos "irracionais" que, a despeito de não saberem construir máquinas, não sabem nem querem destruir a própria casa.

Todos à forca, então

Saddam Hussein vai à forca nos próximos dias por crimes contra a humanidade. Para a Casa Branca e boa parte dos americanos, está-se fazendo justiça. Para boa parte do mundo, Saddam era mesmo um monstro e merece a sentença.

Mas há muito mais mistério entre o poder e o povo do que pode imaginar o senso comum. Se Saddam praticou crimes contra a humanidade matando seus adversários dentro do Iraque, o que dizer de George W. Bush, que simplesmente transformou o Iraque todo em um inferno após jogar bombas e mais bombas ali, para estimular a indústria bélica americana e tomar para si poços de petróleo? O que dizer de civis inocentes serem destroçados pelo arsenal americano? O que dizer do argumento que Bush usuou para a invasão, as tais armas químicas que nunca existiram?

Façamos um exercício histórico e lembremos quantas vezes o governo americano praticou crimes contra a humanidade, inventando guerras apenas para expandir seu império dominador. Ou, no caso do Iraque, simplesmente para fingir que está vingando o 11 de Setembro, cujo autor continua impune graças às trapaças incalculáveis do governo Walker Bush.

Saddam pode até merecer a forca, na visão dos defensores da pena de morte, porque realmente foi um monstro para muitos iraquianos. Mas seria preciso ressuscitar presidentes americanos e enforcá-los - além de enforcar Bush antes do próprio Saddam - para se dizer que se está fazendo justiça com a humanidade. Porque, mais que montros contra iraquianos, os EUA são uma fábrica de monstros contra o mundo.

26.12.06

Superficialidade cansativa

Desde a semana que antecedeu o Natal, o assunto que dominou os altos das capas dos jornais impressos e os destaques nas escaladas televisivas foi o caos aéreo. E o pior: a forma de cobertura era tão repetitiva quanto os títulos.

Nos impressos, o bate-rebate entre governo e empresas aéreas e o desconforto dos passageiros. Na "dinâmica" Globo, além disso os links ao vivo dos principais aeroportos do País. Dia após dia, nada de novo.

Nenhum veículo de comunicação conseguiu ir além de uma insistente e cansativa superficialidade. Nenhum investigou e expôs aos leitores e espectadores motivos dessa situação horrenda. Praticou-se a velha fórmula da imprensa "moderna": o fato momentâneo sem contextualização, um lado, outro lado.

E um País onde uma pequeníssima parcela da população utiliza avião quase não teve outra opção informativa além da situação dos aeroportos, cujos fatores ninguém (nem governo ou empresas, tampouco mídia) explica. Dá para entender em parte porque tanta gente deixa de ler...

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24.12.06

É a mensagem

Há quem diga que não foi num 25 de dezembro, tampouco da forma como se conta nos púlpitos.

Há quem seja reticente com sua mãe, que para uns é santa, para outros "apenas" mãe (como se gerar um vida já não fosse, por si só, sublime).

Há quem diga que há muita coisa além do que foi compilado, que estaria na sua mensagem ao mundo.

Mas, em todo o mistério, há um fato inegável. Aliás, um desafio soberbo, lançado pelo menino dos presépios natalinos, mestre ou santo, mortal revolucionário ou ressuscitado: "Amai-vos uns aos outros".

Um desafio que transcende dogmas e está, há dois milênios, nos convidando a uma vida melhor.

Um Natal -e principalmente um pós-Natal- de tolerância, respeito a todas as diferenças, solidariedade, honestidade em tudo, consciência em todos os atos, paz e amor, estimados co-autores deste blog.

(imagem: reprodução parcial da obra "A Criação do Homem", de Michelangelo)

23.12.06

A vênus desnuda

Abaixo, está uma (longa e interessante) carta que o jornalista Rodrigo Vianna passou via e-mail aos seus colegas de Rede Globo ao se demitir da emissora. É uma revelação testemunhal das distorções feitas pela vênus platinada - escandalosas nas últimas eleições. É também uma reflexão sobre as muitas distorções que separam veículos de comunicação do verdadeiro jornalismo -e, por conseqüência, dos seres humanos que lêem, ouvem ou assistem. Vianna sai da Globo e entra para o seleto grupo dos jornalistas que ainda acreditam no jornalismo e não se sujeitam ao modelo torpe que vem pegando moda na imprensa "moderna".


"Quando cheguei à TV Globo, em 1995, eu tinha mais cabelo, mais esperança, e também mais ilusões. Perdi boa parte do primeiro e das últimas. A esperança diminuiu, mas sobrevive. Esperança de fazer jornalismo que sirva pra transformar - ainda que de forma modesta e pontual. Infelizmente, está difícil continuar cumprindo esse compromisso aqui na Globo. Por isso, estou indo embora.

Quando entrei na TV Globo, os amigos, os antigos colegas de Faculdade, diziam: 'você não vai agüentar nem um ano naquela TV que manipula eleições, fatos, cérebros'. Agüentei doze anos. E vou dizer: costumava contar a meus amigos que na Globo fazíamos - sim - bom jornalismo. Havia, ao menos, um esforço nessa direção.

Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: 'olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás'.

Isso não era só um discurso. Acompanhei de perto a chegada de Evandro Carlos de Andrade ao comando da TV, e a tentativa dele de profissionalizar nosso trabalho. Jornalismo comunitário, cobertura política - da qual participei de 98 a 2006. Matérias didáticas sobre o voto, sobre a democracia. Cobertura factual das eleições, debates. Pode parecer bobagem, mas tive orgulho de participar desse momento de virada no Jornalismo da Globo.

Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu. Pode ser que algum chefe queira fazer abaixo-assinado para provar que não aconteceu. Mas, é ruim, hem!

Intervenção minuciosa em nossos textos, trocas de palavras a mando de chefes, entrevistas de candidatos (gravadas na rua) escolhidas a dedo, à distância, por um personagem quase mítico que paira sobre a Redação: 'o fulano (e vocês sabem de quem estou falando) quer esse trecho; o fulano quer que mude essa palavra no texto'.

Tudo isso aconteceu. E nem foi o pior.

Na reta final do primeiro turno, os 'aloprados do PT' aprontaram; e aloprados na chefia do jornalismo global botaram por terra anos de esforço para construir um novo tipo de trabalho aqui. Ao lado de um grupo de colegas, entrei na sala de nosso chefe em São Paulo, no dia 18 de setembro, para reclamar da cobertura e pedir equilíbrio nas matérias: 'por que não vamos repercutir a matéria da Istoé, mostrando que a gênese dos sanguessugas ocorreu sob os tucanos? Por que não vamos a Piracicaba, contar quem é Abel Pereira?' Por que isso, por que aquilo... Nenhuma resposta convincente. E uma cobertura desastrosa. Será que acharam que ninguém ia perceber?

Quando, no JN, chamavam Gedimar e Valdebran de 'petistas' e, ao mesmo tempo, falavam de Abel Pereira como empresário ligado a um ex-ministro do 'governo anterior', acharam que ninguém ia achar estranho?

Faltando seis dias para o primeiro turno, o 'petista' Humberto Costa foi indiciado pela PF. No caso dos vampiros. O fato foi parar em manchete no JN, e isso era normal. O anormal é que, no mesmo dia, esconderam o nome de Platão, ex-assessor do ministério na época de Serra/Barjas Negri. Os chefes sabiam da existência de Platão, pediram a produtores pra checar tudo sobre ele, mas preferiram não dar. Que jornalismo é esse, que poupa e defende Platão, mas detesta Freud! Deve haver uma explicação psicanalítica para jornalismo tão seletivo!

Ah, sim, Freud. Elio Gaspari chegou a pedir desculpas em nome dos jornalistas ao tal Freud Godoy. O cara pode ter muitos pecados. Mas, o que fizemos na véspera da eleição foi incrível: matéria mostrando as 'suspeitas', e apontando o dedo para a sala onde ele trabalhava, bem próximo à sala do presidente... A mensagem era clara. Mas, quando a PF concluiu que não havia nada contra ele, o principal telejornal da Globo silenciou antes da eleição.

Não vi matérias mostrando as conexões de Platão com Serra, com os tucanos. Também não vi (antes do primeiro turno) reportagens mostrando quem era Abel Pereira, quem era Barjas Negri, e quais eram as conexões deles com PSDB. Mas vi várias matérias ressaltando os personagens petistas do escândalo. E, vejam: ninguém na Redação queria poupar os petistas (eu cobri durante meses o caso Santo André; eram matérias desfavoráveis a Lula e ao PT, nunca achei que não devêssemos fazer; seria o fim da picada...).

O que pedíamos era isonomia. Durante duas semanas, às vésperas do primeiro turno, a Globo de São Paulo designou dois repórteres para acompanhar o caso dossiê: um em São Paulo, outro em Cuiabá. Mas, nada de Piracicaba, nada de Barjas.!

Um colega nosso chegou a produzir, de forma precária, por telefone (vejam, bem, por telefone! Uma TV como a Globo fazer reportagem por telefone), reportagem com perfil do Abel. Foi editada, gerada para o Rio. Nunca foi ao ar!

Os telespectadores da Globo nunca viram Serra e os tucanos entregando ambulâncias cercados pelos deputados sanguessugas. Era o que estava na tal fita do 'dossiê'. Outras TVs mostraram o vídeo, a internet mostrou. A Globo, não. Provava alguma coisa contra Serra? Não. Ele não era obrigado a saber das falcatruas de deputados do baixo clero. Mas, por que demos o gabinete de Freud pertinho de Lula, e não demos Serra com sanguessugas?

E o caso gravíssimo das perguntas para o Serra? Ouvi, de pelo menos 3 pessoas diretamente envolvidas com o SP-TV Segunda Edição, que as perguntas para o Serra, na entrevista ao vivo no jornal, às vésperas do primeiro turno, foram rigorosamente selecionadas. Aquele diretor (aquele, vocês sabem quem) teria mandado cortar todas as perguntas 'desagradáveis'. A equipe do jornal ficou atônita. Entrevistas com os outros candidatos tinham sido duras, feitas com liberdade. Com o Serra, teria havido, deliberadamente, a intenção de amaciar. E isso era um segredo de polichinelo. Muita gente ouviu essa história pelos corredores...

E as fotos da grana dos aloprados? Tínhamos que publicar? Claro. Mas, porque não demos a história completa? Os colegas que estavam na PF naquele dia (15 de setembro), tinham a gravação, mostrando as circunstâncias em que o delegado vazara as fotos. Justiça seja feita: sei que eles (repórter e produtor) queriam dar a matéria completa - as fotos, e as circunstâncias do vazamento. Podiam até proteger a fonte, mas escancarando o que são os bastidores de uma campanha no Brasil. Isso seria fazer jornalismo, expor as entranhas do poder. Mais uma vez, fomos seletivos: as fotos mostradas com estardalhaço. A fita do delegado, essa sumiu!

Aquele diretor, aquele que controla cada palavra dos textos de política, disse que só tomou conhecimento do conteúdo da fita no dia seguinte. Quer que a gente acredite? Por que nunca mostraram o conteúdo da fita do delegado no JN? O JN levou um furo, foi isso? Um colega nosso, aqui da Globo ouviu a fita e botou no site pessoal dele... Mas, a Globo não pôs no ar... O portal "G-1" botou na íntegra a fita do delegado, dias depois de a CartaCapital ter dado o caso. Era noticia? Para o portal das Organizações Globo, era. Por que o JN não deu no dia 29 de setembro? Levou um furo? Não. Furada foi a cobertura da eleição. Infelizmente.

E, pra terminar, aquele episódio lamentável do abaixo-assinado, depois das matérias da CartaCapital. Respeito os colegas que assinaram. Alguns assinaram por medo, outros por convicção. Mas, o fato é que foi um abaixo-assinado em defesa da Globo, apresentado por chefes! Pensem bem. Imaginem a seguinte hipótese: a revista Quatro Rodas dá >matéria falando mal da suspensão de um carro da Volkswagen, acusando a empresa de deliberadamente não tomar conhecimento dos problemas. Aí, como resposta, os diretores da Volks têm a brilhante idéia de pedir aos metalúrgicos pra assinar um manifesto em defesa da empresa! O que vocês acham? Os metalúrgicos mandariam a direção da fábrica catar coquinho em Berlim! Aqui, na Globo, muitos preferiram assinar. Por isso, talvez, tenhamos um metalúrgico na Presidência da República, enquanto os jornalistas ficaram falando sozinhos nessa eleição...

De resto, está difícil continuar fazendo jornalismo numa emissora que obriga repórteres a chamarem negros de 'pretos e pardos'. Vocês já viram isso no ar? Sinto vergonha...A justificativa: IBGE (e, portanto, o Estado brasileiro) usa essa nomenclatura. Problema do IBGE. Eu me recuso a entrar nessa. Delegados de policia (representantes do Estado) costumavam (até bem pouco tempo) tratar companheiras (mesmo em relações estáveis) como 'concubinas' ou 'amásias'. Nunca usamos esses termos! Árabes que chegaram ao Brasil no início do século passado eram chamados de 'turcos' pelas autoridades (o passaporte era do Império Turco Otomano, por isso a nomenclatura). Por causa disso, jornalistas deviam chamar libaneses de turcos? Daqui a pouco, a Globo vai pedir para que chamemos a Parada Gay de "Parada dos Pederastas". Francamente, não tenho mais estômago. Mas, também, o que esperar de uma Redação que é dirigida por alguém que defende a cobertura feita pela Globo na época das Diretas?

Respeito a imensa maioria dos colegas que ficam aqui. Tenho certeza que vão continuar se esforçando pra fazer bom Jornalismo. Não será fácil a tarefa de vocês. Olhem no ar. Ouçam os comentaristas. As poucas vozes dissonantes sumiram. Franklin Martins foi afastado. Do Bom dia Brasil ao JG, temos um desfile de gente que está do mesmo lado. Mas sabem o que me deixou preocupado mesmo? O texto do João Roberto Marinho depois das eleições. Ele comemorou a reação (dando a entender que foi absolutamente espontânea; será que disseram isso pra ele? Será que não contaram a ele do mal-estar na Redação de São Paulo?) de jornalistas em defesa da cobertura da Globo: '(...)diante de calúnias e infâmias, reagem, não com dúvidas ou incertezas, mas com repúdio e indignação. Chamo isso de lealdade e confiança'.

Entendi. Ele comemora que não haja dúvidas e incertezas... Faz sentido. Incerteza atrapalha fechamento de jornal. Incerteza e dúvida são palavras terríveis. Devem ser banidas. Como qualquer um que diga que há racismo - sim - no Brasil. E vejam o vocabulário: 'lealdade e confiança'. Organizações ainda hoje bem populares na Itália costumam usar esse jargão da 'lealdade'.

Caro João, você talvez nem saiba direito quem eu sou. Mas, gostaria de dizer a você que lealdade devemos ter com princípios, e com a sociedade. A Globo, infelizmente, não foi 'leal' com o público. Nem com os jornalistas.Vai pagar o preço por isso. É saudável que pague. Em nome da democracia! João, da família Marinho, disse mais no brilhante comunicado interno: 'Pude ter certeza absoluta de que os colaboradores da Rede Globo sabem que podem e devem discordar das decisões editoriais no trabalho cotidiano que levam à feitura de nossos telejornais, porque o bom jornalismo é sempre resultado de muitas cabeças pensando'. Caro João, em que planeta você vive? Várias cabeças? Nunca, nem na ditadura (dizem-me os companheiros mais antigos) tivemos na Globo um jornalismo tão centralizado, a tal ponto que os repórteres trabalham mais como bonecos de ventríloquos, especialmente na cobertura política!

Cumpro agora um dever de lealdade: informo-lhe que, passadas as eleições, quem discordou da linha editorial da casa foi posto na 'geladeira'. Foi lamentável, caro João. Você devia saber como anda o ânimo da Redação - especialmente em São Paulo. Boa parte dos seus 'colaboradores' (você, João, aprendeu direitinho o vocabulário ideológico dos consultores e tecnocratas - 'colaboradores', essa é boa... Eu não sou colaborador, coisa nenhuma! Sou jornalista!) está triste e ressabiada com o que se passou.

Mas, isso tudo tem pouca importância. Grave mesmo é a tela da Globo - no Jornalismo, especialmente - não refletir a diversidade social e política brasileira. Nos anos 90, houve um ensaio, um movimento em direção à pluralidade. Já abortado. Será que a opção é consciente? Isso me lembra a Igreja Católica, que sob Ratzinger preferiu expurgar o braço progressista. Fez uma opção deliberada: preferiram ficar menores, porém mais coesos ideologicamente. Foi essa a opção de Ratzinger. Será essa a opção dos Marinho? Depois, não sabem porque os protestantes crescem... Eu, que não sou católico nem protestante, fico apenas preocupado por ver uma concessão pública ser usada dessa maneira!

Mas, essa é também uma carta de despedida, sentimental. Por isso, peço licença pra falar de lembranças pessoais. Foram quase doze anos de Globo. Quando entrei na TV, em 95, lá na antiga sede da praça Marechal, havia a Toninha - nossa mendiga de estimação, debaixo do viaduto. Os berros que ela dava em frente à entrada da TV traziam uma dimensão humana ao ambiente, lembravam-nos da fragilidade de todos nós, de como nossa razão pode ser frágil. Havia o João Paulada - o faz-tudo da Redação. Havia a moça do cafezinho (feito no coador, e entregue em garrafas térmicas), a tia dos doces... Era um ambiente mais caseiro, menos pomposo. Hoje, na hora de dizer tchau, sinto saudade de tudo aquilo. Havia bares sujos, pessoas simples circulando em volta de todos nós - nas ruas, no Metrô, na padaria. Todos, do apresentador ao contínuo, tinham que entrar a pé na Redação. Estacionamentos eram externos (não havia 'vallet park', nem catraca eletrônica). A caminhada pelas calçadas do centro da cidade obrigava-nos a um salutar contato com a desigualdade brasileira.

Hoje, quando olho pra nossa Redação aqui na Berrini, tenho a impressão que estou numa agência de publicidade. Ambiente asséptico, higienizado. Confortável, é verdade. Mas triste, quase desumano. Mas, há as pessoas. Essas valem a pena. Pra quem conseguiu chegar até o fim dessa longa carta, preciso dizer duas coisas...

1) Sinto-me aliviado por ficar longe de determinados personagens, pretensiosos e arrogantes, que exigem 'lealdade'; parecem 'poderosos chefões' falando com seus seguidores... Se depender de mim, como aconteceu na eleição, vão ficar falando sozinhos.

2) Mas, de meus colegas, da imensa maioria, vou sentir saudades. Saudades das equipes na rua - UPJs que foram professores; cinegrafistas que foram companheiros; esses sim (todos) leais ao Jornalismo. Saudades dos editores - que tiveram paciência com esse repórter aflito e procuraram ser leais às minúcias factuais. Saudades dos produtores e dos chefes de reportagem - acho que fui leal com as pautas de vocês e (bem menos) com os horários! Saudades de cada companheiro do apoio e da técnica - sempre leais.>Saudades especialmente, das grandes matérias no Globo Repórter - com aquela equipe de mestres (no Rio e em São Paulo) que aos poucos vai se desmontando, sem lealdade nem respeito com quem fez história (mas há bravos resistentes ainda).

Bem, pelo tom um tanto ácido dessa carta pode não parecer. Mas levo muita coisa boa daqui. Perdi cabelos e ilusões. Mas, não a esperança.

Um beijo a todos.
Rodrigo Vianna"

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22.12.06

Troca justa

Um deputado federal custa ao Brasil (somando salários às várias outras verbas a que têm direito) R$ 99 mil por mês, lembra o colunista da "Folha" Clóvis Rossi. Mesmo assim, por pouco tais parlamentares não conseguiram dobrar seus pagamentos, numa manobra liderada pelos presidentes da Câmara, Aldo Rebelo, e do Senado, Renan Calheiros (guardemos esses nomes para eleições futuras).

Esse preço nos sugere uma pergunta: o que deputados e senadores (necessários, lembremos, em qualquer democracia) têm feito pelo País? Além dos escândalos aos quais estão sempre envolvidos (mensalão hoje, propina para aprovar a reeleição no governo passado, só para citar dois casos), o que tais representantes têm defendido de construtivo à nação?

Claro que não vamos lembrar, porque se há algo benéfico (e há), está nas pequenas exceções. Então, este humilde blog lança aqui uma idéia, que evidentemente nunca será colacada em prática, mas sonhar custa bem menos que manter deputados: façamos -nós, a sociedade que paga o custo parlamentar- uma inversão de valores, visando a construção de um país melhor.

A idéia (ou melhor, o sonho) é simples: trocar os ganhos dos deputados, senadores (e por tabela dos vereadores) pelos dos professores do ensino básico brasileiro. Os professores passariam a ter todas as regalias dos parlamentares e os parlamentares teriam de aprender a sobreviver com salário de professor.

O objetivo da proposta também é simples. Primeiro, ensinar na marra aos políticos que aqui não é o país das maravilhas ou a ilha da fantasia. Segundo, permitir que a educação nos salve da multiplicação da politicagem malandra, que sobrevive graças à sacanagem de quem é eleito alimentada pela ignorância de quem elege.

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21.12.06

Duas vergonhas

Nestes cinco dias de férias litorâneas, em que ao menos tentei me policiar ao máximo para não me aproximar tanto de publicações noticiosas (uma busca de "desintoxicação" sem muito sucesso), senti vergonha de ser brasileiro por duas vezes.

A primeira vergonha senti quando li sobre a obscena ação das Mesas da Câmara e do Senado federais de tentar praticamente dobrar seus próprios salários. Senti vergonha não só de ter nascido e de viver no mesmo país dos deputados e senadores que, a despeito de suas atitudes desastrosas como representantes da nação, ainda querem ganhar R$ 24 mil mensais (mais R$ 50 mil de verbas de gabinete, mais R$ 3 mil de auxílio moradia etc etc etc) na mesma pátria onde há quem passe fome. Senti também vergonha de não poder impedir que, do meu salário, sejam descontados -automaticamente- tantos dias suados de trabalho para bancar tal farra.

A segunda vergonha senti quando assisti a uma propaganda de cerveja na TV. Uma mulher chega a um "mestre", indignada e pedindo ajuda, mostrando a camisa do marido manchada de batom no colarinho (o que evidencia que ela foi traída). O "mestre" pede que a mulher beba de sua cerveja para comprovar que aquilo é "normal". O batom dela fica no copo, ao lado do "colarinho" da bebida, e a similaridade entre os colarinhos e os batons, segundo ele, significa que ela não deve se preocupar, ou seja, deve aceitar a situação. Primeira mensagem do comercial: a mulher deve aceitar ser traída. Mas não fica por aí. Após a mulher dizer que o "mestre" salvou seu casamento, ele responde que isso não ficará de graça. Segunda mensagem: além de passível de traição, a mulher deve ser um objeto de prazer do homem.

Eis o Brasil onde o pesadelo da política só cresce e não preocupa quase ninguém. E os devaneios causados pelo "deus" marketing, que rotula a cerveja e os políticos, reforçam o machismo, o banditismo e outros tantos "ismos" que nos mantêm nas trevas, totalmente à margem da civilização.

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15.12.06

Férias

Ausentarei-me do blog (que continua monitorado, entretanto) até o próximo dia 21, período único no ano em que estarei longe da internet e à beira do mar, esta dádiva à qual Deus deu o perigo e o abismo, mas nele espelhou o céu, nas palavras de Fernando Pessoa. Espero voltar recarregado para muitas discussões que virão. Vejo-os em breve.

14.12.06

Justiça dos injustos

Faz sete anos que o jornalista e ex-diretor de redação do "Estadão", Antonio Marcos Pimenta Neves, matou a então namorada, Sandra Gomide, a tiros. Mas, apesar de já condenado (seis anos após o crime) a 18 anos de prisão, ele ainda está solto. Ficou apenas 7 meses detido logo que praticou o homicídio, porém, depois de condenado, conseguiu um curioso habeas corpus que permitia que ficasse solto até julgado o recurso à condenação.

Na última quarta-feira, entretanto, o Tribunal de Justiça de São Paulo expediu um mandado de prisão do jornalista. Mas, na manhã desta quinta, ele não foi encontrado em sua casa e já é considerado foragido.

O pobre que rouba um saco de arroz para fazer o estômago parar de roncar vai para a cadeia, fica lá até o julgamento e, caso condenado, continua preso. Muitas vezes, mesmo que cumprido o prazo de detenção estipulado na condenação, permanece mofando atrás das grades.

É o Brasil onde as leis são feitas da elite para a elite. Quem tem dinheiro para pagar bons advogados e influência diante dos poderes, pode tudo. Pode até se beneficiar de brechas que escancaram a fragilidade injusta das regras. Já quem não tem dinheiro e poder, apodrece no falido sistema prisional, que transforma ladrões de galinha em alto escalão do PCC.

É a justiça a serviço dos injustos, que condena o País ao fracasso eterno.

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11.12.06

Escola Base 2

O ombudsman da "Folha", Marcelo Beraba, toca num assunto muito pertinente na coluna do último domingo: a forma como alguns jornais noticiaram a suspeita de que uma mulher de Taubaté (SP) teria matado a própria filha colocando cocaína em sua mamadeira, suspeita que acabou totalmente descartada.

O caso começou no final de outubro e terminou no início deste mês, quando a mãe, presa em flagrante na ocasião, foi libertada da prisão após ser espancada covardemente e de duas formas: na cela e também nas páginas da imprensa.

Jornais "populares" (eufemismos utilizados pelos barões da mídia para designar veículos cuja grande pretensão é a venda em bancas), como o "Diário de S.Paulo", noticiaram com escândalo, dando o nome da acusada e foto na primeira página. O título era uma sentença: "Mãe mata bebê com mamadeira de cocaína".

A afirmação do "Diário" baseava-se num laudo preliminar que detectou a droga. Mas, tanto era preliminar –e o jornal sabia disso- que acabou desmentido por um laudo definitivo, que não encontrou cocaína alguma na mamadeira.

Acontece que as manchetes fizeram a festa nas bancas antes desse laudo definitivo. E, de acusada, a mãe do bebê acabou vítima não apenas do Estado, que a expôs à violência do cárcere sem sequer ter havido crime, como de parte da mídia, mais preocupada com o lucro que com a verdade.

Eis uma situação que poderia ser o capítulo 2 do triste caso Escola Base, quando praticamente toda a grande imprensa embarcou na denúncia de que donos de uma escola em São Paulo estavam assediando alunos, denúncia que nunca foi comprovada mas, após a explosão do caso na mídia, foi capaz de acabar com a vida dos donos da escola.

Em ambos os casos, tinham-se denunciante, autoridade confirmando a investigação e outro lado negando. É a fórmula do "moderno" jornalismo, tão simplista quanto falível. Simplista porque boa parte das redações carecem de estrutura para investigar a fundo os fatos, já que grande parte da imprensa mais tem se preocupado com investidas de marketing do que com o velho e bom jornalismo; falível porque não basta ter uma denúncia, uma autoridade que a sustente e apenas a negativa do outro lado nas poucas horas entre a "apuração" do repórter e a publicação.

Eis um fato concreto a respeito do que já foi escrito neste blog: a mídia continua suscetível a cometer o mesmo erro do caso Escola Base. Deveria refletir profundamente sobre esse risco, apostando na busca incessante da verdade e da investigação, tendo sempre em mente que a integridade humana está acima do covarde apelo ao sensacionalismo.

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6.12.06

Não decola

Pouco mais de 10% dos brasileiros viaja de avião, num País que não só fabrica boas aeronaves como também as exporta. Apesar disso, nem essa diminuta parcela da população que tem acesso a tal meio de transporte está conseguindo utilizá-lo dignamente. Simplesmente porque o caos se instalou.

O motivo não é a falta de aeroportos ou de aeronaves, mas de gente que faça o controle do tráfego de aviões no céu. E quem é responsável por isso? Ninguém menos que a Aeronáutica. E chegamos a uma situação que, não fosse trágica para quem está passando noites em salas de espera de aeroportos, seria cômica: as Forças Armadas da Nação estão bagunçando nossos céus. Ou melhor, nosso chão, porque as decolagens estão minguando.

Eis um país que, a despeito de um indiscutível potencial, não aparenta ter vocação para o sucesso. Um país que patina, aceitando absurdas contradições e as perpetuando. Um país cuja elite é perversa e o governo, quando não formado por ela, é refém do seu tabuleiro.

E o país onde nasceu o pai da avião não decola, nem nos aeroportos.

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