A camiseta, a Aids, o sonho
Eu ainda estava na faculdade de Jornalismo, nos primeiros anos, quando vi no corredor, no intervalo entre as aulas, uma moça vestindo uma camiseta em que estava escrito: “Tenho um amigo com Aids”. Na época, não havia coquetéis anti-retrovirais e a doença era uma sentença de morte. O preconceito era muito maior do que hoje em relação aos soropositivos.Mas, eu estava em São Paulo, onde tudo parece acontecer com uma velocidade maior que minha cidade natal, Americana, e já havia lá quem, tal qual a menina da camiseta, tivesse coragem de assumir uma atitude surpreendente diante da terrível doença. Também havia no corpo docente da faculdade Roseli Tardelli, que perdeu um irmão vítima da Aids e era uma grande referência para nós na discussão sobre o assunto.
Naquele mesmo ano, outra grande professora, Claire Marie Régnier, nos deu uma tarefa e tanto: fazer uma grande reportagem com vítimas da Aids como trabalho do bimestre. Poderíamos escolher a abordagem: crianças que nasceram com o vírus, usuários de drogas e doentes terminais. Escolhi crianças e começou uma experiência inesquecível.
Eu e o Vinícius, meu colega da dupla de trabalho que hoje deve estar na “Gazeta Esportiva”, fomos da Avenida Paulista até o Grajaú. Dois ônibus, duas horas de “viagem” dentro de São Paulo. Ao chegar lá, numa casa de apoio, nos deparamos com crianças nos mais diferentes (e dolorosos) estágios da Aids, e com histórias de fazer chorar, que eram contadas pela mulher responsável pela entidade. Ela contava os casos, apontava as crianças ainda vivas e chorava ao lembrar as que já haviam falecido.
Foi meu primeiro contato direto com a realidade que a Aids impôs ao mundo. E eu estava vendo a doença vitimando as mais inocentes criaturas, que nasceram com o HIV sem ter tido o direito de se prevenir dele como os adultos têm -e ignoram, muitas vezes.
Hoje, a camiseta da moça do corredor não é mais novidade. Eu também tenho amigo soropositivo aqui em minha cidade. O preconceito é menor, mas está mais assustador que a própria doença, que agora tem tratamento muito mais eficaz.
Cenas como as das crianças magrinhas numa agonia febril já são praticamente passado. Mesmo assim, não me sairão da memória. Assim como não abandonarei o sonho de um dia ajudar a construir manchetes noticiando a derrota definitiva desse minúsculo vírus, que já foi capaz de molhar com lágrimas a história da humanidade.












