30.11.06

A camiseta, a Aids, o sonho

Eu ainda estava na faculdade de Jornalismo, nos primeiros anos, quando vi no corredor, no intervalo entre as aulas, uma moça vestindo uma camiseta em que estava escrito: “Tenho um amigo com Aids”. Na época, não havia coquetéis anti-retrovirais e a doença era uma sentença de morte. O preconceito era muito maior do que hoje em relação aos soropositivos.

Mas, eu estava em São Paulo, onde tudo parece acontecer com uma velocidade maior que minha cidade natal, Americana, e já havia lá quem, tal qual a menina da camiseta, tivesse coragem de assumir uma atitude surpreendente diante da terrível doença. Também havia no corpo docente da faculdade Roseli Tardelli, que perdeu um irmão vítima da Aids e era uma grande referência para nós na discussão sobre o assunto.

Naquele mesmo ano, outra grande professora, Claire Marie Régnier, nos deu uma tarefa e tanto: fazer uma grande reportagem com vítimas da Aids como trabalho do bimestre. Poderíamos escolher a abordagem: crianças que nasceram com o vírus, usuários de drogas e doentes terminais. Escolhi crianças e começou uma experiência inesquecível.

Eu e o Vinícius, meu colega da dupla de trabalho que hoje deve estar na “Gazeta Esportiva”, fomos da Avenida Paulista até o Grajaú. Dois ônibus, duas horas de “viagem” dentro de São Paulo. Ao chegar lá, numa casa de apoio, nos deparamos com crianças nos mais diferentes (e dolorosos) estágios da Aids, e com histórias de fazer chorar, que eram contadas pela mulher responsável pela entidade. Ela contava os casos, apontava as crianças ainda vivas e chorava ao lembrar as que já haviam falecido.

Foi meu primeiro contato direto com a realidade que a Aids impôs ao mundo. E eu estava vendo a doença vitimando as mais inocentes criaturas, que nasceram com o HIV sem ter tido o direito de se prevenir dele como os adultos têm -e ignoram, muitas vezes.

Hoje, a camiseta da moça do corredor não é mais novidade. Eu também tenho amigo soropositivo aqui em minha cidade. O preconceito é menor, mas está mais assustador que a própria doença, que agora tem tratamento muito mais eficaz.

Cenas como as das crianças magrinhas numa agonia febril já são praticamente passado. Mesmo assim, não me sairão da memória. Assim como não abandonarei o sonho de um dia ajudar a construir manchetes noticiando a derrota definitiva desse minúsculo vírus, que já foi capaz de molhar com lágrimas a história da humanidade.

27.11.06

Pura esculhambação

No País onde a indecência encontra terreno fértil, é possível que deputados, muitos dos quais apenas sugadores das riquezas da nação, queiram aumentar seus próprios salários, de R$ 12,8 mil para R$ 24,5 mil.

No País onde a indecência invade nossos bolsos de apáticos contribuintes, é possível o fato de o presidente do Supremo Tribunal Federal querer também aumentar o seu próprio salário, de R$ 26 mil para R$ 30 mil.

No País onde a indecência chega a ser um escárnio, tamanha sua abrangência entre os quatro cantos deste quase continente, é possível a ironia de os mesmos que buscam até dobrar seus próprios salários quererem tirar R$ 8 do salário mínimo dos pobres mortais.

No País onde a indecência reina em absoluto, é possível que empresários roubem, impunemente, seus funcionários e o governo ao mesmo tempo, quando deixam de depositar FGTS e de pagar inúmeros impostos. Neste mesmo país, quem rouba um saco de feijão para matar a fome é preso em flagrante e apodrece no cárcere.

É muita esculhambação!

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24.11.06

Sempre depois

A carreta que invadiu uma avicultura e uma casa em Americana, matando uma pessoa, não poderia estar estacionada onde estava. Mas estava. Agora que uma pessoa morreu, o órgão que deveria ser fiscalizador (e fiscaliza muito bem quem esquece de pendurar nos carros cartões da Área Azul) vai fiscalizar.

Aviões não podem voar sem que estejam sob orientação de controladores de vôo, essenciais para a manutenção da segurança dos passageiros. Mas, agora que dois aviões trombaram sobre a Amazônia, admite-se que há "buracos" nos céus brasileiros que fogem ao controle de quem deveria controlar. Depois que mais de cem morreram, o governo vai tentar descobrir como "tapar" esses buracos.

O Brasil tem o dom de trancar a porta depois que o ladrão entrou e fez a festa. Atitudes que deveriam ser preventivas acabam sendo tomadas (ou ao menos buscadas) à custa de vidas. Até quando seremos cobaias dessa notável incompetência?

23.11.06

Por que não?

Por casais heterossexuais, foram criados filhos que se descobriram gays, mesmo com pai e mãe insistindo que menino casa com menina e menina casa com menino. Não é absurdo supor, então, que um casal homossexual possa criar um filho adotivo que desenvolva livremente sua sexualidade.

Pais e mães que acreditam e praticam os valores da honestidade costumam ensinar aos seus filhos que esse é o caminho para se conviver neste mundo. Não é absurdo supor que boa educação independe de orientação sexual. Depende, sim, de caráter. E caráter não tem sexo nem preferência por homens ou mulheres.

Por que, então, não poderia um casal gay adotar um filho e educá-lo? Homossexualidade não é doença, muito menos contagiosa. E bons valores se encontram ou não em seres humanos, independentemente de sua sexualidade.

Por que não, então? Seria o velho preconceito a explicação?

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20.11.06

Jornalismo anoréxico

“Toda a mídia tem falado da morte da modelo por anorexia. Tirando a lamentável perda de alguém tão jovem, vejo muita hipocrisia na cobertura. Até que ponto a imprensa não ajuda na produção dessas pessoas? Vou explicar: várias vezes, recebi, junto com meu jornal, um encarte de moda. No último que recebi, alguns meses atrás, as modelos eram tão magras que mais pareciam estar na sala de espera de uma clínica para tratamento de anorexia. Vocês valorizam esses ‘modelos de beleza’, vendem esses ‘produtos’ e depois se dizem chocados! Por que não boicotar esse tipo de exploração da magreza humana?”

O texto acima é de Amélia Artes e foi publicado na seção de cartas da “Folha de S.Paulo”. As palavras traduzem a indignação de espectadores diante de uma imprensa que está procurando mais Ibope que qualquer outra coisa ao discutir o tema “ditadura da beleza”. Hoje, por exemplo, Olga Bongiovani intercalava, entre os debates sobre anorexia em seu programa na Rede TV, merchandising de produtos para emagrecer, que ela anunciava como “formas saudáveis de perder peso”.

16.11.06

A indústria da anorexia

Ela tinha apenas 21 anos. E, com 1,74 metro de altura, pesava minguados 40 quilos. No cardápio diário, tomate e maçã, que geralmente terminavam no vaso sanitário, por conta da bulimia, que era, por sua vez, associada à anorexia.

A morte da modelo Ana Carolina Reston Macan não é apenas um caso chocante. É mais um exemplo da cruel ditadura da beleza que se impõe cada vez mais sobre as jovens no Brasil e as torna seguidoras de uma alucinação sem volta: elas não comem por conta de uma obsessiva vontade de ser magras, provocam vômito para evitar que o pouco que comem faça engordar e ainda se vêem gordas mesmo quando esqueléticas.

O problema seria menor se fosse apenas mais um dos “modismos” presentes na múltipla gama de tribos juvenis. Não é só isso: trata-se de uma situação patrocinada e estimulada pela indústria da moda, que começa no marketing das grandes griffes, tem larga contribuição da mídia e se materializa em agências de modelos. É uma grande fábrica de ilusão, que produz caveiras andantes, distantes do padrão real de seres humanos, e muito próximas da morte.

13.11.06

Do próprio veneno

A "Folha de S.Paulo" está incomodada com o fato de um de seus telefones ter o sigilo quebrado pela Polícia Federal. O jornal deu a notícia em destaque quando o fato ocorreu, na semana passada, assim como fez editorial em seguida repudiando o que chama de abuso das autoridades.

Antes disso, dois repórteres da "Veja" tiveram de depor como testemunhas no caso do dossiê e não apenas a revista como jornais solidários a ela repudiaram o fato. Disseram que os repórteres foram humilhados e coagidos e que, também, foi um abuso das autoridades.

No caso da "Folha", assim que soube que se trataria do telefone do jornal, a PF desconsiderou a investigação. No caso da "Veja", a resposta das "autoridades" é que não houve nenhum tipo de coação ou humilhação aos jornalistas, apenas o procedimento de praxe a qualquer cidadão.

São casos interessantes de a mídia experimentando do próprio veneno. A "Folha" está entre os tantos jornais que se aproveitam de meios ilegais ou inconclusos de investigação para bombardear manchetes. Grampos telefônicos ou citações ainda insuficientes para conclusão ganham destaque no jornal. A "Veja" vai além, chega a fazer sua opinião prevalecer sobre os fatos.

Agora, ambos passam por situações parecidas ao que tanto expõem em suas páginas, quando os investigados são os outros. Casos que viram manchetes apesar de ainda serem indícios e que muitas vezes significam uma sentença para a opinião pública.

Um exemplo clássico é o caso Escola Base. A grande mídia bombardeou que os donos da escola eram acusados de assediar os alunos. Não havia conclusão alguma, apenas indícios, mas as manchetes foram suficientes para destruir não apenas a escola como a vida de seus donos. Nada foi provado em seguida, mas o estrago já estava feito, porque a "sentença" saiu antes, condenando inocentes nas folhas de jornal.

Claro que são abomináveis quaisquer tipos de abusos das autoridades ferindo a liberdade da imprensa e o direito ao sigilo das fontes. Mas também são condenáveis atitudes tão corriqueiras da mídia de investigar mal e destruir vidas.

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9.11.06

O moleque Bush

George Walker Bush é aquele tipo de garoto travesso que usa boné com aba virada para trás, acha que o mundo é o seu quintal e é o dono da bola que se joga no mundo –quer dizer, no seu quintal.
Nesta quinta-feira, após uma retumbante derrota nas urnas para os democratas, Bush veio dizer que “aceita qualquer idéia” sobre o que fazer com o Iraque, onde há 140 mil soldados americanos, 2.800 já morreram e o barril de pólvora explode a cada dia, matando dezenas.

Ora, mas que ironia do destino. Antes de perder a maioria na Câmara e no Senado, que lhe permitiram o repasse de bilhões para jogar bombas em quem quisesse, Bush não queria ouvir ninguém. Quando decidiu invadir o Iraque, a ONU clamou para que o presidente republicano desistisse da já prevista desastrada e desnecessária ação militar. E quem Bush ouviu? Gente do tipo do falcão belicista Donald Rumsfeld, que acaba de cair após escândalos envolvendo seu ministério.

Agora que o jogo virou e o quintal está em chamas, o moleque Bush pega a bola e corre para debaixo da cama, tentando fingir que nem houve jogo, tampouco goleada. Acontece que a partida está perdida e o responsável pela grande derrota se chama George Walker Bush. Só o mundo inteiro sabe disso, até os norte-americanos.

7.11.06

Big brother na net

Um projeto de lei que seria discutido nesta quarta-feira por comissão do Senado obriga que, a cada clique que você der no seu teclado para interagir na internet, terá de se identificar, inclusive com número do seu CPF. O modelo é similar ao que é adotado na China, onde não apenas a internet é controlada como todo tipo de liberdade é cerceado pelo governo.

Não, leitor, não é um projeto do governo do PT, que teve no ano passado a desastrada idéia do Conselho de Jornalismo. O projeto de controle da internet é do tucano Eduardo Azeredo e a punição para quem não se identificar na rede mundial de computadores é nada menos que prisão. Isso mesmo, webnavegador, prisão por navegar sem escancarar seus caminhos aos “controladores”.

O autor do projeto justifica que sua idéia visa coibir o crime virtual. E lembra Maquiavel: para se chegar à finalidade de pegar criminosos, usam-se meios que tiram a privacidade também dos honestos. É como se despirem todos os consumidores de um supermercado para encontrar aquele que escondeu um produto sob a roupa.

Azeredo, que acabou convencido a adiar a discussão de sua propositura, poderia ter sido mais original. Além de invocar Maquiavel, ele encarna a "profecia" de George Orwell, que escreveu na década de 1950, no livro “1984”, que seríamos vigiados pelo “big brother”, o olho espião do governo totalitário. Da “teletela” que Orwell descreve (que nos enxerga dentro de nossas casas) para a internet dos sonhos de Azeredo, a certeza é o fim da liberdade. Já o crime, este não tem fim.

6.11.06

Pescoços para a corda

Saddam foi um ditador sanguinário. Mas é um escárnio sua ida à forca tendo como algoz George Walker Bush. Escárnio porque foi a família Bush e a máquina de guerra norte-americana que sustentaram Saddam durante uma década, alimentando-o com armas para dizimar o Irã.

O criador, deus do Planeta e guardião da "liberdade", agora se vê no direito de destruir a criatura. E o faz às vésperas das eleições parlamentares nos EUA, mais um oportunismo histórico depois do uso da opinião pública com o 11 de setembro e da mentira sobre as armas químicas.

Mata-se Saddam pela liberdade e os direitos humanos. Ora, quanta bobagem! O mesmo governo ocupado hoje por W.Bush alimentou inúmeros ditadores tão sanguinários quanto Saddam (aqui mesmo e em nossos vizinhos latino-americanos). E o mesmo Bush acaba de derramar sangue de inocentes e instaurar o caos no país de Saddam - em proporções maiores que os feitos do ditador - apenas para se apossar do petróleo que há ali.

Sou contra a forca ou qualquer tipo de pena de morte. Mas, se for inevitável levar a corda ao pescoço de alguém, Bush pai e Bush filho deveriam ser os primeiros da fila. Atrás deles, haveria ainda muitos outros norte-americanos antes de se chegar ao ex-ditador iraquiano.

4.11.06

O céu e os homens

Ted Haggard é ferrenho defensor da moral. Presidente da Associação Nacional de Evangélicos dos Estados Unidos, é presença constante na Casa Branca e implacável opositor da união civil entre homossexuais. Seu discurso é uma melodia aos ouvidos do desumanismo-ortodoxo-cristão-belicista de George Walker Bush.

Só que uma nuvem negra paira sobre a cabeça do pastor Ted. Mike Jones, que se apresenta como garoto de programa, acaba de revelar que teve um caso de três anos com Ted e aponta até gravações de sua secretária eletrônica com a suposta voz do líder religioso. O escândalo fez Ted renunciar às suas funções na igreja New Life.

Nada contra o pastor Ted ser gay ou contratar garoto de programa por um dia ou três anos. Mas tudo contra a hipocrisia. Ao se considerarem as denúncias, o que o pastor condena como demoníaco é sinônimo de suas próprias ações; opção tão defenestrada por suas palavras é sua prática rotineira, às escondidas.

O pastor Ted não é o único. Há inúmeros similares em todos os credos, em todo o mundo. Todos sinais de que, antes de olhar para o céu, o ser humano deveria olhar para si próprio, entender-se mais, aceitar-se mais. Seria mais divino do que impor aos outros a repressão do dogma com as mãos da falsidade.

(Imagem SXC)

1.11.06

Sinônimos monstruosos

Mais 26 morreram nesta quarta-feira no Iraque. A mídia já nem dá atenção, apenas registra as baixas geradas pelo caos que impera naquele país desde que os Estados Unidos invadiram, mataram, humilharam e tomaram o poder, ainda sem saber por que e para que.

Quase todos os dias, uma ou mais dezenas de pessoas morrem em conseqüência de explosões de carros-bomba e conflitos diversos entre e iraquianos que não aceitam o domínio norte-americano e as tropas do Exército de George W. Bush.

A invasão do Iraque é um dos maiores escândalos do século 21. O governo W. Bush aproveitou a sensibilização dos norte-americanos após o 11 de Setembro para tomar poços de petróleo preciosos. W. Bush mentiu ao dizer que ali havia armas de destruição em massa e voltou a mentir ao dizer que, derrubando Saddam Hussein (um ditador sangüinário, diga-se) estaria levando ao Iraque a democracia.

Democracia não se impõe por outro país. Conquista-se com soberania. Ademais, o barril de pólvora que não pára de explodir no Iraque não tem absolutamente nada de democrático. É, sim, uma infâmia contra a humanidade, que transforma Saddam e Bush em sinônimos monstruosos.

Imagem SXC