26.10.06

Quem "aloprou"?

Pesquisa CNT/Sensus divulgada nesta quinta-feira aponta novo avanço de Lula na corrida eleitoral. Segundo o levantamento, a diferença sobre Alckmin está em 24% (57,5% a 33,5%). A pesquisa segue a tendência indicada pelo Datafolha, pelo Ibope e pelo Vox Populi, ou seja, de que a distância entre ambos aumenta.

Na verdade, a posição confortável de Lula volta ao patamar visto antes de serem bombardeadas as manchetes sobre o dossiêgate, inspiradas pelos petistas “aloprados” e também pela mídia muito interessada em ruminar esse “prato cheio” às vésperas do 1º de outubro (e ruminou à exaustão, diga-se). Primeira conclusão que se pode vislumbrar: não fossem tais manchetes, provavelmente não haveria segundo turno.

Outra questão interessante a se citar é a forma como cada candidato se apresentou na campanha para o segundo turno. E aí entra o fator FHC. A campanha petista resolveu lembrar o legado do ex-presidente e colocou Alckmin na pior das arapucas. Ele passou a campanha toda tentando convencer o eleitor de que não faria o mesmo que seu colega de partido, que privatizou quase todo o patrimônio estatal. Segunda conclusão: a imagem de FHC e das privatizações perante os brasileiros é tão ruim que chega a respingar no colega de partido.

Há ainda um outro dado pertinente. O Datafolha de terça-feira mostrou que o atual governo tem a melhor avaliação desde que o instituto iniciou tal levantamento. Em outras palavras, desde que o Brasil foi redemocratizado, nunca um presidente foi tão bem avaliado pelos brasileiros, apesar de ter sido alvo de 60% de reportagens negativas e só 19,2% positivas nos cinco maiores jornais do País na reta final do primeiro turno (com Alckmin, foi o inverso: 25% de matérias negativas e 43% de reportagens positivas), segundo dados do Observatório Brasileiro de Mídia. Terceira e última conclusão: ou a maioria dos brasileiros ou a maioria da mídia experimenta o transe da “alopração”.

Imagem: SXC

24.10.06

O amanhã, cada vez mais hoje

Abaixo, o amanhã, cada vez mais hoje, descrito com muita criatividade em vídeo postado no Youtube.


Ganhou o quarto poder

Continuo a acreditar que em debates entre candidatos ganha a democracia, mas o terceiro debate entre Lula e Alckmin, realizado nesta noite de segunda / madrugada de terça pela Record, já demonstra fadiga e, pior, coloca em xeque quem são os verdadeiros vencedores dessa maratona de confrontos.

Lula e Alckmin já debateram na Bandeirantes, depois no SBT, agora na Record e ainda debaterão na Globo. Em geral, houve pouca diferença entre os embates. Os temas abordados são parecidos, as perguntas são parecidas, as respostas são parecidas. Até as gravatas de ambos, hoje, repetiam as cores do debate anterior.

Quem ganha com essa cansativa repetição recheada de subterfúgios? Ao que tudo indica até agora, ninguém ganha mais que as próprias emissoras de televisão, que turbinam suas audiências e os lucros gerados por seus intervalos comerciais.

Por que não se realizarem dois debates, no máximo, gerados por um "pool" de emissoras, cada bloco apresentado por um mediador diferente e jornalistas diversos para perguntar? Ora, porque, mais uma vez (e desta vez mais escancaradamente que em outras), a mídia é a vedete de uma corrida eleitoral, ora carregando nas tintas visando alterar os resultados, ora puxando para seu terreiro os homens dos quais um será o presidente do País.

Eis o quarto poder.

(Foto: SXC)

21.10.06

O cão, o homem e Da Vinci

No dia 21 do mês passado, O LIBERAL impresso publicou, na seção "Click do Leitor", a imagem de um cachorro que foi encontrado no lixo e, por pouco, não foi esmagado pelas máquinas da coleta. A foto foi enviada pela leitora Marili Camargo e a autoria da imagem é da SOS Vida Animal (www.sosvidaanimal.com.br), do Rio de Janeiro. A mesma leitora envia, agora, a recuperação do animal, tratado pela associação e hoje adotado por quem o ama. Uma imagem para alegrar o final de semana.

Para reflexão, uma frase de Leonardo Da Vinci, um dos maiores gênios da história da humanidade: "Tempo virá em que os seres humanos julgarão a matança de um animal inocente como hoje se julga o assassínio de um homem."

20.10.06

Quem ganhou o debate?

( ) Lula, com os números comparativos em relação ao governo FHC?
( ) Alckmin, com suas críticas sobre o crescimento da economia?
( ) A elegância competente de Ana Paula Padrão
( ) Ningúem, porque tudo não passou de troca de farpas

Deixo minha opinião para discutir com o estimado leitor:
( X ) Ganhou, mesmo que por um pequeno passo adiante, a democracia. Pela segunda vez em pouco mais de uma semana, os dois postulantes ao cargo máximo do País se enfrentam para um confronto ao vivo. Sem fugas, sem as máscaras marqueteiras da propaganda eleitoral, aberto. Só por isso, já valeu o segundo turno. Mesmo que com muitos subterfúgios, tanto no debate do SBT quanto no da Band, são os dois homens que há, agora, para governar o País. Escolher um ou outro é o saboroso jogo democrático, pelo qual muitos perderam a própria vida lutando.

A charge da semana


Transbordando a criatividade de Carlos Reis e Diógenes Gobbo.

18.10.06

Os ovos e o vôo da galinha

A campanha de Lula descobriu a galinha dos ovos de ouro: lembrar as privatizações de FHC para entornar o caldo para cima de Alckmin. Estratégia que está dando certo e revela as más recordações do brasileiro em relação ao presidente que vendeu boa parte do patrimônio do País e até hoje (mais de um mandato depois) não explicou onde está o dinheiro.

Mas o telhado de Lula não é nada reforçado para jogar pedras no modelo econômico do vizinho. Primeiro, porque seu governo seguiu as regras monetárias do tucano: os juros altos e a glória para os banqueiros. Para se ter uma idéia, só no ano passado foi mais de cem bilhões de reais para o bolso dos especuladores da moeda alheia. Dinheiro que poderia ir para mais bolsa família, mais saúde, mais educação, mais geração de emprego.

Está certo que o modelo privatista de FHC mudou com o governo atual. Um exemplo próximo de nós é o fato de a termelétrica Carioba 2 não ter sido viabilizada aqui em Americana. Claro que contou muito a resistência da cidade em relação à bomba que se instalaria por aqui. Mas também contou a inviabilidade de se investir na usina quando o novo governo voltou os olhos para o potencial hídrico em vez de lotear o País com térmicas movidas a capital estrangeiro (como queria FHC, utilizando como pretexto o terrorismo do apagão, lembremos).

Lula pode criticar as privatizações, mas, antes disso, precisa nos explicar porque, a despeito de melhores indicadores, ainda patinamos no modelo recessivo. Mais que a galinha dos ovos de ouro, precisamos, sim, é ir além do vôo da referida ave.

(Imagem SXC)

Terrorismo ou fato?

Alckmin já contou com a ajuda dos petistas "aloprados" do caso dossiê, com boa parte da mídia simpática a ele e antipática a Lula, com uma Globo furiosa com a ausência do "sapo barbudo" no debate...

Mas Alckmin nem sempre conta com a ajuda de quem mais deveria ajudá-lo: seus próprios pares. Depois de ter que desmentir repetidas vezes que não vai privatizar a Petrobras, vem Fernando Henrique Cardoso, cacique tucano, dizer que não é contra a venda da estatal.

Não adianta agora FHC desdizer, tentar achar espaços para vírgulas em sua fala. O estrago está feito. Estrago que, diga-se, não se mede apenas por esse ato (nem tão) falho. Basta olhar o que ambos -FHC e Alckmin- fizeram nesse sentido (vendendo bens do Estado e da União) e fica ainda mais difícil desmentir a privataria.

A idéia colou. Ação terrorista ou baseada em fatos reais?

17.10.06

Jornalismo in memorian - 9

Esta edição está dando o que falar. Mino Carta (criador de "Veja", "IstoÉ", "QuatroRodas", "Jornal da Tarde") incendiou a discussão eleitoral ao dar uma capa de sua "CartaCapital" (desta semana) para revelar interesses que haveria por trás das denúncias a respeito do "dossiêgate". Vai-se além: relaciona-se o bombardeio da mídia sobre o caso à própria conquista do segundo turno pelos tucanos.

"CartaCapital" é uma revista que abre seu posicionamento ao leitor. Editoriais de Mino já foram claros sobre a preferência por Lula. Trata-se, portanto, do modelo de revista honestamente parcial, como se discutia com o sociólogo Wilson Fraga Alegretti em postagens anteriores deste blog. Nesta edição, a revista revela bastidores de uma trama que teria sido criada com um único interesse: atingir a candidatura Lula com total conivência de grandes veículos de comunicação.

Alberto Dines, outro gigante do jornalismo, vê com ceticismo a denúncia desta "CartaCapital". Diz, em seu "Observatório da Imprensa", que a mídia entrou apenas com uma "quota-parte mínima" no caso. Será?

Ao leitor-eleitor, a sentença.

16.10.06

Verdade inconveniente

Temperatuas subindo, geleiras derretendo, o mar invadindo cidades litorâneas, áreas se tornando desertos, furacões devastadores. Tudo estava nas teorias que previam o futuro do planeta diante da exploração humana, mas boa parte das previsões já é presente, já é realidade, o início de um futuro ainda pior.

Al Gore, vice do ex-presidente americano Bill Clinton, estará nesta terça-feira em São Paulo proferindo palestra que baseou o documentário "An Inconvenient Trugh" (do livro que já é sucesso nos EUA e, em português, se chama "Uma Verdade Inconveniente"). O tema a ser exposto: efeito-estufa e as trágicas conseqüências que ele trará ao planeta.

O trailler do vídeo, premiado no Sundance Film Festival 2006, está nesta postagem para você assistir. Cenas que talvez ainda veremos, bem perto de nós, se continuarmos "jazendo" no conforto da "modernidade" individualista e anti-ambiental.


Jornalismo in memorian - 8

Voltemos bastante na máquina do tempo, mais especificamente para 1968, início da linha dura do regime militar, quando censores (pessoas indicadas pelo governo para censurar informações que não interessavam aos milicos) faziam parte da "paisagem" das redações de jornais e revistas. Chegava o AI-5, o ato institucional mais severo do governo militar, que abriu caminho para torturas, mortes e exílios.

Estava proibido noticiá-lo, claro. Não interessava ao governo ter um País consciente de que se estava retirando direitos civis. Mas muitas foram as formas geniais encontradas por algumas publicações. Uma delas foi "Veja" (olha a "Veja" aí de novo, mas para uma análise elogiosa).

A revista driblou a censura de forma genial, o que resultou na capa acima reproduzida. O presidente do grupo Abril, Roberto Civita, falou sobre esta capa anos atrás numa entrevista ao "Programa do Jô". Era horário de almoço em dia de fechamento de "Veja" e foram, Civita e o censor, para o restaurante da editora. Ao chegar lá, o presidente da Abril pediu vinho à vontade para ambos e deixou que o censor se fartasse do néctar de Baco.

Ao voltarem para a redação, Civita mostra a foto em que o presidente da República está sentado em cadeira do Congresso Nacional e diz que gostaria de ilustrá-la na capa da "Veja" daquela semana. O censor pergunta: "Mas que título o sr. vai dar para isso?". Civita, muito esperto, diz: "Ora, nenhum". Então, a capa é liberada.

Precisa título? A foto mostra o presidente sentado num Congresso vazio, ou seja, o Executivo se apossando do Legislativo. Em uma imagem, sem nenhuma letra, estampava-se o AI-5. E eis uma "Veja" que contribui para a democracia do País.

11.10.06

Jornalismo in memorian - 7

As notícias frescas da semana nos convidam a andar um pouco mais rápido no túnel do tempo da análise da imprensa às vésperas de eleições. De 1994, pulamos para 2006, na etapa final da guerra pelo atual pleito.

Logo após o candidato tucano Geraldo Alckmin ter conseguido um feito ao passar para um segundo turno bastante improvável até os dias anteriores à votação, a mesma imprensa que teve nítida preferência pelo candidato lhe dá todos os holofotes. "Veja" (sempre a "Veja"!) e "Época" desta semana trazem na capa ninguém menos que Alckmin, em bela pose, como aquela de Collor, em 1988, lembram-se?

Um detalhe curioso deste caso é que "Veja" não ficou apenas na capa. Espalhou outdoors por São Paulo como se fosse uma propaganda da edição da revista, só que a edição tem como capa Alckmin, portanto a propaganda é para quem? Tanto que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) acaba de obrigar a revista a retirar as peças publicitárias.

10.10.06

Jornalismo in memorian - 6

Voltando à seqüência "Jornalismo in memorian", mais três capas de "Veja" às vésperas de eleições, todas de 1994, quando Fernando Henrique Cardoso iniciou sua saga de oito anos no comando do País.

Em abril (a primeira, à esquerda), a revista diz que Fernando Henrique, o ministro criador do Real, está "De olho no planalto". Menos de quatro meses depois, em agosto, volta a lhe dar capa, desta vez traçando o "Brasil segundo FHC", com jargões positivos do tipo "não somos um país subdesenvolvido" e "o próximo presidente encontrará uma economia mais em ordem e em crescimento".

A capa da direita, publicada em março, traz Lula, o candidato que concorreu com FHC. Mas o enfoque é bem diferente. Segundo a "Veja", ele não está nem de olho no Planalto nem tem algo a dizer sobre como seria sua visão de Brasil. Ele está "Sozinho na estrada".

9.10.06

Instintos

As feras perseguem e matam suas presas -e não apenas as presas. Matam até seus próprios filhotes em algumas circunstâncias. Mas o mundo dos animais ditos "irracionais" tem sempre uma lógica, que não é encontrada em várias das ações da raça "superior", o "inteligente" homem.

No "mundo animal" (expressão inventada pelos também animais que se acham acima de tudo e de todos), mata-se para a sobrevivência, não apenas individual mas do grupo, da espécie. Até o sacrifício de uma ninhada obedece à lei da evolução das espécies descoberta por Darwin, cruel, porém responsável pela manutenção do planeta.

Já no mundo dos homens, não há lógica que explique um inocente bebê enterrado vivo no Paraná, nesta segunda-feira, sendo a própria mãe acusada do crime. Ou uma outra criança que foi enrolada num saco plástico e jogada em um lago, em Minas, no início do ano, também pela própria mãe. Ou tantos outros casos que escancaram a bizarrice inerente apenas à atividade humana.

Os homens descobriram o domínio do fogo e venceram a noite. Inventaram a roda e os motores para vencer os limites geográficos. Criaram a medicina para domar as enfermidades. Desafiaram o espaço e já pensam em chegar a Marte. Mas foi um cão o primeiro a perceber o garotinho enterrado vivo. Um cão cujo instinto desafia nossa "inteligência".

(imagem: reprodução parcial da obra "A Criação do Homem", de Michelangelo)

Jornalismo in memorian - 5

Mudou o Fernando, mas a mídia pouco mudou. Entramos na era Fernando Henrique Cardoso, que ganhou uma capa ultrapositiva de "Veja" (olha a "Veja" de novo aí, gente!) logo que assumiu o cargo de ministro da Fazenda de Itamar Franco. Por sinal, o cargo (que lhe permitiu o Real) foi o primeiro trampolim de FHC rumo à presidência. De outros trampolins, a mídia cuidou-se.

A capa ao lado é de 1993, mais uma vez véspera de ano eleitoral.

6.10.06

Jornalismo in memorian - 4

Para fechar a série das capas em que "Veja" elegeu Collor como "notícia" principal às vésperas das eleições de 89, vamos à última antes do pleito. Ele está em mais uma pose de estadista, e o título chama para sua estratégia de "segurar o voto do povão" na reta final das eleições.

É a quarta capa que "Veja" oferece a Collor entre março de 88 e o pleito de 89, todas extremamente positivas ao ex-presidente. A primeira o vende como "caçador de marajás", a segunda se propõe a desvendar seu "conteúdo" e a terceira e quarta mostram (ou seria, ajudam a criar?) sua força diante do eleitorado.

Note-se, ainda, que todas também trazem o nome do candidato em letras garrafais. Exposição melhor que essa só na Globo, muito mais vista pela "massa" e que também colloriu. E como colloriu...

Os outros candidatos? Outros casos além de Collor? Aguardem, veremos a seguir. Antes, deixem seus comentários abaixo.

5.10.06

Jornalismo in memorian - 3

Continuando a seqüência, ainda Collor, o furacão midiático da redemocratização do Brasil. Furacão que terminou tragicamente para o País e cuja implosão foi acionada pela mesma revista que participou da edificação eleitoral collorida.

Desta vez, a "Veja" lhe dá mais uma capa, menos de três meses após tê-lo escolhido como imagem principal. É agosto de 89 e a campanha está fervendo. O enfoque, oportuno (oportunista, digamos), é a vantagem de Collor diante dos adversários, que curiosamente não merecem capa da revista.

Há mais capas coloridas...

4.10.06

Jornalismo in memorian - 2

A edição ao lado foi publicada em 17/05/89, pouco mais de um ano após a capa em que Collor é apresentado por "Veja", também na capa e em bela fotografia, como "Caçador de Marajás" (edição que inaugurou nossa série "Jornalismo in memorian").

Agora, o garoto prodígio que encantou o Brasil (com enorme ajuda de jornais, revistas e TV) aparece em uma pose que até dispensaria título. Detalhe importantíssmo: faltam poucos meses para as primeiras eleições diretas após mais de 20 anos de golpe militar, o que esclarece ainda mais a capa da maior revista semanal do País quanto aos propósitos.

Após apresentá-lo como o homem que teria acabado com a mamata nas Alagoas, a revista cria a idéia de que está desvendando suas propostas para o País, como se prestasse um serviço ao leitor-eleitor.

Que serviço, por sinal...

2.10.06

Jornalismo in memorian - 1

A mídia distorce? Está carregando nas tintas aproveitando o dossiê contra tucanos, que seria comprado por petistas, mas cujo conteúdo ninguém sabe, ninguém viu? Pois vamos relembrar aqui algumas manchetes e capas históricas, que jamais devem ser esquecidas.

A primeira, que está ao lado, foi uma capa de "Veja" (certamente essa revista será a vedete da série, por motivos óbvios) de 23/03/1988, ano que antecedeu as primeiras eleições diretas após o regime miliar.

Nessas eleições, lembremos, Collor foi eleito com uma mídia que lhe estendia tapetes vermelhos e foi imprescindível para consolidar sua imagem de "caçador de marajás", por sinal o título da capa de "Veja".

Em breve, outra pérola estará no blog. Deixe seu comentário.

Diálogos hipotéticos

O que Lula diria ao PT após o dossiê e o reflexo nas eleições? E o que Alckmin diria à grande mídia após os holofotes abertos aos escândalos envolvendo petistas? Abaixo, diálogos hipotéticos. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

De Lula para o PT:
"Eu iria chamá-los de companheiros, mas acho que não é o caso,
Para tentar evitar a goleada sobre o companheiro Mercadante, vocês fizeram falta na área bem no finalzinho do jogo e totalmente desnecessária. Aí, o inimigo virou a partida, e em cima de mim, justo eu que não sabia absolutamente nada. Como já disse, vocês são aloprados. Agora, vamos amargar a prorrogação. Lula”

De Alckmin para a mídia:
"Caríssimos amigos Mesquita, Civitta, Marinho e Frias,
Parabéns pela cobertura de vossos jornais sobre os escândalos envolvendo o PT. É de uma mídia assim que o Brasil precisa. Bem fez meu correligionário FHC ao garantir por decreto, antes de deixar o Planalto, o capital estrangeiro de que vocês tanto precisavam. Vocês merecem muito mais. Saudações, Geraldo”

1.10.06

Raridade

Uma voz rara na mídia brasileira, abaixo editorial de Jessyr Bianco, presidente do LIBERAL.

"O que contém o dossiê contra o candidato José Serra?

Os políticos estão de tal forma habituados a mascarar a verdade que acabam acreditando na própria mentira. Quando a Polícia Federal realizou operação de busca no escritório da empresa Lunus, de propriedade de Roseana Sarney e seu marido, flagrando a montanha de notas que somavam R$1,34 milhão, a reação foi irada, mas as explicações, vazias e desastradas. O PFL, de que a filha do poderoso ex-presidente Sarney era figura de relevo na política do Maranhão, considerou a operação uma violência, “um atentado à liberdade” da então senadora e candidata à presidência da República. Ela culpou o presidente FHC (presume-se porque não impediu a diligência, segundo as normas aplicáveis aos detentores do poder). Atribuiu o incidente a uma armação do PSDB, arquitetada por José Serra, então ministro da Saúde de FHC. Qual a finalidade da diligência policial, sob os holofotes da Globo? A resposta oferecida pelo próprio PFL: 'para solapar o prestígio da presidenciável', que já exibia, como atributos, a circunstância de ser mulher, branca e aristocrata.

Para explicar a origem legal da dinheirama, os implicados apresentaram diversas versões: dinheiro de troco para pagamento de empregados avulsos, venda de propriedade, recebimento de créditos escriturados, etc. Se uma versão não convencia, passava-se a outra. Finalmente, após várias explicações rejeitadas sobreveio a definitiva: a montanha de notas era produto de doações para a campanha da candidata. Que nem havia ainda sido indicada pela convenção do partido.

Qual a diferença entre este episódio de nossa recente crônica política e a compra do propalado dossiê contra o candidato a governador José Serra? Praticamente nenhuma. Nem no tocante ao valor, já que o de R$1,34 milhão deve ser corrigido monetariamente desde o ano de 1998.

Em ambos os casos o objetivo era não o de defender o erário, mas destruir candidaturas, mediante a criação de fato político relevante a duas semanas da eleição. Era tão patente esse propósito que as fotos do dinheiro apreendido, que estava sob sigilo e guarda da Polícia Federal, acabaram vazando para a imprensa e estão sendo objeto de ampla divulgação. Para alegria do PSDB, amplamente favorecido pelo episódio desgastante para a imagem do PT e seu candidato.

Jorge Bornhausen (PFL) e Tasso Jereissati (PSDB), em sucessivas entrevistas, repetiram que o povo queria saber de onde viera o dinheiro e quem o disponibilizou para aquisição do dossiê contra José Serra. Pensamos que os eleitores têm a mesma pressa em conhecer o conteúdo do referido documento, principalmente porque se fosse falso ou morno não valeria tanto.

Ninguém tem o direito de violentar a consciência do eleitor, sua vontade, criando notícias de impacto, que podem revelar-se amanhã destituídas de veracidade, mas cujos efeitos deletérios já não possam mais ser anulados.

Políticos não são anjos. Veja-se o escândalo do mensalão, dos sanguessugas, em que estão envolvidos políticos, funcionários e parlamentares de todo os partidos e tendências.

'A política real – escreve o escritor peruano Vargas Llosa – não aquela que se lê, se escreve e se imagina, mas a que se pratica no dia-a-dia, tem pouco a ver com os ideais, os valores da generosidade, da solidariedade e do idealismo. Ela é composta quase exclusivamente de manobras, intrigas, conspirações, pactos, paranóias, traições, e uma dose não negligenciável de cinismo. Porque o que efetivamente mobiliza, excita, e mantém em atividade o político profissional, seja ele de centro, de esquerda ou de direita, é o poder, chegar-se a ele, manter-se nele ou voltar a ocupá-lo o mais depressa possível'.”