27.9.06

Nada é por acaso

Reza o ditado popular que, nessa vida, nada é por acaso.

Na campanha de 1998, FHC era o candidato à reeleição e estava também para vencer no primeiro turno. E ele também passava por turbulência, pois acabava de ser acusado de ter comprado o Congresso (com o nosso dinheiro?) para que deputados aprovassem o projeto de (sua) reeleição.

Nessa vida, nada é por acaso, reza o ditado.

Os jornais, TVs e rádios, em 98 (excetuando uma tímida cobertura da "Folha de S.Paulo"), sequer deram espaço para a denúncia da compra dos deputados. A Globo nem debate quis fazer na época, diferente de hoje, quando põe o editor-chefe do "Jornal Nacional" convocando telespectadores.

Nessa vida, nada é por acaso, reza o ditado.

E neste ano, a mesma "Folha" que noticiou timidamente a compra de votos no Congresso dá como imagem principal da sua capa (edição São Paulo-SP, terça última) uma foto de divulgação, feita pela assessoria de imprensa do PSDB, com nada menos que FHC (o mesmo acusado de arquiteto da compra de votos, em 98) imponente, num palanque.

Nessa vida, nada é por acaso, reza o ditado.

E FHC, que de reza pouco entende - já perdeu uma eleição quando Boris Casoy o sacaneou ao questioná-lo sobre seu ateísmo-, do palanque da foto, usa todos os megafones da mídia para chamar o adversário do seu partido de "demônio". E dá-lhe manchete, em coro, da "Folha" e, mais ainda, de todos os outros jornalões!

Nessa vida, nada é por acaso, reza o ditado.

Muito menos os fatos, quando passam pela mágica da transformação em notícia.

(reprodução da imagem: "The Scream" - "O Grito", de Edvard Munch)

25.9.06

Um país possuído

Agora é FHC que apela para o sobrenatural. Disse nesta segunda-feira que Lula é o demônio.

Logo FHC, que escorregou naquela fatídica pergunta de Boris Casoy, no debate de prefeituráveis paulistanos em 1985, transmitido pela TV. "O senhor acredita em Deus?", questionou Casoy. "O senhor prometeu que não perguntaria isso", respondeu FHC, ateu convicto na época -antes de pedir que esquecêssemos seu passado.

No domingo, Lula já havia recorrido ao além. Falou em Judas, Cristo, traição e companheirismo para tentar justificar a multiplicidade de denúncias que pesam sobre seu partido e respingam em sua imagem.

Em plena reta final da campanha, os líderes maiores dos dois principais grupos políticos brasileiros preferem o transe, para deleite da mídia em plena possessão diabólica.

O Brasil se arrasta na era pré-Renascimento.

(reprodução da imagem: "A Criação do Homem", de Michelangelo, na Capela Sistina)

21.9.06

Pobreza de espécie

Pobre é a espécie que se julga a única capaz e a única digna, num mundo muito mais diverso que sua concepção limitada.

Pobre é a espécie que se autoconclama dona do mistério que a criou, dona da natureza que a supera e dona do futuro que não lhe pertence, num universo tão desconhecido por seus cerebrinhos frágeis.

Pobre é a espécie cujas maiores realizações são montanhas de lixo, dentro das quais coloca até as vidas que não mais servem para satisfazer sua bizarra forma de dominar, dominar, dominar.

A leitora Marili Camargo, com a foto que ilustra este comentário, nos convida a uma certeza: a pobreza jaz na espécie humana e a espécie humana jaz na pobreza. Na pobreza de dignidade.

19.9.06

A geléia é geral

As viúvas virgens estão indignadas, aos berros. Ohhhhhh!!! É crime, é crime, é crime!!! É um escândalo!!! O País está sendo implodido por uma onda de corrupção nunca antes vista!!!

Espantam-se como se tivessem autoridade para atirar da primeira à última pedra em Madalena. Como se fossem o retrato mais fiel da pureza e da ética. Como se seus passados permitissem tais espantos.

Ora, deixe-se de lado a hipocrisia. O dossiê “freudiano” de agora não é novidade alguma na política brasileira. Quando seqüestraram Abílio Diniz, em 89, quem foi colocar uma camisa do PT no acusado de seqüestro, em plena campanha política? Na mesma campanha, quem achou e "conquistou" a mãe da Lurian para a baixaria que mudou o rumo do pleito? Isso não foi crime contra a democracia?

Não, não, não, querido leitor. Isso não é uma defesa de Lula. É uma defesa da verdade factual, utilizando uma expressão do mestre Mino Carta. E a verdade factual é que nem situação nem oposição têm moral para atirar a primeira pedra.

A geléia é geral. E o Brasil precisa de atitudes muito maiores que o exercício da hipocrisia, com vistas apenas ao poder.

(foto SXC)

17.9.06

A fé, a alma e os corpos

"A fé é fruto da alma, não do corpo". Essas palavras fazem parte de um texto do papa Bento 16 que está causando revolta entre islâmicos e até obrigou o Vaticano a reforçar a segurança, após ameaças.

Diz-se que religião não se discute, pois é uma decisão de foro íntimo. Mas, quando a religião interfere diretamente na vida cotidiana e política de uma nação ou de um grupo de nações, deve-se, mais que discutir, agir em defesa da liberdade de se viver dignamente, com ou sem religião.

A utilização da fé como instrumento de dominação está entre os fatores maiores de grande parte das guerras e mortes no mundo. Desde sempre, as religiões são mais capazes de desagregar a humanidade que gerar harmonia. A própria Igreja de Bento 16 matou, nas Cruzadas e na Inquisição, para conquistar poder.

As palavras do papa na distinção de alma e corpo à luz da fé estão cheias de razão. A fé, para quem a tem, deve vir da alma. Não de corpos que fazem guerras ou se enchem de bombas em nome de radicalismos, como faz parte dos islâmicos (parte, ressaltemos). Não de corpos que se fazem torturar em nome de uma discutível purificação (como tanto fez a Igreja do papa) . Não de corpos que suam para enriquecer charlatães que se multiplicam na multimídia milionária de evangélicos, hoje em dia.

O papa se esquece, entretanto, de ter olhos críticos dentro das fronteiras diversas do Cristianismo. Se a fé fosse fruto apenas da alma, certamente deveriam se extinguir -não apenas no Oriente de Alá, mas em grande parte no Ocidente cristão- muitas religiões que agem manipulando corpos. Dos seus próprios fiéis.

14.9.06

Telhado de vidro

O governo boliviano anuncia que vai se apropriar das refinarias da Petrobras naquele país e não pagará nenhuma indenização. Depois, "congela" a ação, o que não significa desistência. Muito pelo contrário: faz tempo que Evo Morales vem espetando o Brasil como se o País fosse seu maior inimigo.

Façamos um cálculo interessante. A Bolívia produz 44 milhões de metros cúbicos de gás por dia, consome apenas 4 milhões e exporta quase 30 milhões para o Brasil. A arrecadação boliviana depende da venda do gás excedente e, se o Brasil parasse repentinamente de comprar, levaria o país de Morales a uma crise aguda.

Até quando, portanto, o governo brasileiro vai suportar, numa passividade bovina, os insultos mais que quixotescos do carnavalesco Evo Morales?

11.9.06

Além dos 111

Quando 111 morreram no Carandiru, em 92, a ação comandada por Ubiratan Guimarães foi até cantada como monstruosa. Caetano chamou-a de chacina, incluindo o fato naquilo que está "fora da nova ordem mundial". Mas os recentes ataques atribuídos ao PCC redesenharam a imagem do coronel algoz dos 111.

Ele voltou às primeiras páginas. Aqui mesmo, no LIBERAL, chegou a dizer que o Estado estava "de joelhos" para o crime. E não deixava de estar correto em sua análise, o que não o isenta de ter cometido um massacre nas celas do presídio que não está mais em São Paulo, e sim bem perto de nós.

De monstro, o coronel virou quase herói. O medo e a revolta da população diante de atos terroristas praticados por fação que se formou dentro das cadeias, concedeu-lhe a absolvição pública e até o tornou, para muitos, exemplo do que teria de ser feito para o problema ser resolvido.

Ubiratan morre numa São Paulo pior do que quando estava na ativa. Talvez justamente porque pessoas como ele comandaram uma polícia tão truculaneta quanto incapaz de conter a criminalidade, que hoje explode. Uma polícia que causa medo em muitos cidadãos de bem, mas é refém dos bandidos de verdade.

7.9.06

Do grito à m...


Nascia um país com a Independência! O grito do Ipiranga e o Brasil dito livre de Portugal, estranhamente graças ao filho da Coroa Portuguesa.

Depois, a República. O dito governo do povo, que até agora de povo teve muito pouco. Muito pouco.

Vieram ditaduras, a última delas com 20 anos de trevas. Tantos sacrificaram a própria vida enfrentando os homens de farda, pela liberdade, pela Independência, pela República, pelo Brasil.

A democracia voltou, mas veio Collor e seus esquemas. Veio Fernando Henrique, a privatização do patrimônio brasileiro cujos dividendos ninguém sabe, ninguém viu e o mensalão da reeleição.

Por fim, veio Lula, enfim o dito governo do povo para o povo. Longe disso. Mais mensalão, sanguessugas e a triste explicação: todos são iguais, todos botam a mão na m... para governar.

Afinal, que dia é hoje, o que fizemos, o que temos de fazer e que m... país é este?

4.9.06

Fios e apitos

Aproveitando a época em que o setor têxtil marcha por permanecer vivo, uma pausa para lembrar a lindíssima letra de Noel Rosa, "Três Apitos".

Que vivam as mentes e mãos que movem os fios. E as mentes e mãos que movem a pena que versa a vida.

"Quando o apito da fábrica de tecidos
Vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você
Mas você anda sem dúvida bem zangada
Ou está interessada em fingir que não me vê
Você que atende ao apito de uma chaminé de barro
Por que não atende ao grito tão aflito
Da buzina do meu carro?
Você no inverno sem meias vai pro trabalho
Não faz fé em agasalho nem no frio você crê
Você é mesmo artigo que não se imita
Quando a fábrica apita faz reclame de você
Nos meus olhos você lê como eu sofro cruelmente
Com ciúmes do gerente impertinente
Que dá ordens à você
Sou do sereno, poeta muito soturno
Vou virar guarda-noturno e você sabe por quê
Mas você não sabe que enquanto você faz pano
Faço junto do piano esses versos pra você"
(Noel Rosa)

1.9.06

Enquete micológica

Quem você mandaria para ficar 15 anos na ilha do chimpanzé?