31.8.06

A ilha. Só

Nesta foto, o habitante da ilha que tanto intrigava visitantes do Parque com seu olhar triste de abandono estava escondido.

Talvez escondido do público, já que ele não deveria se sentir bem como algo para mera exposição.

Talvez escondido da própria solidão, num cárcere em rodeado de água, em vez de grades.

Em breve, a ilha estará vazia, de fato. Para alívio dos que enxergavam ali não uma cena a ser contemplada, mas uma vida a ser respeitada.

Foram 15 anos. Que seja, a partir de agora, passado. Mas também esperança de futuro melhor.

30.8.06

Ruína. Só ruína

A frase de Caetano, mais uma vez, se encaixa perfeitamente: “Aqui, tudo parece que é ainda construção e já é ruína”.

O que era bom pode virar problema. O que era esperança de que pode haver uma luz no fim do túnel do sistema carcerário pode virar cadeião, superlotação, rebelião.

O Estado informa que acabará com parceria fundamental para manter as pilastras da ressocialização do CR de Sumaré. Então, o que era exemplo será apenas uma cadeia comum, como todas as outras, com os problemas de todas as outras.

E assim caminha um país onde o fracasso é uma opção de vida. Muitas vezes motivo de orgulho por parte dos governantes.

26.8.06

A vingança do eleitor

Duas pesquisas eleitorais divulgadas nesta semana, uma sobre a corrida presidencial e outra para o governo do Estado de São Paulo, mostram um fenômeno interessantíssimo. Pela primeira vez desde a redemocratização do Brasil, o eleitor dá sinal de que se cansou, definitivamente, do horário eleitoral gratuito.

O quadro para a Presidência da República se mantém, com leve alta de Lula e leve baixa de Alckmin, mesmo considerando-se que o presidente é o natural alvo maior dos ataques na propaganda política. Em São Paulo, Serra lidera com folga, apesar das críticas da oposição na TV e no rádio.

Ou seja, a menos que uma bomba lance cacos para as salas dos brasileiros, ao que parece o horário eleitoral em nada influenciará na decisão dos eleitores. E o motivo é mais que claro: todos cansamos de ver e ouvir as mais aberrantes mentiras criadas pelo marketing político, este o grande responsável por deturpar o espaço que deveria ser das discussões.

É um deboche Alckmin defender a queda de impostos sendo que disseminou pedágios por São Paulo. Ou Lula dizer que o SUS é modelo para o mundo num país onde pacientes morrem em filas de hospitais. Ou ainda Heloísa Helena despejar seu cesto de palavrões sobre as cabeças dos pobres eleitores.

Pois, então, os eleitores respondem. Desligam a TV, mudam para um canal pago ou sequer prestam a atenção. É a democracia, cara pálida. Todos têm o direito de falar, mas não a garantia de que serão ouvidos e seguidos.

25.8.06

O bicho sofre, sim

O que já era perceptível aos visitantes minimamente sensíveis ficou evidente: o chimpanzé do Parque Ecológico de Americana não vive bem confinado num espaço limitado, solitário e exposto à observação pública.

Quem confirma isso é uma especialista totalmente independente, que nem faz parte do santuário que quer o animal em Sorocaba, nem da Prefeitura de Americana, que tem o animal.

A inspeção da bióloga que há dez anos trabalha com primatas não só mostra irregularidades no Parque Ecológico, como escancara a teimosia da Administração, que tentou até ventilar a idéia de que o Santuário de Sorocaba não era idôneo, numa aparente tentativa de desviar atenções.

Pois as atenções novamente se voltam para o pobre bicho. E uma posição do sr. prefeito, que não seja simplista como a de que “o chimpanzé está assim há 15 anos e é uma grande atração ao público”, se faz necessária.

20.8.06

A lei e a barbárie

O Brasil gosta de leis avançadas.

Um criminoso tem mais direito de se defender aqui que em qualquer outra parte do mundo. Tem tanto direito que é condenado e muitas vezes sai da cadeia após cumprir um terço da pena. Isso quando vai para a cadeia. Pimenta Neves, por exemplo, foi condenado por matar sua ex-namorada e está em liberdade, exercendo o direito de recorrer (de um julgamento!) fora das celas.

A lei brasileira também é avançada em relação às crianças e aos adolescentes. Prevêem-se todo tipo de proteção da sociedade para com seus menores de idade. Por exemplo, eles precisam de educação, precisam se formar e aprender, e não podem, em hipóse alguma, trabalhar. Que avanço!

Pena que, na prática, só valha a parte proibitiva da lei, ou seja, o menor não pode ganhar mais aquele troquinho empacotando compras nos supermercados. O motivo maior da legislação, de tirar o jovem do trabalho para educá-lo de forma eficiente, ficou apenas no papel. Pior: nem existe boa educação, tampouco esse menor consegue sobreviver sem poder trabalhar.

O que acontece, então? O Estado paralelo, do crime organizado que se mantém no lucrativo mercado do tráfico de drogas, está arrebanhando esses menores para trabalhar na venda de entorpecentes. E muitos adolescentes, obedecendo à lei que os proíbe do trabalho (e como vítimas da vida prática, que não lhes dá nada em troca), caminham para a escola da criminalidade, esta sim, promissora.

Não bastam leis avançadas. O Brasil precisa sair do papel e encarar a realidade cruel, que ainda rasteja na barbárie.

Vegetarianismo

Na última sexta-feira, a rádio VOCÊ (AM-580) fez um programa sobre o vegetarianismo e ouviu, além de vegetarianos, uma nutricionista que orientou sobre essa opção de vida, totalmente possível de se ter, mas que ainda gera muita polêmica. Nascemos numa sociedade carnívora, o Brasil é um enorme produtor de carne bovina, suína ou de aves e nadar contra essa corrente sempre levanta preconceitos e discussões acaloradas.

Mas, há muitos argumentos pró-vegetarianismo. Começando pela qualidade de vida, tanto na questão da saúde (há vantagens para o organismo privado da digestão da carne) quanto na própria alimentação. Hoje, é possível ter uma dieta vegetariana saborosa e que não deve nada para a dieta carnívora, desde que se tenha criatividade em explorar o sabor dos vegetais.

Há ainda o forte argumento ambiental. Um exemplo está no site "almavegeriana". Diz-se ali que "Mais de 260 milhões de acres da floresta americana têm sido destruídos para plantar alimentos para vacas, porcos e outros animais de abate. As florestas tropicais também têm sido destruídas para criar pasto para gado: 17m2 de floresta são destruídos para produzir apenas 120g de hambúrguer. Você sabia que um vegetariano salva um acre de árvores todo ano?”.

Ou seja, se as terras agricultáveis fossem usados apenas para plantar alimentos para os humanos em vez das pastagens, haveria muito mais produção e se resolveria até o problema da fome. Além disso, o consumo de água (um bem cada vez mais escasso) é muito maior na produção da carne para alimento do que do vegetal.

Mas, claro que há argumentos pró-carne e são velhos conhecidos da sociedade. Vamos, portanto, levantar o debate neste blog para também abastecer uma matéria completa no caderno Saúde do LIBERAL da próxima quarta. Aqui, o espaço está aberto para a sua opinião, tanto a favor quanto contra o vegetarianismo.

NÃO COMO CARNE PORQUE _____________________________

COMO CARNE PORQUE___________________________________

Abaixo, você pode deixar seu comentário. Peço que se identifique com nome completo.

19.8.06

Fora dos trilhos

Por que não se constróem e se utilizam ferrovias, evitando acidentes automobilísticos, diminuindo o preço do transporte e desafogando as estradas? Por que não se viabilizam e se utilizam hidrovias, evitando acidentes automobilíticos, diminuindo o preço do transporte e desafogando as estradas?

( ) Porque as montadoras não deixam
( ) Porque as empreiteiras não deixam
( ) Porque é mais difícil cobrar pedágio de trem e navio
( ) Pelo mesmo saudosismo que trouxe de volta "Carga Pesada"
( ) NDA

18.8.06

Autofagia policial

Se todas as notícias já eram desfavoráveis para a segurança pública no Estado de São Paulo –e também na região-, a manchete do jornal O LIBERAL desta sexta alerta para um fato que, não fosse trágico, seria cômico.

Revela a reportagem que guardas municipais e policiais militares de Americana bateram boca, exaltados, disputando a autoria de uma ocorrência.

A Gama queria para ela os louros da prisão de um acusado de tráfico. A PM não concordava, dizia que o feito era dos policiais militares. E, no meio da briga, estamos nós, que pagamos impostos para ambas que, enquanto poderiam estar nos defendendo, brigam entre si.

O fato é apenas uma pontinha de um enorme iceberg. Por mais que comandantes de polícia e diretores de guardas digam que há união nos trabalhos das guardas com o da PM, o fato é que se está muito longe do ideal.

E o resultado é um só: unidos em facção poderosa, os bandidos se mostram bem mais organizados.

16.8.06

O crime compensa

A Justiça de São Paulo considera inconstitucional o fato de o homem considerado líder máximo do crime organizado no Estado estar preso no Regime Disciplinar Diferenciado.

Os desembargadores do Tribunal de Justiça decidiram, por unanimidade, que ele deve sair do tal regime, que é bem mais rígido que a detenção comum, e voltar para celas mais amenas, mais humanas.

Trocando em miúdos, a Justiça paulista está mandando melhorar as condições carcerárias do temível Marcola, acusado de ser o mandante de três ondas de ataques que destruíram, mataram e aterrorizaram tanto a Capital como praticamente todo o Interior.

Seria cômico se não fosse o mais fiel e trágico retrato do abismo que separa o Brasil das leis do Brasil real. O Brasil que prevê tantos direitos a quem pratica crimes, mas finge que não vê o abandono dos que trabalham honestamente para sobreviver.

Com tal atitude, os magistrados reforçam a idéia de que o crime compensa num país que se preocupa com o bem-estar de bandidos enquanto desdenha o caráter.

15.8.06

Globalização à paulista

Tiros são dados contra bases policiais. Ônibus são queimados. O comércio fecha com medo dos criminosos.

E São Paulo ficou igual ao Rio.

Um jornalista é seqüestrado para que a emissora em que ele trabalha, a maior do País, divulgue um vídeo feito por criminosos. A emissora obedece, e divulga.

E São Paulo ficou igual à Colômbia.

Um homem é obrigado, também por criminosos, a invadir em departamento policial. Em seu corpo, estão afixados explosivos, que o transformam em um homem-bomba.

E São Paulo ficou igual a Bagdá.

Hoje, começa o horário eleitoral gratuito. Os políticos vão prometer, prometer, prometer.

E São Paulo, junto com todo o Brasil, ficará igual a um grande circo, um espetáculo de ilusionismo que traz para bem perto de nós a guerrilha da Colômbia, as bombas do Oriente Médio e tudo de pior que há no mundo.

Mas não nos leva a lugar algum.

13.8.06

Quem comanda

A maior emissora de TV do País é obrigada a vincular um vídeo contendo mensagem de uma facção criminosa. E obedece, porque, senão, dois de seus profissionais certamente seriam mortos.

Em plena onda de ataques, o Estado libera 11 mil detentos para o indulto do Dia dos Pais. Senão, poderia ser pior, porque, mesmo presos, os líderes da facção conseguem matar, incendiar e explodir pelas ruas.

O mesmo Estado -que, ironicamente, é o de melhor infra-estrutura do País-, para terminar a primeira onda de atentados, teve de negociar com o chefe da facção.

Quem é mesmo que está no comando?

12.8.06

Você devolveria?

Você devolveria os quatrocentos e tantos mil reais que crianças encontraram em casa abandonada no Rio Grande do Norte? Sim? Mesmo sabendo que é dinheiro de banco, a instituição que mais lucra, arrancando até um pedacinho do couro de seus clientes com juros imorais? Não? Mesmo sabendo que ficar com dinheiro alheio (independente de quem seja esse "alheio") é crime e, antes disso, desonestidade?

Eis a encruzilhada em que o Brasil se encontra. Aqui, ser honesto muitas vezes é parecer idiota, já que os desonestos prosperam, impunes. Só que, sem um choque de honestidade, o País continuará patinando num lodaçal sem futuro e não será nada além de um belo território povoado por pequenos ou grandes aproveitadores, que levam vantagem roubando ou tostão, ou milhão.

Mais uma semana termina com ações criminosas reinando sobre a ordem pública. Pior, mesmo após os ataques -comandados por facções criadas e mantidas dentro de presídios-, só na região 1.300 presos foram soltos no indulto do Dia dos Pais. Em todo o Estado, são 11 mil libertados, mesmo sabendo-se que um exército de soldados do crime pode realizar novos -e piores- ataques.

Para explicar o indulto, recorre-se ao Estado de direitos. Os presos têm direito de sair temporariamente para se acostumarem novamente com a vida em sociedade. Essa premissa, interessante talvez para a Suíça, soa como um escárnio aos paulistas de bem, que não praticaram nenhum tipo de crime e até devolveriam os quatrocentos mil reais citados acima, mas não têm direito à segurança e não podem, portanto, sequer sair às ruas tranqüilamente.

Já os presos, podem. Mais que isso, devem. Porque a lei -a mesma que mantém solto o assassino condenado Pimenta Neves e pode atenuar em muito a pena da assassina também condenada Suzane Richthofen- manda. Porque a lei está velha, foi feita numa época em que muitos dos presos eram presos políticos, detidos injustamente por uma cruel ditadura. A lei é caquética para os dias de hoje, quando os presos são ladrões, assassinos, estupradores.

E quem faz as leis? Ou melhor, quem poderia mudá-las? Ora, os deputados e senadores, entre os quais os mensaleiros, os sanguessugas, os anões do orçamento.

E aí? Você devolveria o dinheiro? Ou entraria no transatlântico da desonestidade, que ruma em velocidade de cruzeiro para o abismo? Opine, postando seu comentário abaixo.

11.8.06

O Brasil é incrível

O Brasil é mesmo um país incrível.

Em plena guerra civil declarada por facções criminosas que nasceram e atuam nos presídios, 11 mil detentos estão sendo liberados para o indulto de Dia dos Pais no Estado de São Paulo.

Só na região de Americana, nada menos que 1.300 presos já estão soltos desde ontem, revela o jornal O LIBERAL desta sexta-feira.

E a explicação é que tais detentos têm o “direito” a essa liberdade temporária, porque isso é importante para sua ressocialização.

É uma justificativa que talvez coubesse em um conto de fadas, nunca num Estado que acaba de sofrer mais de cem ataques criminosos somente nos últimos dias. E nunca num sistema prisional que, em vez de ressocializar, transforma ladrões de galinha em líderes de facção.

Mas, apesar de tudo isso, é preciso respeitar o direito dos presos. Eles precisam de liberdade, precisam ver o sol além das grades. Mesmo sabendo-se que um exército comandado pelo crime organizado pode estar ganhando as ruas neste final de semana. Ferindo o direito de ir e vir do cidadão de bem.

É incrível um país que, antes de olhar para os honestos, se preocupa tanto em agradar os criminosos.

8.8.06

Estamos em guerra

Na Capital, bomba no Ministério Público, granada em túnel sempre abarrotado de carros. Na região, fogo na Câmara Municipal de Sumaré; pedras na de Nova Odessa. Em todo o Estado, o domínio absoluto do crime (ou do vandalismo, em alguns casos) sobre a civilização.

Estamos em guerra. Sim, leitor, guerra. Tal qual ocorre no Iraque. Tal qual ocorre no Líbano. Não uma guerra movida por dogmas religiosos ou interesses internacionais. Uma guerra civil, detonada pela falência do sistema carcerário, pela insuficiência das forças policiais e pela gritante desigualdade social.

O sistema explodiu. Essa é a verdade. O Estado que sempre se gabou dos melhores presídios foi negligente ao misturar o ladrão de galinha com o líder do PCC. A polícia que sempre se achou a melhor do País hoje sequer consegue proteger as suas próprias bases. E a elite (econômica e política) que sempre preferiu se esconder em palácios ou condomínios fechados a fazer algo por um Brasil menos desigual hoje vê que não há mais segurança, em lugar algum.

A culpa é de todos. De todos que ajudaram a construir um País de mentira. Não adianta estufar o peito e criticar o governador ou o presidente da República. Eles são parte do problema. A outra parte é toda a sociedade, refém da própria incapacidade de agir, por ignorância, ou por medo, ou por comodismo, ou por individualismo, ou por má-fé.

Só vai mudar quando não só os governantes mudarem, mas quando todos mudarmos. Mudarmos a forma de encarar a vida em sociedade. Aprendermos a agir -e reagir- em sociedade. A cobrar direitos e, antes disso, a executar deveres.

Estamos em guerra. Chegou a hora de mostrarmos se queremos a civilização ou a barbárie.

7.8.06

Até quando?

Até quando, comando da polícia?

Até quando, governador?

Até quando, presidente?

Até quando, população?

Até quando, todos nós?

Até quando a polícia será incapaz de controlar pessoas que já estão presas?

Até quando os governantes pensarão, primeiro, em si próprios; segundo, em si próprios; terceiro, em si próprios?

Até quando a população de bem ficará refém da violência?

Até quando assistiremos, passivos, à guerra civil dominando um estado que tanto nos cobra de impostos, mas apenas nos devolve medo?

Até quando a maioria honesta ficará calada diante da bandidagem que deita e rola de norte a sul deste Brasil?

Até quando falaremos do horror no Iraque, no Líbano, cegos para o fato de Bagdá ou Beirute serem logo ali? Ou, melhor, bem aqui.

3.8.06

Nós e os bichos

Pode parecer assustador o fato de 99,4% do DNA de um chimpanzé ser absolutamente idêntico ao nosso. Mas mais assustador não é o que nos aproxima dos outros animais. É o que nos afasta deles.

Pertencemos a uma espécie arrogante e sádica. Nossa cultura nos ensina, desde pequenos, a contemplar o sofrimento dos “outros”, dos outros seres vivos, entre os quais, muitas vezes, até os humanos.

Por um estranho prazer contemplativo, prendem-se bichos em cubículos à exposição. Para os humanos preencherem o vazio de seus domingos fitando os olhos entristecidos dos “exóticos” seres encarcerados.

Por uma covarde demonstração de força e domínio, pelas ruas chicoteiam-se cavalos, chutam-se cachorros, atiram-se pedras em pardais.

Tudo, talvez, para tentar esconder que 99,4% dos nossos genes são idênticos aos do símio enjaulado na solidão, no Parque Ecológico de Americana. Para tentar esconder que somos frutos do mesmo mistério, co-habitantes da mesma esfera azul onde habitam o símio, o cavalo, o cão.

Tentamos subir um degrau acima da natureza. Mas não podemos, porque ela é maior que nós, não o contrário. Mas nós a negamos, queremos ser mais, queremos ser donos, queremos ser supremos.

Concretamos o chão, mas não só ele. Petrificamo-nos diante da nossa própria essência. E nosso olhar é tão triste quanto o do símio enjaulado. Ele, por não poder viver bem. Nós, por não permitirmos. Nem a ele, nem a nós mesmos.

2.8.06

O que há com os PSs?

A mãe diz que a criança ardia em febre, estava “mole”, mas o médico mandou voltar para casa, dizendo se tratar apenas de uma gripe. A própria mãe teria perguntado se não era necessária a internação, negada pelo médico. No dia seguinte, a constatação: a criança estava com meningite e foi internada às pressas, já em situação quase irreversível. Ontem, a morte.

O caso aconteceu com usuário de convênio médico pago, modelo considerado muito superior à saúde pública, sempre abarrotada. Mas o problema não parece ser exclusividade dos hospitais públicos, tampouco um caso isolado em um convênio particular. Trata-se, ao que parece, de um erro crônico da saúde em geral: as falhas constantes nos pronto-atendimentos ou pronto-socorros, como são mais conhecidos.

Certamente, o leitor, algum parente seu ou conhecido já precisou recorrer aos plantões médicos. Pergunta-se: foi bem atendido?; foi examinado de forma minuciosa para um diagnóstico preciso?; recebeu do profissional a atenção necessária para que soubesse, realmente, o que se passava com seu organismo?

Até há respostas positivas para as perguntas acima, mas certamente as negativas superam. Isso porque, em geral, os hospitais públicos ou convênios reservam aos seus plantões profissionais menos experientes, incorrendo em um erro que pode ser fatal. O primeiro atendimento e o correto direcionamento do doente, dependendo do caso, são sinônimos da sua sobrevivência.

Mas, por economia, talvez, prefere-se optar pelo risco –do paciente, claro. E denúncias de erros médicos vão se multiplicando. É o diagnóstico de “gripezinha” que na verdade era meningite; outro de “dorzinha de cabeça” que na verdade era traumatismo craniano; ou ainda de “apenas uma pancada no joelho”, que na verdade era fratura de rótula.

Detalhe importante, leitor: todos os casos relatados no parágrafo anterior são reais e ocorreram tanto na saúde pública quanto na privada. Não servem para estatísticas, mas são casos verídicos, envolveram vidas, vidas como a do garotinho de apenas um ano e oito meses que se foi. Parecem ser um sinal de que está na hora de se olhar mais para as portas de entrada da saúde. E não só dos sempre criticados hospitais públicos.

1.8.06

Vitória do mosquito

O ano passado foi tido como exemplar no combate à dengue. Não apenas na região, mas em todo o Estado. Sinal de vitória do poder público e também da sociedade.

Mas este ano já tem uma epidemia da doença, com 150 casos registrados na região até esta terça-feira, 1º de agosto. Sinal de uma tremenda derrota, tanto do Estado quanto da sociedade.

O mosquito, um mísero mosquito, virou o jogo e venceu a todos. Venceu a saúde pública, que está sendo incapaz de conter o avanço da doença; venceu a população, que também se mostra incapaz de um gesto tão simples: apenas evitar água parada.

O avanço da dengue é assustador. Mais que ele, assusta a vulnerabilidade que se escancarou entre nós, de um ano para outro.