29.6.06

Show é vencer?

A frase de Parreira ecoa de norte a sul deste enorme e desajeitado Brasil, um país que se dá ao luxo de jorrar a especuladores mais de R$ 100 bilhões em juros anualmente, mas que mantém a fome em muitas de suas esquinas.

O importante é vencer, diz Parreira. Mesmo não jogando nada, mesmo fazendo feio. A publicidade vai na onda: mesmo que seja como naquela propaganda de cerveja em que os adversários escorregam no estádio e se arrebentam, enquanto que, para que façamos gol, até as traves mudam de lugar.

A idéia não é nova. Curiosamente, foi consagrada também no meio futebolístico, lá na década de 70, quando Gérson “inventou” a lei da vantagem, defendendo que o importante é levar vantagem em tudo. A ética, ora para quê a ética?

Parreira modernizou a idéia, na era do "business", em que somos programados para os resultados. Agora, show é o resultado, portanto vale o toque de bola de repartição pública viciada, desde que o placar termine do nosso lado.

Trazendo a idéia para a vida além dos limites do gramado, nota-se que importante é vencer também no emprego, na promoção a qualquer custo, ao jogar a culpa no colega e escapar ileso, na escapada da multa de trânsito, nos tantos meios de suborno "simpático", na furada de fila etc etc etc. Mesmo que fazendo feio, pisando nos outros, pensando apenas em si próprio, não tendo nenhum ideal coletivo, de cidade, de Estado, de nação, de civilização.

Esse ainda é o Brasil. Desde Gérson, passando por Parreira. Desde sempre. Mas até quando?

28.6.06

Esperada revanche

Parreira não quer falar nisso, mas a palavra vai ganhando espaço: uma revanche. O Brasil enfrenta a França no próximo sábado ainda com o gosto amargo da final da Copa de 98, quando o time do craque Zidane acabou com a festa verde-amarela.

E foi justamente Zidane, o craque francês eleito por três vezes o melhor jogador do mundo, que brilhou ontem contra a Espanha, fechando a partida com um golaço após a virada francesa sobre a “fúria”, vencendo por 3 a 1.

O Brasil também fez 3 contra Gana, na vitória por 3 a 0, mas mostrou um futebol inferior ao apresentado contra o Japão, enquanto a França apresentou uma ascensão impressionante após quase derrapar já na primeira fase.

O time que Parreira escalou ontem, o mesmo do primeiro jogo da Copa, mostrou os mesmos defeitos. Futebol sem brilho, um burocrático toque de bola no campo de defesa e um sufoco que só não foi pior porque os jogadores de Gana finalizavam com muitos chutões para o alto. No finalzinho, com os reservas, o Brasil evoluiu, mas já com o adversário arrasado.

Quando Brasil e França pisarem o gramado de Frankurt no próximo sábado, não haverá como “passar batido” pela lembrança daquela tarde de domingo, 12 de julho de 1998, quando todos os mistérios pairavam sobre Ronaldo, fora do jogo –e fora da lógica do torcedor, que o queria correndo e fazendo gols.

O “gordo” que começou criticado nesta Copa e já calou muitos críticos que o queriam fora do time poderá também, após oito anos, calar a França. É o que o Brasil inteiro quer. Revanche, portanto. Uma esperada revanche.

27.6.06

Bagaços

A mão destruidora do homem consegue esmagar o planeta como uma frágil laranja, da qual cada vez mais vai sobrando o bagaço. O bagaço da vida, o bagaço da esperança, o bagaço da existência e da coexistência.

Hoje, as maiores vítimas são animais indefesos diante da “inteligência” humana. Amanhã, seremos nós mesmos a pagar certamente com nossas vidas pela ganância arrogante típica da humanidade.

E não se entenda por amanhã um tempo muito longe. Os bagaços já estão evidentes. Quem duvida que respire fundo para sentir o bagaço que vai sobrando do nosso ar; que vá até o rio ou ribeirão mais próximo para ver o bagaço que sobra dos mananciais; que olhe à sua volta para constatar o bagaço que resta do nosso planeta, tomado pelo comportamento consumista, individualista, materialista.

Com grandes destruidores como George Walker Bush (eleito pela indústria do petróleo e das bombas) ou com os menores deles, como alguém que jogou uma “bituca” de cigarro num mato seco, o mundo arde em direção às cinzas.

E, a cada ação de monstros como Bush ou de anônimos “inconscientes”, queima-se a esperança, queima-se a vida, vence o bagaço. O bagaço que não está apenas no que se vê, mas no íntimo coletivo de uma raça predadora que acabará presa de si própria.

26.6.06

Prá frente, Brasil!

As Prefeituras de Americana, Sumaré e Nova Odessa decidiram encerrar o expediente desta terça-feira às onze da manhã. O motivo: o jogo do Brasil, que acontece ao meio-dia.

Os Executivos estarão fechados e os servidores estarão liberados para ficarem em casa não apenas das 11 às 14 horas, tempo da partida, mas também das 14 às 17 horas.

Excetuando o horário do jogo, em que boa parte dos trabalhadores brasileiros terá direito de assistir à partida, o poder público está dando um bônus de três horas de folga aos seus funcionários. Suficiente não apenas para o jogo, mas também para uma bela comemoração, caso o Brasil vença.

Nesse período, a população estará sem atendimento e os Paços, inoperantes. Somado às muitas vezes em que se “emendam” feriados prolongados de quinta e terça-feiras, temos um belo exemplo do poder público para com a sociedade.

Um exemplo de que, na menor brecha possível, a regra é deixar o trabalho para segundo plano e "ir pra galera". Afinal, somos o país do samba, do jeitinho. E do futebol.

Prá frente, Brasil!

25.6.06

O "pai" e os órfãos

Lula, enfim, resolveu admitir que é candidato à reeleição, fato mais que evidente há muitos meses -para não dizer anos. E o seu discurso colocou mais terra na já sepultada esperança sobre a eleição do operário de esquerda à presidência de um país comandado pelas mesmas elites, desde a colonização.

Lula se disse "pai dos pobres" e afirmou aceitar a condição de candidato atendendo ao "chamamento" popular. Palavras populistas que fazem lembrar tantos outros candidatos e presidentes, membros da elite que Lula já criticou com vigor, mas hoje a serve cordialmente.

Lembremos que o auto-intitulado "pai dos pobres" deu de bandeja para a ciranda finaceira, só no ano passado, nada menos que R$ 120 bilhões. Cento e vinte bilhões de reais retirados dos impostos de quem sua a camisa para pagá-los, de quem conta e reconta as notas para já prever quanto vai faltar no final do mês. E Lula jogou esse dinheiro aos banqueiros e especuladores, mantendo juros nas alturas, freando a produção industrial e, conseqüentemente, a geração de empregos (de novo, afetando os pobres que diz ser seus "filhos").

Lembremos também que a política-econômica implantada pelo antecessor, FHC (um legítimo representante das elites que Lula chamava de "neoliberal") foi mantida em gênero, número e grau pelo governo petista, privilegiando os sempre privilegiados. O que Lula fez de diferente foi (além da interrupção das pornográficas privatizações) a intensificação de programas sociais que levaram "esmolas" aos pobres. Importantes, sim, mas não suficientes, porque o modelo "macro" continuou concentrando renda nas mãos dos mesmos.

Lula quer que acreditemos que seu governo privilegiou os mais pobres e a distribuição de riquezas. Ele teve, sim, talvez a maior de todas as chances de um presidente para fazer isso. Tinha apoio maciço da população, pois foi eleito justamente com a expectativa de mudança. Mas, jogou fora essa oportunidade de ouro.

E o Brasil continua, desde as Capitanias Hereditárias, sendo um país injusto, de brasileiros pobres. E órfãos.

22.6.06

Varig, Varig e mais Varig

Tudo bem que a Varig fez história no Brasil, é uma marca que deu orgulho a quem aprecia ver uma empresa emprestar a boa imagem ao seu país de origem. Mas a Varig fracassou, e esse é o fato.

Como qualquer empresa que cresce, triunfa e morre, a Varig está no início da terceira fase, numa agonia lamentada por tantas folhas de jornal que vão além da objetividade jornalística e mergulham num quase dramalhão.

São fotos e mais fotos de aviões parados nos aeroportos, com o close no símbolo da companhia aérea. Não apenas isso. São imagens antigas, ainda em branco e preto, de quando a Varig era sinônimo de excelência rasgando os céus. Mais: são articulistas defendendo que o governo injete dinheiro na Varig para que se evite sua morte.

Ora, mas que injustiça com as tantas outras empresas que não estão na mídia, mas que precisam seguir a cruel lei do mercado, na qual quem é competitivo sobrevive e quem não consegue, morre.

Que injustiça com os tantos trabalhadores que precisam enfrentar a lei do mercado, com a obrigação paradoxal de ser jovem e, ao mesmo tempo, experiente; falar duas ou três línguas; ter inúmeros diplomas de cursos e ao mesmo tempo ter passado por muitas empresas, outro paradoxo.

Por que as folhas da imprensa não choram pelos milhões de brasileiros que precisam enfrentar esse tenebroso cenário que, para piorar, tem uma relação candidato/vaga crudelíssima?

A Varig no mercado aéreo é muito pouco comparada aos brasileiros no mercado de trabalho. Estes, sim, deveriam estar nas primeiras páginas e, principalmente, nas grandes lutas da mídia. Porque são o retrato de um país injusto. Com ou sem a Varig.

20.6.06

Tá ruim, não tá bom

Precisamos acabar de vez com a síndrome do "tá ruim, mas tá bom", que fica clara nesta Copa do Mundo ainda sem Ronaldos, sem futebol e com a chatice da atuação "de resultados" (que por sorte esteve do nosso lado após os dois primeiros jogos).

A situação não deixa retratar o que somos, um País acomodado a suportar o que não deveria ser tolerado. Nossa seleção tem o melhor jogador do mundo, eleito não apenas uma vez mas que, até agora, sequer jogou futebol. Tem o "fenômeno" que, de fenomenal, ainda não mostrou nada além da apatia. Tem um time de estrelas que brilha muito mais no futebol europeu do que quando veste a camisa verde-amarela.

Mas, mesmo assim, após quase apanhar da Croácia e da Austrália, a mídia em geral, em vez de noticiar, torce. Desvia-se de sua função de informar com isenção, de apresentar interpretações variadas e deixar ao público a conclusão. Aceita a condição do "tá ruim, mas tá bom", e a reproduz a milhões de espectadores.

Está na hora de acabar com isso. Não precisamos aceitar jogadores milionários fazendo burocracia no gramado, dando-se ao direito de ainda não terem pego "ritmo de jogo" (ora, eles passam a vida treinando isso, ganham fortunas para isso).

Da mesma forma, não podemos aceitar o "tá ruim, mas tá bom" na economia dos juros pornográficos, na política dos mensalões, na sociedade do abismo estúpido entre milionários e miseráveis. Não podemos consolidar o famoso "jeitinho" que sempre nos vestiu de estereótipo –e, pior, com um fundo de verdade.

Basta de desculpas que "expliquem" o até então fracasso da melhor seleção que o mundo todo esperava, ou desculpas que nos levem a outro caminho que não o de uma nação de verdade, para a qual há potencial inegável.

Basta de vender a imagem de que aqui se conseguem as coisas por outros meios que não o da honestidade, da capacidade. Imagem como uma ridícula propagada de cerveja que faz uma ode à indecência, pregando a vitória conquistada com o "pelado" em campo ou com algo que faça o adversário deslizar e se arrebentar, que mude a trave de lugar, enfim, que traga vitórias não merecidas e ações lastimáveis.

Chega de pensar pequeno. Chega de idéias medíocres. É preciso exigir que este País seja de fato um País, um grande País. E isso só depende de nós. Começando pelo nossos mais íntimos pensamentos.

17.6.06

Paulicéia

São Paulo não pode parar, mas é cidade de todas as paradas. A Parada Gay, que reuniu mais de milhão; a parada de Jesus, que reuniu também mais de milhão.

Em apenas três dias, entre quinta e sábado, a artéria principal da cidade foi tomada pelos comportados evangélicos e pela badalação do público “GLS”. Dois mega-eventos, duas cidades diferentes pisando o mesmo chão, habitando o mesmo espaço, múltiplo, cosmopolita.

Na frieza de seu concreto e de sua indiferença para com seus filhos ou seus tantos errantes, São Paulo se mostra acolhedora. Porque respeita a todos ao não julgá-los; acolhe a todos ao abrir suas avenidas; ensina com sua dura realidade.

Em "Paulicéia Desvairada", Mário de Andrade, o gênio do movimento modernista dos anos 20, a chama de "costureirinha". Hoje, talvez fosse melhor dizer um potente tear, mas com a mesma arte de costurar diferenças, num caldeirão admirável. É São Paulo, uma escola de vida. Do pior, mas também do melhor.

16.6.06

Os fenômenos


Ronaldo está gordo? Ronaldo tem bolhas? Ronaldo tem febre? Ronaldo tem estresse? Ronaldo tem dor de cabeça? Ronaldo deve jogar? O assunto de um País de dimensões continentais pouco foge a essas interrogações, como se fossem elas vitais para nossa sobrevivência.

Da conversa do boteco às folhas da imprensa (que não deixam de ser um retrato, com vícios e virtudes, da sociedade que buscam informar), só se fala no jogador da seleção brasileira. E o jogador desabafa: "Ninguém merece tanta pressão".

Ele até pode estar certo, mas sabe há muito tempo que seu papel como "fenômeno" da bola diante de um país que almoça e janta futebol não seria outro. Ademais, é muito bem pago para isso.

O que intriga não é isso. Países muito mais desenvolvidos socialmente que o Brasil adoram futebol e são tão fanáticos quanto nós quando o juiz apita e começa o jogo. O problema é que aqui parece que pouca coisa além do futebol consegue inspirar o brasileiro a se informar e se preocupar com tanta vontade.

O mensalão de Lula já está esquecido, acaba de apontar pesquisa do Ibope que mostra o presidente com a mesma aprovação da opinião pública vista antes das denúncias. O presidente está com todas as chances de ser reeleito já no primeiro turno.

Não que a oposição mereça mais crédito, já que o concorrente Alckmin é acusado de dar seu "mensalão" a órgãos de imprensa do Interior para lhe cortejar (e elogios não são difíceis de se ver nas páginas de muitos jornais em relação ao tucano). FHC, o cacique de Alckmin, também é acusado de bancar deputados para aprovarem o maior feito do seu governo: uma lei que beneficiasse a si próprio, permitindo sua reeleição. Mas isso não tira os "pecados" de Lula, mesmo ele dizendo que nada sabia. Na pior das hipóteses, foi negligente. E negligência não é mérito a ninguém.

Ronaldo tem o direito de não ser mais craque, afinal todo grande jogador tem sua decadência. É diferente do outro "fenômeno" brasileiro, o atual presidente da República, que não pode se deixar levar no "carrinho" da corrupção.

12.6.06

"Boa noite e boa sorte"

“Good night and good luck”. Entre muitas bafejadas de cigarro, a frase é a mais ouvida num filme que acaba de sair em DVD e tem justamente este nome: “Boa noite e boa sorte”.

Ambientalizam-se os Estados Unidos na década de 50, que o filme retrata à risca, inclusive no preto e branco de todas as cenas. Vive-se um clima de “caça às bruxas” em relação a uma hipotética infiltração de comunistas em várias esferas do poder e das instituições, entre elas a imprensa.

E é a imprensa que o filme foca. Mais especificamente, os estúdios da TV CBS, onde jornalista Edward R. Murrow (David Strathairn, foto) usa o seu programa para fazer denúncias consistentes contra o senador Jospeh McCarthy, que, rasgando direitos civis, instituiu a política de "caça aos comunistas", considerados anti-americanos.

Por conta das denúncias, Murrow passa a sofrer censuras políticas e econômicas. McCarthy tenta provar que o jornalista é um dos comunistas, a própria emissora passa a vê-lo com reservas e o patrocinador abandona o programa.

A temática do filme vai além do "comunismo x capitalismo" e é atualíssima ao abordar a velha dicotomia da mídia, principalmente a televisiva: informar com profundidade ou entreter com banalidades?

Mais: acerta a veia ao revelar a auto-censura tão comum ontem e hoje nos meios de comunicação, em nome não do interesse público, mas dos interesses dos próprios conglomerados midiáticos.

Em tantas bafejadas de cigarro, “Boa noite e boa sorte” convida à reflexão sobre a cortina de fumaça que há entre jornais, rádios, tvs, sites e o público.

10.6.06

Futebol e besteirol

Ter respeito dos outros países é um sonho antigo do Brasil, que é, sim, vítima de grande preconceito por parte do dito “Primeiro Mundo”.

Lembro-me de um episódio cabal. Eu estava saindo da faculdade, na Avenida Paulista em São Paulo, quando a carreata de Bill Clinton passava, em direção ao Caesar Park, um hotel cravado em plena selva de pedra paulistana.

Pois no dia seguinte fiquei sabendo que uma repórter americana que cobria a visita do então presidente dos EUA usou como fundo para gravar sua matéria (para TV) o jardim de inverno do hotel. Isso para ficar mais “selvagem” o ambiente, ou seja, mais ao estilo de um país onde muitos gringos pensam haver tribos primitivas (nada contra as tribos primitivas, mas sim contra o preconceito).

Mas voltemos aos dias de hoje, quando o presidente da República do Brasil pergunta ao técnico da seleção, em teleconferência, se o craque está gordo. O craque retruca, no dia seguinte, dizendo que é tão gordo quanto o presidente é bêbado, remetendo a uma matéria também recheada de preconceito de um outro repórter americano, do “New York Times”, que dizia que o Brasil estava em polvorosa por causa das “biritas” do presidente (e os brasileiros souberam que estavam em polvorosa após ler matéria).

Ora, se os gringos têm preconceito contra o Brasil, por aqui também não há muito conceito sobre o que se fala, tampouco sobre o significado de respeito e auto-estima. E quem não se respeita não pode querer ser respeitado. Por ninguém.

9.6.06

A Copa e o bonde

A partir desta sexta-feira intensifica-se o poderoso bombardeio de informações sobre um só tema: a Copa do Mundo. A Copa que já está escrita, ou subscrita, nas páginas da imprensa como nossa.

Escrita na imprensa que, neste caso, apenas ecoa o som das ruas de um país já chamado de pátria de chuteiras, ainda mais quando sobram craques (já abocanhados pelo futebol europeu, diga-se).

Parece uma catarse. Já que somos derrotados pela política podre, pelo abismo horrendo entre as classes milionária e miserável, o futebol parece lavar a alma, sendo um dos poucos orgulhos, uma das poucas vitórias.

O triunfo no gramado parece redimir a derrota da nação, parece preencher de orgulho o trauma do fracasso, esconder sob o tapete verde a fome e a ignorância que escraviza um povo.

Nada contra a Copa, nada contra o futebol, nada contra o espírito de civismo que, pelo menos nesta época, colore as ruas de verde e amarelo. Mas vamos além dos gramados, vamos além da torcida pelos onze jogadores.

Perder a Copa não é nada. Ruim é perder o bonde do futuro.

7.6.06

Olho por olho, dente por dente

Depredar o patrimônio público é errado e não há o que se discordar disso. Mas muitos dos homens que comandam o patrimônio público estão fazendo, há tempo, depredações em que a vítima é a sociedade e os estragos são mais custosos que o quebra-quebra de terça-feira na Câmara Federal.

Começando pelo que é mais fresco à memória, boa parte deste Congresso está atolada no escândalo do mensalão de Lula, ou seja, é acusada de receber dinheiro para votar a favor do governo.

Muitos dos congressistas chegaram a confessar que fizeram caixa dois em suas campanhas, o que é crime, e mesmo assim foram absolvidos em processos de cassação. Ou seja, ainda tiveram a benevolência (ou melhor, a conivência) da maioria de seus pares.

Voltando um pouco no tempo, deputados da gestão passada (muitos dos quais reeleitos para a atual) são acusados de terem recebido dinheiro para aprovar a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. E, neste caso, nenhum foi cassado e sequer investigado.

São apenas dois exemplos recentes de que o quebra-quebra de ontem (abominável, diga-se) é uma reação do tipo: “olho por olho, dente por dente”

6.6.06

O transe pela "besta"

Desde que o homem é homem, saindo das cavernas para criar o que se chama de civilização (e há muitas controversas a respeito dessa palavra), as superstições estão presentes.

O ano mil seria o fim. Não foi.

O cometa que passaria muito próximo da Terra seria o anúncio do apocalipse. Não foi.

Na Inquisição, as pessoas que pareciam “perigosas” aos dogmas “sagrados” seriam enviadas de satã e precisavam ser queimadas. Não eram enviadas de nada e cometeram-se cruéis assassínios em nome de Deus.

Então, chega o ano 2000, e com ele tudo iria, finalmente, acabar. Não acabou.

Mesmo assim, as superstições resistem no imaginário de esotéricos e alguns religiosos (cristãos), que passaram o dia de hoje em orações para evitar o domínio da “Besta”, do 6/6/6 que estaria por trás do dia 6 do mês 6 do ano de 2006.

Ora, nada contra a liberdade das crenças, mas vamos dar uma chance à razão, até porque a superstição não existe como fato. O ano mil não acabou. Dois mil também não. Tampouco parece ter acontecido algo extraordinário até esta tarde de 6/6/06.

Quer-se cultuar o Cristianismo? Siga-se verdadeiramente a frase-síntese do profeta, ainda um desafio dois mil anos depois: “amai-vos uns aos outros”.

Em vez de rezar contra a “Besta”, leve calor a quem tem frio, comida a quem tem fome, carinho a quem tem desespero. Isso, sim, pode salvar o mundo do mal que não está em números nem no "além", mas dentro do próprio homem.

5.6.06

O legado da nossa miséria

Suzane planejou matar os pais de forma cruel, confessou o crime, seria julgada nesta segunda-feira junto dos executores do assassinato (um dos quais seu ex-namorado), mas conseguiu vencer mais uma batalha na Justiça brasileira, que é uma mãe para os criminosos.

Numa manobra nem um pouco moral (porém, legal), o time de advogados que seu dinheiro possibilita pagar simplesmente se retirou do plenário do júri. Assim, impossibilitou a realização do julgamento, que ficou para 17 de julho, depois da Copa do Mundo, a que ela poderá assistir na luxuosa casa do seu tutor, onde está “presa”.

A batalha vencida por Suzane é um deboche ao País. Escancara uma legislação cheia de brechas, para benefício dos astutos. Entenda-se por astutos os bons advogados, que só podem ser contratados pelos mais abastados. Resultado: a lei serve aos ricos e as cadeias ficam reservadas aos pobres, que sequer têm acesso aos mais básicos dos direitos.

O pior de tudo é que Suzane é apenas a que está na mídia. Muitas outras “Suzanes”, algumas de terno e gravata e com mandatos políticos, se esbaldam na impunidade reservada aos bem-nascidos. Estas "Suzanes" engravatadas são justamente as que elaboram as leis, as leis que beneficiam outras Suzanes.

Fecha-se o ciclo. Ou escancara-se, como diria Machado de Assis, o legado da nossa miséria.

Até quando???

Até quando sair para a rua será sinônimo de ir para a guerra, uma guerra urbana cujas vítimas são pessoas inocentes, que trabalham e pagam impostos mas não têm o mínimo de segurança?

Até quando teremos de ficar acuados dentro de nossas casas, temendo que qualquer barulho possa ser um assaltante, qualquer latido do cão possa ser perigo?

Até quando seremos alvos fáceis da bandidagem, como caça à disposição dos caçadores, estes livres, impunes, soltos para roubar e matar?

Até quando o crime vai zombar do estado de direito, com os criminosos tendo a certeza da impunidade gerada pela falta de leis severas, de policiamento de fato, de castigo para o crime?

Até quando inocentes morrerão, inocentes como o guitarrista do Detonautas e tantos, tantos outros que, diriamente, são alvejados por um país que se curva ao crime, desde os palácios governamentais até as cadeias fétidas?

Até quando?

4.6.06

Para o "kit concurso"

Eis uma sugestão para ser incluída em kits de concurso público realizados por prefeituras.

Matéria do jornal O LIBERAL deste domingo mostra que, na região em quatro anos, mais de 20 mil pessoas prestaram as provas, pagando para tanto, passaram após esforço, mas estão na "reserva", ou seja, não foram chamadas para trabalhar.

Está certo que concurso não é nem deve ser garantia de emprego. É apenas um passo para ficar à disposição do poder público. Mas 20 mil em quatro anos parece demais, um planejamento estranho para essa prática que já virou uma indústria (lembremos que empresas privadas prestam o serviço às prefeituras).

Mais que falta de planejamento, desrespeita-se o candidato muitas vezes desesperado por um emprego, que após a euforia de passar numa prova de concurso, amarga anos de esquecimento por parte de quem iria contratá-lo. Lembremos ainda que, após um certo tempo, os concursos perdem a validade, e aí a esperança já era mesmo.

Numa realidade em que as prefeituras estão encostando nos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal (ora ultrapassando), justamente por excesso de servidores (principalmente os não concursados), a abertura de concursos deveria visar algo maior que formar um exército de profissionais aprovados, mas no banco de reserva.

1.6.06

O custo São Paulo

Em onze anos, de julho de 94 a julho de 2005, os pedágios das estradas paulistas aumentaram 210% acima do índice de inflação do período, aponta matéria publicada em manchete do jornal O LIBERAL de quinta-feira, dia 1º, que tem como base um estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Esse é o preço da "modernidade" vendida como conquista de doze anos de tucanato (Covas-Alckmin-Alckmin). Um custo que pesa no bolso do mais humilde motorista que, mesmo trafegando poucos quilômetros precisa pagar para chegar à cidade vizinha, e também no dos empresários que dependem das estradas para escoar produtos ou comprar matéria-prima.

É inegável que São Paulo tem as melhores estradas do País, em situação muito superior a praticamente todos os outros estados. Mas o preço para tanto é alto e os efeitos, em cascata. Sobe o custo das viagens, dos produtos transportados, do combustível para transportá-lo, do transporte coletivo etc.

Longe de defender que as estradas de São Paulo sejam como as de Minas ou Paraná, mas uma pergunta é pertinente: não poderia ser mais barata aos paulistas essa modernização?