17.6.09

Comunicação sem educação

Decidiu ontem o Supremo Tribunal Federal que não se precisa mais estudar para ser jornalista. Ou seja, num país que carece de educação, o diploma para a profissão é uma opção tanto de quem quer trabalhar como, principalmente, de quem vai contratar.

A alegação da suprema corte do Brasil é de que não existe nenhum conhecimento específico para o jornalismo e que a liberdade de expressão é um direito de todos. A justificativa, que não sabe diferenciar liberdade de expressão de conhecimento técnico-profissional necessário a um jornalista, permite, então, imaginar-se que salvar vidas é uma grandeza a que todos também têm direito e, portanto, não se precisa estudar para ser médico.

Trata-se de um retrocesso de 40 anos de luta para se profissionalizar o jornalismo no Brasil, que teve grandes avanços com a chegada das faculdades. Dentro da academia, o jornalismo passou a ser foco de estudos e a ética necessária para seu exercício foi sendo apurada através de estudos.

Claro que há falhas gravíssimas na formação do jornalista. As faculdades carecem de estrutura, em muitas delas professores fingem que ensinam e alunos preferem o boteco, conseguido diploma mesmo assim. Mas isso não significa que acabar com a obrigatoriedade da formação seja a saída.

A saída passa pela melhoria no ensino do jornalismo, coisa que nunca se conseguirá com a decisão de ontem, que tende, ao contrário, a jogar um balde de água fria nos cursos de jornalismo. Aliás, a saída sempre deveria passar pela educação. Mas o que o STF fez foi justamente mostrar ao país que não se precisa estudar para lidar com uma profissão que mexe com honras de pessoas, diariamente, em folhas de jornal, em telas de TV e internet, em ondas de rádio.

Resumo da ópera regida por Gilmar Mendes: juízes que ganham 24 mil reais por mês cada um decidiram que a informação está descolada da educação. Talvez porque comunicadores bem educados sejam capazes de mostrar que a suprema corte, apesar de cara demais, deixa a desejar na tarefa de servir ao país. Ponto para os barões da mídia, já que a partir de agora eles é que decidem quem é ou não é jornalista, uma profissão que passa a ser fora de contexto.

ÁUDIO: DIPLOMA.mp3

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13 Comentários:

Anonymous André Marconato disse...

Caro Marcos, creio que você está sendo um tanto exagerado. Os juízes de forma alguma estão proibindo profissionais diplomados como jornalistas de exercerem sua profissão - apenas estão abrindo a possibilidade para que profissionais de formações diversas possam contribuir para a pluralidade da profissão de jornalista.
Creio que também se equivoca ao evocar comparações com profissões de formação técnico-científica, visto que estas realmente demandam conhecimentos específicos, como domínio de anatomia no caso de médicos, técnicas de construção no caso de engenheiros, ou estrutura e formação de rochas no caso de geólogos, só para citar alguns exemplos rasos. Por outro lado, a função de divulgar informação pode muito bem ser conduzida por outros profissionais, com competências diversas da do jornalista.
Os juízes não parecem questionar a formação técnica de jornalistas, embora quando olhamos para certa publicação de grande tiragem que inventa notícias, ou mesmo jornalões tradicionais que publicam acusações baseada em boatos, não podemos deixar de pensar que a formação específica em jornalismo não fez muito pela melhoria dos meios de comunicação.
Com certeza a medida não representa um retrocesso para o jornalismo como um todo, na medida em que amplia os horizontes do jornalismo, já que as redações de jornais terão à disposição uma maior gama de profissionais.

18/06/09 02:32  
Blogger Marcos Brogna disse...

Caro André, eu gostaria muito de ter o seu otimismo, mas não tenho. Acho um preconceito considerar o jornalismo uma profissão que não carece de conhecimento técnico-científico, como se fosse o exercício do achismo e cada um escrevesse ou falasse o que quisesse, conforme seus preceitos subjetivos.
Não é assim. Planejar, apurar e escrever uma pauta requer quesitos científicos, sim, assim como planejar um projeto editorial. Mais: os efeitos da mídia na sociedade, ainda mais num mundo de bombardeio de informações, é algo sério, que necessita do aporte acadêmico para ser entendido, debatido e ensinado.
O que o STF fez foi justamente o contrário: tirou da academia o papel maior na formação do profissional, deixando ao mercado a decisão sobre quem tem ou não tem o direito de ser jornalista na prática. Eis o grande problema. O mercado já pratica isso de forma velada (misturando falso jornalismo com programa de auditório, colocando a mocinha da novela das oito para se passar por repórter, fazendo do jornalismo um show perigoso, "alugando" jornalistas responsáveis para dar seu MTB a panfletos que surgem com pretextos eleitoreiros). Agora, está livre para fazê-lo sem limites.
Jornalismo não carece de conhecimento científico? Então o direito também não, afinal o que um advogado mais precisa é conhecer as leis e, para tanto, basta lê-las em sua casa. A prática aprende-se num escritório de advocacia, ora. Aliás, o que melhorou o direito no Brasil foi a OAB (em que a grande maioria dos bacharéis é reprovada). A OAB passou a exigir o que a faculdade deixou de fazer, porque, apesar do Provão, o Brasil nunca enfiou o dedo na ferida, acabando com a indústria do diploma, esta sim um câncer a ser extirpado.
Sim, há jornaizinhos amadores e jornalões profissionais que distorcem a realidade, assim como ha péssimos médicos, péssimos engenheiros. Isso faz parte de qualquer profissão. Justifica acabar com a formação obrigatória, matando o doente para curar a doença?
Os defensores do liberalismo econômico dirão que estou sendo corporativista e defendendo a reserva de mercado. Não. Acho que a concorrência é, apesar de muitas vezes desumana, o melhor instrumento de uso das empresas para selecionar seus profissionais. Entretanto, permitir que um veículo de comunicação coloque quem quiser para dirigir uma redação, por exemplo, sem que tal pessoa tenha uma formação, acho que é tal qual permitir que curandeiros exerçam a medicina.
Melhor seria pensar em criar uma Ordem dos Jornalistas do Brasil, que, tal qual a OAB, fiscalizasse nosso trabalho, inclusive com poder de suspensão de diplomas.
Educação nunca é demais, meu caro, por isso defendo a formação. E a luta pela boa formação. Não só defendo como continuarei praticando. Fui a São Paulo me formar, e lembro-me de aprendizados em aulas que até hoje me são importantes em decisões cruciais no exercício de meu cargo. Aulas de mestres como Carlos Alberto Di Franco, Marcelo Coelho, Mário Vitor Santos, Claire Marie Réginier, Clóvis de Barros. E voltarei à Cásper Líbero para minha pós, pois, felizmente, como você disse, o STF, que acha que bandido só pode ser preso após condenado três vezes, não fechou (ainda) as faculdades.
A saída é a educação, não o STF.
Abraço

18/06/09 10:44  
Blogger Genilson Brandão disse...

Grande Marcos,
Saudações! Já faz algum tempo que não visito o Blogna e justamente hoje calhou que o assunto é algo que me interessa.
Como me conhece e sabe, me formei em jornalismo e estou no segundo ano de mestrado em comunicação. Concordo *plenamente* com você de que educação formal é essencial, não só para quem quer embarcar em uma carreira jornalística, mas em qualquer outra profissão. Mas discordo que, para exercício da profissão, curso superior em jornalismo seja obrigatório.
Aqui nos EUA, jornalismo é considerado arte e não ciência, portanto, qualquer pessoa pode exercer a profissão de jornalista. O resultado deve ser desastroso, você pode perguntar? Não. Muito pelo contrário, o sistema pluralista de comunicação aqui é fabuloso e repleto de intelectuais com experiência e sabedoria niche em legislação, política, economia, arte, etc. Para ter uma idéia, tenho alguns amigos que são jornalistas e nenhum deles — repito, nenhum deles — tem diploma superior em jornalismo. A formação deles varia entre Estudos Medievais até Astronomia, e digo com orgulho de que eles são os melhores jornalistas que já conheci! O segredo desse sucesso aqui nos EUA, Marcos, está na inclusão de idéias e valorização da educação em suas diversas formas e maneiras. O resto, fica para o consumidor discernir, avaliar, exigir, e o mais importante de tudo, saber o que é jornalismo de qualidade e o que não é.
Abração!
n.b.: À propósito: Você sabia que nos EUA, qualquer pessoa pode agir como próprio(a) advogado(a)? Digo, se você tiver que se defender na côrte americana e achar que seu conhecimento legal é mais vasto ou comparativo ao profissional graduado, você tem direito de dispensá-lo e agir em seu lugar, fazendo sua própria defesa.

18/06/09 15:27  
Blogger Marcos Brogna disse...

Genilson, meu amigo, realmente você ficou desaparecido do Blogna e eu estava sentindo falta. Vamos lá, adoro um debate, você sabe disso.
Eu concordo com o que você disse desde que tenhamos como parâmetro os EUA. Mas a realidade brasileira é bem diferente no tocante à educação. A valorização da educação aí é muito maior que qui e o perigo dessa decisão do STF num Brasil tão desigual me preocupa.
Num país de baixa educação, será bem menos fabuloso o time plural que aparecerá para exercer o jornalismo e, pior que isso, o discernimento do consumidor é menor na exigência da qualidade.
Sobre jornalismo ser visto como arte, não concordo. Jornalismo lida com honras que podem ser fabricadas ou destruídas em poucas palavras e, em pleno tempo da já chamada "era da comunicação", precisa o jornalismo, na minha opinião, ser alvo do trabalho acadêmico, pois isso nos ajuda na criação e consolidação de parâmetros éticos, indispensáveis à profissão. Veja o que aconteceu com o caso Escola Base aqui no Brasil: uma família inteira foi destruída pela irresponsabilidade da mídia. Dirão alguns que quem fez isso tinha dipoloma. Sim, mas não justifica acabar com sua exigência e, ao contrário, dever-se-ia exigir das universidades que ensinassem balizes técnicas e éticas a quem vai lidar com as armas mais poderosas no mundo de hoje: a palavra e a imagem publicadas.
Você disse tudo: o segredo do sucesso aí é a valorização da educação, que não há por aqui. Nosso governo estadual acaba de distribuir nas escolas um livro em que havia dois "paraguais" e um outro em que charges pornográficas com linguagem vulgar foram levados a crianças. Ou seja, o Brasil ainda está longe de ser uma nação que valoriza o saber. Por isso, creio que a discussão sobre a obrigatoridade do diploma foge ao foco principal do problema brasileiro.
Poder-se-ia ser discutida a flexibilização da atuação de colunistas, coisa que já acontece na prática. Mas, continuarei acreditando que nossa profissão é uma profissão e, para mim, não há problema nenhum em estudar para exercê-la. Pelo contrário, estudar faz bem, sempre! Tanto que estou voltando aos bancos universitários, para uma pós-graduação, queira ou não o STF.
Abraços e saudades, amigo.

18/06/09 15:55  
Anonymous RITA LEWIS disse...

Na escola é tudo muito bonito. Mas quando cai na realidade, o jornalismo fica sujeito às leis do mercado, e aí, muitas vezes, perde a credibilidade. Submete-se aos interesses maiores do poder economico, tanto faz se for jornalista formado ou diletante.

18/06/09 17:45  
Blogger Marcos Brogna disse...

Agora, acabou esse problema, Rita Lewis. Os responsáveis pela lei de mercado podem ser também pelas redações. Isso em jornal sério não significa nada, mas nos não sérios é uma barreira eliminada.

18/06/09 17:50  
Anonymous J. Paulo Cambraia disse...

Acho que o ministro Gilmar troucou 6 por meia dúzia. Quando é que importou alguém de fora da área de jornalismo participar da mesma? Uma pessoa pode ser socióloga ou médica e participar da área jornalística, sem problema (inclusive com cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado). Outra pessoa pode falar: eu estudo jornalismo, estudo o fazer técnico do jornalismo; que é algo diferente, uma especialização técnica (social) do mundo moderno. O que dói na atitude do ministro é todas essas coisas serem impostas "de fora", sem ao menos haver um poder legislativo que preste para pensar essas coisas. É o fato de isso passar longe do que pensa a população, da realidade. Parecem (??) impostas.

Ao mesmo tempo eu não tenho dúvida, pois toda a história mundial mostra isso, que o "neo-liberalismo" é só uma máscara para mais uma forma de dominação. O ministro Gilmar não se importa de ser mal falado, de ser xingado de burro... Ele está lá para isso mesmo, recebe muito bem em contra-cheque federal e também por fora, além de ter inúmeros padrinhos e gente que o protege para fazer o que faz. Ele não é burro. Dentro do neo-liberalismo, coisas como essa escola "plural" que completa 10 anos (desde o ano 2000) em SP e MG, onde o aluno não repete o ano. E mostram os poucos índices de repetição para empresas como FIAT, Mercedez, que se instalam no nosso solo, mas... na realidade, recebem todos muito pouco, o salário é arroxado, pois na verdade, não têm preparo de ensino médio de verdade. Além desses fatos, na educação, para conseguir um emprego precisamos ter diploma, certidão de antecedentes negativa, mas para o parlamentarismo não são necessários essas coisas. Isso o ministro (propositalmente) não vê.

18/06/09 21:34  
Anonymous José Carlos disse...

Claro, estão baixando o nível de tudo, para que estudar ? Seja um político e se candidate para qualquer cargo, não precisa de ensino superior para ser vereador e até presidente.

19/06/09 14:40  
Blogger DoniCia disse...

Quem será penalizado por um artigo mal escrito, com erros de português? Hoje a publicidade é assim, não regulamentada como deveria. Por isso que vemos muitos anúncios sem uma criação bem elaborada e objetiva com os princípios e base que as faculdades oferecem...e em muitas vezes também com erros de português. Ora....estudar prá quê ? Brasil onde ostenta o pior índice de acesso dos jovens ao curso superior na América Latina, agora será campeão mundial com essa decisão do STF.

19/06/09 17:49  
Anonymous Ana Paula Angelini disse...

Marcos, concordo plenamente com você. Acho um tremendo preconceito falar que o jornalismo não precisa de técnica, quem já fez o curso sabe que o jornalismo é fundamentado teórico-cientificamente. Do contrário, do que adiantaria passar horas estudando a hipótese do agenda-setting, as teorias da Esola de Frankfurt, newsmaking, critérios de noticiabilidade, lide, enfim?? Sem contar que a vivência universitária vai muito além dos conhecimentos teóricos. Na Universidade os alunos tem a chance de debater assuntos relevantes, obter uma visão mais crítica da sociedade e até discutir o próprio jornalismo. A convivência com os professores traz relatos de profissionais experientes, que servem como verdadeiras lições para os alunos. Mas há um porém: isso só é possível em BOAS universidades e como sabemos, elas são minorias no Brasil. Acho que com a desobrigatoriedade do diploma as boas universidades sobreviverão, diferente daquelas que são verdadeiras "fábricas de diploma" e não qualificam ninguém. A solução mais plausível seria melhorar o ensino e não tirar o diploma. Agora só resta torcer para que os meios de comunicação reoonheçam aqueles que se dedicaram à profissão; do contrário, a qualidade da informação estará seriamente comprometida.

19/06/09 19:01  
Anonymous Anônimo disse...

Sugestão de leitura:
http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/tio-rei-fala-de-diploma-talento-e-da-dicas-de-redacao/

20/06/09 11:42  
Blogger Genilson Brandão disse...

Talvez esteja sendo ingênuo (e confesso que meu conhecimento sobre o Brasil dos últimos 20 anos é um tanto periférico), mas não vejo a decisão do STF como um mandato para o fim do estudo de jornalismo. Pelo contrário, acho que as empresas que prezam qualidade devem agora exigir muito mais conhecimento de seus profissionais e não só um único diploma. Estudar jornalismo em nível superior é e continua sendo extremamente importante. O que não é importante, em minha opinião, é a "carteirinha" de jornalista. Essa idéia é pra lá de antiquada na era Web 2.0.
Me alinho às escolas de pensamento que vêem jornalismo como arte e acreditam que, além de talento natural do indivíduo, as técnicas jornalísticas podem ser adquiridas com contínuo exercício prático e experiências críticas. Assim, os que são formados em jornalismo têm maior vantagem sobre os que não. E isso é ótimo. Outro aspecto positivo é que o campo continua aberto para aqueles que tem experiência e talento, mas não tem a formação específica em jornalismo. Isso forma um sistema mais incluso e justo de comunicação onde há espaço para todos.
Os profissionais que forem bons não tem nada a temer. Sou jornalista formado e mantenho que maior abertura e diversidade no campo de comunicação é fundamental. A liberdade completa e democrática de expressão ainda não existe no Brasil e acho que essa decisão do STF é um passo nessa direção.

20/06/09 18:34  
Anonymous Anônimo disse...

Um conhecimento técnico adquirido pela experiência tem muito mais valor do que aquele adquirido numa universidade. Os grandes escritores ou filósofos não precisaram de cursar uma universidade para produzirem os seus trabalhos, ou será que teríamos que mandar Aristóteles, Platão e tantos outros para a Cásper Líbero?

28/07/09 19:31  

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