Jornalismo e canudo
Pesquisa do instituto Sensus encomendada pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) aponta que 74,3% dos brasileiros defendem a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo. O levantamento ouviu 2 mil pessoas e vem a calhar, justamente no momento em que o Supremo Tribunal Federal está prestes a jugar o mérito de uma ação que quer acabar com a obrigatoriedade da formação universitária para o exercício da profissão.Dizem os que defendem o fim da obrigatoriedade que o direito de expressão num jornal, por exemplo, não deve ser exclusivo de quem tem formação em jornalismo e, portanto, todos têm o direito de fazer reportagens em veículos de comunicação. Já os que defendem o diploma como obrigatório alegam que há espaços na mídia para quem não é jornalista, como nas seções de cartas e artigos, e que o espaço dedicado às notícias requerem conhecimento técnico, que, em tese, se ensina em faculdades.
Este jornalista, defensor do diploma, faz uma analogia. Digamos que, inspirado pela nobre ação de salvar vidas, eu queira dar uma de médico. Ora, salvar vidas, como a liberdade de expressão, é um direito de todos! Então, posso ser médico, certo? Não, da mesma forma que um médico não deveria se meter a escrever uma reportagem sobre, por exemplo, política ou economia. Portanto, há uma diferença entre liberdade de expressão e o ofício do jornalismo, assim como há entre o nobre ato de salvar vidas e a prática da medicina.
Penso que, numa época em que a internet entope nossas vidas de deformações em vez de informações, lutar pelo diploma (que profissionalizou os jornais em todo o País) e, mais que isso, pela melhoria urgente das faculdades de jornalismo, deveria ser uma bandeira da sociedade. E você, o que acha?
imagem sxc



18 Comentários:
Também penso como você Blogna. Sou jornalista formado ou profissional como dizem alguns da imprensa aqui de Americana. Se a moda pega, um protético, amigo meu, conhece muito de boca e dente, logo, deverá atuar como dentista.. DIPLOMA SIM...
abç
Oi Marcos,
Concordo com vc... Estudo Direito e acharia um absurdo se, de repente, qualquer pessoa pudesse sair por aí dando uma de advogado... com certeza viraria uma bagunça assim como o caso dos "jornalista" sem formação acadêmica...
Bruna
Marcos, acredito que pelo fato de eles (politicos) nao terem uma formaçao especifica (qualquer um pode se candidatar e nao é exigido nenhum diploma) tambem querem que os jornalistas nao sejam, para que a cada dia, nos tornemos mais "tranquilos" pelo fato de nao ter que estudar para "ser alguem". É comodo para eles, que nos querem cada vez mais burros e ignorantes para que nao tenhamos argumentos contra suas mentiras...Quero deixar claro tambem, minha indignaçao pelo fato de nao ser exigido o minimo de escolarizaçao para se trabalhar como politico. Deveriam no minimo ter uma faculdade (economia, ciencias socias, politicas, etc) dentro da area de atuaçao. Para eles a lei nao vale.
Minha opinião: Respeito e apoio todos os jornalistas profissionais, mas não acredito que a licenciatura no jornalismo faz diferença para os consumidores que sabem discernir. A grande mídia possui recursos para desenvolver projetos investigatórios de grande valor ao público. Mas isso não quer dizer que uma pessoa não licenciada não possa oferecer um ponto de vista no mesmo nível, ou até melhor. Temos que questionar mais e não acreditar tudo que é reportado -- seja no New York Times, na Globo, ou no blog do vizinho.
Semana passada, discutimos sobre tecnologias digitais e a influência no atual estado do jornalismo nos EUA sobre em minha aula de mestrado.
Como devem saber, jornalismo não é profissão licenciada nos EUA. A justificativa é de que jornalismo não é cirurgia cerebral e que, teoricamente, qualquer um de nós poder ser um repórter. De fato, reportamos diariamente sobre o que acontece em nossas vidas, seja de forma escrita ou falada. E num país onde a liberdade de expressão é o primeiro item da constituição, a lógica ainda prevalece.
Mas, com a proliferação do fenômeno "citizen journalism" (jornalismo cidadão) em que blogs, sites, e outros tipos de mídia social oferecem diversidade na cobertura jornalística, os grandes da mídia estão sofrendo com a competição. Aqui vai um exemplo de um jornal na Coréia que é formado inteiramente por cidadões jornalistas:
http://english.ohmynews.com/
O projeto é super interessante e tem tido grande sucesso! Mas o nível de confiança no conteúdo é uma importante consideração. (Isso não querendo dizer que os meios de comunicação de nome passem o teste de confiança com nota 10).
Creio que o veículo da mídia que ignorar o fenônemo "journalismo cidadão" e não procurar incorporá-lo em sua fórmula de reportagem sairá perdendo -- especialmente no âmbito financeiro.
(E desculpas pelo longo comentário! Prometo brevidade da próxima vez. ;-)
Luciana,
Entendo sua posição. Sim, a política brasileira é absurda. Mas discordo com seu argumento de que pôr um fim à licenciatura no jornalismo é enfiar uma espada no coração do jornalista, e alienar o país todo. Há espaço para os bons e sérios profissionais, e os consumidores irão se antenar a isso e irão apoiar e esforço. É claro que precisamos de bons exemplos para nos motivar, crescer, e prosperar. Mas, a busca pelo conhecimento, o questionamento da política, e a partilha disso com o público, deve ser um esforço de todos nós -- jornalistas ou não. Não podemos ficar esperando que os políticos (ou qualquer outros) ditem isso.
Caro Marcos,
Sim. Eh preciso ter diploma. Sempre. Evidentemente a simples posse do "canudo" nao garante a qualidade do profissional mas, na minha opiniao, nao devemos tomar como exemplo alguns casos de autodidatas bem sucedidos sirvam de exemplo para os futuros profissionais da area.
O tema eh bastante pertinente quando acabamos de ver estudos que mostram o Brasil atras ate da Bolivia em termos de educacao. Digo mais, acho que deveria haver uma prova de conhecimento no final de TODOS os cursos de graduacao (como existe para a OAB), so podendo exercer a profissao na sua plenitude aqueles que realmente se mostrarem competentes.
Uma noticia mal elaborada pode ter consequencias muito piores do que uma operacao de cerebro, portanto, para mim nao cabe a comparacao.
Devemos considerar tambem que ultimamente existe em grande interesse em manter a imprensa controlada, desmoralizada e o povo na mais completa ignorancia.
Abraco,
Anonimo
Penso que o "Jornalismo Cidadão" pode fortalecer a liberdade de expressão e a crítica da sociedade, porém, as técnicas de comunicação, imagens e jornalismo é realmente de quem fez a faculdade,isto sempre será estampado. Sou psicóloga e sem querer fico sabendo de outros profissionais que tentam fazer o mesmo, mas com a falta de "diversos" conhecimento acabam piorando a situação. Coragem jornalistas! a coroa real é de vocês.
Anônimo(a?),
Diploma (ou o canudo) e licenciatura são duas coisas diferentes. Sou grande apoiador da educação e encorajo todo e cada cidadão a cursar ensino superior e obter um diploma. Mas, exigir licenciamento dos formandos de jornalismo não é um meio para se alcançar um fim, em minha opinião. "Técnicas de comunicação, imagens e journalismo" não se adquire com licenciatura -- se adquire com experiência e estudo. (A propósito: sou jornalista formado). Não advoco de forma alguma a visão de que não é necessário estudar jornalismo. Mas, mantenho que, na era digital, jornalismo deixa de ser um privilégio de poucos licenciados empregados por meios tradicionais de comunicação. Jornalismo pertence a todos que têm algo a dizer.
O nosso povo está tão descrente da competência técnica de qualquer categoria profissional, que considera o diploma, importante diferencial. Tenho lido jornalistas brilhantes e outros cometendo tantos erros de escrita e tão descaradamente tendenciosos à respeito do que escreve, que dá para acreditar que para estes, ter ou não diploma, não faz a menor diferença, o que lhes interessa é atingir um alvo de seu interesse. Agora, para ser jornalista "de respeito", tem que ter as habilidades e competências necessárias ao cargo, e estas, são orientadas e cobradas pelas boas faculdades, então, defendo a necessidade do diploma.
Quanto ao nosso direito de expressão é constitucional e defendo o direito de quem quiser escrever(dentro de um espaço destinado a esse público), sobre o que bem entender, seja sobre política, economia, educação, finanças, família,etc mas, que o faça com bom senso, que se preocupe em saber mais sobre o assunto que escreve, tomando muito cuidado para não constranger o leitor e nem desrespeitar os que seguem outras ideologias.
Cleusa,
Seu comentário mostra uma visão balanceada que me ajuda entender um pouco mais a raíz da questão da defesa da licenciatura: a cultura brasileira. Ainda existe um abismo muito grande no nível de educação do país -- os que a possuem e os que não -- e vejo que a "deregulação" do jornalismo machuca mais do que libera.
Tenho amigos formados em direito, história, finanças, e até teatro que são empregados como editores, repórteres, contribuidores, e digo com confiança de que são todos jornalistas "de respeito", como sugere. Pena que muitos se prendem ao rótulo e não vêem o conteúdo.
O debate está bom e não resisti a entrar novamente nele, permitam-me.
Gostaria de lembrar que o diploma profissionalizou o jornalismo, transformou jornais opinativos e com mais crônicas que notícias em publicações bem mais objetivas e informativas.
Penso, portanto, que o jornalismo deve evoluir nesse sentido, como uma profissão que exige uma bagagem de conceitos técnicos, éticos e legais que, ao meu ver, cabem à academia ensinar, não ao mercado, que está mais acostumado a planilhas de Excel.
Mesmo nos espaços (crescentes hoje em dia) em que o leitor/internauta se faz repórter, é necessária a mediação do jornalista. Da mesma forma que, para eu salvar uma vida, eu não o faria sem a intervenção de um médico, mesmo que eu tivesse a melhor das intenções.
Meu amigo Genilson cita a realidade de um país com séculos de democracia e liberdade de expressão, bem diferente do Brasil onde políticos, donos de jornais e até leitores ainda estão acostumados ao cabresto e não conseguem (ou, muitas vezes, não querem) discernir informação de distorção. O diploma, nesse caso, é uma proteção e uma esperança ao jornalismo, de fato.
E, mesmo desconsiderando os ranços ditatoriais brasileiros, não consigo ver problemas em ser o jornalismo (aqui ou em qualquer lugar) uma profissão regulamentada. O que escrevemos pode ser tão fatal quanto um bisturi afiado. Devemos lutar, sim, pela melhoria das faculdades, para evitar a formação de jornalistas que dilaceram honras e verdades.
Abraços e continuem, pois o tema é complexo.
Realmente, o assunto é complexo, Marcos. Agradeço seu comentário que elabora sobre o contexto em que o jornalismo existe no Brasil. Entendo que a regulação do jornalismo restaurou (em certo nível) a ordem e objetividade na mídia. E isso é uma grande vitória.
Novamente, não desconto a necessidade de se estudar jornalismo para se desenvolver técnicas editoriais, de escrita, reportagem, bem como ética e leis. Como jornalista sei, por exemplo, da importância vital de um editor (esse meu comentário em si poderia ser bem mais efetivo -- e melhor escrito -- se tivesse o auxílio de um editor). Esse diferencial em si é o que acresce à qualidade da informação que recebemos.
Mas, fechar as portas para pessoas com formações em outras àreas fora do jornalismo (ou sem diploma qualquer) dentro da mídia tradicional é uma visão miópica. Como já mencionei, nessa era de Net 2.0, há espaço para maior colaboração e interação entre o tradicional e o novo. E essa abertura e democratização pode trazer excelentes resultados para o consumidor!
Por que não ter um cientista como jornalista líder de um caderno de Ciências? Uma dona-de-casa interessada em assuntos comunitários que sabe articular as preocupações do bairro liderar a pauta de assuntos locais? Ou um "blogger," com diploma de colegial, mas com vasta experiência em mídia social, ser um contribuidor nos assuntos relacionados à blog e tecnologia? Especialidade de conteúdo é o que comanda mais e mais a mídia do século XXI.
Mas vejo que, pelo jeito, o conceito ainda está anos-luz de ser realidade no Brasil . . .
Um ótimo final de semana para todos!
Genilson, gosto muito desta página, e concordo com vc que o jornalismo é de todos que tem algo a dizer. Na verdade admiro os jornalistas por serem pessoas que amplificam o fato, veêm as situações de vários ângulos. Então, vamos mais profundo, queremos pessoas mais críticas? que leêm mais?! ótimo, então deve-se icentivar isso no Brasil, não esquecendo da mediação de um "jornalista". Veja, não é desvalorizar o conteúdo, mas olhar para os detalhes e habilidades do profissional que estudou. Claro que temos jornalista e "jornalistas", mas vamos pensar nos competentes.
Também concordo com você Brogna, sou publicitária, e nosso mundo é ainda pior, pois existem muitos "fazedores de arte" e gente achando que conhece mídia, para desenvolver um planejamento de acordo.
O jornalismo vai virar a mesma bagunça se isso acontecer, vamos cair em um mundo de erros ortográficos e de publicidades enganosas pelo simples fato de não existir orgão algum que conseguirá fazer uma fiscalização de acordo.
Abraço.
Marcos,
Certamente existem argumentos nobres e plenamente justificáveis contrários e a favor da regulamentação, mas essa discussão parece cada vez mais antiquada e cheia de ranço. Há muito tempo a internet criou novas maneiras de se comunicar que não envolvem necessariamente ter seus textos impressos no papel ou suas palavras divulgadas em ondas médias, mas a mentalidade dessa discussão parece cada vez mais antiquada e distante da realidade.
Em recente palestra realizada na Unisinos, José Nunes, presidente do sindicato dos jornalistas do RS declarou que "um blog jornalístico evidentemente precisa ser assinado por um jornalista, pois passa a ter caráter de veículo, tal como um noticiário de rádio ou mídia impressa". Pois eu pergunto: hoje, o que é considerado jornalismo? Escrever em jornais impressos ou sites de notícias não pede grandes análises,mas como definir que um blog é jornalístico ou não?
Em tempos que a palavra "inclusão" é usada à exaustão, é no mínimo paradoxal que a produção de conteúdo informativo seja elitizada e passível de punição. Confesso que o comportamento dos sindicatos de jornalistas de todo país quase me faz temer por uma caça às bruxas contra qualquer pessoa conectada à rede, nos moldes das que normalmente promovem contra estudantes nas redações.
Afirmar que apenas "a internet entope nossas vidas de deformações" é no mínimo, inocente: a grande impressa, incluindo a maior revista do país, é um exemplo de mau jornalismo, e é escrita por gente diplomada em jornalismo, como eu ou você. Bom ou mal jornalismo é apenas uma questão de índole. Os bons profissionais não têm nada a temer.
Abração,
Concordo, e mais, sou analista de sistemas, o que tem gente fazendo cursinho de 6 meses ai roubando vaga de gente que ralou 4 anos ou mais anos em uma faculdade de tecnologia não é brincadeira.
Marcos, com o devido respeito, comparar Jornalismo com Medicina é algo um tanto exagerado e impróprio, pois são carreiras absolutamente diferentes em suas naturezas e objetos. Não podemos nos esquecer que jornalismo é área de ciências humanas, podendo sim um profissional graduado em outra área, ou até mesmo autodidata se sobressair como um bom profissional. Quanto a obrigatoriedade de formação superior nessa área, acredito que não será um "canudo" que fará diferença, até mesmo pela má qualidade dos cursos de Jornalismo que temos no país, mas sim um rigoroso exame de ordem, algo que inexiste atualmente. Você sabe melhor do que eu que temos aqui na região dezenas de jornalistas formados que são absolutamente inéptos, alguns até mesmo analfabetos, e ao mesmo tempo tivemos exemplos de excepcionais profissionais como Samuel Wainer e, bem próximo de nós, Jessyr Bianco, que não foram graduados nessa área.
Extremamente justo se exigir formação para se exercer uma PROFISSÃO. Às vezes, do jeito que falam, parece que jornalista não é profissional, que não precisa estudar teoria e técnica para se fazer aquilo que eles se propõe a fazer.
Claro que com essa enchurrada de faculdades pipocando aqui e ali, a qualidade do ensino (e consequentemente dos profissionais) tende a cair, mas a não-exigência do diploma para o exercício da profissão é um duplo erro.
Sou publicitário e sinto na pele o que é competir com pessoas no mercado de trabalho que se dizem "publicitárias" sem nunca ter posto os suas queridas bundas em cadeira de universidade. Há um entrave grande em se exigir ou não dos publicitários um registro como MTB, CRM, CRF... para assegurar que as peças publicitárias tenham um profissional que as assinam e são responsáveis pelo conteúdo que divulgam.
Sinceramente, acho essa discussão totalmente descabida de propósito - as pessoas se prendem a argumentos chulos e pontuais e raramente veem a questão como um todo.
Triste ter que discutir isso.
Postar um comentário
Links para esta postagem:
Criar um link
<< Início