Mordidas e mídia
É praxe nas faculdades de Jornalismo (ao menos, na época em que eu fiz era) dizer que um cachorro morder um homem era muito menos notícia do que um homem morder um cachorro. Pois acabo de ler que aconteceu, de fato: um garoto teve de morder um pit bull para escapar do ataque do cão, em Sabará (MG).Não que as mordidas de cães não sejam notícia (as de pit bull têm ganhado manchetes ultimamente), mas a inversão das posições entre mordedor e mordido certamente traz o inusitado de que tanto gostam as folhas da imprensa.
É sobre ele (o tão buscado "inusitado") que gostaria de falar (ou, escrever, para ser mais literal). Porque essa busca tem extrapolado os limites de uma outra coisa de que sempre se falava em faculdades de Jornalismo (e espero ainda estar sendo falado): a ética.
Luciano Assis, repórter de Cultura do LIBERAL, escreveu de forma sublime, na sua coluna "Entrelinhas" de domingo passado, sobre o exagero da mídia de hoje em noticiar a vida privada de celebridades. Citou como exemplos a barriga de Ronaldo, os efeitos da droga na saúde de Amy Winehouse, entre outros. O jornalista fez um paralelo interessantíssimo com a época em que John Lennon resolveu largar a vida pública de estrela da música por cinco anos e não foi incomodado por lentes da imprensa, coisa imprensável hoje em dia.
Mas o fenômeno vai além do celebritismo desnudo. A busca pelo inusitado extrapola o ato de dissecar a vida privada de artistas, transcendendo a própria realidade (à qual o Jornalismo deveria ser fiel) para se inventar quase a ficção noticiosa. E nesse sentido a Internet é o maior dos celeiros, principalmente em espaços de opinião em que se despejam informações sem nenhuma checagem, nenhum fundamento, que acabam sendo confundidos com notícia.
Parece-me um perigo para a relativa democratização que a Internet traz com seu poder interativo. Um perigo que ameaça emburrecer a sociedade, trocando, por exemplo, a informação cultural por diários de vidas privadas e opiniões embasadas por centrais de boataria.
imagem sxc



1 Comentários:
QUEbom que alguem me entende!
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