Isabella e o coelhinho
Eu havia acabado de voltar de São Paulo para trabalhar, em minha cidade, como repórter do LIBERAL, jornal em que já escrevia na querida página 2 e que me despertou a paixão pelo Jornalismo. E fui pautado, certa vez, para cobrir um incêndio criminoso em uma área verde de Americana.Cheguei ao local e havia integrantes dos Bombeiros ali. Eles estavam com um filhote de um tipo de coelho selvagem e isso me chamou a atenção. O animal havia sobrevivido ao incêndio, mas sua mãe morrera. O motivo: ela o encobriu com o próprio corpo e se deixou queimar para proteger a cria. Sábia lição da natureza: tudo pela sobrevivência da espécie; nunca o individualismo.
Lembrei-me deste caso, que já faz quase uma década que presenciei, diante do bombardeio de notícias sobre a garotinha Isabella, jogada covardemente do sexto andar de um prédio em São Paulo, sendo o próprio pai e a madrasta da menina apontados como maiores suspeitos de terem cometido essa aberração que choca todo o País.
Se há algo que nos diferencia bastante dos animais que, preconceituosamente, chamamos de irracionais, é o fato de eles darem muito mais valor à vida do que nós. Não matam por prazer ou por exercício de poder, nem se destroem por crises existenciais. Suas regras são as regras da natureza, diferentes das regras que criamos, muitas vezes em desacordo com o meio ambiente, e recheadas de hipocrisia.
O pouco de pureza que se vê nos animais parece se resguardar nas crianças como Isabella, que faria apenas seis anos ontem e certamente mal conhecia as tantas injustiças impostas pela humanidade que se acha capaz de “dominar sobre todas as espécies”.
Na verdade, o homem não só é incapaz de exercer domínio e zelo sobre outras espécies como não consegue ter domínio sobre si próprio, sendo fraco até para entender sua própria condição de mortal. É incapaz até de proteger sua própria cria, como conseguem os coelhos do mato ou quaisquer outros bichos selvagens.
Isabella é uma de tantas inocentes vítimas das regras cruéis moldadas pela “espécie superior”. Outras já houve e outras haverá numa humanidade que transformou até a concepção da vida em uma enorme prateleira. Procria-se como num modismo, mesmo com o mundo já dando mostras de que não suporta mais tanta gente esgotando suas reservas naturais. E, contraditoriamente, não se consegue dar o mínimo de proteção a crianças que chegam, muito menos o amor que muitos dizem ser um sentimento exclusivo nosso.
Triste humanidade. Até os coelhinhos do mato têm muito a nos ensinar.
imagem sxc



4 Comentários:
Inveje os bichos, pois morrem para proteger os filhos e matam para matar a sua fome e não por prazer ...
Entre os fatos apresentados, h� uma grande semelhan�a t�pica das analogias: no primeiro caso morre-se para proteger a sua cria. No segundo (de acordo com os fatos levantados at� o momento), matam a cria. Mas, como tiveram mais sorte, est�o sendo muito mais protegidos que a pobre menina, uma vez que como crias que tamb�m s�o, est�o sendo defendidos ferozmente pelo pai, interessado em proteger a �sua cria�. Sabemos bem que todos t�m o direito � plena defesa, isso � legal, mas o exerc�cio desse �direito� chega a imoral, sinal claro de desrespeito e pouco caso com a lei, a sociedade e prova de desamor � pr�pria neta. Miser�veis de esp�rito, pobres de n�s...
Eu só gostaria de saber até que ponto um advogado é capaz de chegar para defender o que é indefensável.Assim não se faz justiça, perpetua-se a injustiça...
Marcos,
tenho uma cópia dessa sua reportagem em jpg. Quer uma cópia?
Abs,
Marília
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