Cegueira na saúde
O que é mais escandaloso? Uma mulher ficar cega após peregrinar sete meses em consultas na saúde pública sem diagnóstico definitivo sobre seu problema? Ou a saúde pública se limitar a argumentar que, por ser diabética, essa mulher tem 25 vezes mais chances de ficar cega, sem explicar a acusação de que um médico não teria dilatado sua pupila porque "estava com pressa"?A revelação sobre o caso foi feita ontem no LIBERAL impresso, inclusive com espaço para a resposta da Prefeitura de Americana. O jornal ficou dois dias trabalhando a reportagem para levantar a matéria, inclusive pedindo que o responsável pela Saúde da cidade falasse sobre ele. Só falou via nota da assessoria de imprensa. Após a publicação da matéria, uma outra resposta foi dada pelo Executivo, mas também através da frieza unilateral dos textos prontos via assessoria de imprensa. Hoje, a alegação é de que "o processo de encaminhamento da paciente foi realizado corretamente" no setor de Saúde.
O que ambas as "explicações" fazem crer é que, antes de se checar a grave denúncia de que um médico não teria dilatado a pupila da paciente porque estava com pressa, o Poder Público se antecipa na auto-defesa, inclusive criticando o jornal porque revelou um fato nada otimista para o setor. É como faz o DAE com a falta d’água, jogando a culpa na população, que gasta muito. Uma ode à impunidade.
Justamente por ser diabética e por sentir que vinha perdendo a capacidade de enxergar, a paciente procurou pelo atendimento médico. Infelizmente, acabou precisando da Saúde pública, e o que tem hoje em mãos é um laudo da Unicamp (para onde foi encaminhada tarde demais) dizendo que não há mais nada a fazer. Enquanto isso, o Poder Público sustenta a sua versão em percentuais de diabéticos que perdem a visão. Como na frieza das notas via assessoria, se apega à frieza dos números que justificam tudo, até a possível negligência.
Quanta escuridão.
imagem sxc



1 Comentários:
Realmente, pacientes diabéticos têm mais chance de ficar cegos. Mas há tratamentos e tratamentos. Em 2004, meu pai sofreu um pequeno acidente de carro que teve uma grande conseqüência: um minúsculo caco de vidro apenas resvalou em seu olho, fez um pequeno corte que acabou se infeccionando e por muito pouco ele não acabou perdendo o globo ocular. Foram cerca de quatro meses de colírio e cuidados, além de acompanhamento médico todos os dias nas primeiras semanas, depois passando a uma visita semanal. Detalhe: meu pai é diabético. Ele foi atendido por um médico particular, que nunca se negou a recebê-lo no consultório, mesmo quando não havia necessidade da visita. Outro detalhe: mesmo tendo feito cinco meses de tratamento com esse profissional, até hoje meu pai não teve de desembolsar um real pelas consultas. Calote? Não. O médico se recusou a receber, porque disse que o maior orgulho dele era ter conseguido salvar um globo ocular que, quando examinado pela primeira vez, tinha 99% de chances de ser retirado. A vista ficou danificada, mas pelo menos esteticamente não houve nenhum dano. Qual a lição disso? Meu pai, DIABÉTICO, conseguiu salvar um globo ocular praticamente perdido, porque encontrou um profissional que se dispôs a salvar seu olho, pelo prazer de fazer um trabalho bem feito. Outro detalhe: esse médico é conhecido em Piracicaba por já ter realizado mais de 2,5 mil operações gratuitas, em pessoas carentes. Um orgulho para a profissão. Caso essa mulher tivesse caído nas mãos desse mesmo doutor, com certeza hoje ela não estaria cega. Afinal, nunca vi esse médico atender com pressa ninguém. Lembrando que nós não sabíamos que ele não iria cobrar nada quando o procuramos. Quando terminou o tratamento e ele disse que não iria receber nada, ficamos estarrecidos e depois fomos descobrir que essa é uma característica dele: atender bem a todo mundo. Bem diferente do colega americanense que, devido à pressa, deveria estar querendo correr para seu consultório, onde pacientes mais importantes (financeiramente) deveriam estar esperando-o. Será que se essa senhora estivesse pagando a consulta ele alegaria que estava com pressa no atendimento?
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