18.9.07

A ilha e o mar

Como sempre, o Brasil é um país de abismos. Não seria diferente na educação, área primordial para o futuro de qualquer nação. Um estudo que acaba de ser divulgado pela OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), feito em 34 países, aponta o Brasil como lanterninha, ou seja, de menor investimento por estudante.

Os 34 países gastam, em média, R$ 14.376 anuais por aluno. Luxemburgo é o que mais investe, desembolsando dos cofres públicos R$ 25.705. No Chile, o gasto é de R$ 5.470. O Brasil dispensa modestos R$ 2.488 por aluno, anualmente.

Mas, e o abismo? Ei-lo: somos o país com maior diferença entre o que é investido no estudante de ensino fundamental e no universitário. Enquanto o Brasil é o penúltimo no gasto com alunos primários (R$ 2.213 per capita anuais) e o último com estudantes do ginásio e segundo grau (R$ 1.973), a verba para universitários chega a R$ 17.226. E, pasmem, o Brasil gasta mais com universitários do que a Itália, Portugal e Nova Zelândia.

Não há fórmula mais cruel que essa para a elitização do conhecimento. Porque o País usa os recursos públicos para privilegiar as universidades, deixando para a base da educação pública apenas migalhas. O resultado: sem dinheiro, escolas de primeiro e segundo graus do governo não conseguem formar alunos capazes de chegar a faculdades como USP, Unesp, Unicamp etc. E quem chega até elas? Em geral, alunos de escola privada, de famílias que podem pagar pelo ensino.

Fecha-se o ciclo vicioso. E escancara-se um mar de ignorância no qual se mantém uma diminuta ilha de saber, habitada em geral pela elite econômica, que é graduada com dinheiro público.

imagem sxc

14 Comentários:

Anonymous valdemar g duarte disse...

não sei o porquê, mas esta notícia não me surpreendeu.

será que estou chegando no nível da apatia???

alguém me belisque.

um abraço

18/09/07 19:36  
Anonymous Carlos Schaefer disse...

Pois é... o Brasil estava no caminho certo com o Fundef mas o atual governo TINHA que criar o Fundeb (dividir recursos com o ensino médio) e insiste em priorizar o ensino superior.
O atual governo nunca quis ouvir falar sobre o milagre ocorrido na Coréia do Sul, que estava nos anos 60 muito pior que o Brasil. A Coréia investiu todas as fichas no ensino fundamental obrigatório e gratuito. No ensino médio 50% das escolas são privadas e todo ensino superior é pago. Lá, se o aluno não aprende quem é reprovado é o professor.
Lá tem 8 horas de aula por dia e ninguém acha cansativo porque tem atividades paralelas como karaokê, participação intensa e cooperativa dos pais, muito esporte, muito recurso de informática e literatura, e por aí vai.
No Brasil, o atual governo já descobriu a forma ideal de se perpetuar no poder: manter o povo na ignorância, manter o ócio com migalhas e quando alguma verdade aparecer culpar a grande mídia e os adversários, sempre.

19/09/07 15:10  
Blogger Marcos Brogna disse...

Caro Carlos,
Eu não resumiria esse problema histórico do Brasil à comparação dos dois últimos governos, ou do PT com o PSDB. É só olhar para a educação paulista, comandada pelos tucanos há mais de uma década, e vemos pérolas como a progressão continuada, que aprova aluno quase analfabeto.
O problema é maior e precisa urgentemente de governantes que atuem pensando além de disputas políticas.
Abraço!

19/09/07 15:58  
Anonymous Carlos Schaefer disse...

Caro Marcos,

Eu também não resumiria esse problema a uma simples disputa entre PT e PSDB e lamento muito que voce tenha entendido assim porque sabe que sou tucano.
Falei do Fundef porque eu realmente acredito que precisamos investir tudo que for possível no ensino fundamental e só depois, quando houver recursos e condições suficientes partir para o Ens.Medio e Univ...
Eu poderia muito bem criticar a progressão continuada porque é uma idéia do PT(ou não é?) mas não vou fazer isso. Concordo tanto com ela que foi exatamente porisso que eu disse no outro texto que na Coréia se o aluno não aprende quem repete é o professor. Não acho nada mais justo e isso não seria uma forma de PC ??? Eu acho que sim... Mas entendo que o assunto é muito polêmico e respeito a sua opinião.
Falando agora como tucano eu ficaria muito feliz de ver alguém lembrando que o Serra está colocando duas professores em sala de aula!
Abraço

19/09/07 20:20  
Blogger Marcos Brogna disse...

Caro Carlos,
Sou mais cético que você. Não elogiaria NENHUM político pela educação péssima que temos no Brasil. Todas as iniciativas, sejam petistas ou tucanas, até agora foram ridículas perto do que precisamos, de fato.
Sobre os dois professores do Serra, continuando os salários ridículos e a formação insuficiente que eles têm, nem três resolveriam. Ademais, tucanos, PMDB e Maluf formam o tripé da destruição educacional do Estado de São Paulo. O PT só não participou porque nunca foi eleito para o Palácio dos Bandeirantes.
Abraço!

19/09/07 20:56  
Anonymous andré disse...

Esse Carlos Shaefer parece piada! Elogiar o Serra pq colocou dois professores em sala de aula... hahahahaha... isso é ridiculo. Temos que ter ao menos um professor por sala de aula, com um salário digno, incentivado a pesquisar e a educar com qualidade. Isso bastaria. Essa atitude do Serra é muito mais um cabide de emprego do que qualquer outra coisa. Carlos, por favor, poupe-nos de seus comentários Tucanos. Vamos discutir o problema de forma mais aberta!

20/09/07 09:06  
Anonymous Carlos Schaefer disse...

Marcos,

Eu também não acho que está bom, tanto é verdade que no país do modelo que eu citei (a Coréia do Sul) não existe PT nem PSDB.
Só citei o Fundef porque acho que poderia ser um embrião do modelo adotado na Coréia mas perdemos o foco pois as pessoas que governam hoje JAMAIS dariam prioridade TOTAL para o ensino fundamental pois as universidades federais são uma verdadeira máquina de fábricar petistas.
Apoiaria qualquer governante de qualquer partido que tivesse coragem de transferir para o ensino fundamental os bilhões e mais bilhões que são destinados ao ensino superior mas isso significaria privatizar o ensino superior e o povo brasileiro já foi devidamente treinado para ter pavor de privatizações.
A forma de ensinar adotada pelos governos paulistas é realmente muito fraca como voce sitou e tem que melhorar 1000% ainda, mas veja só: 7 entre as 10 melhores escolas de ensino fundamental do Brasil estão no Estado de São Paulo e assim como a Progressão continuada pode permitir que alguns analfabetos cheguem ao segundo grau o sistema tradicional também não impediu que um analfabeto chegasse até a presidencia da república.
Abraço!

20/09/07 10:49  
Anonymous Jose Geraldo disse...

Quando das privatizações, necessarias, mas não do que jeito que foram feitas(doando as nossas empresas), uma das promessas era sobrar mais dinheiro para investir na educação e saude. Nas administrações de Collor,Itamar, FHC e Lula nada, de expressivo foi feito, alias foram decadas de mais roubalheiras e roubalheiras . Isto indica, seja qual for a cor partidaria, que os governantes querem o povo ignorantes para serem manipulados.
Marcos, voce citou uma coisa interessante, esta tragedia que é a "progressão continuada" veio para aumentar um numero(crianças pseudoalfabetizadas) e piorar em muito o nivel educacional do pais.
Infelizmente, ninguem pensar em melhorar o nivel dos nossos professores(tanto no conhecimento , quanto na remuneração).
É a nossa triste realidade.

20/09/07 11:31  
Anonymous Andréa Mesquita disse...

Muito simplista a colocação do senhor Carlos, de que se "o aluno não aprende quem repete é o professor". Como professora de inglês há 12 anos (por opção), lecionando apenas em escolas de idiomas, posso me orgulhar de ter reprovado tão poucos que me lembro do número exato: quatro. E eram alunos que, caso eu os tivesse colocado no nível seguinte, estariam seguindo o velho esquema que muitas escolas de idiomas insistem em perpetuar: nós fingimos que ensinamos, vocês fingem que aprendem, e no fim do curso todo mundo recebe certificado. Desses quatro, apenas um aceitou a decisão e continuou na escola, os outros preferiram trocar de estabelecimento. Afinal, como ouvi de um pai indignado com a decisão, "eu pago a escola, então ele vai ser aprovado". O único que ficou tinha pleno conhecimento das deficiências e, além de refazer seis meses de curso, ainda quis ter aulas extras para conseguir aprender mais rápido. Hoje ele tem um domínio muito bom da língua, e ainda temos contato. Talvez o senhor Carlos também não saiba que, se em uma classe de dez apenas um não consegue acompanhar o programa, o problema não pode ser com o professor, mas sim com ele mesmo. Ensinar pode até ser fácil, o maior problema é cobrar do aluno a tarefa feita, presença, entrega de trabalhos, participação em classe, entre outras coisas. E isso, caro Carlos, poucos professores, seja em escolas públicas e particulares, estão dispostos a fazer. Acho vergonhoso que o aluno passe de ano sem ter aprendido nada. Aliás, é mais vergonhoso ainda porque, como ex-estudante de escola e universidade públicas, me orgulho de ter tido o privilégio de ser ensinada por professores que, a despeito de serem (na época) chamados de exigentes, carrascos, e outros adjetivos do gênero, me ensinaram uma coisa: quem se esforça merece ser aprovado, quem se encosta é reprovado. Essa teoria de que se o aluno não tem interesse a culpa é do professor é a maior desculpa para justificar o comportamento de muitos preguiçosos. Concordo que uns têm mais dificuldades, mas pense também em quantos pais se dispõem a realmente acompanhar o desempenho escolar dos filhos. Falta de tempo? Sinto muito, então não cobre do professor que desperte um interesse em sala de aula que jamais será alimentado em casa. Somente quem já esteve em uma sala de aula sabe o malabarismo exigido hoje em dia para manter a atenção do aluno. Se a maioria quer aprender, parabéns. Quem não quer ou não sabe porque está desinteressado, procure conversar com o professor antes de sair por aí dizendo que a aula não é atraente. Todos somos passíveis de erros. Mas errar e se corrigir é possível, desde que possamos saber onde estão nossas falhas.

20/09/07 13:24  
Blogger Genilson Brandao disse...

Excelente discussão e o tópico!

Comparado às grandes potências mundiais, o Brasil investe impressivamente em educação. Mas, como foi mencionado nesse blog, as escolas públicas contam as moedinhas federais, enquanto as universidades públicas enchem os seus bolsos. Em outras palavras, o que acontece com a educação no Brasil é o mesmo que acontece com a distribuição de riquezas em que apenas uma minoria privilegiada tem acesso.

Acho interessante como alguns dos que postaram comentários foram rápidos em apontar os culpados pela tal situação que, como sempre, são os políticos ou a politicagem que assola o Brasil. Mas, o mais interessante ainda foi que ninguém assumiu responsabilidade pessoal como brasileiro(a) por isso. Será que algum dos participantes dessa postagem já participaram em passeata grevista de professores para exigir melhores salários e condições? Serei o primeiro a confessar que nunca participei.

Culturalmente, o brasileiro vê a educação como algo secundário à renda pessoal, patrimônio, e até democracia. O padrão de beleza é físico e nunca intelectual. Só por farra, assistam à novelas e reparem.

Já frequentei escolas públicas e universidades federais nos Estados Unidos e Europa e me impressionei com o nível de apoio e envolvimento da comunidade. O governo faz parte da equação, mas são os professores, pais, e alunos que buscam a qualidade no ensino e lutam pelo acesso público à educação. E, acima de tudo, entendem que a base de tudo começa com a educação. O futuro de cada um — e do país — está na educação.

20/09/07 18:32  
Anonymous Carlos Schaefer disse...

Cara Andréa,

Concordo plenamente que não existe solução simplista para um problema tão complexo mas, se me permite, a sua própria (e bela) história acabou comprovando a minha tese de que a qualidade do aprendizado depende muito da qualidade, da dedicação e do interesse do professor e, muito bem lembrado pela Sra. e pelo Genilson, da participação positiva dos pais e da comunidade.
Sempre que se fala dos problemas brasileiros a opinião de que tudo começa e termina na educação é unânime mas curiosamente nao se debate A FORMA de se obter recursos para isso. Aceitamos o modelo atual e enxergamos apenas a CONSEQUENCIA pois se o professor ganha mal, as escolas são despreparadas, inseguras e abandonadas é porque não existem recursos financeiros para obter e manter padrão de qualidade. E onde estão os recursos? Quase todos aplicados nas universidades públicas... Agora me diga, dá para discutir esse problema sem falar em ideologias de governos?

20/09/07 22:36  
Anonymous mfsilva disse...

Carlos, então a solução é colocar 2 professores por sala de aula? Parabéns, isso é coisa de gênio! Desligue-se um pouco do partido e abra a cabeça para uma discussão mais ampla.

21/09/07 08:55  
Anonymous Andréa Mesquita disse...

Bom dia Carlos. Verdade que o problema está também na falta de união entre professores, comunidade e pais. Mas não acredito que discutir ideologias PT, PSDB ou seja lá o que for vai resolver isso. Na verdade o que precisa mudar é a nossa própria posição em relação à educação, que é de esperar que a escola faça tudo e se abster de cobrar do Estado a melhoria na qualidade de ensino. A falta de cobrança, em todos os setores do País, é que culmina em todos esses problemas que vemos. Problemas que existem desde que sou criança, como os salários baixos dos professores. Tenho dois tios que lecionaram anos em escolas públicas, um deles ainda na ativa, e acompanhei sempre de perto o verdadeiro "se vira nos 30" dos dois para conseguir um padrão de vida decente com o que ganhavam do Estado. Se hoje estão com a vida relativamente confortável é porque ambos partiram para outros trabalhos além da escola: uma passou em concurso público, e o outro também atua como intérprete de multinacionais, além de dar aula em casa nos finais de semana e fazer tradução. Como vê, o problema não existe de hoje. Quem não se lembra do Maluf mandando a cavalaria passar por cima de professores grevistas? O desvio de recursos sempre existiu, não é coisa do PT, como estão tentando colocar agora. O problema é que a memória é muito curta para que as pessoas se lembrem desses fatos. No Brasil, o professor sempre foi e ainda é desvalorizado, mentalidade que mostra o quanto precisamos ainda evoluir para um dia chegarmos ao tão sonhado "Primeiro Mundo".

21/09/07 10:57  
Anonymous diogenes disse...

Olá Marcos. Vejo que a discussão está quente por aqui. Isso é muito bom. Na minha opinião devemos deixar a política de lado para focar no problema, que é de todos nós. O Brasil, de forma geral, investe muito pouco em educação básica. Enquanto essa balança de valores não se alterar continuaremos às margens do crescimento e das condições dignas de sobrevivência.

Andréa, parabéns pelo seu comentário!

Abraços

21/09/07 14:42  

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