9.7.07

Celebritismo e jornalismo

Pegou moda no jornalismo impresso e on-line a "cobertura" constante do mundo das celebridades. Virou até uma editoria em alguns dos principais sites do País a inscrição "celebridade". Clica-se ali e dá-lhe fofoca da vida de famosos e seus comportamentos, da mesa do café da manhã à cama.

Parece mais uma onda que, utilizada de forma exagerada, ofusca a missão verdadeira do jornalismo: investigar os poderes, defender o interesse público e prestar serviços, enfim, informar com o compromisso de ajudar a formar e possibilitar o transformar de uma sociedade. O fenômeno também revela a falta de criatividade dos meios em conseguir publicar o que é importante de forma interessante.

Aliás, esse é o grande dilema das redações, hoje. Como equilibrar o importante com o interessante? Como fazer com que temas políticos, por exemplo, que precisam ser revelados pelas páginas da mídia, sejam saborosos aos olhos do leitor? Ou, como fazer a cobertura verdadeiramente cultural ter o mesmo interese do novo namoro do ex-Big Brother?

As respostas para isso com certeza não passam pela concessão. Deixar-se seduzir pelo modelo mais fácil -ou seja, ceder ao celebritismo imaginando que, assim, não se vai perder leitor- é matar o doente para curar a doença. Necessário é repensar o modelo informativo, sair das manchetes declaratórias (aquelas que se baseiam apenas no que falou um político, fácil de fazer, difícil de engolir), buscar nos fatos o que realmente interfere na vida dos leitores e investigar, investigar, investigar.

Mais que isso: é preciso humanizar as folhas de jornais e telas de sites. "Um bom jornal é uma nação conversando consigo mesma", já disse Arthur Miller. Esse diálogo tem de ser franco, honesto, transparente. Não pode ser um anzol de sensacionalismos para fisgar leitor a qualquer custo.

Um exemplo caseiro para ilustrar o tema. Semana retrasada uma repórter e um fotógrafo do LIBERAL ficaram manhã e tarde navegando e encalhando em 15 quilômetros das águas poluídas do Ribeirão Quilombo para contar ao leitor quantos despejos de esgoto se viam ali. Seria muito mais fícil, rápido e barato fazer a matéria da redação, apenas ligando ao setor de fiscalização e perguntando se havia denúncias sobre despejos no ribeirão. Mas fugiria à raiz do jornalismo: o repórter como testemunha ocular dos fatos. Prova disso é que a matéria acabou forçando o setor de fiscalização a fiscalizar, de fato. E a matéria teve grande repercussão na opinião pública.

Outro exemplo, citado sempre pelo mestre Carlos Alberto Di Franco, meu ex-professor de Cásper Líbero. Uma das melhores edições de "O Globo" foi publicada quando o editor-chefe do jornal, cansado do jornalismo burocrático, colocou toda a reportagem numa Kombi e mandou os jornalistas às ruas do Rio, para buscarem notícias novas e trazerem à redação. Foi sucesso de público.

Ou seja, há leitores para bom jornalismo. Mas os jornais precisam, antes de tudo, acreditar na inteligência deles. Depois, apostar nela.

5 Comentários:

Blogger Cristiane Benedicto disse...

Navegando em paralelo com o jargão preferido das esquerdas, há muito tempo defende que o povo - unido pelos seus valores culturais - jamais será vencido, "Não acredito que o mundo cibernético em que vivemos possa pulverizar as nossas expressões mais tradicionais", proclama, sacramentando a sua crença de que a tecnologia de ponta não conseguirá sepultar, o sonho. Nem tirar das ruas o som, as cores e as vozes populares.
Nunca vou me esquecer das palavras do Drº Jessir Bianco, em comemoração aos 55 anos do Jornal O Liberal, impossivel não emocionar-se, e guardar para sempre."Padecemos muitas angústias, sofremos uma centena de processos criminais em razão de críticas que a imparcialidade reclamava, mas nenhuma condenação, o que demonstra que o jornal se atinha a fatos e teve sempre por fim o interesse coletivo. Mas também vivemos alegrias, fomos parte da história da cidade e a semente que lançamos em terreno fértil hoje continua a produzir bons frutos graças àqueles que nos substituíram na missão".
Você e toda a equipe levam a frente essa "missão"!!!
Isso para mim é ser gente é ser povo, é ser brasileiro!!!

09/07/07 12:48  
Anonymous Ju Jensen disse...

Caro Brogna, um abraço.
Imagino seu sentimento e sua aflição sobre tal dilema. Tem tudo a ver com sua formação e acho que deve mesmo continuar batalhando pela qualidade do que é publicado. Mas a fobia dos leitores pela vida das "celebridades" não é privilégio nosso. No chamado Primeiro Mundo (Inglaterra, Itália, Estados Unidos, etc.), os jornais dedicam muito mais espaço à vida das figuras famosas do que a mídia brasileira.
Acredito que nós, jornalistas, que fazemos jornal, temos que engolir certos sapos e abrir os meios de comunicação para todos os gostos. No nosso querido O Liberal, onde tive a honra de trabalhar a seu lado, temos os espaços para as celebridades, horóscopo, fofoquinhas sociais, anúncios de garotos e garotas de programa, etc.
E, mesmo assim, O Liberal jamais deixa de ser investigativo, combativo e norteado pelo ideal do dr. Jessyr.
Mas o tema é bom para ser guindado à discussão.
Bom feriado e espero, mais rotineiramente, quando encontrar um tempinho, voltar a participar do seu blog.

09/07/07 13:52  
Blogger Genilson disse...

Finalmente um assunto que vem me incomodando há anos: celebritismo (vamos adicionar colunismo social também) e jornalismo.

Nesse nosso mundo super conectado de YouTube, paparazzi, programas de "reality TV", e enfim, do culto e reverência à pessoas que buscam auto-promoção e fama, não é preciso ponderar muito para entender o encanto. Celebridades vendem jornais e revistas, dão Ibope. Não acho que isso seja "moda"; pelo contrário, a atração por celebridades tem muito fôlego ainda. A solução é aceitar, isolar, e procurar melhorar a agenda jornalística fugindo da banalidade.

Concordo que o dedo da culpa tem que ser apontado para os próprios veículos da mídia. Criatividade em despertar interesse público através do presente formato, desculpe a franqueza, não chega vir ao caso. Pegue qualquer jornal de domingo, por exemplo, e veja como o público é tratado de forma classista, pedante, e pouco inteligente. Ao invés de educar e informar de forma acessível e inclusa, a mídia aliena e exclue. Como disse, "é preciso humanizar as folhas de jornais e telas de sites".

Fica aqui uma idéia: Para cada matéria publicada sobre "celebridades", que tal publicar duas matérias involvendo não-celebridades, digo, pessoas comuns que estejam fazendo a diferença de alguma forma?

09/07/07 14:01  
Blogger Marcos Brogna disse...

Cristiane, as palavras sábias do doutor Jessyr mostram que só o jornalismo sério consegue fazer parte da história de uma sociedade. O resto passa e ninguém se lembra.

Genilson, sua idéia é muito interessante. Aqui no LIBERAL, três recentes matérias envolvendo pessoas comuns com atitudes exemplares tiveram o maior sucesso: um aposentado que adotou um terreno baldio e plantou flores ali, um senhor que recolhe óleo de cozinha usado dos vizinhos para mandar à reciclagem e um professor que resolveu limpar as margens do Ribeirão Quilombo após ficar indignado com a sujeira depositada ali.

Ju, interessante sua colocação. O fenômeno dos tablóides sensacionalistas, que praticamente não fazem nada além de bisbilhotar sobre a vida da nobreza inglesa, intriga. Trata-se de um país com nível educacional muito acima do nosso e, mesmo assim, esse tipo de imprensa vende muito por lá. Creio que, como mediadores da "nação conversando consigo mesma" (na bela definição de Arthur Miller), os jornalistas devem se preocupar em manter o alto nível dos temas, com equilíbrio, criatividade e profundo compromisso com o interesse coletivo. Concordo que devemos atender todos os gostos, mas nunca perdendo o foco principal, da investigação de todo e qualquer tipo de poder, premissa da atividade jornalística. Outro abraço para você e volte sempre à blogosfera!

09/07/07 15:01  
Blogger Genilson disse...

Marcos: Legal saber das boas iniciativas do 'O Liberal'. Meus parabéns e continuem na luta.

Ju Jensen: A cultura de tablóides na Inglaterra sobrevive porque ela vai contra o que mencionou sobre ter que "engolir sapos e abrir os meios de comunicação para todos os gostos". Os tablóides inglêses sabem o que são e o que fornecem ao público, e o público vice-versa. Ninguém se ilude com expectativas de jornalismo sério lendo tablóides. Os que querem substância, procuram outros meios de comunicação que não deixam de ser populares. O segredo é saber se definir como meio de comunicação e estabelecer um relacionamento honesto, por que não dizer sério, com o público — seja ele interessando em fofoca de celebridades ou matérias sobre investigações políticas. Um meio de comunicação só que tenta atender todos os gostos, de forma competente, acaba desenvolvendo escrisofenia.

09/07/07 15:54  

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