25.6.07

Inconstância

Gregório de Matos, lá pelos idos de 1600, mostrou genial inconformismo com a efemeridade da vida ao dizer "Nasce o sol e não dura mais que um dia / Depois da luz segue a noite escura / Em tristes sombras, morre a formosura / Em contínuas tristezas, a alegria / Porém se acaba o sol por que nascia? / Se formosa a luz é por que não dura? / Como a beleza assim se transfigura / Como o gosto da pena se fia? / Mas no sol, e na luz, falte a firmeza / Na formosura não se dê constância / E na alegria sinta-se tristeza. / Começa o mundo enfim pela ignorância / E tem qualquer dos bens por natureza / A firmeza somente na inconstância."

Começar uma nova semana após a última que se foi tão rapidamente faz lembrar o genial "Boca do Inferno", crítico feroz das hipocrisias sociais do Brasil colônia, que pouco mudou em relação às mazelas do poder. O que diria Gregório de Matos da política de hoje? E do tempo de hoje, que parece andar ainda mais rapidamente que no século 17?

Se, na época, o problema era o moralismo exacerbado do clero e a roubalheira dos políticos -que permanecem, diga-se-, hoje se fala também em aquecimento global e até as flores dos ipês aqui em nossa região estão ameaçadas, como revelou O LIBERAL de ontem. O tempo coloca em xeque as cidades litorâneas, que o mar ameaça engolir. Os ursos polares morrem, com o derretimento das geleiras.

O mesmo ser humano que irritava o Boca do Inferno por problemas localizados na Bahia colonial está acabando com todo o planeta hoje em dia. E parece que o tempo capitalista selvagem, que nos obriga a produzir e consumir em série sem sequer raciocinar, não permite mais penas afiadas como a que outrora havia. Pena de quem escreveu, por exemplo: "Que falta nesta cidade? / Verdade. / Que mais por sua desonra? / Honra. / Falta mais que se lhe ponha? / Vergonha."

imagem sxc

1 Comentários:

Anonymous Carlos Schaefer disse...

E disse o rei: calem a boca desse pessimista e suas críticas mordazes, ousadas e pornográficas.
E assim o Boca do Inferno foi deportado para Angola porque ousava escancarar a verdade sobre reis, padres, novos ricos e a burguesia... Gregório ousava mostrar o lado podre da sociedade em que vivia e pagou caro por isso... Como voce diz, Marcos, muito pouco mudou nos últimos 400 anos da história desse país.

Carlos Schaefer.

25/06/07 15:07  

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