25.1.07

São Paulo

Cheguei a São Paulo em 1994 para iniciar minha graduação em Jornalismo. Subi as escadarias do metrô da Paulista, cheio de malas para o primeiro dia de morada na metrópole, olhei para um lado, para outro. Não sabia ao certo se o sentido da Rebouças era o da direita ou o da esquerda, tamanho o corredor de arranha-céus simetricamente dispostos, como que me olhando e dizendo "vai, se mexe!".

Aprendi a trocar a paixão que já tinha pelo "quilombo de zumbis" cantado por Caetano pelo amor a uma cidade que pulsa frenética, infernal, e nos obriga a conhecer o que há de melhor e também de pior de um país tão desigual.Uma cidade que só não estimula seus tantos filhos ao marasmo, porque São Paulo não pára, já diz o velho jargão, e vamos todos, na metrópole, caminhando no seu compasso, no sentido da glória ou do abismo.

São Paulo é o retrato fiel da perseverança de um povo que, mesmo massacrado pela injustiça social, ainda busca crescer, e crescer para cima, no sentido dos céus arranhados pelo concreto, pelo vidro, pelo aço, aço, aço. São Paulo também é o retrato fiel de uma elite que não divide nada e cuja mesquinez ora se escancara em crateras abertas como chagas. Porque São Paulo é o retrato fiel do Brasil, que pode voar alto, mas ainda escorrega, no chão.

E do chão de São Paulo, brota esperança, regada pela garoa fina mas estrangulada pelo concreto e pelo asfalto, o asfalto que homens e mulheres pisam apressadamente, mesmo sem saber para onde ir.

imagem sxc

4 Comments:

Marilúcio Videira said...

Marcos...excelente artigo...porém, gostaria de destacar uma frase:
"...RETRATO FIEL DE UMA ELITE QUE NÃO DIVIDE NADA...", com certeza o Brasil tem muitos problemas, mas um dos principais, com certeza, é a MESQUINHARIA e o EGOISMO dessa elite que domina o país desde seu descobrimento.
Forte abraço e bom final de semana.

10:12 AM  
Marcos Brogna said...

Legal vê-lo aqui na blogosfera novamente, Maurício. Concordo contigo. Desde as Capitanias Hereditárias, o Brasil é vítima de uma elite cruel e sádica, que se esconde em condomínios fechados e ainda não percebeu que sua postura está multiplicando os PCCs, e ninguém está seguro.
Bom final de semana para você também!

10:44 AM  
Eu mesma said...

Sou de São Paulo, mas aos poucos fui odiando a cidade que engole a gente num suspirar. Seus carros atravessam nossos carros, seu cinza abate o coração da gente, na chuva. Seu sol é uma imensa panela de pressão. Seu concreto é armado até os dentes e, gente, muita gente vinda de todos os quadrantes. Pessoas com olhar miúdo, mãos esperando afago, tantos com fome, frio e a impressão teimosa, de que tudo vai melhorar no dia seguinte.

Um dia feliz pra você na segunda-feira.

7:57 PM  
Marcos Brogna said...

Eu também sentia isso quando desafiava a selva de pedra a cada manhã, enquanto morei em Sampa. Parece que os arranha-céus nos olham dizendo: "anda!". Eu, um "caipira" do interior, lembrei-me de Caetano, quando cantou que São Paulo é um difícil começo. E aprendi depressa a chamar aquele "avesso do avesso do avesso do avesso" de realidade. Mas vi também a São Paulo donde brotam "poetas de campos e espaços", uma metrópole onde a vida pulsa mais que qualquer lugar do Brasil. Acho que quem pisa aquele chão precisaria amá-lo mais, injetar mais sangue nas veias de concreto. Há todo tipo de gente com todo tipo de sonho dividindo o mesmo espaço, um potencial enorme para se encontrar a solução do Brasil. São Paulo é horrivelmente apaixonante, sinto isso a cada vez que a vejo.
Boa semana, Eu Mesma. E volte sempre por aqui.

11:53 AM  

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