23.1.07

O buraco impresso

A cratera nas obras do metrô de São Paulo seria um prato cheio para a grande mídia mostrar que é indispensável na consolidação da democracia. Desde o tipo de licitação (que deu ao consórcio de gigantes empreiteiras a possibilidade de se auto-fiscalizar) até a execução dos serviços (que contou com economia de materiais e menos análise do solo), tudo serve como indício grave a se apurar.

Seria um prato cheio, porque boa parte da mídia, passado o sensacionalismo inicial, já lavou-se as mãos, fugindo à tarefa de servir ao interesse público. O desinteresse fica evidente no setor das revistas. Das semanais, só "CartaCapital" e "IstoÉ" dão capa ao tema. "Época", prima mais nova da Vênus Platinada dos Marinho, dedica sua capa para abordar a "felicidade", em seu sentido filosófico. "Veja", aquela que, em plena campanha eleitoral, espalhou outdoors por São Paulo com a capa de Alckmin (responsável direto pela obra), propõe-se a falar sobre a velha relação entre homens e cães. Assuntos interessantes, mas não para capa numa semana em que uma ferida de proporções obscuras se abriu na maior cidade do Brasil.

Dá para entender por que, cada vez mais, o papel vai perdendo seu papel na vida de quem quer se informar de verdade. Enquanto barões do papiro ainda se acham donos também dos fatos, o mundo virtual ferve em discussões bem mais amplas, abertas ao contraponto e à participação do leitor. E o leitor está cada vez menos tolerante com a parcialidade velada, costumeira na velha mídia tupiniquim.

O problema vai além da tecnologia. Está no conteúdo e no caráter de quem o faz.

Imagem SXC

13 Comments:

João Tavares said...

Caro Marcos Brogna,
Meus cumprimentos pelo "o buraco impresso" importante e equilibrado comentário sobre os "barões de papiro da grande mídia" que fazem manchetes impressas do seu declarado partidarismo, com informação e contra-informação. Felizmente temos o pluralismo democrático deste espaço "virtual" do seu blog e todos aqueles que permitem os "comentários" de favoráveis ou contrários. Pena que todos os brasileiros ainda não tenham o acesso "virtual" mas já é um avanço. Cito alguns exemplos:- 1) a grande mídia impressa não é tribunal e jornalistas não são juizes; 2)Sobre o seu tema Maluf foi entrevistado e entre outros disse: "minhas obras não desabam"
(vide meu artigo publicado no O Liberal/Opinião dia 20/01), ou seja uma "informação". A revista Veja desta semana correu e publicou uma "contra-informação" ou seja: "Maluf superfatura politicamente sobre a descraça alheia" !!!??? opinião "partidária" da revista Veja, Paulo Maluf não disse isso, pelo contrário lamentou a perda de vidas preciosas. Agora eu tenho o direito democrático de dizer:- O governador de SP está acostumado ao silêncio, fica quieto até que passe a turba notíciosa. Foi assim nos ataques do PCC em SP. Agora não deu, o "buraco do Serra" exala um odor do "buraco do Alckmin" numa formulação com ares tucanos, todas aguardam as explicações do Governo do Estado, lembro que a Prefeitura de SP, não tem nada a ver com essa obra. A grande mídia impressa "abusa tanto do direito de "informar" quanto do "deformar" como se elas caissem do céu, tiram o corpo e possam de intocáveis acima de quaisquer suspeitas.

2:22 PM  
valdemar duarte said...

marcos, lendo a folha, descobri que o que aconteceu foi que um dos engenheiros colocou nas mãos de um repórter da tv bandeirantes documentos que mostram as falhas que causaram inclusive o acidente com a van, pois segundo estes documentos, entre o primeiro tremor e o desmoronamento, houve um gap de 10 minutos, o que seria mais que suficiente para interditar a rua que desmoronou, então por retaliação, uma "grande emissora concorrente" (palavras da folha) pressionou o secretário de obras a procurar culpados.

estamos nas mãos de quem??? vc já cantou a bola, mas isso é ridículo.

estou começando a achar que aquelas matérias de desastres são todas "pegadinhas do mallandro".

um abraço

6:36 PM  
Marilúcio Videira said...

MARCOS...PARABÉNS! VOCÊ MATOU A PAU...REALMENTE, OS BARÕES DA GRANDE MÍDIA PEGAM LEVE QUANDO É NECESSÁRIO MEXER NAS FERIDAS DO GOVERNO DE SÃO PAULO..."O QUE É BOM A GENTE FATURA...O QUE É RUIM A GENTE ESCONDE" (LEMBRA DO RUBENS RICUPERO)...UM FORTE ABRAÇO.

8:53 AM  
Marcos Brogna said...

Caros João, Valdemar, Maurício, eu é que os cumprimento por enriquecer tanto o debate nesta blogosfera, aberta sempre a todas as correntes de pensamento.
Apenas para acrescentar uma novidade, Mino Carta revelou ontem em seu blog (www.blogdomino.blig.ig.com.br) que o grupo "Folha da Manhã", que publica a "Folha de S.Paulo", doou R$ 42 mil à campanha política de Paulo Renato, aquele que foi ministro de FHC e inventou o provão. Ainda segundo Mino Carta, o mais curioso é que o dinheiro foi "injetado" às vésperas do segundo turno, quando já haviam acontecido as eleições para deputado, vaga a que Paulo Renato concorreu.
E a Folha se diz "a serviço do Brasil", assim como a "Veja" se imagina "indispensável". Esse descompasso entre o que prometem ao leitor e o que fazem, de fato, é o maior concorrente do meio impresso. Não é a internet, que apenas está ajudando a escancarar tudo o que já se fazia, há muito tempo.
Grande abraço a vocês e voltem sempre por aqui!

11:18 AM  
Carlos Schaefer said...

Marcos,

Com base na sua opinião e de TODOS os blogueiros acima, eu gostaria de saber o que acham sobre a atitude de Hugo Chaves de cancelar a concessão da principal TV daquele pais, notóriamente critica ao governo Chaves.

4:31 PM  
Marcos Brogna said...

Ótima pergunta, Carlos. Eu acho um absurdo a atitude de Chávez. Uma coisa é ter olhos críticos para com a mídia e seus desvios, outra é querer limitá-la por meio de canetadas ditatoriais.
A imprensa deve ser livre para investigar os governos, assim como os governos têm a obrigação de educar as pessoas para que possam discernir ao utilizarem os produtos informativos.
Abraço!

4:56 PM  
L.Vasconcellos said...

Polemicas midiaticas à parte, a imprensa tem que ser coerente e no Brasil isso é claro que não está acontecendo. Quanto a Chávez é o primeiro "ditador" da história eleito com mais de 60% de votos. Quem dera algum presidente tivesse a coragem de reestatizar a TELEFONICA e contestar a GLOBO. Ditadura foi o que houve no Brasil de 64 até o final da década de 70, ser ditador é lutar pelos próprios interesses e pelos interesses dos grandes "líderes" mundiais. Lutar pelo seu povo, pelo seu país e é ditadura pra quem não entendeu ainda o que é igualdade social e acredita nos benefícios do neoliberalismo.

8:48 PM  
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