17.1.07

Cratera cardíaca

"Será que os indivíduos que contratam obras por mínimo custo global usam o mesmo critério para escolher os cirurgiões que tratarão suas mazelas cardíacas?". A pergunta é do vice-presidente da ISSMGE (Sociedade Internacional de Mecânica de Solos e Engenharia Geotécnica) e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Waldemar Hachich, ao falar, nesta terça-feira, sobre o acidente ocorrido na linha 4 do metrô paulistano.

A resposta que este humilde blogueiro sugere é a seguinte: o que os olhos dos pobres cidadãos pagadores de impostos não vêem, os corações desses mesmos pobres cidadãos pagadores de impostos não sentem. Até que tudo desabe, claro, porque aí fica difícil de esconder as mazelas administrativas dos governos ao negociarem com empresas privadas. E até os barões da mídia noticiam, muitos deles excitados com as vendas que o assunto gera nas bancas.

Imagem SXC

7 Comments:

Carlos Schaefer said...

É muito bom quando a gente consegue identificar o(s) culpado(s) de um problema como esse da cratera. Gostaria que as pessoas dispensassem um décimo de toda essa atenção para os barracos construídos ilegalmente nas encostas da própria marginal pinheiros e que só viram noticia quando desabam. Aí os jornalistas se refestelam acusando a admnistracao(normalmente prefeito e governador). Só que quando a defesa civil faz um trabalho de prevenção para retirar essas familias ANTES das tragédias esses mesmos jornalistas estão lá pra registrar a "maldade", "crueldade" e frieza do poder público e o choro daqueles que seriam as futuras vitimas das enchentes. Cobrar e acusar DEPOIS que as trajédias acontecem até eu que sou mais bobo. Eu lí uma reportagem já faz uns bons anos de um engenheiro conceituado que dizia naquela época que toda a região da Paulista poderia um dia sofrer uma grande tragédia porque seu subsolo tinha virado um verdadeiro queijo suiço de tanto buraco. Ninguém deu atenção à ele. Poderíamos dedicar um pouco mais de atenção aos estragos causados pela chuva nas estradas por todo o Brasil. Estragos, aliás, muito mais frequentes e com consequencias muitas vezes tão destrosas quanto essa de Sao Paulo. Nesses outros tantos casos São Pedro também é acusado como culpado mas ninguém fica indignado.

10:11 AM  
Marcos Brogna said...

Caro Carlos, suas observações trazem argumentos pertinentes. Mas não se pode negar o fato de a obra da linha 4 do metrô ter pontos obscuros que já deveriam ser alvo da investigação dos jornalistas (e das autoridades), tais quais: a liberdade total dada à empreiteira na licitação, inclusive de fiscalização do serviço, ou seja, o poder público "lava-se" as mãos em prol do interesse privado; a premiação do consórcio construtor em caso de se utilizar menos material com maior rapidez na entrega, que ocasionou o uso de menos concreto que o necessário, menos análises do solo que estava sendo perfurado e muita pressa, como já apontam técnicos conceituados.
Tudo isso não parece ser uma fatalidade, mas, ao que tudo indica, um caso de negligência que começou no próprio governo do Estado. Se a mídia se calar, será a coroação da sua negligência também. Abraço!

3:14 PM  
valdemar duarte said...

ganância, acho que esta palavra define de forma abrangente o que aconteceu e ainda vai acontecer.

o poder público, preocupado com a porcentagem que vai levar da empreiteira contratada.

os proprietários de algumas casas que teriam um aumento substancial no valor de seus imóveis.

as secretarias que morderiam uma boa parte desse "orçamento".

a construtora que teria no currículo uma obra desse porte, e ainda ganharia uma fortuna.

os veículos de comunicação que receberão outra fortuna para divulgar esta obra em todos os setores de SP.

querem mais??? ninguém pensa que se alguma racha é porque vai cair, caiu, caiu, fazer o que, culpa do Pedrão, que manda chuva sem pensar nas consequências.

será que eles pensam que algumas vidas compensam o transporte de alguns milhares de pessoas por mês??? eu tenho certeza que não, e você??? respondam, por favor.

4:32 PM  
João Tavares said...

Em entrevista a jornalista Andreza Matais da Folha Online, em Brasília
(l7/01/2007 - 15h46) sobre a tragédia da cratera aberta na obra do metrô Pinheiros.O engenheiro e ex-prefeito Paulo Maluf afirmou "Minhas obras não desabam",
todas as obras realizadas em suas gestões são mais estáveis que as de seus adversários, "Minhas estações de metrô não ruem, e meus túneis não vazam água." Maluf disse
que não tem dúvidas de que o desaba
mento foi culpa da diretoria do Metrô, que escolheu um projeto "muito mais caro e temeroso." "A única lei que não pode ser revogada é a lei da gravidade." Segundo o projeto original da linha 4-Amarela, parte dos túneis passa debaixo do rio Pinheiros. "Se eu tivesse sido projetista, escolheria passar por pontes, e não por túneis."
Isto posto concluo, se este grave acidente tivesse acontecido na administração de Paulo Maluf a "grande mídia" já o teria "soterrado" na cratera com direito a espetáculo global e shows midiáticos para falar o menos. Por que a "grande mídia" anda tão e muito quietinha sobre as responsabilidades!!!??? Freud ou fraude explica!!!???

9:05 AM  
Marcos Brogna said...

Estimado João Tavares, grande batalhador do nosso Soma. Que bom vê-lo por aqui. Sabe de uma coisa, achei interessante a pimenta que Maluf colocou no debate. Ele que administrou na época das gigantescas construções, que ainda dão margem a tantos questionamentos sobre superfaturamentos, agora analisa a era das PPPs, as Parcerias Público-Privadas, em que o Estado vira parceiro das empresas, muitas vezes deixando para segundo plano os pobres cidadãos.
Sobre a mídia, que o Valdemar também cita, eu acho que, em sua maioria, seus barões simpatizam com o partido que governa São Paulo há tempos e tempos. Então, ela foi, no mínimo, desatenta com a pauta que surgia já no primeiro indício de que essa obra poderia ter problemas sérios. Esses indícios começavam já na licitação da chamada "porteira fechada", em que se prevê que até a fiscalização da obra seja feita pela empresa que ganha a concorrência. Agora, a mesma mídia, atrasada, faz uma cobertura repetitiva e sensacionalista do caso, ainda sem se aprofundar nas suas causas.
O debate está muito bom. Abraços!

11:34 AM  
Marilúcio Videira said...

Primeiro...gostaria de deixar claro que não defendo o governo federal, pois o proprio tambem ainda tem muita coisa a explicar...mas vamos aos fatos...se todos, com o minimo de raciocinio, conseguem enxergar muitos problemas na obra do metro, porque a grande imprensa não está cobrando intensivamente o maravilhoso, exemplar, etico e modelo de gestão governo tucano de São Paulo? Será que se a obra fosse de responsabilidade do governo federal, estariam tratando com a mesma sutileza?

1:48 PM  
valdemar duarte said...

Realmente, está sendo muito fácil crucificar, ou na atualidade, enforcar alguém, não me simpatizo com a pessoa do Sr. Paulo Maluf, mas como governante existem obras que até hoje não estão nem mesmo trincadas.

agora surgem matérias afirmando que a fiscalização dos acidentes fica por conta da própria construtora, pergunto: quem atiraria no próprio pé?

mais ainda, quem em sã consciência colocaria em contrato uma cláusula desta? e estes documentos não eram de conhecimento de ninguém? será que a toda poderosa não teve acesso a esses documentos bem antes que todos? caramba, eles conseguem imagens de um disco voador pousando na lua! estranho realmente não darem importância a isto.

e não podemos nos esquecer dos deputados que querem uma CPI; me desculpem, mas acredito que querem é um pedaço da pizza que vai ser distribuida para que todos se esqueçam deste lamentável "incidentezinho".

Marcos, lance a campanha:
"até quando vamos continuar no buraco?"

um abraço a todos

2:23 PM  

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